Universo da obra
Universo da obra
Aos oito de fevereiro, a nau Santiago entrava a Baía de Niterói, e fundeava junto ao Forte de Villegaignon. Recebido com a costumada formalidade pelo Senado da Câmara e acompanhado do povo, foi o governador alojar-se nas casas para esse fim destinadas, na Rua Direita, próximo à Alfândega. Depois da audiência de cumprimento, à qual compareceu a gente principal da terra, encerrou-se o governador com o provedor-mor da alfândega D. Diogo de Mariz.
Acreditaram os da comitiva, que traria o governador alguma recomendação especial sobre o tráfego do porto e serviço da aduana; e bem longe estavam de suspeitar do verdadeiro assunto daquela prática.
-- Sem dúvida que tendes notícia das famosas minas de prata de Jacobina, senhor provedor?
D. Diogo teve um leve sobressalto; mas logo restabeleceu a calma do seu nobre aspecto.
-- Por certo, senhor governador. Tanto se tem falado sobre elas, que ninguém há nesta América que as ignore.
-- Sabeis também o que houve com seu descobridor, Robério Dias, no ano de 1591, em que S. Majestade El-Rei me mandou por governador a este Estado?
-- Ouvi-o de várias pessoas.
-- Corre que o roteiro não é perdido, e menos falso, como então muitos supuseram?
O sagaz e astuto governador espiava o efeito de suas palavras na fisionomia de D. Diogo. Este calou-se um instante visivelmente perplexo; mas tomando logo uma resolução enérgica, e revestindo ares de severa dignidade, fixou no seu interlocutor um olhar límpido e calmo, reflexo de uma alma leal.
-- É D. Francisco de Sousa quem me interroga, ou o governador deste Estado?
-- Suponde que sejam ambos! acudiu logo o fidalgo com um sorriso.
-- Nesse caso: ao primeiro eu não responderia, mas cortesmente lhe pedira que mudássemos de assunto.
-- E ao segundo?
-- Diria com todo o respeito: -- Não me interrogueis sobre este objeto, porque me colocaríeis na dura necessidade de desobedecer à vossa autoridade, para guardar a minha honra.
O governador rugou o sobrolho. Abandonando de repente a sua primeira tática, investiu direito ao alvo.
-- É inútil a reserva, D. Diogo de Mariz. O roteiro de Robério Dias está em vosso poder.
O provedor ficou impassível.
-- Negais?
-- Já respondi a V. Senhoria, não respondendo.
-- Não o podereis negar. Não só tenho plena certeza; mas estou informado da circunstância que vos fez depositário deste segredo.
O governador referiu o quanto o Brás tinha ouvido do Anselmo a bordo do galeão Rosário .
D. Diogo não se abalou; ouviu silencioso sem o mínimo sinal de confirmação ou negativa.
-- Vosso mesmo silêncio, concluiu o governador, é a prova mais robusta do fato. Em vossos lábios mudos há uma confissão mais clara do que se falassem.
D. Diogo sentiu o peso dessa observação:
-- Não sou e nunca fui de argúcias e ambages, senhor governador; na minha família, sempre houve timbre de franqueza e verdade. É exato que o roteiro das minas de prata foi confiado à minha guarda pela Providência; e que eu aceitei a responsabilidade desse perigoso depósito, resolvido a cumpri-lo. Eis o que me cabe comunicar a V. Senhoria.
-- E como contais cumpri-lo, senhor provedor?
-- Restituindo-o a seu legítimo senhor.
-- Não me enganaram os que tão bons prólogos me fizeram no reino e aqui da vossa nobreza, D. Diogo de Mariz; sois credor da estima de todos os homens de bem pela vossa probidade austera e constante lealdade.
-- Folgo de ver meu procedimento confirmado por pessoa de tanta autoridade!
-- Sem dúvida que vos aprovo e louvo. Deveis restituir o roteiro a seu legítimo senhor. E quem pensais que seja esse?
-- O herdeiro de Robério Dias!
-- É incontestável.
-- Então está o senhor governador de acordo comigo? perguntou o provedor serenando.
-- De perfeito acordo, respondeu D. Francisco sorrindo.
D. Diogo ergueu-se para retirar.
-- Portanto só me resta receber o depósito e dar-vos quitação.
-- Vós, Senhor D. Francisco de Sousa?
