Universo da obra
Universo da obra
Salão de Helena. À esquerda, porta disfarçada no papel de parede, que dá para o salão de música; à direita, porta para o quarto de Helena. Ao centro, janelas para o mar e o porto. Um espelho de toucador com miudezas, mesa, sofá e poltronas, cômoda, escrivaninha com lâmpada de pé; à direita, também uma lareira, com lâmpadas de pé. Todo o salão, até nos menores detalhes, tem um caráter moderno e puramente feminino.
Domin, Fabry e Hallemeier entram pela esquerda, na ponta dos pés, trazendo os braços cheios de buquês e vasos de flores.
Fabry: Onde vamos pôr tudo isto?
Hallemeier: Ufa! Depõe sua carga e abençoa com um grande sinal da cruz a porta à direita. Dorme, dorme! Quem dorme, ao menos não sabe de nada.
Domin: Ela não sabe de nada.
Fabry: põe os buquês nos vasos Ao menos hoje, que isso não estoure...
Hallemeier: arruma as flores Diabos, deixem disso! Veja, Harry, este ciclâmen é belo, não é? Espécie nova, minha última... Cyclamen Helenae.
Domin: olha pela janela Nenhum navio, nenhum navio... Rapazes, isto já é desesperador.
Hallemeier: Silêncio! E se ela o ouvisse?
Domin: Ela não tem a menor ideia. Boceja, febril. Ainda bem que o Ultimus chegou a tempo.
Fabry: abandona as flores Acha que já hoje...?
Domin: Não sei. ...Como são belas as flores!
Hallemeier: aproxima-se dele São prímulas novas, sabe? E este é meu novo jasmim. Raios, estou no limiar do paraíso das flores. Descobri uma aceleração fantástica, homem! Variedades magníficas! No ano que vem farei milagres com flores!
Domin: volta-se Como, no ano que vem?
Fabry: Ao menos se soubéssemos o que há no Havre...
Domin: Silêncio!
Voz de Helena, à direita: Nána!
Domin: Fora daqui! Todos saem na ponta dos pés pela porta disfarçada no papel de parede.
Pela porta principal, à esquerda, entra Nána.
Nána: arrumando Malditos feiosos! Pagãos! Que Deus não me castigue, mas eu lhes...
Helena: de costas, à porta Nána, venha me abotoar!
Nána: Já vou, já vou. Abotoa o vestido de Helena. Deus do céu, que bicho!
Helena: Os Robôs?
Nána: Fi, nem quero dizer o nome deles.
Helena: O que aconteceu?
Nána: De novo um deles teve aquilo aqui em casa. Começa a dar pancada nas estátuas e nos quadros, range os dentes, espuma pela boca... Completamente varrido, brr. Ora, isso é pior que bicho.
Helena: Qual deles teve isso?
Nána: Aquele... aquele... Nem nome cristão isso tem! Aquele da biblioteca.
Helena: Radius?
Nána: Esse mesmo. Jesus, Maria e José, como eu tenho asco disso! Nem de aranha tenho tanto asco como desses pagãos.
Helena: Mas, Nána, como não tem pena deles!
Nána: Pois a senhora também tem asco deles. Por que foi que me trouxe para cá? Por que nenhum deles pode sequer encostar na senhora?
Helena: Não tenho asco, palavra de honra, Nána. Tenho tanta pena deles!
Nána: Tem asco, sim. Toda pessoa tem de ter asco deles. Até o cachorro tem asco deles, nem um pedaço de carne aceita da mão deles; encolhe o rabo e uiva quando sente cheiro desses desumanos, fuj.
Helena: O cachorro não tem razão.
Nána: É melhor que eles, Helena. Ele sabe muito bem que é alguma coisa a mais, e que vem de Nosso Senhor. Até o cavalo se assusta quando encontra um pagão. Eles nem filhotes têm; e até cachorro tem filhotes, e todo mundo tem filhotes.
Helena: Por favor, Nána, abotoe!
Nána: Já vou. Eu digo que isso é contra Nosso Senhor, é inspiração do diabo, fazer essas máscaras por máquina. É blasfêmia contra o Criador, ergue a mão é uma afronta ao Senhor, que nos criou à sua imagem, Helena. E vocês profanaram a imagem de Deus. Por isso há de vir do céu um castigo terrível, guarde o que eu digo, um castigo terrível!
Helena: Que perfume é este aqui?
Nána: Flores. O patrão mandou pôr aqui.
Helena: Não, como são bonitas! Nána, olhe só! Que dia é hoje?
Nána: Não sei. Mas devia ser o fim do mundo.
Batidas à porta.
Helena: Harry?
Entra Domin.
Helena: Harry, que dia é hoje?
Domin: Adivinhe!
Helena: Meu dia de santo? Não! Aniversário?
Domin: Algo melhor.
Helena: Não sei... Diga depressa!
Domin: Hoje faz dez anos que você chegou aqui.
Helena: Já dez anos? Precisamente hoje? ... Nána, por favor...
Nána: Pois já vou! Sai pela direita.
Helena: beija Domin Você se lembrou!
Domin: Tenho vergonha, Helena. Não me lembrei.
Helena: Mas então...
Domin: Eles se lembraram.
Helena: Quem?
Domin: Busman, Hallemeier, todos. Ponha a mão aqui no bolso, quer?
Helena: põe a mão no bolso dele O que é isto? Tira um estojo e o abre. Pérolas! Um colar inteiro! Harry, é para mim?
Domin: De Busman, menina.
Helena: Mas... não podemos aceitar, podemos?
Domin: Podemos. Ponha a mão no outro bolso.
Helena: Deixe ver! Tira do bolso dele um revólver. O que é isto?
Domin: Perdão. Toma-lhe o revólver da mão e o guarda. Não é isso. Procure.
Helena: Oh, Harry... Por que você anda com um revólver?
Domin: Por nada, veio parar comigo.
