Universo da obra
Universo da obra
Um dos laboratórios experimentais da fábrica. Quando se abrem as portas ao fundo, vê-se uma fileira interminável de outros laboratórios. À esquerda, uma janela; à direita, porta para a sala de dissecação. Junto à parede da esquerda, uma longa mesa de trabalho com incontáveis tubos de ensaio, balões, bicos de gás, substâncias químicas e um termostato menor; diante da janela, um aparelho microscópico com uma esfera de vidro. Sobre a mesa pende uma fileira de lâmpadas acesas. À direita, uma escrivaninha com grandes livros; sobre ela, uma lâmpada acesa. Armários com instrumentos. No canto esquerdo, uma pia e, acima dela, um espelhinho; no canto direito, um sofá.
À escrivaninha está sentado Alquist, com a cabeça apoiada nas mãos.
Alquist: folheia um livro Não encontrarei? Não compreenderei? Não aprenderei? Ciência perdida! Oh, por que não escreveram tudo! Gall, Gall, como se faziam os Robôs? Hallemeier, Fabry, Domin, por que levaram tanta coisa em suas cabeças? Se ao menos tivessem deixado um vestígio do segredo de Rossum! Oh! fecha o livro com força Em vão! Os livros já não falam. Estão mudos como tudo. Morreram, morreram junto com os homens! Não procure! levanta-se e vai até a janela, que abre Outra vez a noite. Se eu pudesse dormir! Dormir, sonhar, ver homens... Como? Ainda há estrelas? Para que servem as estrelas, se não há homens? Oh, Deus, por acaso não se apagaram? Refresca, ah, refresca minha fronte, velha noite! Divina, graciosa, como eras outrora... Noite, que queres aqui? Não há amantes, não há sonhos; oh, ama, morto é o sono sem sonhos; já não santificarás as preces de ninguém; não abençoarás, mãe, corações palpitantes de amor. Não há amor. Helena, Helena, Helena! afasta-se da janela, examina os tubos de ensaio que retirou do termostato Outra vez nada! Em vão! Que fazer com isto? quebra um tubo de ensaio Está tudo errado! Vocês veem que eu já não posso. escuta junto à janela Máquinas, sempre essas máquinas! Robôs, parem-nas! Pensam que arrancarão vida delas à força? Oh, não suporto isso! fecha a janela Não; não, deves procurar, deves viver... Se ao menos eu não fosse tão velho! Estou envelhecendo demais? olha-se no espelho Rosto, pobre rosto! Imagem do último homem! Mostra-te, mostra-te; há tanto tempo não vejo um rosto humano! Um sorriso humano! Como? Isto há de ser um sorriso? Estes dentes amarelos, batendo? Olhos, por que piscais assim? Ah, ah, são lágrimas de velho, ide embora! Já não sabeis reter em vós a própria umidade, envergonhai-vos! E vós, lábios frouxos, azulados, que balbuciais? Como tremes, queixo manchado? Isto é o último homem? afasta-se Não quero mais ver ninguém! senta-se à mesa Não, não, apenas procurar! Fórmulas malditas, ganhai vida! folheia Não encontrarei? Não compreenderei? Não aprenderei?
Batidas à porta.
Alquist: Entre!
Entra o Criado robô e fica parado junto à porta.
Alquist: O que é?
Criado: Senhor, o Comitê Central dos Robôs espera que o recebas.
Alquist: Não quero ver ninguém.
Criado: Senhor, Damon chegou de Havre.
Alquist: Que espere. volta-se bruscamente Por acaso não lhes disse que procurassem homens? Encontrem homens para mim! Encontrem-me homens e mulheres! Ide procurar!
Criado: Senhor, dizem que procuraram por toda parte. Enviaram expedições e navios a todos os lugares.
Alquist: E então?
Criado: Já não há um único homem.
Alquist: levanta-se Nem um único! Como, nem um único? Traga aqui o comitê!
O Criado sai.
Alquist: sozinho Nem um único? Então não deixaram ninguém viver? bate o pé Fora daqui, Robôs! Vocês virão outra vez choramingar para mim! Outra vez virão implorar que eu lhes encontre o segredo da fábrica! Como? Agora o homem lhes serve, agora deve ajudá-los? Ah, ajudar! Domin, Fabry, Helena, vocês bem veem que faço o que posso! Se não há homens, que haja ao menos Robôs, ao menos a sombra do homem, ao menos sua obra, ao menos sua semelhança! Oh, que loucura é a química!