-- Mas decerto!
-- Em que qualidade?
-- Na de procurador bastante do herdeiro de Robério Dias.
-- Qual herdeiro? Pois o filho...
-- O único legítimo herdeiro, Sua Majestade El-Rei, nosso senhor.
-- Não compreendo.
-- A sentença de condenação de Robério Dias, ordenando o confisco de seus bens, constituiu o real erário seu único herdeiro. Creio que não me contestareis este ponto; mas acresce ainda que El-Rei já era sucessor desse roteiro por cessão que dele lhe fizera o próprio Robério, e embora se argumente com ter sido condicional.
D. Diogo teve tempo de refletir; e interrompeu o governador:
-- Me levais para outro terreno, Senhor D. Francisco de Sousa, em que sou ainda mais peco que na diplomacia, o da rabulice. Os letrados vos darão mil razões; concedo mesmo que seja exato quanto expendestes. Mas o roteiro que tenho em meu poder, recebi-o como de Robério Dias; e para com ele me obriguei perante Deus, em cujo tribunal não há confiscos. Só a ele pois ou a seu filho que o representa, restituirei o que me foi confiado. Se El-Rei, ou quem quer que seja, tem direitos a este objeto, discuta-os nos seus tribunais, entre ele e seu adversário. Comigo não, que só me obriguei no juízo de Deus.
-- Nesse caso recusais entregar-me?
-- Sou a isso forçado.
-- E a El-Rei também recusareis?
-- A El-Rei como a qualquer.
-- Lede.
O governador apresentou um alvará em que Filipe III ordenava a D. Francisco de Sousa, que apreendesse, em mão de quem quer que o tivesse, o roteiro das minas de prata descobertas por Robério Dias, empregando a esse fim, se fosse necessário, a coação, derrogados para tal efeito todos os privilégios e isenções de nobreza.
D. Diogo leu o alvará, e tornando-o ao governador, disse-lhe friamente:
-- Execute V. Senhoria o alvará!...
-- Desobedeceis a El-Rei, Senhor D. Diogo de Mariz?
-- Desobedece quem recebe uma ordem e não a cumpre. El-Rei não pode ordenar-me uma coisa contrária à minha honra e dignidade.
D. Francisco bateu o pé arrebatado, e passeou agitado pela sala.
-- Estais sob a influência de uma nímia suscetibilidade, Senhor D. Diogo de Mariz; também eu sei prezar a honra e dignidade de meu nome, e não seria capaz de exigir de vós coisa que não fosse digna de um fidalgo. Quero dar-vos tempo para refletir, antes de uma decisão que vos pode ser fatal. Recolhei à vossa habitação: amanhã ao meio-dia, me direis a vossa última palavra, e espero em Deus que será propícia. Jurai que desde este instante até então o depósito que tendes em vosso poder não mudará de lugar!...
-- Jurarei se o quereis, senhor governador. Mas amanhã, como hoje, a minha resposta será a mesma.
-- Jurai!
D. Diogo satisfez o desejo de D. Francisco e retirou-se.
A reputação de astuto e sagaz que adquirira D. Francisco de Sousa era merecida. Ele contava que o pranto da família e a influência da noite operassem fortemente no ânimo do fidalgo e o rendessem à sua vontade. Desse modo evitava um ato de força, que empregado logo no princípio do seu governo e contra um fidalgo de alta linhagem e oficial superior de fazenda, seria perigoso. D. Diogo era pela sua inteireza e severidade de costumes geralmente estimado da gente boa; a sua desobediência, longe de parecer crime, daria talvez maior realce àquelas virtudes. No estado em que então se achava a colônia um tumulto popular não era impossível; e El-Rei não duvidaria dar razão à gente da terra contra seu governador, como muitas vezes aconteceu.
Demais, que arriscava o governador com esse adiamento de vinte e quatro horas? Estácio estava a estas horas ou sepultado nas ondas ou em luta com elas; quanto à dificuldade que podia criar o provedor escondendo melhor o roteiro, o juramento dado era uma garantia.
Seriam duas horas da tarde, quando do colégio dos jesuítas no Morro do Castelo se avistou a nau Santiago , dobrando o Pão de Açúcar para entrar a barra.
Os padres levantando-se do refeitório, caminharam às janelas para acompanharem com os olhos a majestosa singradura da alterosa nau, que fendia as ondas, como uma princesa do oceano, soltas ao vento as brancas roupagens.