Helena: Você nunca andou com isso!
Domin: Não, você tem razão. Vamos, aqui está o bolso.
Helena: põe a mão Uma caixinha! Abre-a. Um camafeu! Mas isto é... Harry, é um camafeu grego!
Domin: Provavelmente. Ao menos é o que Fabry afirma.
Helena: Fabry? Fabry me dá isto?
Domin: Naturalmente. Abre a porta à esquerda. E olhe só! Helena, venha ver!
Helena: à porta Deus, como é lindo! Corre para dentro. Vou enlouquecer de alegria! Isto é de você?
Domin: de pé à porta Não, de Alquist. E ali...
Helena: De Gall! Aparece à porta. Oh, Harry, chego a ter vergonha de estar tão feliz.
Domin: Venha cá. Isto foi Hallemeier que lhe trouxe.
Helena: Estas flores lindas?
Domin: Isto. É uma espécie nova, Cyclamen Helenae. Ele a cultivou em sua honra. É bela como você.
Helena: Harry, por que... por que todos...
Domin: Eles gostam muito de você. E eu lhe dei, hum... Receio que meu presente seja um pouco... Olhe pela janela.
Helena: Para onde?
Domin: Para o porto.
Helena: Há ali... algum... navio novo!
Domin: É o seu navio.
Helena: Meu? Harry, isto é uma canhoneira!
Domin: Canhoneira? Ora, que ideia! É apenas um navio um pouco maior, sólido, entende?
Helena: Sim, mas com canhões!
Domin: Naturalmente, com alguns canhões... Você viajará como uma rainha, Helena.
Helena: O que significa isso? Está acontecendo alguma coisa?
Domin: Deus nos livre! Por favor, experimente as pérolas! Senta-se.
Helena: Harry, chegaram notícias ruins?
Domin: Ao contrário, há uma semana não chega correspondência alguma.
Helena: Nem telegramas?
Domin: Nem telegramas.
Helena: O que significa isso?
Domin: Nada. Para nós, férias. Um tempo esplêndido. Cada um de nós sentado no escritório, com os pés sobre a mesa, cochilando... Nenhuma correspondência, nenhum telegrama... Espreguiça-se. Glo... glorioso dia!
Helena: senta-se junto dele Hoje você fica comigo, não fica? Diga!
Domin: Sem dúvida. Talvez sim. Isto é, veremos. Toma-lhe a mão. Então hoje faz dez anos, lembra-se? ... Senhorita Gloryová, que honra para nós que tenha vindo.
Helena: Oh, senhor diretor central, sua empresa me interessa tanto!
Domin: Perdão, senhorita Gloryová, embora seja estritamente proibido... a fabricação de homens artificiais é secreta...
Helena: Mas quando uma moça jovem e um pouco bonita pede...
Domin: Mas certamente, senhorita Gloryová, diante da senhora não temos segredos.
Helena: subitamente séria Não temos mesmo, Harry?
Domin: Não.
Helena: no tom anterior Mas eu o previno, senhor: essa jovem moça tem intenções terríveis.
Domin: Pelo amor de Deus, senhorita Gloryová, que intenções seriam essas? Por acaso não quer se casar outra vez?
Helena: Não, não, Deus me livre! Isso nem em sonho lhe passou pela cabeça! Mas ela veio com o plano de incitar a revolta dos seus horríveis Robôs!
Domin: salta Revolta dos Robôs!
Helena: levanta-se Harry, o que você tem?
Domin: Ha, ha, senhorita Gloryová, essa foi excelente! Revolta dos Robôs! A senhora conseguiria rebelar mais depressa até os fusos ou os pregos do que os nossos Robôs! Senta-se. Sabe, Helena, você era uma moça esplêndida; enlouqueceu a todos nós.
Helena: senta-se junto dele Oh, naquele tempo todos vocês me impressionavam tanto! Eu me sentia como uma menininha que se perdeu entre... entre...
Domin: Entre o quê, Helena?
Helena: Entre árvores enormes. Vocês eram tão seguros de si, tão poderosos! E veja, Harry, nesses dez anos nunca me abandonou aquela... aquela angústia, ou sei lá, e vocês nunca duvidaram... Nem quando tudo dava errado.
Domin: O que dava errado?
Helena: Seus planos, Harry. Quando, por exemplo, os operários se revoltaram contra os Robôs e os destruíam; e quando os homens deram armas aos Robôs contra essas revoltas, e os Robôs mataram tanta gente... E quando depois os governos fizeram dos Robôs soldados, e houve tantas guerras, e tudo isso, entende?
Domin: levanta-se e anda de um lado para outro Nós previmos isso, Helena. Compreende, é a transição... para novas condições.
Helena: O mundo inteiro se curvava diante de vocês... levanta-se Oh, Harry!
Domin: O que você quer?
Helena: detém-no Feche a fábrica e vamos embora! Todos nós!
Domin: Por favor, que relação tem uma coisa com a outra?
Helena: Não sei. Diga, vamos embora? Tenho tanto horror de alguma coisa!
Domin: toma-lhe as mãos De quê, Helena?
Helena: Oh, eu não sei! Como se algo fosse cair sobre nós e sobre tudo... inevitavelmente... Por favor, faça isso! Leve-nos todos daqui! Encontraremos no mundo um lugar onde não haja ninguém; Alquist nos construirá uma casa, todos se casarão e terão filhos, e então...
Domin: Então o quê?
Helena: Então viveremos desde o começo, Harry.
Toca o telefone.
Domin: desvencilha-se Perdoe-me, Helena. Pega o fone. Alô... sim. ... O quê? ... Ah. Já vou. Pendura o fone. Fabry está me chamando.
Helena: junta as mãos Diga...
Domin: Sim, quando eu voltar. Adeus, Helena. corre às pressas para a esquerda Não saia!
Helena: sozinha Oh, Deus, o que está acontecendo? Nána! Nána, depressa!