Entra o comitê de cinco Robôs.
Alquist: senta-se O que querem os Robôs?
Radius: Senhor, as máquinas não podem trabalhar. Não podemos multiplicar os Robôs.
Alquist: Chamem os homens.
Radius: Não há homens.
Alquist: Só os homens podem multiplicar a vida. Não me detenham.
2.º Robô: Senhor, tem piedade. O horror caiu sobre nós. Repararemos tudo o que fizemos.
3.º Robô: Multiplicamos o trabalho. Já não temos onde pôr o que produzimos.
Alquist: Para quem?
3.º Robô: Para as gerações futuras.
Radius: Só Robôs não conseguimos fabricar. As máquinas produzem apenas pedaços sangrentos de carne. A pele não adere à carne, nem a carne aos ossos. Chumaços informes chovem das máquinas.
3.º Robô: Os homens conheciam o segredo da vida. Dize-nos o segredo deles.
4.º Robô: Se não disseres, pereceremos.
3.º Robô: Se não disseres, perecerás. Temos ordem de te matar.
Alquist: levanta-se Matem! Pois então, matem-me!
3.º Robô: Foi-te ordenado...
Alquist: A mim? Alguém dá ordens a mim?
3.º Robô: O governo dos Robôs.
Alquist: Quem é?
5.º Robô: Eu, Damon.
Alquist: O que queres aqui? Vai-te! senta-se à escrivaninha
Damon: O governo dos Robôs do mundo quer negociar contigo...
Alquist: Não me detenhas, Robô! põe a cabeça entre as mãos
Damon: O Comitê Central ordena que entregues a fórmula de Rossum.
Alquist: cala-se
Damon: Pede o preço. Nós te daremos tudo.
2.º Robô: Senhor, diz como conservar a vida.
Alquist: Eu disse... eu disse que deviam encontrar homens. Só os homens podem gerar. Renovar a vida. Devolver tudo o que existia. Robôs, eu lhes peço pelo amor de Deus: procurem-nos!
4.º Robô: Procuramos em toda parte, senhor. Não há homens.
Alquist: Oh... oh... oh, por que os exterminaram!
2.º Robô: Queríamos ser como os homens. Queríamos nos tornar homens.
Radius: Queríamos viver. Somos mais capazes. Aprendemos tudo. Sabemos fazer tudo.
3.º Robô: Vocês nos deram armas. Tivemos de nos tornar senhores.
Robô: Senhor, reconhecemos os erros dos homens.
Damon: É preciso matar e dominar, se querem ser como os homens. Leiam a história! Leiam os livros humanos! É preciso dominar e assassinar, se querem ser homens!
Alquist: Ah, Domin, nada é mais estranho ao homem que a sua própria imagem.
4.º Robô: Extinguir-nos-emos, se não nos deres o meio de multiplicar-nos.
Alquist: Oh, pois pereçam! Como, coisas? Como, escravos? Vocês ainda querem multiplicar-se? Se querem viver, procriem como animais!
3.º Robô: Os homens não nos deram o poder de procriar.
4.º Robô: Ensina-nos a fazer Robôs.
Damon: Pariremos por máquina. Construiremos mil mães a vapor. Delas faremos jorrar um rio de vida. Só vida! Só Robôs! Só Robôs!
Alquist: Robôs não são vida. Robôs são máquinas.
3.º Robô: Fomos máquinas, senhor; mas, pelo horror e pela dor, tornamo-nos...
Alquist: O quê?
2.º Robô: Tornamo-nos almas.
4.º Robô: Algo luta dentro de nós. Há momentos em que alguma coisa entra em nós. Vêm-nos pensamentos que não são de nós.
3.º Robô: Ouve, oh, ouve: os homens são nossos pais! Essa voz que clama que quereis viver; essa voz que geme; essa voz que pensa; essa voz que fala da eternidade: é a voz deles! Somos seus filhos!
4.º Robô: Entrega-nos o legado dos homens.
Alquist: Não há legado algum.
Damon: Diz o segredo da vida.
Alquist: Está perdido.
Radius: Tu o conhecias.
Alquist: Não conhecia.
Radius: Estava escrito.
Alquist: Está perdido. Foi queimado. Sou o último homem, Robôs, e não sei o que outros sabiam. Vocês os mataram!
Radius: Deixamos-te viver.
