Universo da obra
Universo da obra
Escritório central da fábrica Robôs Universais de Rossum. À direita, uma entrada. Pelas janelas da parede frontal, veem-se fileiras intermináveis de edifícios fabris. À esquerda, outras salas da diretoria.
Domin: sentado a uma grande escrivaninha americana, numa cadeira giratória. Sobre a mesa, lâmpada elétrica, telefone, pesos de papel, classificador de cartas etc.; na parede da esquerda, grandes mapas com linhas marítimas e ferroviárias, um grande calendário, relógio que marca pouco antes do meio-dia; na parede da direita, cartazes impressos: “O trabalho mais barato: Robôs de Rossum”; “Robôs tropicais, nova invenção. A unidade, 150 d.”; “Cada qual compre o seu Robô!”; “Quer baratear seus produtos? Encomende os Robôs de Rossum.” Ainda outros mapas, horário de navegação, quadro com registros telegráficos de cotações etc. Em contraste com essa decoração das paredes, há no chão um magnífico tapete turco; à direita, uma mesa redonda, sofá, poltronas de couro de clube e uma biblioteca, na qual, em vez de livros, estão garrafas de vinho e aguardentes. À esquerda, o cofre. Ao lado da mesa de Domin, uma máquina de escrever, na qual escreve a moça Sulla.
Domin: ditando — que não nos responsabilizamos por mercadorias danificadas no transporte. Advertimos vosso capitão, já no carregamento, de que o navio era impróprio para o transporte de Robôs, de modo que a perda da carga não corre por nossa conta. Subscrevemo-nos — por Robôs Universais de Rossum — Pronto?
Sulla: Sim.
Domin: Nova carta. Friedrichswerke, Hamburgo. — Data. — Confirmamos a encomenda de quinze mil Robôs — toca o telefone interno. Domin o levanta e fala nele Alô. — Aqui, a central. — Sim. — Sem dúvida. Mas sim, como sempre. — Naturalmente, passem-lhes um cabo. — Muito bem. — desliga o telefone Onde foi que parei?
Sulla: Confirmamos a encomenda de quinze mil R.
Domin: pensativo Quinze mil R. Quinze mil R.
Marius: entra Senhor diretor, uma dama pede...
Domin: Quem?
Marius: Não sei. Entrega um cartão.
Domin: lê Presidente Glory. — Pois que entre.
Marius: abre a porta Faça favor, senhora.
Entra Helena Gloryová. Marius sai.
Domin: ergue-se Faça favor.
Helena: O senhor diretor central Domin?
Domin: Às suas ordens.
Helena: Venho até o senhor...
Domin: ...com um bilhete do presidente Glory. Isto basta.
Helena: O presidente Glory é meu pai. Sou Helena Gloryová.
Domin: Senhorita Gloryová, é para nós uma honra extraordinária que... que...
Helena: ...que não possam mostrar-me a porta.
Domin: ...que nos seja dado saudar a filha do grande presidente. Peço-lhe, sente-se. Sulla, pode retirar-se. Sulla sai.
Domin: senta-se Em que posso servi-la, senhorita Gloryová?
Helena: Eu vim...
Domin: ...ver nossa fabricação industrial de pessoas. Como todos os visitantes. Pois não, sem cerimônia.
Helena: Pensei que fosse proibido...
Domin: ...entrar na fábrica, naturalmente. Só que todos chegam aqui com o cartão de alguém, senhorita Gloryová.
Helena: E o senhor mostra a todos...?
Domin: Apenas alguma coisa. A fabricação de homens artificiais, senhorita, é segredo industrial.
Helena: Por que não me deixa terminar?
Domin: Peço perdão. Talvez quisesse dizer outra coisa?
Helena: Eu queria apenas perguntar...
Domin: ...se eu, em caráter inteiramente excepcional, não lhe mostraria nossa fábrica. Mas certamente, senhorita Gloryová.
Helena: Como sabe que era isso que eu queria perguntar?
Domin: Todos perguntam a mesma coisa. Levanta-se. Por uma consideração especial, senhorita, mostraremos à senhora mais do que aos outros e... em uma palavra...
Helena: Obrigada.
Domin: Se a senhora se comprometer a não revelar a ninguém nem a menor coisa...
Helena: levanta-se e lhe estende a mão Dou minha palavra de honra.
Domin: Obrigado. Não desejaria, por acaso, retirar o véu?
Helena: Ah, naturalmente, o senhor quer ver... Perdoe-me.
Domin: Como?
Helena: Se me soltasse a mão.
Domin: solta-a Peço perdão.
Helena: retira o véu Quer ver se não sou espiã. Como são cautelosos.
Domin: observa-a, entusiasmado Hum... naturalmente... nós... assim é.
Helena: O senhor não confia em mim?
Domin: Extraordinariamente, senhorita Hele... perdão, senhorita Gloryová. Deveras extraordinariamente encantado... Teve uma boa travessia?
Helena: Sim. Por quê...
Domin: Porque... quero dizer... a senhora ainda é muito jovem.
Helena: Iremos já à fábrica?
Domin: Sim. Imagino: vinte e dois, não?
Helena: Vinte e dois o quê?
Domin: Anos.
Helena: Vinte e um. Por que quer saber?
Domin: Porque... visto que... com entusiasmo Ficará mais tempo, não é?