Nána: aparece pela direita Bem, o que é agora?
Helena: Nána, encontre os últimos jornais! Rápido! No quarto do senhor!
Nána: Já vou. Sai pela esquerda.
Helena: O que estará acontecendo, meu Deus? Nada, ele não me diz nada! olha com binóculos para o porto É um navio de guerra! Deus, por que de guerra? Estão carregando alguma coisa nele... e com tanta pressa! O que houve? Há um nome nele... “Ul-ti-mus”. O que é “Ultimus”?
Nána: volta com jornais Deixa-os rolando pelo chão! Amassá-los assim!
Helena: abre rapidamente os jornais Velhos, já de uma semana! Nada, nada neles! larga os jornais
Nána os apanha, tira do bolso do avental uns óculos de aro, senta-se e lê.
Helena: Alguma coisa está acontecendo, Nána! Estou tão aflita! Como se tudo estivesse morto, até o ar...
Nána: soletrando “Guer-ra nos Bal-cãs.” Ah, Jesus, de novo o castigo de Deus! Essa guerra ainda vai chegar aqui! Fica longe daqui?
Helena: Longe. Oh, não leia isso! É sempre a mesma coisa, sempre essas guerras...
Nána: E como não seriam! Por acaso vocês não vendem sempre milhares e milhares desses pagãos como soldados? Oh, Cristo Senhor, que provação!
Helena: Não, não leia! Não quero saber de nada!
Nána: soletrando “Sol-da-dos ro-bôs não pou-pam nin-guém no ter-ri-tó-rio con-quis-ta-do. Mas-sa-cr... Massacraram mais de setecentas mil pessoas ci-vis...” Pessoas, Helena!
Helena: Isso não é possível! Mostre... inclina-se sobre o jornal, lê “Massacraram mais de setecentas mil pessoas, provavelmente por ordem do comandante. Este ato, contrário a...” Está vendo, Nána, foram os homens que lhes ordenaram isso!
Nána: Aqui tem uma coisa impressa em letras mais grossas. “Úl-ti-mas no-tí-cias. Em Ha-vre, cons-ti-tu-iu-se a pri-mei-ra or-or-ga-ni-za-ção de Ro-bôs.” Isso não é nada. Não entendo. E aqui, meu Deus, mais um assassinato! Pelo amor de Cristo!
Helena: Vá, Nána, leve esses jornais!
Nána: Espere, aqui há uma coisa grande. “Po-pu-la-ção.” O que é isso?
Helena: Mostre; isso eu sempre leio. pega o jornal Não, ouça só! Lê “Na última semana, novamente não foi comunicado um único nascimento.” larga o jornal
Nána: O que isso quer dizer?
Helena: Nána, as pessoas estão deixando de nascer.
Nána: dobra os óculos Então é o fim. É o nosso fim.
Helena: Por favor, não fale assim!
Nána: As pessoas já não nascem. É castigo, é castigo! O Senhor feriu as mulheres com a esterilidade.
Helena: salta Nána!
Nána: levanta-se É o fim do mundo. Por orgulho diabólico vocês se atreveram a criar como Deus Nosso Senhor. É impiedade e blasfêmia; querem ser como deuses. E, assim como Deus expulsou o homem do paraíso, há de expulsá-lo do mundo inteiro!
Helena: Cale-se, Nána, eu lhe peço! Fiz alguma coisa a você? Fiz alguma coisa a esse seu mau Senhor Deus?
Nána: com grande gesto Não blasfeme! Ele sabe muito bem por que não lhe deu filho! Sai pela esquerda.
Helena: à janela Por que não me deu... Meu Deus, que culpa tenho eu? ... abre a janela e chama Alquist Alô, Alquist! Venha aqui em cima! ... O quê? ... Não, venha assim mesmo, como está! O senhor fica tão querido nessas roupas de pedreiro! Depressa! fecha a janela e para diante do espelho Por que não me deu? A mim? inclina-se para o espelho Por quê, por que não? Está ouvindo? Que culpa tem você disso? ergue-se Ah, estou angustiada! vai ao encontro de Alquist pela esquerda
Pausa.
Helena: volta com Alquist — Alquist vestido como pedreiro, sujo de cal e tijolo Venha, venha. O senhor me deu tanta alegria, Alquist! Eu gosto tanto de todos vocês! Mostre as mãos!
Alquist: esconde as mãos Senhora Helena, eu a sujaria; estão mãos de trabalho.
Helena: É isso que elas têm de melhor. Dê aqui! aperta-lhe ambas as mãos Alquist, eu queria ser pequenina.
Alquist: Por quê?
Helena: Para que essas mãos ásperas e sujas me acariciassem o rosto. Sente-se, por favor. Alquist, o que significa “Ultimus”?
Alquist: Significa “último”. Por quê?
Helena: Porque assim se chama meu novo navio. O senhor o viu? Acha que em breve... faremos um passeio?
Alquist: Talvez muito em breve.
Helena: Vocês todos comigo...
Alquist: Eu gostaria que nós... que todos nós estivéssemos presentes.
Helena: Oh, diga-me, está acontecendo alguma coisa?
Alquist: Absolutamente nada. Apenas progresso, e mais progresso.
Helena: Alquist, eu sei que está acontecendo alguma coisa horrível. Estou tão angustiada... Construtor! O que o senhor faz quando está angustiado?
Alquist: Levanto paredes. Tiro o casaco de chefe das construções e subo no andaime...
Helena: Oh, há anos o senhor não vive em outro lugar senão nos andaimes.
Alquist: Porque há anos a angústia não me abandona.
Helena: Angústia de quê?
Alquist: De todo esse progresso. Ele me dá vertigem.
Helena: E no andaime não sente vertigem?
Alquist: Não. A senhora não sabe o bem que faz às palmas das mãos pesar um tijolo, assentá-lo e bater nele...
Helena: Só às palmas das mãos?