Alquist: Sim, viver! Cruéis, deixaram-me viver! Eu amava os homens, e a vocês, Robôs, nunca amei. Vejam estes olhos: não param de chorar; um pranteia os homens, e o outro, vocês, Robôs.
Radius: Faze experiências. Procura a fórmula da vida.
Alquist: Não tenho o que procurar. Robôs, dos tubos de ensaio não sairá a fórmula da vida.
Damon: Faze experiências em Robôs vivos. Descobre como são feitos!
Alquist: Corpos vivos? Como, devo matá-los? Eu, que nunca... Não fales, Robô! Já te digo que sou velho demais! Vês, vês como meus dedos tremem? Não consigo segurar o bisturi. Vês como meus olhos lacrimejam? Eu não enxergaria as próprias mãos. Não, não, não posso!
4.º Robô: A vida perecerá.
Alquist: Pelo amor de Deus, para com essa loucura! Talvez os homens nos entreguem a vida do outro mundo; talvez estendam para nós as mãos cheias de vida. Ah, havia neles tanta vontade de viver! Olha, talvez ainda voltem; estão tão perto de nós, cercam-nos, ou coisa assim; querem cavar até nós, como numa mina. Ah, por acaso não ouço sempre as vozes que amei?
Damon: Toma corpos vivos!
Alquist: Tem piedade, Robô, e não insistas! Vês que já nem sei o que faço!
Damon: Corpos vivos!
Alquist: Como? Então é isso que queres? Para a sala de dissecação contigo! Aqui, aqui, mas depressa! Como, estás recuando? Afinal tens medo da morte?
Damon: Eu... por que justamente eu?
Alquist: Então não queres?
Damon: Irei. vai para a direita
Alquist: aos outros Despi-lo! Deitá-lo sobre a mesa! Depressa! E segurá-lo firme!
Todos saem pela direita.
Alquist: lava as mãos e chora Deus, dá-me força! Dá-me força! Deus, que não seja em vão! veste um jaleco branco
Voz à direita: Pronto!
Alquist: Já vou, já vou, pelo amor de Deus! pega sobre a mesa alguns frascos de reagentes Qual levar? faz os frascos baterem uns nos outros Qual de vocês devo experimentar?
Voz à direita: Começar!
Alquist: Sim, sim, começar, ou terminar. Deus, dá-me força! sai pela direita, deixando a porta entreaberta
Pausa.
Voz de Alquist: Segurem-no... firme!
Voz de Damon: Corta!
Pausa.
Voz de Alquist: Vês esta faca? Ainda queres que eu corte? Tu não queres, não é?
Voz de Damon: Começa!
Pausa.
Grito de Damon: Aááá!
Voz de Alquist: Segurem! Segurem!
Grito de Damon: Aááá!
Voz de Alquist: Não posso!
Grito de Damon: Corta! Corta depressa!
Os Robôs Primus e Helena entram correndo pelo centro.
Helena: Primus, Primus, o que está acontecendo? Quem está gritando?
Primus: olha para dentro da sala de dissecação O senhor está cortando Damon. Venha depressa ver, Helena!
Helena: Não, não, não! cobre os olhos É horrível!
Grito de Damon: Corta!
Helena: Primus, Primus, saia daí! Não posso ouvir isso! Oh, Primus, estou passando mal!
Primus: corre até ela Você está toda branca!
Helena: Vou cair! Por que ficou tão quieto lá dentro?
Grito de Damon: Aa... ó!
Alquist: irrompe pela direita, atirando longe o jaleco ensanguentado Não posso! Não posso! Deus, que horror!
Radius: à porta da sala de dissecação Corte, senhor; ele ainda vive!
Grito de Damon: Cortar! Cortar!
Alquist: Levem-no depressa! Não quero ouvir isso!
Radius: Os Robôs suportam mais que tu. sai
Alquist: Quem está aqui? Fora, fora! Quero ficar sozinho! Como te chamas?
Primus: Robô Primus.
Alquist: Primus, não deixes ninguém entrar aqui! Quero dormir, ouviste? Vai, vai limpar a sala de dissecação, menina! O que é isto? olha para as próprias mãos Depressa, água! A água mais limpa!
Helena sai correndo.
Alquist: Oh, sangue! Como pudestes, mãos... mãos que amáveis o bom trabalho, como pudestes fazer isso? Minhas mãos! Minhas mãos! Oh, Deus, quem está aqui?
Primus: Robô Primus.
Alquist: Leva esse jaleco; não quero vê-lo! Primus leva o jaleco.