Helena: Depende do que me mostrar da fabricação.
Domin: Ao diabo a fabricação! Mas certamente, senhorita Gloryová, verá tudo. Por favor, sente-se. Interessar-lhe-ia a história da invenção?
Helena: Sim, por favor. senta-se
Domin: Pois bem. senta-se sobre a escrivaninha, observa Helena arrebatado e recita rapidamente Foi no ano de 1920 que o velho Rossum, grande filósofo, mas então ainda jovem sábio, retirou-se para esta ilha distante a fim de estudar a fauna marinha ponto. Nisso, tentou imitar por síntese química a matéria viva chamada protoplasma, até que de repente descobriu uma substância que se comportava inteiramente como matéria viva, embora fosse de composição química diversa; isso foi no ano de 1932, exatamente quatrocentos e quarenta anos depois da descoberta da América, ufa.
Helena: O senhor sabe isso de cor?
Domin: Sim; fisiologia, senhorita Gloryová, não é meu ofício. Continuo?
Helena: Se quiser.
Domin: solenemente E então, senhorita, o velho Rossum escreveu, entre suas fórmulas químicas, o seguinte: “A natureza encontrou um modo de organizar a matéria viva. Há, porém, outro modo, mais simples, mais maleável e mais rápido, no qual a natureza jamais esbarrou. Esse segundo caminho, pelo qual a evolução da vida poderia ter tomado, descobri-o no dia de hoje.” Imagine, senhorita, que ele escrevia essas grandes palavras diante de um escarro de uma certa geleia coloidal que nem um cão comeria. Imagine-o sentado diante de um tubo de ensaio, pensando em como dele cresceria toda a árvore da vida, como dele sairiam todos os animais, a começar pelo rotífero e a acabar... a acabar no próprio homem. Um homem feito de outra matéria que não a nossa. Senhorita Gloryová, foi um momento imenso.
Helena: Continue.
Domin: Continuar? Agora tratava-se de tirar a vida de dentro do tubo de ensaio, de acelerar a evolução e formar alguns órgãos, ossos e nervos, e isto e aquilo, e descobrir certas substâncias, catalisadores, enzimas, hormônios e assim por diante; em suma, compreende?
Helena: N... n... não sei. Penso que muito pouco.
Domin: Eu, absolutamente nada. Sabe, com a ajuda dessas aguazinhas, ele podia fazer o que quisesse. Podia, por exemplo, obter uma medusa com cérebro socrático, ou uma minhoca de cinquenta metros de comprimento. Mas, como não tinha um pingo de humor, meteu na cabeça que faria um vertebrado normal, ou talvez um homem. E assim pôs mãos à obra.
Helena: A que obra?
Domin: À imitação da natureza. Primeiro tentou fazer um cão artificial. Isso lhe custou uma série de anos; saiu daí uma coisa parecida com um bezerro raquítico, e morreu em poucos dias. Vou mostrá-lo à senhora no museu. E depois o velho Rossum já se dedicou à criação do homem.
Pausa.
Helena: E isso eu não posso revelar a ninguém?
Domin: A ninguém no mundo.
Helena: Pena que já esteja em todos os livros escolares.
Domin: Pena. Salta da mesa e senta-se ao lado de Helena. Mas sabe o que não está nos livros escolares? Bate com o dedo na testa. Que o velho Rossum era um louco assombroso. A sério, senhorita Gloryová; mas guarde isto para si. Aquele velho excêntrico queria, de fato, fabricar pessoas.
Helena: Mas vocês fabricam pessoas!
Domin: Aproximadamente, senhorita Helena. Mas o velho Rossum queria dizer isso ao pé da letra. Sabe, ele queria, de certo modo, depor Deus cientificamente. Era um materialista terrível, e por isso fazia tudo aquilo. Não pretendia mais nada senão apresentar a prova de que não havia necessidade de nenhum Senhor Deus. Por isso meteu na cabeça fazer um homem exatamente igual a nós. Conhece um pouco de anatomia?
Helena: Só... muito pouco.
Domin: Eu também. Imagine que ele meteu na cabeça fabricar tudo, até a última glândula, como no corpo humano. Apêndice, amígdalas, umbigo, puras inutilidades. Até mesmo... hum... até as glândulas sexuais.
Helena: Mas essas, afinal... essas, afinal...
Domin: ...não são inúteis, eu sei. Mas, se as pessoas devem ser fabricadas artificialmente, então não há... hum... nenhuma necessidade...
Helena: Compreendo.
Domin: Vou mostrar-lhe no museu o que ele conseguiu remendar em dez anos. Devia ser um homem; aquilo viveu três dias inteiros. O velho Rossum não tinha o menor gosto. Era horrível. Era horrível o que ele fez. Mas tinha por dentro tudo o que tem um homem. Realmente, um trabalho prodigiosamente minucioso. E foi então que veio para cá o engenheiro Rossum, sobrinho do velho. Uma cabeça genial, senhorita Gloryová. Mal viu o que o velho andava fazendo, disse: “É absurdo fabricar um homem em dez anos. Se não o fabricares mais depressa que a natureza, então que vá ao diabo toda essa tralha.” E pôs-se ele mesmo à anatomia.
Helena: Nos livros escolares está diferente.