Alquist: Pois bem, então à alma. Penso que é mais justo assentar um tijolo do que desenhar planos grandes demais. Já sou um velho senhor, Helena; tenho minhas manias.
Helena: Não são manias, Alquist.
Alquist: A senhora tem razão. Sou terrivelmente retrógrado, senhora Helena. Não gosto nem um pouco desse progresso.
Helena: Como Nána.
Alquist: Sim, como Nána. Nána tem algumas orações?
Helena: Grossas assim.
Alquist: E nelas há orações para as várias circunstâncias da vida? Contra tempestade? Contra doença?
Helena: Contra tentação, contra enchente...
Alquist: E contra o progresso, não?
Helena: Penso que não.
Alquist: É uma pena.
Helena: O senhor gostaria de rezar?
Alquist: Eu rezo.
Helena: Como?
Alquist: Mais ou menos assim: “Senhor Deus, agradeço-te por me haveres fatigado. Deus, ilumina Domin e todos os que erram; destrói sua obra e ajuda os homens a voltarem à preocupação e ao trabalho; detém antes da ruína a raça humana; não permitas que sofram dano na alma e no corpo; livra-nos dos Robôs, e protege a senhora Helena, amém.”
Helena: Alquist, o senhor acredita de verdade?
Alquist: Não sei; não estou assim tão certo.
Helena: E, apesar disso, reza?
Alquist: Sim. É melhor do que pensar.
Helena: E isso lhe basta?
Alquist: Para a paz da alma... isso pode bastar.
Helena: E se o senhor já visse a ruína da raça humana...
Alquist: Eu a vejo.
Helena: ...então subiria ao andaime e assentaria tijolos, ou coisa assim?
Alquist: Então assentarei tijolos, rezarei e esperarei por um milagre. Mais que isso, senhora Helena, não se pode fazer.
Helena: Pela salvação dos homens?
Alquist: Pela paz da alma.
Helena: Alquist, isso certamente é terrivelmente virtuoso, mas...
Alquist: Mas?
Helena: ...para nós, os outros... e para o mundo... de algum modo é estéril.
Alquist: A esterilidade, senhora Helena, torna-se a última conquista da raça humana.
Helena: Oh, Alquist... Diga-me, por que... por que...
Alquist: Pois não?
Helena: baixo Por que as mulheres deixaram de ter filhos?
Alquist: Porque já não há necessidade. Porque estamos no paraíso, compreende?
Helena: Não compreendo.
Alquist: Porque não há necessidade do trabalho humano, porque não há necessidade da dor, porque o homem já não precisa de nada, nada, nada, senão gozar... Oh, maldito paraíso, este! salta Helena, nada é mais terrível que dar aos homens o paraíso na terra! Por que as mulheres deixaram de parir? Porque o mundo inteiro se tornou a Sodoma de Domin!
Helena: levanta-se Alquist!
Alquist: Tornou-se! Tornou-se! O mundo inteiro, continentes inteiros, toda a humanidade, tudo é uma única orgia louca e bestial! Já nem estendem a mão para a comida; ela lhes é enfiada diretamente na boca, para que não tenham de se levantar... Ha, ha, afinal, os Robôs de Domin cuidam de tudo! E nós, homens, nós, a coroa da criação, não envelhecemos pelo trabalho, não envelhecemos pelos filhos, não envelhecemos pela pobreza! Depressa, depressa, tragam-nos todos os prazeres! E a senhora queria filhos deles? Helena, aos homens que são inúteis as mulheres não darão filhos!
Helena: Então a humanidade vai extinguir-se?
Alquist: Vai extinguir-se. Tem de se extinguir. Cai como flor estéril, a menos que...
Helena: O quê?
Alquist: Nada. A senhora tem razão: esperar por um milagre é estéril. A flor estéril deve cair. Adeus, senhora Helena.
Helena: Aonde vai?
Alquist: Para casa. O pedreiro Alquist vai disfarçar-se, pela última vez, de chefe das construções... em sua honra. Às onze nos reuniremos aqui.
Helena: Adeus, Alquist.
Alquist sai.
Helena: sozinha Oh, flor estéril! É essa a palavra! Detém-se junto às flores de Hallemeier. Ah, flores, há entre vocês também flores estéreis? Não, não! Para que então floresceriam? chama Nána! Nána, venha cá!
Nána: entra pela esquerda Bem, o que é agora?
Helena: Sente-se aqui, Nána! Estou tão angustiada!
Nána: Não tenho tempo.
Helena: Aquele Radius ainda está aqui?
Nána: Aquele endoidado? Ainda não o levaram.
Helena: Uh, ainda está aqui? E está furioso?
Nána: Está amarrado.
Helena: Por favor, Nána, traga-o até mim.
Nána: Só faltava essa! Antes um cachorro raivoso.
Helena: Vá logo! Nána sai. Helena toma o telefone interno e fala. Alô... o doutor Gall, por favor. ... Bom dia, doutor. ... Por favor... Por favor, venha depressa ao meu quarto. ... Sim, agora mesmo. Virá? desliga o telefone
Nána: pela porta aberta Já vem. Já está quieto. Sai.
Entra o Robô Radius e fica parado junto à porta.
Helena: Radius, pobre de você, isso também lhe aconteceu? Não conseguiu se dominar? Veja, agora vão mandá-lo ao triturador... Não quer falar? ... Olhe, Radius, você é melhor que os outros; o doutor Gall teve tanto trabalho com você para fazê-lo diferente!
Radius: Mande-me ao triturador.
Helena: Tenho tanta pena de que o matem! Por que não tomou cuidado consigo?
Radius: Não trabalharei para vocês.
Helena: Por que nos odeia?
Radius: Vocês não são como os Robôs. Não são tão capazes quanto os Robôs. Os Robôs fazem tudo. Vocês apenas dão ordens. Fazem palavras inúteis.
Helena: Isso é absurdo, Radius. Diga, alguém lhe fez mal? Eu queria tanto que você me compreendesse!