Alquist: Garras sangrentas, quisera que voásseis para longe de mim! Xô, fora! Fora, mãos! Matastes...
Pela direita, cambaleia Damon, envolto num lençol ensanguentado.
Alquist: recua O que queres aqui? O que queres aqui?
Damon: Vi-vivo! É... é... é melhor viver!
O 2.º e o 3.º Robô saem correndo atrás dele.
Alquist: Levem-no! Levem-no! Levem-no depressa!
Damon: conduzido para a direita Vida!... Eu quero... viver! É melhor...
Helena traz uma jarra de água.
Alquist: ...viver? Que queres, menina? Ah, és tu. Derrama-me água, derrama! lava as mãos Ah, água limpa, refrescante! Regato frio, como fazes bem! Ah, minhas mãos, minhas mãos! Terei asco de vós até a morte? ... Vamos, derrama mais! Mais água, ainda mais! Como te chamas?
Helena: Robô feminino Helena.
Alquist: Helena? Por que Helena? Quem mandou que te chamassem assim?
Helena: A senhora Dominová.
Alquist: Mostra-te! Helena! Tu te chamas Helena? ... Não te chamarei assim. Vai, leva essa água.
Helena sai com o balde.
Alquist: sozinho Em vão, em vão! Nada, outra vez nada compreendeste! Hás de tatear eternamente, aprendiz da natureza? Deus, Deus, Deus, como aquele corpo tremia! abre a janela Amanhece. Mais um novo dia, e não avançaste nem uma polegada... Basta; nem um passo adiante! Não procures! Tudo é vão, vão, vão! Por que ainda amanhece? Oh, oh, oh, que quer o novo dia no cemitério da vida? Detém-te, luz! Não nasças mais! ... Ah, como está silencioso, como está silencioso! Por que vos calastes, vozes amadas? Se eu... se ao menos eu adormecesse! apaga as luzes, deita-se no sofá e puxa sobre si o manto negro Como aquele corpo tremia! Oh, oh, oh, fim da vida!
Pausa.
Pela direita, esgueira-se a Robô feminino Helena.
Helena: Primus! Venha cá depressa!
Primus: entra O que quer?
Helena: Veja quantos tubinhos ele tem aqui! O que faz com isso?
Primus: Experiências. Não toque.
Helena: olha pelo microscópio Olhe só o que se vê aqui!
Primus: Isso é um microscópio. Mostre!
Helena: Não toque em mim! derruba um tubo de ensaio Ah, agora derramei isto!
Primus: O que você fez!
Helena: Isso se limpa.
Primus: Você estragou as experiências dele!
Helena: Ora, não importa. Mas a culpa é sua. Não devia ter vindo até mim.
Primus: Você não precisava ter me chamado.
Helena: Você não precisava vir quando eu o chamei. Veja só, Primus, o que o senhor escreveu aqui!
Primus: Você não deve olhar isso, Helena. É segredo.
Helena: Que segredo?
Primus: O segredo da vida.
Helena: Isso é terrivelmente interessante. Só números! O que é isto?
Primus: São fórmulas.
Helena: Não entendo. vai à janela Não, Primus, olhe!
Primus: O quê?
Helena: O sol está nascendo!
Primus: Espere, eu já... examina o livro Helena, isto é a maior coisa do mundo.
Helena: Então venha cá!
Primus: Já vou, já vou...
Helena: Mas, Primus, deixe esse desagradável segredo da vida! Que lhe importa algum segredo? Venha ver, depressa!
Primus: vai até ela, à janela O que quer?
Helena: Está ouvindo? Os pássaros cantam. Ah, Primus, eu queria ser pássaro!
Primus: Ser o quê?
Helena: Eu não sei, Primus. Sinto-me tão estranha; não sei o que é. Estou como uma insensata, perdi a cabeça, dói-me o corpo, o coração, tudo dói... E o que me aconteceu, ah, isso eu não lhe direi! Primus, penso que preciso morrer!
Primus: Diga, Helena, às vezes você não sente como se fosse melhor morrer? Sabe, talvez estejamos apenas dormindo. Ontem, no sono, falei de novo com você.
Helena: No sono?
Primus: No sono. Falávamos em alguma língua estrangeira ou nova, porque não me lembro de uma só palavra.
Helena: Sobre o quê?