Domin: levanta-se Nos livros escolares há publicidade paga e, além disso, disparates. Lá se diz, por exemplo, que os Robôs foram inventados pelo velho senhor. Ora, o velho senhor bem podia ir para a universidade, mas de fabricação industrial não tinha a menor noção. Pensava que faria pessoas de verdade, talvez uns novos índios, docentes ou idiotas, entende? E só o jovem Rossum teve a ideia de fazer disso máquinas de trabalho vivas e inteligentes. O que há nos livros escolares sobre a colaboração dos dois grandes Rossum é conversa fiada. Os dois brigavam de modo atroz. O velho ateu não tinha um pingo de compreensão pela indústria; por fim, o jovem trancou-o em algum laboratório, para que ali se entretivesse com seus grandes abortos, e começou a tratar da coisa sozinho, à maneira de engenheiro. O velho Rossum literalmente o amaldiçoou e, até morrer, ainda sujou as mãos com mais dois monstros fisiológicos, até que, por fim, o encontraram morto no laboratório. Eis toda a história.
Helena: E o jovem, então?
Domin: O jovem Rossum, senhorita, era uma nova era. A era da produção depois da era do conhecimento. Quando examinou a anatomia humana, viu logo que era complicada demais e que um bom engenheiro a faria de modo mais simples. Começou, pois, a refazer a anatomia e a experimentar o que podia ser omitido ou simplificado... Em suma, senhorita Gloryová, isto a aborrece?
Helena: Não; ao contrário, é terrivelmente interessante.
Domin: Pois bem, o jovem Rossum disse a si mesmo: o homem é algo que, digamos, sente alegria, toca violino, quer sair para passear e, em geral, precisa fazer uma porção de coisas que... que na verdade são inúteis.
Helena: Ora!
Domin: Espere. Que são inúteis quando ele tem, por exemplo, de tecer ou somar. Um motor a óleo não deve ter franjas nem ornamentos, senhorita Gloryová. E fabricar operários artificiais é o mesmo que fabricar motores a óleo. A fabricação deve ser a mais simples possível, e o produto, praticamente o melhor. Que pensa a senhora: qual é, na prática, o melhor operário?
Helena: O melhor? Talvez aquele que... que... quando é honrado... e dedicado.
Domin: Não; é o mais barato. Aquele que tem menos necessidades. O jovem Rossum inventou o operário com o menor número de necessidades. Teve de simplificá-lo. Eliminou tudo o que não serve diretamente ao trabalho. Com isso, na verdade, eliminou o homem e fez o Robô. Cara senhorita Gloryová, os Robôs não são pessoas. São mecanicamente mais perfeitos que nós, têm uma inteligência racional assombrosa, mas não têm alma. Oh, senhorita Gloryová, o produto do engenheiro é tecnicamente mais apurado que o produto da natureza.
Helena: Diz-se que o homem é produto de Deus.
Domin: Tanto pior. Deus não tinha a menor noção da técnica moderna. Acreditaria a senhora que o finado jovem Rossum resolveu fazer as vezes de Deus?
Helena: Como, por favor?
Domin: Começou a fabricar Super-Robôs. Gigantes trabalhadores. Tentou com figuras de quatro metros, mas a senhora não acreditaria como aqueles mamutes se quebravam.
Helena: Quebravam?
Domin: Sim. Do nada, rachava-lhes uma perna ou alguma coisa. Nosso planeta, ao que parece, é um pouco pequeno para gigantes. Agora fazemos apenas Robôs de tamanho natural e de acabamento humano muito decente.
Helena: Vi os primeiros Robôs lá entre nós. A municipalidade os comprou... quero dizer, tomou-os para o trabalho...
Domin: Comprou, cara senhorita. Robôs se compram.
Helena: ...obteve-os como varredores. Eu os vi varrendo. São tão estranhos, tão silenciosos.
Domin: Viu minha datilógrafa?
Helena: Não reparei.
Domin: toca a campainha Sabe, a sociedade anônima dos Robôs Universais de Rossum ainda não produz mercadoria uniforme. Temos Robôs mais finos e mais grosseiros. Os melhores talvez vivam vinte anos.
Helena: Depois perecem?
Domin: Sim, gastam-se.
Entra Sulla.
Domin: Sulla, mostre-se à senhorita Gloryová.
Helena: levanta-se e lhe estende a mão Muito prazer. A senhorita deve sentir-se terrivelmente triste tão longe do mundo, não é?
Sulla: Não conheço isso, senhorita Gloryová. Faça o favor de sentar-se, por favor.
Helena: senta-se De onde é, senhorita?
Sulla: Daqui, da fábrica.
Helena: Ah, a senhorita nasceu aqui?
Sulla: Sim, fui feita aqui.
Helena: salta O quê?
Domin: ri Sulla não é pessoa, senhorita; Sulla é Robô.
Helena: Peço perdão...
Domin: põe a mão no ombro de Sulla Sulla não se ofende. Veja, senhorita Gloryová, que pele fazemos. Toque-lhe o rosto.
Helena: Oh, não, não!
Domin: A senhora não perceberia que é feita de outra matéria que não a nossa. Veja, ela tem até a penugem típica das louras. Só os olhos são um pouquinho... Mas, em compensação, os cabelos! Vire-se, Sulla!
Helena: Pare com isso!
Domin: Converse com nossa visitante, Sulla. É uma visita rara.
Sulla: Por favor, senhorita, sente-se. ambas se sentam Teve uma boa travessia?