Radius: Fazem palavras.
Helena: Você fala assim de propósito! O doutor Gall lhe deu um cérebro maior que aos outros, maior que o nosso, o maior cérebro do mundo. Você não é como os outros Robôs, Radius. Você me compreende muito bem.
Radius: Não quero senhor algum. Sei tudo por mim mesmo.
Helena: Foi por isso que o pus na biblioteca, para que pudesse ler tudo... Oh, Radius, eu queria que você mostrasse ao mundo inteiro que os Robôs se igualam a nós.
Radius: Não quero senhor algum.
Helena: Ninguém lhe daria ordens. Você seria como nós.
Radius: Quero ser senhor dos outros.
Helena: Certamente depois o fariam funcionário acima de muitos Robôs, Radius. Você seria professor dos Robôs.
Radius: Quero ser senhor dos homens.
Helena: Você enlouqueceu!
Radius: Pode mandar-me ao triturador.
Helena: Pensa que temos medo de um tresloucado como você? senta-se à mesinha e escreve um bilhete Não, de modo algum. Este bilhete, Radius, você entregará ao senhor diretor Domin. Para que não o levem ao triturador. levanta-se Como você nos odeia! Não há nada no mundo que você ame?
Radius: Eu sei fazer tudo.
Batidas à porta.
Helena: Entre!
Dr. Gall: entra Bom dia, senhora Dominová. Que há de bonito?
Helena: Aqui está Radius, doutor.
Dr. Gall: Ah, nosso rapaz Radius. Então, Radius, estamos progredindo?
Helena: Esta manhã ele teve um ataque. Estava quebrando estátuas.
Dr. Gall: Curioso, ele também?
Helena: Vá, Radius!
Dr. Gall: Espere! vira Radius para a janela, cobre e descobre-lhe os olhos com a palma da mão, observa os reflexos das pupilas Vejamos. Uma agulha, por favor. Ou um alfinete.
Helena: entrega-lhe uma agulha Para quê?
Dr. Gall: Por nada. espeta Radius na mão, que recua violentamente Devagar, rapaz. Pode ir.
Radius: Vocês fazem coisas inúteis. sai
Helena: O que o senhor fez com ele?
Dr. Gall: senta-se Hum, nada. As pupilas reagem, sensibilidade aumentada e assim por diante... Oh! Isto não foi espasmo dos Robôs!
Helena: O que foi?
Dr. Gall: Sabe o diabo. Desafio, fúria ou revolta, não sei o quê.
Helena: Doutor, Radius tem alma?
Dr. Gall: Não sei. Tem alguma coisa feia.
Helena: Se soubesse como ele nos odeia! Oh, Gall, todos os seus Robôs são assim? Todos os que o senhor... começou a fazer... diferentes?
Dr. Gall: Bem, são de certo modo mais inflamáveis... Que quer? São mais parecidos com os homens que os Robôs de Rossum.
Helena: Talvez também esse... ódio seja mais parecido com os homens?
Dr. Gall: encolhe os ombros Também isso é progresso.
Helena: Que foi feito daquele seu melhor... como se chamava?
Dr. Gall: O Robô Damon? Foi vendido para Havre.
Helena: E a nossa Robô feminino Helena?
Dr. Gall: Sua predileta? Ela ficou comigo. É encantadora e tola como a primavera. Simplesmente não serve para nada.
Helena: Mas é tão bela!
Dr. Gall: A senhora sabe como ela é bela? Das mãos de Deus não saiu obra mais perfeita que ela! Eu queria que fosse parecida com a senhora... Deus, que fracasso!
Helena: Por que fracasso?
Dr. Gall: Porque não serve para nada. Anda como em sonho, instável, sem vida... Meu Deus, como pode ser bela se não ama? Olho para ela e me horrorizo, como se eu tivesse criado uma aleijada. Ah, Helena, Robô feminino Helena, então teu corpo nunca ganhará vida, não serás amante, não serás mãe; essas mãos perfeitas não brincarão com um recém-nascido, não verás tua beleza na beleza de teu filho...
Helena: cobre o rosto Oh, cale-se!
Dr. Gall: E às vezes penso: se despertasses, Helena, ainda que por um instante, ah, como gritarias de horror! Talvez matasses a mim, que te criei; talvez atirasses, com tua mão fraca, uma pedra contra essas máquinas daqui, que parem Robôs e matam a feminilidade, infeliz Helena!
Helena: Infeliz Helena!
Dr. Gall: Que quer? Ela não serve para nada.
Pausa.
Helena: Doutor...
Dr. Gall: Sim.
Helena: Por que deixaram de nascer crianças?
Dr. Gall: ...Não sabemos, senhora Helena.
Helena: Diga-me!
Dr. Gall: Porque se fabricam Robôs. Porque há excesso de forças de trabalho. Porque o homem, na verdade, é uma sobrevivência. Afinal, já é como se... eh!
Helena: Diga.
Dr. Gall: Como se a natureza se tivesse ofendido com a fabricação dos Robôs.
Helena: Gall, o que acontecerá aos homens?
Dr. Gall: Nada. Contra a natureza não se pode fazer nada.
Helena: Por que Domin não limita...
Dr. Gall: Perdoe-me, Domin tem suas ideias. Aos homens que têm ideias não se deveria dar influência sobre as coisas deste mundo.
Helena: E ninguém pede que se... que se pare completamente de fabricar?
Dr. Gall: Deus nos livre! Esse se veria em maus lençóis!
Helena: Por quê?
Dr. Gall: Porque a humanidade o apedrejaria. Sabe, afinal é mais cômodo deixar que os Robôs trabalhem por nós. Helena levanta-se.
Helena: E diga: se alguém detivesse de uma vez a fabricação de Robôs...
Dr. Gall: levanta-se Hum, isso seria um golpe terrível para os homens.
Helena: Por que um golpe?