Antes deles porém o P. Molina sempre alerta a tudo que passava em torno, com um óculo de longa mira e do interior da cela examinava o navio.
A escolha de D. Francisco de Sousa em idade avançada para governador do Estado do Sul, acordara no espírito de Molina a mesma ideia que suscitara na lembrança de Vaz Caminha; porque para ambos a nova desse fato coincidira com a notícia da existência do roteiro de Robério Dias. Como porém a partida de D. Francisco de Sousa estava marcada para o começo de outro ano, o visitador deixando a Espanha em outubro de 1608, trazia cerca de três meses de avanço; e por conseguinte podia concluir a sua missão antes mesmo que o governador se fizesse à vela.
Deste lado estava pois o jesuíta de ânimo tranquilo, quando o surpreendeu a chegada inesperada do governador. Ao primeiro sinal de nau portuguesa à barra, teve ele um pressentimento, que logo tornou-se em certeza, quando pôde distinguir o pavilhão de capitão-general içado no tope do mastro e saudado pelos fortes e navios da armada.
Que razão tivera o governador para assim precipitar a partida?
O espírito do jesuíta cingindo-se à investigação desse problema, acabou por concluir que o motivo da alteração fora relativo às minas de prata, e nenhum outro senão uma suspeita sobre os projetos da Companhia. É certo que o segredo ficara entre o Geral Cláudio Aquaviva e ele P. Molina, entre um abismo e um túmulo. Mas o visitador sabia por experiência própria que o espírito humano é dotado de uma espécie de faro moral, capaz de perceber ao longe fatos de que não há notícia. É por esse dom singular que a gente de uma cidade anuncia às vezes uma vitória ou um naufrágio, ao mesmo dia e hora em que ele tem lugar a centenas de léguas distante; o que fez dizer ao provérbio: voz do povo, voz de Deus, quando divulga o bem, ou do diabo, quando anuncia o mal.
Ora, pensava o P. Molina, era bem possível que embora do abismo profundo onde estava sepultado o segredo, não escapasse eco dele, contudo se levantasse algum ligeiro odor, que prurisse o fino olfato da diplomacia castelhana, discípula aproveitada da inquisição e do jesuitismo.
Cogitando destas coisas, dirigiu-se a toda a pressa para a Rua de São José.
O visitador não se enganava. Fora justamente essa a razão, que precipitara a partida do governador. Mestre Brás, quando visitara D. Francisco em Lisboa, lhe falara do P. Gusmão, e comunicara algumas leves suspeitas que tivera. O astuto diplomata não desdenhara estas informações; todavia chegando a Madrid e sondando ali como em Lisboa a casa provincial, não percebeu coisa suspeita. Logo porém que veio-lhe ao conhecimento a partida do P. Gusmão de Molina para o Brasil, ele ficou inquieto. Sabendo do que pôde colher do prelado, ser essa partida ordenada de Roma pelo Geral, que desligara o professo da sua obediência à casa de Espanha, o governador não duvidou mais, e instando com o ministro, fez-se à vela ao cabo de quinze dias, que tanto se despendeu com o apresto da nau.
Se não fosse a demora da caça aos holandeses, talvez que D. Francisco de Sousa aportasse a São Sebastião antes do P. Molina.
Enquanto repicavam os sinos e ardiam no ar fogos de artifício para festejar a boa-vinda do novo governador, o P. Gusmão indiferente às demonstrações festivas, chegava à casa de D. Diogo, resolvido a satisfazer a exigência da quitação e receber o roteiro. Deixaria nas mãos do fidalgo um documento de sua falsidade; mas engendraria modos de reparar esse mal.
-- Tenha eu o papel em meu poder, é o essencial. Ao mais Deus proverá.
O frade pensava que a perfuração da parede serviria para subtrair o recibo, desde que o roteiro estivesse em suas mãos.
D. Diogo não estava em casa; já tinha saído para ir ao acompanhamento do governador, donde só recolheu à noite, depois da prática que se referiu. O frade desgostoso desse contratempo, mas não desanimado, recorreu ao meio extremo; subiu à água-furtada, e pôs mãos à obra, deixando a beata de vigia à rótula para o avisar da volta do fidalgo, logo que o avistasse no princípio da rua. Entretanto trabalhava com ardor extraordinário; faltava-lhe ainda muito para concluir o rombo; a tábua além de grossa devia ser delicadamente serrada a fim de não cair do lado oposto e chamar a atenção.
