Universo da obra
Universo da obra
Cristóvão apenas quis mostrar-se no sarau, para que sua ausência não desse motivo a reparo: logo se retirou.
Embuçado no manto ganhou a Rua de Santa Luzia, estugando o passo do cavalo, como quem tinha pressa de chegar.
Essa parte da cidade, embora fossem oito horas apenas, estava completamente escura e deserta; não se via porta aberta, nem janela alumiada. Toda a população tinha-se aglomerado na Praça do Governador e Rua do Colégio, onde gozava dos prazeres e folias da noite, até que fosse tangido o sino de recolher.
O moço não deu atenção a esta circunstância, como quem tinha outros pensamentos que o ocupavam todo; continuou seu caminho; nem a escuridão da noite o fazia hesitar; adiante quebrou numa esquina, passou junto da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, e atravessando uma pequena ribeira, tomou a rua que seguia aclive.
Ao longe o Mosteiro de São Bento estampava no céu de azul-ferrete a larga claustra e os vastos dormitórios; à direita corriam as cercas das roças plantadas de mangueiras, coqueiros e outro arvoredo frutífero.
Estava tudo em sossego; apenas se ouvia o ramalhar da aragem nas folhas e o borbulhar da ribeira fugindo pela charneca; de quando em quando uns longes rumores da festa passavam como rajadas e entravam no silêncio do ermo.
Cristóvão parou à beira de um fundo e largo valado, cheio pela recente enxurrada; resfolgando da batida em que viera, enfiou os olhos pela ramagem.
Havia defronte uma cancela; e mais longe erguia-se a casa, destacando confusamente na sombra do arvoredo. Alva cinta de luz coava entre os bambolins de uma janela e resvalava trêmula pela folhagem, que agitava a viração da noite. O resto da habitação envolto nas trevas repousava da lida diurna.
Uma prancha, que servia de ponte sobre o valo, fora retirada da parte de dentro; de modo que a entrada do terreiro da casa tornava-se difícil e perigosa.
O cavalheiro volveu em torno olhar rápido e escrutador para certificar-se de que ninguém ali se achava oculto pelas árvores que pudesse espreitá-lo; feito o que apeou-se, ajustou as armas ao corpo, atirou a capa sobre o ombro esquerdo, e procurando um lugar favorável ao seu intento, conseguiu transpor o valo, graças a alguns ramos inclinados que lhe serviram de apoio. Meteu-se então por entre as árvores, onde a ramagem era mais basta, evitando que os raios da luz que filtravam da janela caíssem-lhe sobre.
Tanta precaução indicava grande receio de ser descoberto; de feito, às vezes o moço parava irresoluto se devia prosseguir no seu primeiro intento, ou retroceder enquanto era tempo; mas depois de curta hesitação, sondando de novo as trevas e certo de que tudo estava tranquilo e sossegado, cobrava afoiteza e ia por diante.
Cristóvão era um destemido cavalheiro, valente como as armas, bravo como os filhos da raça ibérica, em cujas veias girava ainda a pura mescla do sangue godo e árabe; não fora pois o receio de um perigo, por maior que se lhe afigurasse, motivo para influir no seu ânimo tal indecisão.
Era sim receio de escândalo.
Seu amor e caráter ousado o tinham lançado naquela aventura noturna; durante a festa a ausência de Elvira o contristara a tal ponto, que decidira ver a moça naquela mesma noite, para oferecer-lhe com a sua alma e vida as joias que tinham premiado sua destreza e galhardia.
Sem refletir na possibilidade de realizar esse propósito, saíra do sarau, e achava-se em face da janela de Elvira; mas aí foi que a razão lhe começou de apresentar à mente quanto havia de extravagante e desusado no passo que pretendia dar sem consentimento da moça, nem certeza de que ela levasse em bem semelhante temeridade.
Estando assim com o espírito tomado por mil pensamentos contrários, e com os olhos na janela, a luz vacilou; uma sombra ligeira debuxou-se docemente na atmosfera esclarecida, esfumando os contornos suaves e puros de um busto encantador.
Cristóvão estremeceu; porém já de prazer, não de susto.
Deu por bem paga a imprudência, pois ao menos gozava a ventura de ver a imagem da imagem que trazia n'alma. Para ele a sombra vivia e animava-se; houve momento em que lhe pareceu que ela o olhava e sorria; até chegou a acreditar, com a superstição natural do coração amante, que à força de contemplá-la, talvez Elvira recebesse a refração dos raios de tão ardente afeto.
Mas o coração é insaciável; o que a princípio lhe basta para a completa felicidade, logo serve apenas de aguçar o desejo. Sucedeu assim com o moço; a sombra de sua amante em vez de lhe dar prazer, já o torturava com a ideia de não vê-la, a ela própria, estando tão perto, que podia ouvir-lhe a voz terna e amorosa.