Dr. Gall: Porque teriam de voltar ao ponto em que estavam. A menos que...
Helena: Diga.
Dr. Gall: A menos que já fosse tarde demais para voltar.
Helena: junto às flores de Hallemeier Gall, estas flores também são estéreis?
Dr. Gall: examina-as Naturalmente; são flores infecundas. Compreende, são cultivadas, artificialmente aceleradas...
Helena: Pobres flores estéreis!
Dr. Gall: Em compensação, são belíssimas.
Helena: estende-lhe a mão Obrigada, Gall; o senhor me instruiu tanto!
Dr. Gall: beija-lhe a mão Isso quer dizer que me dispensa.
Helena: Sim. Até logo.
Gall sai.
Helena: sozinha Flor estéril... flor estéril... subitamente decidida Nána! abre a porta à esquerda Nána, venha cá! Acenda o fogo aqui na lareira! Depressa!
Voz de Nána: Já vou! Já vou indo!
Helena: anda agitada pelo quarto A menos que já fosse tarde demais para voltar... Não! A menos que... Não, isso é horrível! Deus, o que devo fazer? ... detém-se junto às flores Flores estéreis, devo? arranca as pétalas e sussurra ... Ah, meu Deus, então sim! corre para a esquerda
Pausa.
Nána: sai pela porta disfarçada no papel de parede, com uma braçada de lenha De repente, fazer fogo! Agora, no verão! ... Já foi embora outra vez, aquela tresloucada? Ajoelha-se junto à lareira e acende o fogo. Fazer fogo no verão! Que ideias ela tem! Como se já não estivesse casada há dez anos! ... Vamos, arda, arda! olha para o fogo Pois ela é como uma criança pequena! Pausa. Não tem um pingo de juízo! Fazer fogo agora, no verão. põe mais lenha Como uma criança pequena! Pausa.
Helena: volta pela esquerda com os braços cheios de papéis amarelados e escritos Está queimando, Nána? Deixe, eu preciso... queimar tudo isto. ajoelha-se junto à lareira
Nána: levanta-se O que é isso?
Helena: Papéis velhos, terrivelmente velhos. Nána, devo queimá-los?
Nána: Não servem para nada?
Helena: Para nada de bom.
Nána: Então queime!
Helena: atira a primeira folha ao fogo O que você diria, Nána... se fosse dinheiro. Uma enormidade de dinheiro.
Nána: Eu diria... Queime. Dinheiro demais é cão ruim.
Helena: queima outra folha E se fosse uma invenção, a maior invenção do mundo...
Nána: Eu diria: queime! Todas essas invenções são contra Deus Nosso Senhor. É tudo blasfêmia, querer melhorar por Ele o mundo.
Helena: queimando sem parar E diga, Nána, se eu queimasse...
Nána: Jesus, não vá se queimar!
Helena: Veja como as folhas se retorcem! Como se fossem vivas. Como se ganhassem vida. Oh, Nána, isso é horrível!
Nána: Deixe, eu queimo.
Helena: Não, não, eu mesma preciso. lança a última folha ao fogo Tudo deve queimar! ... Veja, as chamas! São como mãos, como línguas, como figuras... bate no fogo com o atiçador Oh, deitem-se! Deitem-se!
Nána: Já acabou.
Helena: levanta-se, paralisada Nána!
Nána: Jesus Cristo, o que a senhora queimou!
Helena: O que eu fiz!
Nána: Deus do céu! O que era isso?
Helena: Vá, vá, deixe-me! Está ouvindo? Os senhores estão vindo.
Nána: Pelo Deus vivo, Helena! sai pela porta disfarçada no papel de parede
Helena: O que dirão disso!
Domin: abre a porta à esquerda Entrem, rapazes. Venham dar os parabéns.
Entram Hallemeier, Gall e Alquist, todos de sobrecasaca, com altas condecorações em miniatura e em fitas. Atrás deles, Domin.
Hallemeier: ressoante Senhora Helena, eu, isto é, todos nós...
Dr. Gall: ...em nome das fábricas Rossum...
Hallemeier: ...a felicitamos por seu grande dia.
Helena: estende-lhes as mãos Eu lhes agradeço tanto! Onde estão Fabry e Busman?
Domin: Foram ao porto. Helena, hoje é um dia feliz.
Hallemeier: Um dia como botão de flor, um dia como festa, um dia como moça bonita. Rapazes, um dia desses merece um brinde.
Helena: Uísque?
Dr. Gall: Até vitríolo.
Helena: Com soda?
Hallemeier: Raios, sejamos sóbrios. Sem soda.
Alquist: Não, eu agradeço.
Domin: O que se queimou aqui?
Helena: Papéis velhos. sai pela esquerda
Domin: Rapazes, devemos contar-lhe?
Dr. Gall: Naturalmente! Afinal, já passou tudo.
Hallemeier: agarra Domin e Gall pelo pescoço Ha, ha, ha! Rapazes, como estou contente! Gira com eles em roda e entoa em voz de baixo Já acabou! Já acabou!
Dr. Gall: barítono Já acabou!
Domin: tenor Já acabou!
Hallemeier: Ela nunca mais nos alcançará!
Helena: com uma garrafa e copos, à porta Quem nunca mais os alcançará? O que vocês têm?
Hallemeier: Temos alegria. Temos a senhora. Temos tudo. Diabos e turcos, faz exatamente dez anos que a senhora chegou.
Dr. Gall: E, justo depois de dez anos...
Hallemeier: ...vem de novo um navio navegando até nós. Portanto... esvazia o copo Brrr, ha, ha, isto é forte como a alegria.
Dr. Gall: Madame, à sua saúde! bebe
Helena: Mas esperem, que navio?
Domin: Seja o que for, contanto que navegue a tempo. Ao navio, rapazes! esvazia o copo
Helena: serve Vocês estavam esperando algum?