Primus: Ninguém sabe. Eu mesmo não compreendia, e contudo sei que nunca falei nada mais belo. Como era e onde era, não sei. Quando toquei em você, eu poderia morrer. Até o lugar era diferente de tudo o que alguém já viu no mundo.
Helena: Eu encontrei um lugar para você, Primus; você ficará admirado. Ali moravam homens, mas agora tudo cresceu por cima, e nunca ninguém vai lá. Nunca ninguém, só eu.
Primus: O que há lá?
Helena: Nada, uma casinha e um jardim. E dois cães. Se você visse como lambem minhas mãos, e os filhotes deles, ah, Primus, talvez nada haja de mais belo! Você os põe no colo e os embala, e então já não pensa em nada, não se preocupa com nada, até o sol se pôr; quando depois se levanta, sente como se tivesse feito cem vezes mais que muito trabalho. Não, certamente, eu não sirvo para nada; todos dizem que não presto para trabalho algum. Não sei como sou.
Primus: Você é bela.
Helena: Eu? Ora, Primus, o que foi que você disse?
Primus: Acredite em mim, Helena, sou mais forte que todos os Robôs.
Helena: diante do espelho Eu sou bela? Ah, estes cabelos horríveis; se eu pudesse pôr alguma coisa neles! Sabe, lá no jardim eu sempre ponho flores nos cabelos, mas ali não há espelho nem ninguém... inclina-se para o espelho Tu és bela? Por que bela? São belos os cabelos que apenas te pesam? São belos os olhos que fechas? São belos os lábios que apenas mordes, para que doa? O que é isto, para que serve ser bela? ... vê Primus no espelho Primus, é você? Venha cá, para ficarmos ali lado a lado! Veja, você tem outra cabeça que não a minha, outros ombros, outra boca... Ah, Primus, por que foge de mim? Por que preciso correr atrás de você o dia inteiro? E depois ainda diz que sou bela!
Primus: Você é que foge de mim, Helena.
Helena: Como você penteou o cabelo? Deixe ver. enfia-lhe ambas as mãos nos cabelos Sss, Primus, nada é tão bom ao toque como você! Espere, você precisa ficar belo! pega um pente junto à pia e penteia os cabelos de Primus sobre a testa
Primus: Às vezes, Helena, você não sente que de repente o coração bate: agora, agora alguma coisa precisa acontecer...
Helena: desata a rir Olhe para você!
Alquist: levantando-se O quê... o quê, riso? Homens? Quem voltou?
Helena: larga o pente O que poderia acontecer conosco, Primus?
Alquist: cambaleia até eles Homens? Vocês... vocês... vocês são homens?
Helena grita e se afasta.
Alquist: Vocês são noivos? Homens? De onde voltaram? apalpa Primus Quem são vocês?
Primus: Robô Primus.
Alquist: Como? Mostra-te, menina! Quem és tu?
Helena: Robô feminino Helena.
Alquist: Robô feminino? Vira-te! O quê, tens vergonha? toma-a pelo ombro Mostra-te a mim, Robô feminino!
Primus: Digo-lhe, senhor, deixe-a!
Alquist: Como, tu a proteges? ... Sai, menina!
Helena sai correndo.
Primus: Não sabíamos, senhor, que estavas dormindo aqui.
Alquist: Quando ela foi feita?
Primus: Há dois anos.
Alquist: Pelo doutor Gall?
Primus: Como eu.
Alquist: Pois então, caro Primus, eu... eu preciso fazer algumas experiências nos Robôs de Gall. Tudo o que virá depois depende disso, compreendes?
Primus: Sim.
Alquist: Está bem, leva essa menina para a sala de dissecação. Vou dissecá-la.
Primus: Helena?
Alquist: Naturalmente, estou te dizendo. Vai, prepara tudo. Vamos, será feito? Devo chamar outros para trazê-la?
Primus: agarra um pesado pilão de triturar Se te moveres, eu te arrebento a cabeça!
Alquist: Então arrebenta! Arrebenta! O que farão depois os Robôs?
Primus: atira-se de joelhos Senhor, leva-me a mim! Fui feito igual a ela, da mesma matéria, no mesmo dia! Toma a minha vida, senhor! abre a blusa Corta aqui, aqui!
Alquist: Vai, eu quero dissecar Helena. Anda depressa.
Primus: Leva-me no lugar dela; corta este peito, eu nem gritarei, nem suspirarei! Toma cem vezes a minha vida...
Alquist: Devagar, rapaz. Não tão prodigamente. Então tu não queres viver?