Nesse ponto do trabalho foi o visitador distraído pela beata que o chamava do patamar da escada. O provedor recolhia taciturno e sob o peso de graves pensamentos; quando o jesuíta saiu à porta, ainda vinha a vinte passos de distância, pelo lado oposto da rua. Deixando que se aproximasse foi-lhe direito o P. Gusmão:
-- Vosso servo, senhor provedor!... ia ele dizendo.
Mas uma estrambótica figura, que não tinha percebido, meteu-se de repente entre ele e o provedor, de modo que este, distraído como vinha, passou adiante sem dar fé de quem lhe falara.
-- Reverendo, uma palavra!... disse o recém-chegado.
-- Segui vosso caminho, irmão, e deixai-me ir o meu, que tenho muita pressa!... replicou o frade.
-- Mais tenho eu, reverendo!...
-- Pouco me embaraça!
-- Embaraça-me a mim!
O jesuíta procurava passar, e o desconhecido esbarrava-lhe o passo postando-se em frente.
-- Que quereis de mim, então?
-- Que o reverendo venha ouvir de confissão uma pobre mulher...
-- Não posso agora!...
-- Sangre de Cristo!... Um padre que recusa confissão a enfermo mortal!... É pior bicho que a besta-fera, pois esta come só a carne!...
O P. Molina, que apesar da escuridão da noite, estava entreconhecendo o desastrado sujeito, ao ouvir a tão familiar jura de outrora, recordou-se imediatamente do Capitão Fuerte Espada. Este reconhecimento levou-o logo e naturalmente a uma conjetura. O aventureiro, que ele deixara em Lisboa nas garras da Inquisição, para escapar-lhe devera ter sido amparado por pessoa de grande valimento: e essa não era outra senão o Governador D. Francisco de Sousa que o tomara a seu serviço.
Tudo isto foi rápido e pensado enquanto o aventureiro terminava seu dizer, ao qual o jesuíta retrucou:
-- Assim era, irmão, se não estivesse eu suspenso de ordens!...
-- Caramba! O reverendo está suspenso! Que tal!... Por bom não há de ser!...
-- Deixo-vos com Deus, senhor!...
O Capitão Fuerte Espada, que não primava pelos dotes do espírito, ficara estatelado com o expediente do frade; e enquanto ruminava ele o modo de retorquir ao argumento e convencer o jesuíta para que o acompanhasse, este seguira o seu caminho desimpedido, e já pisava o limiar da porta de D. Diogo, quando o aventureiro em dois saltos o alcançou e tomou-lhe a dianteira.
-- Nada, reverendo, haveis de acompanhar-me. Ocorreu-me que assim como qualquer sem ser padre batiza em artigo de morte, podeis vós, mesmo de ordens suspensas, confessar!...
-- Então também vós, sem ser padre; e portanto não careceis de mim, disse o frade a rir.
-- Sangre de Cristo! O reverendo está chasqueando do próximo!... Pois saiba que lhe fala o Capitão D. Aníbal Aquiles Cipião de la Fuerte Espada, com quem ninguém ainda brincou, nem mesmo sua mãe quando ele era fedelho! Disse eu que o reverendo me havia de seguir a confessar a mulher, e é como se já estivesse lá.
No forte desta altercação fechou-se a porta do provedor; o sino de recolher começava de ser tangido. O frade pensou que o melhor modo de se desvencilhar do aventureiro, era condescender com ele; e pois resolveu-se a segui-lo.
-- Mostrai o caminho, irmão.
-- Em frente! Sempre em frente! É a minha divisa!...
Seguiram os dois rua acima. Com um galrador da força de D. Aníbal, não era difícil ao P. Molina verificar o que já suspeitara a respeito da sua vinda ao Brasil. D. Francisco de Sousa, guiado pelas revelações de mestre Brás, compreendera que lhe seria útil o concurso do aventureiro, e tirou-o dos cárceres do Santo Ofício, para logo dar-lhe um lugar em sua comitiva. O aventureiro, que já se considerava queimado, recebeu aquele favor do céu sem saber a que circunstância o devia:
-- O tal mestre Brás!... concluiu o soldado bufando. Um dia havemos de ajustar contas!...