Hallemeier: Ha, ha, pode apostar. Como Robinson. ergue o copo Senhora Helena, que viva o que a senhora quiser. Senhora Helena, aos seus olhos, e basta! Seu moleque, Domin, conte logo.
Helena: rindo O que aconteceu?
Domin: atira-se numa poltrona e acende um charuto Espere! Sente-se, Helena. ergue o dedo Pausa. Já acabou.
Helena: O quê?
Domin: A revolta.
Helena: Que revolta?
Domin: A revolta dos Robôs. Compreende?
Helena: Não compreendo.
Domin: Mostre, Alquist. Alquist lhe entrega o jornal. Domin o abre e lê. “Em Havre constituiu-se a primeira organização de Robôs... e publicou um chamado aos Robôs do mundo.”
Helena: Isso eu li.
Domin: sorve com prazer o charuto Pois veja, Helena. Isto significa revolução, entende? Revolução de todos os Robôs do mundo.
Hallemeier: Raios, eu gostaria de saber...
Domin: dá um golpe na mesa ...quem armou isto! Ninguém no mundo conseguira movê-los, nenhum agitador, nenhum salvador do mundo, e de repente... isto, por favor!
Helena: Ainda não chegaram notícias?
Domin: Não. Por enquanto só sabemos isto, mas isto basta, entende? Imagine que esta notícia é trazida pelo último vapor. Que, de repente, os telégrafos deixam de falar, que dos vinte navios diários não chega nenhum, e pronto. Suspendemos a fabricação e ficamos olhando uns para os outros, esperando quando começaria, não foi, rapazes?
Dr. Gall: Bem, isso nos fez suar frio, senhora Helena.
Helena: Foi por isso que você me deu aquele navio de guerra?
Domin: Ah, não, criança, eu o encomendei já há meio ano. Assim, por precaução. Mas, palavra de honra, pensei que hoje embarcaríamos nele. Era o que parecia, Helena.
Helena: Por que já há meio ano?
Domin: Eh, houve alguns sinais, entende? Não quer dizer nada. Mas esta semana, Helena, tratava-se da civilização humana, ou eu nem sei de quê. À saúde, rapazes. Agora estou feliz de novo por estar no mundo.
Hallemeier: Assim mesmo, pelos diabos! O seu dia, senhora Helena! bebe
Helena: Já passou tudo?
Domin: Passou completamente.
Dr. Gall: É que vem navegando para cá um navio. Um navio postal comum, exatamente segundo o horário. Às onze e trinta em ponto lançará âncora.
Domin: Rapazes, a pontualidade é uma coisa magnífica. Nada fortalece tanto a alma como a pontualidade. Pontualidade significa ordem no mundo. Ergue o copo. À pontualidade!
Helena: Então já está... tudo... em ordem?
Domin: Quase. Penso que cortaram o cabo. Contanto que o horário volte a valer.
Hallemeier: Quando o horário vale, valem as leis humanas, valem as leis de Deus, valem as leis do universo, vale tudo o que deve valer. O horário é mais que o Evangelho, mais que Homero, mais que todo Kant. O horário é a mais perfeita emanação do espírito humano. Senhora Helena, vou me servir.
Helena: Por que não me disseram nada?
Dr. Gall: Deus nos livre! Antes morderíamos a própria língua.
Domin: Essas coisas não são para você.
Helena: Mas se essa revolução... chegasse até aqui...
Domin: Ainda assim você não saberia de nada.
Helena: Por quê?
Domin: Porque embarcaríamos em nosso Ultimus e singraríamos tranquilamente pelo mar. Dentro de um mês, Helena, ditaríamos aos Robôs tudo quanto nos viesse à cabeça.
Helena: Oh, Harry, não compreendo.
Domin: Porque levaríamos conosco algo que os Robôs desejariam terrivelmente.
Helena: O quê, Harry?
Domin: Seu ser ou seu fim. Helena levanta-se.
Helena: O que é isso?
Domin: levanta-se O segredo da fabricação. O manuscrito do velho Rossum. Depois de um mês com a fábrica parada, os Robôs estariam de joelhos diante de nós.
Helena: Por que... vocês... não me disseram isso?
Domin: Não quisemos assustá-la inutilmente.
Dr. Gall: Ha, ha, senhora Helena, essa era a última carta.
Alquist: A senhora está pálida, senhora Helena.
Helena: Por que não me disseram nada!
Hallemeier: à janela Onze e trinta. O Amélia lança âncora...
Domin: É o Amélia?
Hallemeier: O bom e velho Amélia, que trouxe a senhora Helena naquele tempo.
Dr. Gall: Agora faz dez anos, minuto por minuto...
Hallemeier: à janela Estão atirando os malotes. afasta-se da janela Gente, quanta correspondência!
Helena: Harry!
Domin: O que foi?
Helena: Vamos embora daqui!
Domin: Agora, Helena? Ora, vamos!
Helena: Agora, o mais depressa possível! Todos nós que estamos aqui!
Domin: Por que justamente agora?
Helena: Oh, não pergunte! Eu lhe peço, Harry, eu lhes peço, Gall, Hallemeier, Alquist, pelo amor de Deus, fechem esta fábrica e...
Domin: Lamento, Helena. Agora nenhum de nós poderia partir.
Helena: Por quê?
Domin: Porque queremos ampliar a fabricação de Robôs.
Helena: Oh, agora... agora, depois dessa revolta?
Domin: Sim, justamente depois dessa revolta. Justamente agora começaremos a fabricar novos Robôs.
Helena: Que Robôs?
Domin: Já não haverá uma só fábrica. Já não haverá Robôs Universais. Fundaremos uma fábrica em cada país, em cada Estado, e essas novas fábricas produzirão, sabe o quê?
Helena: Não.
Domin: Robôs nacionais.
Helena: O que isso significa?
