Universo da obra
Universo da obra
O mesmo salão de Helena. No cômodo à esquerda, Helena toca piano. Domin anda de um lado para outro pelo aposento; dr. Gall olha pela janela, e Alquist está sentado à parte, numa poltrona, com o rosto coberto pelas mãos.
Dr. Gall: Céus, como aumentaram!
Domin: Os Robôs?
Dr. Gall: Sim. Estão diante da grade do jardim como uma muralha. Por que ficam tão calados? É odioso cercar pelo silêncio.
Domin: Gostaria de saber o que esperam. Isso deve começar a qualquer minuto. Nossa partida acabou, Gall.
Alquist: O que a senhora Helena está tocando?
Domin: Não sei. Está ensaiando alguma coisa nova.
Alquist: Ah, ainda ensaia?
Dr. Gall: Escute, Domin, decididamente cometemos um erro.
Domin: detém-se Qual?
Dr. Gall: Demos aos Robôs rostos iguais demais. Cem mil faces iguais voltadas para cá. Cem mil bolhas sem expressão. É como um sonho terrível.
Domin: Se cada um fosse diferente...
Dr. Gall: Não seria uma visão tão pavorosa. afasta-se da janela Ainda bem que não estão armados!
Domin: Hum. olha com o binóculo para o porto Eu só gostaria de saber o que estão descarregando do Amélia.
Dr. Gall: Contanto que não sejam armas.
Da porta disfarçada no papel de parede surge Fabry, puxando atrás de si dois fios elétricos.
Fabry: Perdão. ... Ponha o fio no chão, Hallemeier!
Hallemeier: sai atrás de Fabry Ufa, que trabalho! Que há de novo?
Dr. Gall: Nada. Estamos solidamente cercados.
Hallemeier: Barricamos o corredor e as escadas, rapazes. Não têm um pouco de água? Ah, aqui. bebe
Dr. Gall: Que vai fazer com esse fio, Fabry?
Fabry: Já, já. Umas tesouras.
Dr. Gall: Onde arranjá-las? procura
Hallemeier: vai à janela Raios, como aumentaram! Vejam só!
Dr. Gall: Serve uma tesourinha de toucador?
Fabry: Traga-a. corta a fiação da lâmpada elétrica que está sobre a escrivaninha e liga a ela seus fios
Hallemeier: à janela O senhor não tem bela vista, Domin. Isto está de algum modo... cheirando... a morte.
Fabry: Pronto!
Dr. Gall: O quê?
Fabry: A ligação. Agora podemos eletrificar toda a grade do jardim. Quem tocar nela, raios! Ao menos enquanto os nossos estiverem lá.
Dr. Gall: Onde?
Fabry: Na usina elétrica, douto senhor. Ao menos espero... vai até a lareira e acende uma pequena lâmpada sobre ela Graças a Deus, estão lá. E trabalham. apaga Enquanto isto acender, está tudo bem.
Hallemeier: volta-se da janela Essas barricadas também estão boas, Fabry. Diga-me, que é que a senhora Helena está tocando? atravessa até a porta à esquerda e escuta. Pela porta disfarçada no papel de parede sai Busman, arrastando enormes livros comerciais; tropeça no fio.
Fabry: Cuidado, Bus! Cuidado com os fios!
Dr. Gall: Alô, o que está trazendo aí?
Busman: põe os livros sobre a mesa Os livros-razão, crianças. Eu gostaria de fechar minhas contas antes que... antes que... Bem, este ano não vou esperar até o Ano-Novo para o balanço. Então, o que há? vai à janela Mas lá está tudo perfeitamente quieto!
Dr. Gall: O senhor não vê nada?
Busman: Não, apenas uma grande superfície azul, como semente de papoula espalhada.
Dr. Gall: São os Robôs.
Busman: Ah, sim. Pena que eu não os veja. senta-se à mesa e abre os livros
Domin: Deixe isso, Busman: os Robôs do Amélia estão descarregando armas.
Busman: E daí? Como vou impedir isso?
Domin: Não podemos impedir.
Busman: Então me deixem calcular. põe-se a trabalhar
Fabry: Ainda não é o fim, Domin. Passamos dois mil volts para as grades e...
Domin: Espere. O Ultimus virou os canhões contra nós.
Dr. Gall: Quem?
Domin: Os Robôs no Ultimus.
Fabry: Hum, então, naturalmente... então... então estamos acabados, rapazes. Os Robôs foram treinados para a guerra.
Dr. Gall: Então nós...
Domin: Sim. Inevitavelmente.
Pausa.
Dr. Gall: Rapazes, é crime da velha Europa ter ensinado os Robôs a guerrear! Não poderiam, pelos diabos, ter deixado em paz essa política deles? Foi um crime fazer da força viva de trabalho soldados!
Alquist: O crime foi fabricar Robôs!
Domin: O quê?
Alquist: O crime foi fabricar Robôs!
Domin: Não. Alquist, nem hoje me arrependo disso.
Alquist: Nem hoje?
Domin: Nem hoje, no último dia da civilização. Foi uma grande coisa.
Busman: em meia voz Trezentos e dezesseis milhões.