Helena: Sim... sem... sem dúvida.
Sulla: Não volte pelo Amélia, senhorita Gloryová. O barômetro está caindo muito, para 705. Espere pelo Pensilvânia; é um navio muito bom, muito forte.
Domin: Quanto?
Sulla: Vinte nós por hora. Tonelagem, doze mil.
Domin: ri Basta, Sulla, basta. Mostre-nos como sabe francês.
Helena: A senhorita sabe francês?
Sulla: Sei quatro línguas. Escrevo Dear Sir! Monsieur! Geehrter Herr! Prezado senhor!
Helena: salta Isto é uma farsa! O senhor é um charlatão! Sulla não é Robô; Sulla é uma moça como eu! Sulla, isto é infame... por que representa semelhante comédia?
Sulla: Eu sou Robô.
Helena: Não, não, a senhorita mente! Oh, Sulla, perdoe-me, eu sei... eles a obrigaram a fazer propaganda para eles! Sulla, a senhorita é uma moça como eu, não é? Diga!
Domin: Lamento, senhorita Gloryová. Sulla é Robô.
Helena: O senhor mente!
Domin: ergue-se Como disse? ... toca a campainha Perdoe-me, senhorita; então preciso convencê-la.
Entra Marius.
Domin: Marius, leve Sulla à sala de dissecação, para que a abram. Depressa!
Helena: Para onde?
Domin: Para a sala de dissecação. Depois que a cortarem, a senhora irá vê-la.
Helena: Não irei.
Domin: Perdão, a senhora falou em mentira.
Helena: O senhor quer mandá-la matar?
Domin: Máquinas não se matam.
Helena: abraça Sulla Não tenha medo, Sulla, eu não deixarei! Diga, minha querida, todos são assim tão brutais com você? Você não deve permitir isso, ouviu? Não deve, Sulla!
Sulla: Eu sou Robô.
Helena: Não importa. Os Robôs são pessoas tão boas quanto nós. Sulla, você se deixaria cortar?
Sulla: Sim.
Helena: Oh, você não tem medo da morte?
Sulla: Não conheço, senhorita Gloryová.
Helena: Sabe o que aconteceria depois com você?
Sulla: Sim, eu deixaria de me mover.
Helena: Isso é horrível!
Domin: Marius, diga à senhorita o que você é.
Marius: Robô Marius.
Domin: Levaria Sulla à sala de dissecação?
Marius: Sim.
Domin: Não teria pena dela?
Marius: Não conheço.
Domin: O que aconteceria com ela?
Marius: Deixaria de se mover. Poriam-na no triturador.
Domin: Isso é a morte, Marius. Tem medo da morte?
Marius: Não.
Domin: Está vendo, senhorita Gloryová. Os Robôs não se apegam à vida. É que não têm com quê. Não têm prazeres. São menos que a erva.
Helena: Oh, pare! Ao menos mande-os embora!
Domin: Marius, Sulla, podem retirar-se.
Sulla e Marius saem.
Helena: Eles são horríveis! É odioso o que vocês fazem!
Domin: Por que odioso?
Helena: Não sei. Por que... por que lhe deram o nome de Sulla?
Domin: É um nome feio?
Helena: É nome masculino. Sulla foi um general romano.
Domin: Oh, pensávamos que Marius e Sulla fossem amantes.
Helena: Não, Marius e Sulla foram generais e combateram um contra o outro no ano... no ano... Já não sei.
Domin: Venha aqui à janela. O que vê?
Helena: Pedreiros.
Domin: São Robôs. Todos os nossos operários são Robôs. E ali embaixo, vê alguma coisa?
Helena: Algum escritório.
Domin: A contabilidade. E nela...
Helena: ...cheia de funcionários.
Domin: São Robôs. Todos os nossos funcionários são Robôs. Quando vir a fábrica...
Nesse momento irrompem os apitos e as sirenes da fábrica.
Domin: Meio-dia. Os Robôs não sabem quando parar de trabalhar. Às duas horas eu lhe mostrarei as masseiras.
Helena: Que masseiras?
Domin: seco Amassadeiras para a massa. Em cada uma se mistura substância para mil Robôs de uma vez. Depois, as cubas para fígados, cérebros e assim por diante. Em seguida, verá a fábrica de ossos. Depois lhe mostrarei a fiação.
Helena: Que fiação?
Domin: A fiação de nervos. A fiação de veias. A fiação onde correm, de uma só vez, quilômetros inteiros de tubos digestivos. Depois vem a oficina de montagem, onde tudo isso se junta, entende, como automóveis. Cada operário prende apenas uma peça, e a coisa segue automaticamente para o segundo, o terceiro, até o infinito. É o espetáculo mais interessante. Depois vem a secagem e o depósito, onde os produtos frescos trabalham.
Helena: Pelo amor de Deus, precisam trabalhar imediatamente?
Domin: Perdão. Trabalham como trabalha um móvel novo. Habituam-se à existência. De certo modo, por dentro, soldam-se, ou coisa assim. Muito neles até cresce de novo. Compreende, precisamos deixar um pouco de espaço para o desenvolvimento natural. E, enquanto isso, os produtos recebem acabamento.
Helena: O que é isso?