O frade que revolvia nesse instante tristes pensamentos, sorriu de ver atribuir ao taberneiro a denúncia por ele deitada na caixa secreta; mas logo uma ideia amarga derramou-se no seu espírito, confrontando as circunstâncias agora referidas com outras por ele antes sabidas.
“A inteligência humana é uma burla do Criador!... Eu, Gusmão de Molina, com vinte anos de um estudo incessante, eu, discípulo melhor dos grandes mestres, deixar-me iludir por um taberneiro!... Quando podia pensar que aquele bruto seria capaz de contraminar um plano meu!”
Chegavam os dois à Rua da Ajuda.
-- Ao menos reparemos o erro!...
Murmurando consigo, o frade recuou de repente, fingindo sobressalto:
-- Que temos?... perguntou o aventureiro.
-- Não vê, D. Aníbal, ali no mato uns vultos!... Falam tanto de malfeitores agora!
-- Quem vai lá? gritou o destemido capitão.
Não respondendo ninguém, desembainhou a espada e arremeteu a cutiladas pelo mato. As sombras eram duas estacas ali fincadas para coradouro, o que ele só conheceu chegando perto.
-- Oh! oh! oh!... exclamou rindo! Vinde ver os vossos malfeitores, reverendo.
Mas o P. Molina se tinha sumido.
-- E não logrou-me o demônio do frade!... Melhor; poupou-me o trabalho de me descartar dele.
D. Aníbal voltou à Rua de São José, mas qual não foi o seu pasmo descobrindo de longe o vulto do jesuíta em pé defronte da porta de D. Diogo de Mariz, esperando que acudissem ao seu bater. Deitou a correr para ele, quando lhe saiu do vão junto da parede um sujeito.
-- Então asno, assim é que cumpres as minhas ordens?
-- Mas, capitão, o frade disse que vinha por ordem do senhor governador, e que vós não havíeis tardar! Como saístes ambos juntos!...
-- E que tinha isso, grandíssima besta!...
D. Aníbal chegou a tempo; ouviam-se já as passadas da caseira de D. Diogo na escada:
-- Sem dúvida, reverendo, vos enganastes de porta: a do vosso convento fica no Castelo, onde este camarada vai levar-vos direitinho como um fuso. Vamos! um, dois, três; em frente, marcha.
O visitador conheceu que a resistência, além de improfícua, podia ser funesta. Era claro que o governador guardava a porta de D. Diogo, e por conseguinte ele não poderia naquela noite penetrar na casa. Entretanto, se por um lado aquela medida o assustava, por outro lhe dava esperanças, pois era indício de que o provedor, fiel aos severos princípios de honra, recusara ao governador a entrega do depósito.
Recolheu pois o visitador ao Colégio, ao passo que D. Aníbal se atravessava na soleira da porta resolvido a ali passar a noite, e despachava a caseira acudida ao chamado do frade:
-- Não é nada, rapariga, senão fui eu que me enganei de porta.
Entretanto D. Diogo de Mariz ignorava o que passava à porta de sua casa. A nuvem que um instante toldara o seu pensamento se dissipara; recobrara a calma e serenidade da consciência pura. Depois da ceia frugal, escreveu uma carta que encomendou aos cuidados da caseira, e dormiu ao lado da virtuosa esposa o sono do justo.
A caseira do fidalgo era a mulher dos esquecimentos; tinha memória de galinha pedrês, de quem diz o vulgo que não se lembra onde pôs o primeiro ovo. Quantas incumbências lhe davam, umas não fazia, outras amanhava de través. Nessa noite à vista das instantes recomendações do amo, teve ela uma feliz ideia: meteu a carta no cocó. Era o meio de não esquecê-la em casa no outro dia ao sair para as compras.
Assim aconteceu de fato. Às cinco horas da manhã, a velha, de samburá no braço, ganhou a rua, e com ela foi escondida no cabelo a carta da qual nem mais se lembrava. D. Aníbal viu-a sair, e deixando a porta guardada foi-lhe no encalço. A poucos passos fê-la parar:
-- Alto, minha velha. O senhor governador teve denúncia de que trazíeis convosco certas bruxarias...
-- Eu!... Bento Jesus!... Que falso testemunho!...