Mas essa voz emudeceu em seus lábios trêmulos; pois o esmorecia a só lembrança de ofender a moça e perturbá-la em seu casto repouso. Tanto bastava para quedá-lo mudo e estático em frente do balcão da janela, elevado do chão na altura de uma lança.
Se ao menos pudesse devassar com a vista o interior!...
O aposento esclarecido formava uma pequena recâmera forrada com rás simples e ornada no gosto o mais apurado da época. A um lado estava o leito de madeira embutida com relevos de metal; em volta esfraldavam-se as cortinas de seda azul suspensas do esparavel dourado; aos pés um tapete da Índia; junto da cabeceira, contra a parede, o escabelo, traste característico dos tempos de fé sã e robusta.
Do lado oposto, no estrado baixo que então fazia as vezes dos sofás e conversadeiras de moderna invenção, estava Elvira sentada; tinha o corpo escaído em frouxa atitude, os braços distendidos, as mãos cruzadas sobre os joelhos, a cabeça reclinada um tanto, os olhos fitos no relógio d’água colocado em cima do trumó, sobre o qual ardia uma vela de cera, eschamejando-se na face lisa e polida do espelho.
Os cabelos desatados pelas espáduas nuas ensombravam o perfil, amortecendo-lhe a cor; mas deixavam imergidas na claridade as evolutas suaves do colo soberbo, e dos seios que moldava o linho transparente. Traçando a curva graciosa de uma perna admirável, a roupa roçagante de fina beatilha frangia na orla, por onde escapava o pezinho nu, aninhado em um pantufo de veludo roxo.
Doce enlevo, ideal sublime de suave melancolia ou de vago cismar, quando a alma engolfada no silêncio e na soidão, partida entre as recordações que voltam e as esperanças que fogem, dói-se com a ausência do bem que fruiu, e enleva-se revivendo no gozo passado! Voluptuosidade inexprimível de mágoas doces e agros prazeres para o coração que sofre com o isolamento e praz-se nele! Hino sublime que o lábio português canta em uma só palavra -- saudade!
Corriam os minutos; e ela não mudava de posição.
Os raios de luz brincavam com as gotas do róseo licor que estilavam a uma e uma do globo superior da ampulheta; a claridade decompondo-se nos rubis líquidos, formava um prisma brilhante em cujas irradiações se estereotipava a miríade de pensamentos que esvoaçavam na mente de Elvira. Cada gota era um instante que fugia, e com ele um feixe de esperanças.
Em que podia ela pensar a não ser nas festas a que não assistira, e em Cristóvão por quem mais sentia, que por ela, a privação daquele prazer?
Toda a tarde estivera triste e aborrida; chorava pensando que o lindo cavalheiro que a estremecia, pudesse no meio dos folgares ter um pensamento, um olhar, uma lembrança que não fosse dela. Cada vez que as aclamações entusiastas do povo, saudando o vencedor, mandavam-lhe um eco dos alegres arruídos, afogava-se-lhe o coração em lágrimas, que a seu pesar vinham rorejar as faces.
Mas um olhar severo de sua mãe recalcava-lhe a dor no fundo d'alma, até que depois da prece da noite, recolhendo à sua alcova, pôde desabafar a mágoa comprimida; ou antes pôde entregar-se livremente a novos pesares que lhe assaltaram o espírito. A princípio esteve numa impaciência mortal; volvia de um para outro lado, chegava à janela sôfrega e inquieta, inclinava o ouvido, e reprimia as palpitações do coração; por fim, como isto em vez de acalmá-la, a exasperava ainda mais, sentara-se no estrado e contava com ansiedade os minutos da hora que faltava para acabar o seu suplício.
A última gota vazou da ampulheta; Elvira ergueu-se de salto e correu à janela.
No horizonte, entre a escuridão profunda que plainava sobre a cidade, brilhava um frouxo clarão que ia a pouco e pouco desmaiando; sinal de que as luminárias começavam a extinguir-se. Não se ouvia mais o barbarizo que exala das grandes massas da plebe. O primeiro dobre do toque de recolher acabava de soar.
A festa popular estava terminada; mas uma branda lufada de vento trouxe uns alegres tangeres de música, como para dizer a Elvira que o sarau ainda durava e com ele seu tormento e aflição.
A pobre donzela suspirou.
-- Nem mais se lembra de mim! balbuciou com a voz repassada de lágrimas.
De repente a moça, que se recostara ao balcão estremeceu.
Julgou ouvir a brisa murmurar seu nome; o primeiro movimento, depois do susto, foi recolher-se e fechar a janela; mas uma atração invencível a fez voltar; ainda trêmula e fria, teve coragem de se debruçar ao balcão para ver entre as árvores.
Quando já mais animosa inclinava a crer que tudo fora uma ilusão dos sentidos e um receio infundado, os olhos caíram sobre um vulto, que saindo dentre as sombras, foi súbito ferido pela luz da vela.