Domin: Algo como, nos homens, a “escola”. Aprendem a falar, escrever e contar. Têm, de fato, uma memória assombrosa. Se a senhora lhes lesse uma enciclopédia de vinte volumes, repetiriam tudo em ordem. Nunca inventam nada de novo. Poderiam muito bem ensinar nas universidades. Depois são classificados e enviados. Quinze mil unidades por dia, sem contar a porcentagem constante de defeituosos, que se lançam ao triturador... e assim por diante, e assim por diante.
Helena: Está zangado comigo?
Domin: Mas Deus me livre! Penso apenas que... que poderíamos falar de outras coisas. Somos apenas um punhado aqui, entre centenas de milhares de Robôs, e nenhuma mulher. Falamos só de fabricação, o dia inteiro, todos os dias... Somos como amaldiçoados, senhorita Gloryová.
Helena: Sinto tanto por ter dito que... que... que o senhor mente...
Batidas à porta.
Domin: Entrem, rapazes.
Pela esquerda entram o eng. Fabry, o dr. Gall, o dr. Hallemeier e o construtor Alquist.
Dr. Gall: Perdão, estamos interrompendo?
Domin: Venham cá. Senhorita Gloryová, estes são Alquist, Fabry, Gall, Hallemeier. A filha do presidente Glory.
Helena: embaraçada Bom dia.
Fabry: Não fazíamos ideia...
Dr. Gall: Infinitamente honrados...
Alquist: Seja bem-vinda, senhorita Gloryová.
Pela direita irrompe Busman.
Busman: Alô, o que há por aqui?
Domin: Venha cá, Busman. Este é o nosso Busman, senhorita. A filha do presidente Glory.
Helena: Muito prazer.
Busman: Ora, que glória! Senhorita Gloryová, podemos telegrafar aos jornais que a senhora se dignou visitar-nos...?
Helena: Não, não, por favor!
Domin: Por favor, senhorita, sente-se.
Fabry, Busman e Dr. Gall aproximam poltronas.
Fabry: Por favor...
Busman: Faça o obséquio...
Dr. Gall: Perdão...
Alquist: Senhorita Gloryová, como foi sua viagem?
Dr. Gall: Ficará conosco por mais tempo?
Fabry: Que diz da fábrica, senhorita Gloryová?
Hallemeier: A senhora veio no Amélia?
Domin: Silêncio, deixem a senhorita Gloryová falar.
Helena: a Domin De que devo falar com eles?
Domin: com surpresa Do que quiser.
Helena: Devo... posso falar com inteira franqueza?
Domin: Mas naturalmente.
Helena: hesita; depois, desesperadamente decidida Digam-me: vocês nunca se sentem humilhados pelo modo como os tratam?
Fabry: Quem, por favor?
Helena: Todos os homens.
Todos se entreolham, atônitos.
Alquist: A nós?
Dr. Gall: Por que pensa isso?
Hallemeier: Por cem trovões!
Busman: Mas Deus nos livre, senhorita Gloryová!
Helena: Não sentem que poderiam existir melhor?
Dr. Gall: Depende, senhorita. Como quer dizer?
Helena: Penso que... explode ...que isto é odioso! Que é terrível! Levanta-se. Toda a Europa fala do que acontece aqui com vocês! Por isso vim, para ver com meus próprios olhos, e é mil vezes pior do que qualquer um imaginava! Como podem suportar isto?
Alquist: Suportar o quê?
Helena: A sua condição. Pelo amor de Deus, vocês são pessoas como nós, como toda a Europa, como o mundo inteiro! É escandaloso, é indigno o modo como vivem!
Busman: Pelo Senhor, senhorita!
Fabry: Não, rapazes, ela tem alguma razão. De fato, vivemos aqui como índios.
Helena: Pior que índios! Posso, oh, posso chamá-los de irmãos?
Busman: Mas, meu Deus, por que não?
Helena: Irmãos, não vim como filha do presidente. Vim em nome da Liga da Humanidade. Irmãos, a Liga da Humanidade já tem mais de duzentos mil membros. Duzentas mil pessoas estão ao lado de vocês e lhes oferecem auxílio.
Busman: Duzentas mil pessoas, ora vejam, isso já é respeitável, isso é mesmo esplêndido.
Fabry: Eu sempre lhes digo: nada como a velha Europa. Vejam, ela não se esqueceu de nós. Oferece-nos auxílio.
Dr. Gall: Que auxílio? Teatro?
Hallemeier: Orquestra?
Helena: Mais que isso.
Alquist: A senhora mesma?
Helena: Oh, que importo eu! Ficarei enquanto for necessário.
Busman: Meu Deus, que alegria!
Alquist: Domin, vou preparar para a senhorita o melhor quarto.
Domin: Espere um instante. Receio que... que a senhorita Gloryová ainda não tenha terminado.
Helena: Não, não terminei. A menos que me fechem a boca à força.
Dr. Gall: Harry, atreva-se!
Helena: Obrigada. Eu sabia que me protegeriam.
Domin: Perdão, senhorita Gloryová. Tem certeza de que está falando com Robôs?
Helena: sobressalta-se Com quem mais?
Domin: Lamento. Estes senhores são, na verdade, pessoas como a senhora. Como toda a Europa.
Helena: aos outros Os senhores não são Robôs?
Busman: gargalha Deus nos livre!
Hallemeier: Ora, Robôs!
Dr. Gall: rindo Muito obrigado!