-- É o que vamos averiguar! Vou passar-vos uma revista completa!...
-- Podeis passar, na certeza que se alguma encontrardes, são artes do Tinhoso!...
Sem respeito ao pudor, D. Aníbal revistou ou apalpou a velha; não lhe encontrando coisa suspeita, deixou-a seguir. Como poderia pensar o capitão que os cabelos dessa sujeita seriam para ele como os cabelos das matronas romanas para o seu homônimo!
A essa mesma hora o P. Molina saía do Colégio em direção à Rua de São José. Levara a noite inteira a meditar; e ia resolvido a instalar-se em casa da beata, e daí operar como o caso pedisse. Tinha dois meios a empregar; um era o furo da parede; o outro o quintal, por onde supunha poder penetrar na casa do fidalgo.
Sucedeu que ao chegar o visitador embaixo da ladeira, passou-lhe pela frente a caseira, que ele imediatamente reconheceu. A velha ia bem descansada de seu; nem lembrança da carta; mas ao ver o frade caiu em si, e tirou do cocó o papel engordurado de banha.
O P. Molina quebrou o selo e leu rápido:
Padre-mestre. -- Rogo-vos encarecidamente a graça de achar-vos nesta vossa casa de São José amanhã, segunda-feira, que se contam nove de fevereiro, antes da hora de meio-dia. De V. Paternidade um irmão reverente D. Diogo de Mariz.
-- Para que me quer ele?... E por que ao meio-dia antes do que a qualquer outra hora?...
O frade tornou a ler a carta, e interrogou a velha, da qual só colheu o que já sabia; que o provedor recolhera tarde voltando de palácio.
-- O governador exigiu a entrega do roteiro; D. Diogo pediu tempo para refletir; o governador lhe concedeu, mas fê-lo guardar por cautela. O prazo expira ao meio-dia; ele me convida pois para prevenir-me da entrega que vai fazer do roteiro ao governador. Não é outra coisa.
Caminhando sempre, prosseguiu:
-- Também é possível que ele pedisse prazo para poder livrar-se do depósito entregando-o a mim. Mas não! se assim fosse, não me diria -- antes do meio-dia, e sim -- venha o mais cedo possível!...
O frade encaminhou-se apressado para a casa da Mariana, onde pretendia entrar sorrateiramente, para daí sondar o terreno. Mas nesse tempo pouca gente transitava pelas ruas de modo que apenas o frade apontou longe, o capitão o lobrigou, e foi-se logo preparando para fazer-lhe frente. D. Aníbal tinha mais medo da língua de um jesuíta, do que da ponta de uma adaga afiada.
Com admiração sua, o frade em vez de se dirigir à porta de D. Diogo, bateu devagarinho na rótula: por infelicidade a beata estava para os fundos, e tardou uns dez minutos a abrir. Foi o tempo necessário para o aventureiro formular um pequeno raciocínio, em virtude do qual lhe pareceu suspeita a entrada na casa vizinha pelo mesmo indivíduo que tamanha insistência fizera na véspera para entrar em casa de D. Diogo.
D. Aníbal avançou pois:
-- Bom-dia, reverendo. Já tão cedo na rua! Quer me parecer que o padre tem rasca por estas bandas.
O jesuíta revestiu se da sua dignidade, e não respondeu; este ar pesou sobre o aventureiro, que retorquiu em tom cortês e polido.
-- Não se pode saber o que vem o reverendo fazer a esta casa?
-- Venho exercer o meu sagrado ministério!
-- Queira o reverendo traduzir-me isso em vulgar.
-- Fui chamado a uma confissão aqui!...
-- Mas o reverendo não está suspenso de ordens?
-- Minha suspensão terminou no dia de ontem.
O Capitão Fuerte Espada ficou estatalado; mas sem o sentir arrancou da cachola uma réplica chistosa:
-- Neste caso, reverendo, a minha enferma de ontem está em primeiro lugar.
E receando a lógica temível do jesuíta, pôs-se o aventureiro a cantarolar, acenando a um dos seus homens para guardar a rótula da Mariana. O P. Molina, homem da palavra e soldado na milícia da inteligência, teve de ceder ante o poder da força bruta. Retirou-se, é verdade, mas como a vaga que se retrai para de novo arremessar-se com maior ímpeto.
Leia As Minas de Prata, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance histórico clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.