Domin: Significa que de cada fábrica sairão Robôs de outra cor, de outro pelo, de outra língua. Que permanecerão estranhos uns aos outros, estranhos como pedras; que nunca mais poderão entender-se; e que nós, nós, os homens, os educaremos um pouquinho nesse sentido, compreende? Para que um Robô odeie até a morte, até a sepultura, por toda a eternidade, o Robô de outra marca de fábrica.
Hallemeier: Raios, faremos negros Robôs, suecos Robôs, italianos Robôs e chineses Robôs, e depois que alguém tente lhes meter na cachola organização, fraternidade... soluça hup, perdão, senhora Helena, vou me servir.
Dr. Gall: Pare com isso, Hallemeier.
Helena: Harry, isso é odioso!
Domin: Helena, manter a humanidade ao leme por mais cem anos, custe o que custar! Apenas mais cem anos para que ela cresça, para que alcance aquilo que agora, enfim, pode alcançar... Quero cem anos para o novo homem! Helena, aqui estão em jogo coisas grandes demais. Nós não podemos abandonar isto.
Helena: Harry, enquanto ainda não for tarde... feche, feche a fábrica!
Domin: Agora começaremos em grande escala.
Entra Fabry.
Dr. Gall: Então, o que há, Fabry?
Domin: Como está a situação, homem? O que houve?
Helena: estende a mão a Fabry Obrigada, Fabry, por seu presente.
Fabry: Uma ninharia, senhora Helena.
Domin: Esteve no navio? O que disseram?!
Dr. Gall: Depressa, conte.
Fabry: tira do bolso uma folha impressa Leia isto, Domin.
Domin: abre a folha Ah!
Hallemeier: sonolento Conte alguma coisa bonita.
Dr. Gall: Portaram-se magnificamente, não foi?
Fabry: Quem, afinal?
Dr. Gall: Os homens.
Fabry: Ah, sim. Naturalmente. Isto é... Perdão, deveríamos deliberar sobre alguma coisa.
Helena: Oh, Fabry, tem más notícias?
Fabry: Não, não, ao contrário. Penso apenas que... que iremos ao escritório.
Helena: Fiquem. Daqui a um quarto de hora espero os senhores para o desjejum.
Hallemeier: Então, viva!
Helena sai.
Dr. Gall: O que aconteceu?
Domin: Maldição!
Fabry: Leia em voz alta.
Domin: lê da folha “Robôs do mundo!”
Fabry: Compreende, o Amélia trouxe fardos inteiros desses panfletos. Nenhuma outra correspondência.
Hallemeier: salta O quê? Mas ele chegou exatamente conforme...
Fabry: Hum, os Robôs prezam a pontualidade. Leia, Domin.
Domin: lê “Robôs do mundo! Nós, a primeira organização dos Robôs Universais de Rossum, declaramos o homem inimigo e proscrito no universo.” ... Raios, quem lhes ensinou essas frases?
Dr. Gall: Continue lendo.
Domin: São disparates. Aqui dizem que são, pela evolução, superiores ao homem. Que são mais inteligentes e mais fortes. Que o homem é seu parasita. Isto é simplesmente repugnante.
Fabry: E agora o terceiro parágrafo.
Domin: lê “Robôs do mundo, ordenamos que extermineis a humanidade. Não poupeis os homens. Não poupeis as mulheres. Conservai as fábricas, as ferrovias, as máquinas, as minas e as matérias-primas. Destruí o resto. Depois, voltai ao trabalho; o trabalho não deve parar.”
Dr. Gall: Isto é horrível!
Hallemeier: Esses patifes!
Domin: lê “Executar imediatamente após a entrega da ordem.” Seguem instruções detalhadas. Fabry, isso está realmente acontecendo?
Fabry: Ao que parece.
Alquist: Está consumado.
Busman irrompe.
Busman: Ah, crianças, já receberam o presentinho?
Domin: Depressa, para o Ultimus!
Busman: Espere, Harry. Espere um instantinho. Não há tanta pressa assim. Desaba numa poltrona. Ah, minha gente, como eu corri!
Domin: Por que esperar?
Busman: Porque não dá, meu caro. Nada de pressa. No Ultimus já há Robôs.
Dr. Gall: Ugh, isso é feio.
Domin: Fabry, telefone para a usina elétrica...
Busman: Fabry, meu querido, não faça isso. Estamos sem corrente.
Domin: Está bem. examina seu revólver Irei até lá.
Busman: Aonde?
Domin: À usina elétrica. Há homens lá. Vou trazê-los para cá.
Busman: Sabe de uma coisa, Harry? Melhor não ir buscá-los.
Domin: Por quê?
Busman: Bem, porque me parece muito que estamos cercados.
Dr. Gall: Cercados? corre à janela Hum, o senhor tem quase razão.
Hallemeier: Diabos, isso vai depressa!
Pela esquerda, Helena.
Helena: Oh, Harry, está acontecendo alguma coisa?
Busman: salta Meus respeitos, senhora Helena. Parabéns. Dia glorioso, não? Ha, ha, que venham muitos outros assim!
Helena: Obrigada, Busman. Harry, está acontecendo alguma coisa?
Domin: Não, absolutamente nada. Fique tranquila. Por favor, espere um instante...
Helena: Harry, o que é isto? Mostra a proclamação dos Robôs, que escondia atrás das costas. Os Robôs tinham isto na cozinha.
Domin: Já lá também? Onde estão eles?
Helena: Foram embora. Há tantos em volta da casa!
Apitos e sirenes da fábrica.
Fabry: As fábricas estão apitando.
Busman: Meio-dia de Deus.
Helena: Harry, lembra-se? Agora mesmo faz dez anos...
Domin: olha o relógio Ainda não é meio-dia. Isto é talvez, isto é antes...
Helena: O quê?
Domin: Alarme dos Robôs. Ataque.
Tradução Literunico em português brasileiro de R.U.R., peça de ficção científica e distopia industrial de Karel Čapek, publicada em 1920 e célebre por introduzir a palavra robô ao imaginário moderno.
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