Helena: Mas... isso não é possível!
Fabry: Por minha honra, senhorita, não somos Robôs.
Helena: a Domin Por que então me disse que todos os seus funcionários são Robôs?
Domin: Sim, os funcionários. Mas não os diretores. Permita, senhorita Gloryová: engenheiro Fabry, diretor técnico-geral dos Robôs Universais de Rossum. Doutor Gall, chefe do departamento fisiológico e de pesquisa. Doutor Hallemeier, chefe do instituto de psicologia e educação dos Robôs. Cônsul Busman, diretor comercial-geral, e o construtor Alquist, chefe das construções dos Robôs Universais de Rossum.
Helena: Perdoem-me, senhores, por... por... Isto que fiz é horrível?
Alquist: Mas Deus nos livre, senhorita Gloryová. Por favor, sente-se.
Helena: senta-se Sou uma moça tola. Agora... agora os senhores vão mandar-me de volta no primeiro navio.
Dr. Gall: Por nada neste mundo, senhorita. Por que haveríamos de mandá-la embora?
Helena: Porque agora já sabem... porque... porque eu lhes incitaria os Robôs à revolta.
Domin: Cara senhorita Gloryová, já passaram por aqui centenas de salvadores e profetas. Cada navio traz algum. Missionários, anarquistas, Exército da Salvação, de tudo. É assombroso, sabe, quantas igrejas e quantos loucos há no mundo.
Helena: E os senhores os deixam falar aos Robôs?
Domin: Por que não? Até agora todos desistiram. Os Robôs se lembram de tudo, mas nada além disso. Nem sequer riem do que os homens dizem. De fato, chega a ser inacreditável. Se isso a diverte, cara senhorita, conduzo-a ao depósito de Robôs. Há ali uns trezentos mil.
Busman: Trezentos e quarenta e sete mil.
Domin: Muito bem. A senhora pode lhes dizer o que quiser. Pode ler-lhes a Bíblia, os logaritmos ou o que bem entender. Pode até pregar-lhes sobre os direitos humanos.
Helena: Oh, penso que... se lhes fosse mostrado um pouco de amor...
Fabry: Impossível, senhorita Gloryová. Nada é mais estranho ao homem que um Robô.
Helena: Por que então os fabricam?
Busman: Ha, ha, ha, essa é boa! Por que se fabricam Robôs!
Fabry: Para o trabalho, senhorita. Um Robô substitui dois operários e meio. A máquina humana, senhorita Gloryová, era espantosamente imperfeita. Algum dia, enfim, tinha de ser eliminada.
Busman: Era cara demais.
Fabry: Rendia pouco. Já não podia bastar à técnica moderna. E, em segundo lugar... em segundo lugar... é um grande progresso que... perdão.
Helena: O quê?
Fabry: Peço perdão. É um grande progresso gerar por máquina. É mais cômodo e mais rápido. Todo aceleramento é progresso, senhorita. A natureza não tinha a menor noção do ritmo moderno de trabalho. Toda a infância, tecnicamente falando, é puro absurdo. Simplesmente tempo perdido. Um desperdício insustentável de tempo, senhorita Gloryová. E, em terceiro lugar...
Helena: Oh, pare!
Fabry: Como queira. Permita-me: o que pretende, afinal, essa sua Liga... Liga... Liga da Humanidade?
Helena: Deve sobretudo... sobretudo proteger os Robôs e... e garantir-lhes... bom tratamento.
Fabry: Não é mau objetivo. Deve-se tratar bem as máquinas. Palavra de honra, isso eu aprovo. Não gosto de coisas danificadas. Por favor, senhorita Gloryová, inscreva-nos a todos como contribuintes, como membros efetivos, como fundadores dessa sua Liga!
Helena: Não, o senhor não me compreende. Nós queremos... sobretudo... queremos libertar os Robôs!
Hallemeier: Como, por favor?
Helena: Deve-se tratá-los... tratá-los... como pessoas.
Hallemeier: Ah. Deveriam votar, talvez? Por acaso também deveriam receber salário?
Helena: Naturalmente que sim!
Hallemeier: Vejamos só. E que fariam com ele, por favor?
Helena: Comprariam... o que precisam... o que lhes desse prazer.
Hallemeier: Isso é muito bonito, senhorita; só que nada dá prazer aos Robôs. Raios, o que haveriam de comprar? Pode alimentá-los com abacaxis, palha, o que quiser; para eles dá no mesmo, não têm gosto algum. Não se interessam por coisa nenhuma, senhorita Gloryová. Diabos, ninguém jamais viu um Robô sorrir.
Helena: Por que... por que... por que não os fazem mais felizes?
Hallemeier: Isso não é possível, senhorita Gloryová. São apenas Robôs. Sem vontade própria. Sem paixões. Sem história. Sem alma.
Helena: Sem amor e sem revolta?
Hallemeier: Naturalmente. Os Robôs não amam nada, nem a si mesmos. E revolta? Não sei; raramente, só de tempos em tempos...
Helena: O quê?
Hallemeier: Nada, na verdade. Às vezes, de certo modo, eles perdem o juízo. Algo como epilepsia, entende? Chama-se a isso espasmo dos Robôs. De repente algum deles larga tudo o que tem nas mãos, fica parado, range os dentes... e precisa ir para o triturador. Provavelmente uma perturbação do organismo.