Ela quis sufocar, mas tarde, o grito de júbilo e surpresa que lhe escapou dos lábios; porque tinha reconhecido Cristóvão.
O moço adiantou-se, murmurando o doce nome de Elvira; mas ela em quem o receio tinha vindo de pronto perturbar a alegria inefável da presença do cavalheiro, suplicou-lhe com o gesto que se calasse, e foi ao corredor que passava pelo fundo da câmera, para assegurar-se de que ninguém velava na casa. Mais sossegada com a tranquilidade que reinava no interior, fechou devagarinho a porta, e voltou-se no momento em que já Cristóvão saltava pelo balcão da janela.
A moça recuou cruzando os braços sobre o seio, com sublime gesto de pudor.
-- Oh! não! disse ela suplicante.
Cristóvão arrependeu-se do que tinha feito.
-- Perdoai-me, Elvira! respondeu ele com respeito. O muito que vos amo fez-me esquecer o muito que vos devo. Com a mente de falar-vos, e dizer-vos quanto sofri pela vossa ausência, não me lembrei que este asilo me era vedado; mas crede-me, que não entraria em templo, com recato maior do que entrei aqui.
A moça, presa dos lábios de seu amante, comovida de tanto amar, mal sabia o que fizesse; já não era o receio que a retinha, sim o pejo.
-- Bem penso, continuou o moço, que errei; sede porém benigna para esse erro de que só fostes a causa. Trouxe o que por vós e para vós ganhei; e vou-me por onde vim, para que não vos deixe maior aflição da que levo em deixar-vos.
Dizendo isto, o moço deitou sobre o toucador uma bolsa que tirou do peito do gibão, e na qual brilhavam entre as malhas de seda as joias que tivera em preço dos jogos; após fitando um longo e ardente olhar na sua amada, foi para sair.
Elvira não se conteve mais; lançou pelo colo uma manta de seda e correu à janela, ao tempo em que o moço ia saltar o balcão.
-- Não ides magoado comigo, não? disse ela pousando-lhe as mãos sobre os ombros e sorrindo.
-- Bem sabeis que não, Elvira minha, alma de minha alma! exclamou o cavalheiro ajoelhando a seus pés e beijando-lhe a fímbria do vestido.
-- Pois então antes de partir contai-me como vos foram as festas sem mim; e se vos deslembrastes de quem não passou um instante, que não estivesse convosco em pensamento.
Cristóvão apontou para a tarja do escudo que trazia bordada no peito do saio:
-- Perguntai-o à minha estrela que nunca me desacompanhou ou a estas joias que o são menos do que sois de minha vida. Elas ficam; e eu me parto.
-- Não; que me haveis de dizer como as ganhastes; pague-me esse prazer tão grandes penas quais passei.
-- Ah? e não me contareis que penas foram essas?
-- Quando souber tudo que fizestes. Vinde; mas falai baixinho que não vos ouça minha mãe.
Elvira fez Cristóvão sentar-se no estrado, e escutando, se tudo estava em silêncio, foi sentar-se junto dele.
-- Oh! que lindas galanterias! exclamou ela soltando no regaço as joias da bolsa. Que tão cobiçadas não haviam de ser pelas damas que lá estavam!... Mas quisestes guardá-las para quem menos as merecia!
-- Para quem elas menos merecem, senhora minha.
-- Mas falai; que não me posso já com o desejo de saber quanto fizestes!
-- Não quereis que cerre aquela janela? Podem ver a luz a estas horas mortas, disse o moço erguendo-se.
Elvira corou.
Lembrou-se que estava só com seu amante, à noite calada, e na sua câmera de donzela recatada; pareceu-lhe que fechando a janela, o isolamento ainda se tornava maior; porém sua alma era tão cândida e o amor de Cristóvão tão respeitoso, que se acusou a si mesma daquele seu receio.
-- Cerrai! tornou com um sorriso encantador. Não ficamos sós.
-- Quem mais está aqui? perguntou Cristóvão admirado.
-- Deus! disse ela apontando para o crucifixo que pendia da parede.
-- Deus, vossa virtude e minha honra, Elvira! replicou o moço em tom solene, e estendendo a mão, como se fizera um juramento.
A janela cerrou-se ocultando a luz que derramava sobre a folhagem das árvores.
A fachada do edifício ficou em completa escuridão; porém minutos não eram passados que uma luz interior bruxuleou; aparecendo e desaparecendo, percorreu quase toda a casa até parar em uma sala que deitava para o nascente.
Algum tempo depois ouviu-se o ranger de uma porta baixa que abriam; um vulto embuçado apareceu no terreiro, e avançou a passo e passo como quem procurava alguma coisa.
A última badalada do sino de recolher ressoava ainda pelo espaço.
Leia As Minas de Prata, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance histórico clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.