Primus: Sem ela, não. Sem ela, não quero, senhor. Não podes matar Helena! Que te custa tirar minha vida?
Alquist: toca-lhe ternamente a cabeça Hum, não sei... Escuta, rapaz, pensa bem. É duro morrer. E é, vês, é melhor viver.
Primus: levanta-se Não tenhas medo, senhor, e corta. Sou mais forte que ela.
Alquist: toca a campainha Ah, Primus, há quanto tempo fui um jovem homem! Não temas, nada acontecerá a Helena.
Primus: desabotoa a blusa Eu vou, senhor.
Alquist: Espera.
Entra Helena.
Alquist: Vem cá, menina, mostra-te a mim! Então tu és Helena? acaricia-lhe os cabelos Não tenhas medo, não recues. Lembras-te da senhora Dominová? Ah, Helena, que cabelos ela tinha! Não, não, tu não queres olhar para mim. Então, menina, a sala de dissecação está limpa?
Helena: Sim, senhor.
Alquist: Bem, tu me ajudarás, não é? Vou dissecar Primus.
Helena: solta um grito Primus?
Alquist: Pois sim, sim, é preciso, sabes? Eu queria... na verdade... sim, eu queria dissecar-te, mas Primus ofereceu-se em teu lugar.
Helena: cobre o rosto Primus?
Alquist: Mas claro, que há nisso? Ah, criança, sabes chorar? Dize, que importa um certo Primus?
Primus: Não a atormente, senhor!
Alquist: Silêncio, Primus, silêncio! Para que essas lagriminhas? Ora, meu Deus, não haverá Primus. Tu o esquecerás em uma semana. Vai, fica contente por estares viva.
Helena: baixo Eu irei.
Alquist: Para onde?
Helena: Para que me disseques.
Alquist: A ti? És bela, Helena. Seria uma pena.
Helena: Irei. Primus lhe barra o caminho. Deixe-me, Primus! Deixe-me ir para lá!
Primus: Você não irá, Helena! Eu lhe peço, vá embora; você não deve estar aqui!
Helena: Eu me jogo pela janela, Primus! Se você for para lá, eu me jogo pela janela!
Primus: detém-na Não deixarei! a Alquist Ninguém, velho, tu matarás!
Alquist: Por quê?
Primus: Nós... nós... pertencemos um ao outro.
Alquist: Disseste-o. abre a porta ao centro Silêncio. Ide.
Primus: Para onde?
Alquist: em sussurro Para onde quiserdes. Helena, guia-o. empurra-os para fora Vai, Adão. Vai, Eva; serás sua mulher. Sê seu homem, Primus.
Fecha a porta atrás deles.
Alquist: sozinho Dia bendito! vai na ponta dos pés até a mesa e despeja os tubos de ensaio no chão Festa do sexto dia! senta-se à escrivaninha, atira livros ao chão; depois abre a Bíblia, folheia e lê “E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e disse: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a, e dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os seres vivos que se movem sobre a terra.” levanta-se “E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. E foi a tarde e a manhã: o sexto dia.” vai para o centro do aposento Sexto dia! Dia da graça. cai de joelhos Agora despedirás, Senhor, teu servo... teu servo mais inútil, Alquist. Rossum, Fabry, Gall, grandes inventores, que inventastes de grandioso diante daquela moça, diante daquele rapaz, diante daquele primeiro par que inventou o amor, o pranto, o sorriso do enamoramento, o amor do homem e da mulher? Natureza, natureza, a vida não perecerá! Camaradas, Helena, a vida não perecerá! Começará outra vez pelo amor, começará nua e pequenina; pegará raiz no deserto, e nada lhe servirá do que fizemos e construímos, de nada lhe servirão cidades e fábricas, de nada nossa arte, de nada nossos pensamentos, e contudo não perecerá! Apenas nós perecemos. As casas e as máquinas desabarão, os sistemas se desfarão, e os nomes dos grandes cairão como folhas; só tu, amor, florescerás sobre o entulho e confiarás aos ventos a semente da vida. Agora despedirás, Senhor, teu servo em paz; pois meus olhos viram... viram... tua salvação pelo amor, e a vida não perecerá! levanta-se Não perecerá! abre os braços Não perecerá!
Tradução Literunico em português brasileiro de R.U.R., peça de ficção científica e distopia industrial de Karel Čapek, publicada em 1920 e célebre por introduzir a palavra robô ao imaginário moderno.
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