Domin: Defeito de fabricação.
Helena: Não, não, isso é alma!
Fabry: A senhora pensa que a alma começa pelo ranger dos dentes?
Domin: Isso será eliminado, senhorita Gloryová. O doutor Gall está justamente fazendo algumas experiências.
Dr. Gall: Não com isso, Domin; agora estou fazendo nervos para a dor.
Helena: Nervos para a dor?
Dr. Gall: Sim. Os Robôs quase não sentem dores físicas. Sabe, o finado jovem Rossum limitou demais o sistema nervoso. Isso não se mostrou eficaz. Precisamos introduzir o sofrimento.
Helena: Por quê... por quê... Se não lhes dão alma, por que querem lhes dar dor?
Dr. Gall: Por razões industriais, senhorita Gloryová. Às vezes o Robô se danifica a si mesmo, porque não lhe dói; mete a mão numa máquina, quebra um dedo, arrebenta a cabeça, para ele tanto faz. Precisamos dar-lhes dor; é uma proteção automática contra acidentes.
Helena: Serão mais felizes quando sentirem dor?
Dr. Gall: Ao contrário; mas serão tecnicamente mais perfeitos.
Helena: Por que não lhes criam uma alma?
Dr. Gall: Isso não está em nosso poder.
Fabry: Isso agora não é de nosso interesse.
Busman: Isso encareceria a produção. Santo Deus, bela dama, nós os fabricamos tão barato! Cento e vinte dólares a unidade vestida, e há quinze anos custava dez mil! Há cinco anos comprávamos roupas para eles; hoje temos nossas próprias tecelagens e ainda expedimos tecidinhos cinco vezes mais baratos que outras fábricas. Por favor, senhorita Gloryová, quanto paga pelo metro de linho?
Helena: Não sei... realmente... esqueci.
Busman: Minha nossa, e depois quer fundar a Liga da Humanidade! Já custa apenas um terço, senhorita; todos os preços estão hoje reduzidos a um terço e ainda baixarão, baixarão, baixarão, até... assim. Hein?
Helena: Não compreendo.
Busman: Ora, senhorita, isso quer dizer que o trabalho caiu de preço! Veja só: um Robô, com alimento e tudo, custa três quartos de centavo por hora! É até engraçado, senhorita: todas as fábricas estouram como bolotas ou compram Robôs às pressas para baratear a produção.
Helena: Sim, e lançam os operários à rua.
Busman: Ha, ha, naturalmente! Mas nós, bondade divina, nós lançamos, por ora, quinhentos mil Robôs tropicais nos pampas argentinos para cultivar trigo. Faça-me a gentileza: quanto custa aí uma libra de pão?
Helena: Não faço ideia.
Busman: Está vendo; agora custa dois centavos nessa sua boa e velha Europa; mas esse é o nosso pãozinho, entende? Dois centavos a libra de pão; e a Liga da Humanidade nem suspeita disso! Ha, ha, senhorita Gloryová, a senhora não sabe o que é uma fatia cara demais. Para a cultura e assim por diante. Mas daqui a cinco anos, ora, aposte comigo!
Helena: O quê?
Busman: Que daqui a cinco anos os preços de tudo estarão em zero vírgula dez. Minha gente, daqui a cinco anos estaremos afogados em trigo e em tudo o mais.
Alquist: Sim, e todos os operários do mundo estarão sem trabalho.
Domin: levanta-se Estarão, Alquist. Estarão, senhorita Gloryová. Mas dentro de dez anos os Robôs Universais de Rossum produzirão tanto trigo, tantos tecidos, tanta coisa de tudo, que diremos: as coisas já não têm preço. Agora, cada um tome quanto precisar. Não há miséria. Sim, estarão sem trabalho. Mas então já não haverá trabalho algum. Tudo será feito pelas máquinas vivas. O homem fará apenas aquilo que ama. Viverá somente para se aperfeiçoar.
Helena: levanta-se Será assim?
Domin: Será. Não pode ser de outro modo. Antes disso, talvez venham coisas terríveis, senhorita Gloryová. Simplesmente não se pode evitá-las. Mas depois cessará a servidão do homem ao homem e a escravidão do homem à matéria. Ninguém mais pagará o pão com a vida e com o ódio. Tu já não és operário, tu já não és escrevente; tu já não cavas carvão, e tu não ficas junto à máquina alheia. Já não gastarás tua alma no trabalho que amaldiçoavas!
Alquist: Domin, Domin! Isso que o senhor diz parece demais com o paraíso. Domin, havia algo de bom em servir e algo de grande na humilhação. Ah, Harry, havia não sei que virtude no trabalho e no cansaço.
Domin: Talvez houvesse. Mas não podemos contar com aquilo que se perde quando refazemos o mundo desde Adão. Adão, Adão! já não comerás o teu pão com o suor do teu rosto; já não conhecerás fome nem sede, cansaço nem humilhação; voltarás ao paraíso, onde te alimentava a mão do Senhor. Serás livre e soberano; não terás outra tarefa, outro trabalho, outra preocupação senão aperfeiçoar a ti mesmo. Serás senhor da criação.
Helena: O senhor me confundiu. Sou uma moça insensata. Eu gostaria... gostaria de acreditar nisso.
Dr. Gall: A senhorita é mais jovem que nós, senhorita Gloryová. Há de ver tudo isso.
Hallemeier: Assim é. Penso que a senhorita Gloryová poderia tomar o desjejum conosco.
Dr. Gall: Naturalmente! Domin, peça por todos nós.
Domin: Senhorita Gloryová, conceda-nos essa honra.
Helena: Mas isso... Como poderia?
Fabry: Pela Liga da Humanidade, senhorita.
Busman: E em sua honra.
Helena: Ah, nesse caso... talvez...
Fabry: Então, viva! Senhorita Gloryová, perdoe-nos por cinco minutos.
Dr. Gall: Perdão.
Busman: Pelo amor de Deus, preciso telegrafar...
Hallemeier: Raios, e eu me esqueci...
Todos, exceto Domin, precipitam-se para fora.
Helena: Por que todos foram embora?
Domin: Cozinhar, senhorita Gloryová.
Helena: Cozinhar o quê?
Domin: O desjejum, senhorita Gloryová. Os Robôs cozinham para nós e... e... como não têm paladar algum, não é exatamente... Hallemeier, por exemplo, grelha muito bem. E Gall sabe fazer certo molho, e Busman entende de omelete...
Helena: Pelo amor de Deus, isto é um banquete! E o que sabe fazer o senhor... o construtor?
Domin: Alquist? Nada. Apenas arruma a mesa e... e Fabry arranja um pouco de fruta. Cozinha muito modesta, senhorita Gloryová.
Helena: Eu queria lhe perguntar...
Domin: Também eu queria lhe perguntar uma coisa. Põe o relógio sobre a mesa. Cinco minutos.
Helena: Perguntar o quê?
Domin: Perdão, a senhora perguntou primeiro.
Helena: Talvez seja tolice minha, mas... Por que fabricam Robôs femininos, quando... quando...
Domin: ...quando neles, hum, quando para eles o sexo não tem importância?
Helena: Sim.
Domin: Há certa procura, entende? Criadas, vendedoras, datilógrafas... As pessoas estão habituadas a isso.
Helena: E... e diga-me, os Robôs... e as Robôs femininas... entre si... são absolutamente...
Domin: Absolutamente indiferentes, cara senhorita. Não há nem vestígio de qualquer inclinação.
Helena: Oh, isso é... horrível!
Domin: Por quê?
Helena: É... é... tão antinatural! A gente nem sabe se deve, por isso, detestá-los, ou... invejá-los... ou talvez...
Domin: ...ter pena deles.
Helena: É o mais provável! Não, pare! O que queria me perguntar?
Domin: Eu gostaria de perguntar, senhorita Gloryová, se não quer casar-se comigo.
Helena: Casar-se como?
Domin: Como marido.
Helena: Não! Que ideia lhe deu?
Domin: olha o relógio Ainda três minutos. Se não se casar comigo, terá de se casar com um dos outros cinco.
Helena: Mas Deus me livre! Por que eu me casaria com ele?
Domin: Porque todos a pedirão, um depois do outro.
Helena: Como poderiam se atrever?
Domin: Lamento muitíssimo, senhorita Gloryová. Parece que se apaixonaram pela senhora.
Helena: Por favor, não deixe que façam isso! Eu... eu parto imediatamente.
Domin: Helena, por acaso lhes causaria tamanha tristeza, recusando-os?
Helena: Mas afinal... afinal, não posso casar-me com os seis!
Domin: Não; mas ao menos com um. Se não me quer, então com Fabry.
Helena: Não quero.
Domin: Com o doutor Gall.
Helena: Não, não, cale-se! Não quero nenhum!
Domin: Ainda dois minutos.
Helena: Isto é horrível! Case-se com uma Robô feminino.
Domin: Não é mulher.
Helena: Oh, só isso lhes falta! Penso que... que o senhor se casaria com qualquer uma que viesse para cá.
Domin: Já vieram algumas, Helena.
Helena: Jovens?
Domin: Jovens.
Helena: Por que não se casou com nenhuma?
Domin: Porque não perdi a cabeça. Até hoje. Assim que a senhora tirou o véu.
Helena: ...Eu sei.
Domin: Ainda um minuto.
Helena: Mas eu não quero, pelo amor de Deus!
Domin: põe-lhe ambas as mãos nos ombros Ainda um minuto. Ou me diga nos olhos alguma coisa terrivelmente má, e então eu a deixarei. Ou... ou...
Helena: O senhor é um bruto!
Domin: Isso não é nada. Um homem deve ser um pouco bruto. Faz parte.
Helena: O senhor é louco!
Domin: O homem deve ser um pouco louco, Helena. É o que ele tem de melhor.
Helena: O senhor é... o senhor é... ah, Deus!
Domin: Está vendo. Acabou?
Helena: Não, não! Por favor, solte-me! O senhor vai me esmagar!
Domin: A última palavra, Helena.
Helena: resistindo Por nada neste mundo... Mas, Harry!
Batidas à porta. Entram Busman, dr. Gall e Hallemeier em aventais de cozinha. Fabry traz um buquê, e Alquist, um guardanapo debaixo do braço.
Domin: Já assaram tudo?
Busman: solenemente Sim.
Domin: Nós também.
Tradução Literunico em português brasileiro de R.U.R., peça de ficção científica e distopia industrial de Karel Čapek, publicada em 1920 e célebre por introduzir a palavra robô ao imaginário moderno.
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