Domin: pesadamente Alquist, é nossa última hora; já falamos quase do outro mundo. Alquist, não foi um sonho mau romper a escravidão do trabalho. O trabalho humilhante e terrível que o homem tinha de suportar. A labuta impura e assassina. Oh, Alquist, trabalhava-se duro demais. Vivia-se duro demais. E superar isso...
Alquist: ...não foi o sonho dos dois Rossum. O velho Rossum pensava em suas artes ímpias, e o jovem, nos bilhões. E não é o sonho dos acionistas da R.U.R. O sonho deles são dividendos. E por causa dos dividendos deles a humanidade perecerá.
Domin: irritado Que o diabo leve os dividendos deles! Pensa que eu trabalharia uma hora sequer por eles? bate na mesa Foi por mim que fiz isso, está ouvindo? Por minha satisfação! Eu queria que o homem se tornasse senhor! Que já não vivesse apenas por um pedaço de pão! Queria que nenhuma alma se embrutecesse junto às máquinas alheias, que nada, nada, nada restasse daquela maldita tralha social! Oh, a humilhação e a dor me repugnam, a pobreza me dá asco! Eu queria uma nova geração! Queria... pensava...
Alquist: Pois bem?
Domin: mais baixo Queria que fizéssemos de toda a humanidade a aristocracia do mundo. Homens ilimitados, livres e soberanos. E talvez mais que homens.
Alquist: Pois então, Super-homens.
Domin: Sim. Oh, se ao menos tivéssemos cem anos de tempo! Mais cem anos para a humanidade futura!
Busman: em meia voz Trezentos e setenta milhões, transporte. Pronto.
Pausa.
Hallemeier: à porta da esquerda Digo-lhes, a música é uma grande coisa. Os senhores deviam ter escutado. Isso de algum modo espiritualiza, refina o homem...
Fabry: O quê, afinal?
Hallemeier: Esse crepúsculo dos homens, por todos os diabos! Rapazes, estou me tornando um hedonista. Devíamos ter nos lançado a isso antes. vai à janela e olha para fora
Fabry: A quê?
Hallemeier: Ao prazer. Às coisas belas. Raios, há tantas coisas belas! O mundo era belo, e nós... nós aqui... Rapazes, rapazes, digam-me: de que desfrutamos?
Busman: em meia voz Quatrocentos e cinquenta e dois milhões, excelente.
Hallemeier: à janela A vida era uma grande coisa. Camaradas, a vida era... digo-lhes... Fabry, solte um pouquinho de corrente nessa sua grade!
Fabry: Por quê?
Hallemeier: Estão tocando nela.
Dr. Gall: à janela Ligue!
Hallemeier: Cristo, como os retorceu! Dois, três, quatro mortos!
Dr. Gall: Estão recuando.
Hallemeier: Cinco mortos!
Dr. Gall: afasta-se da janela O primeiro choque.
Fabry: Sentem a morte?
Hallemeier: satisfeito Estão carbonizados, meu caro. Completamente carbonizados. Ha, ha, o homem não deve se entregar! senta-se
Domin: esfrega a testa Talvez estejamos mortos há cem anos e apenas assombremos por aqui. Talvez estejamos mortos há muito, muito tempo, e só voltemos para recitar o que já dissemos uma vez... antes da morte. Como se eu já tivesse vivido tudo isto. Como se alguma vez já a tivesse recebido. Uma ferida de bala... aqui... no pescoço. E o senhor, Fabry.
Fabry: Eu o quê?
Domin: Fuzilado.
Hallemeier: Raios, e eu?
Domin: Trespassado.
Dr. Gall: E eu, nada?
Domin: Despedaçado.
Pausa.
Hallemeier: Absurdo! Ha, ha, homem, quem poderia me trespassar! Eu não me entrego!
Pausa.
Hallemeier: Por que se calam, seus loucos? Por todos os diabos, falem!
Alquist: E quem, quem é culpado? Quem tem culpa disso?
Hallemeier: Tolices. Ninguém é culpado. Simplesmente os Robôs... Bem, os Robôs mudaram de algum modo. Por acaso alguém pode responder pelos Robôs?
Alquist: Tudo massacrado! Toda a humanidade! O mundo inteiro! levanta-se Vejam, oh, vejam, regatos de sangue em cada soleira! Regatos de sangue de todas as casas! Oh, Deus, oh, Deus, quem tem culpa disso?
Busman: em meia voz Quinhentos e vinte milhões! Meu Deus, meio bilhão!
Fabry: Penso que... talvez esteja exagerando. Ora, não é assim tão fácil massacrar toda a humanidade.
Alquist: Eu acuso a ciência! Acuso a técnica! Domin! A mim mesmo! A todos nós! Nós, nós somos culpados! Por nossa mania de grandeza, pelos lucros de alguém, pelo progresso, eu não sei por que coisas tão extraordinárias, matamos a humanidade! Pois então rebentem com sua grandeza! Tão imensa colina de ossos humanos nenhum Gengis Khan ergueu para si!
Hallemeier: Absurdo, homem! Os homens não se entregam assim tão facilmente. Ha, ha, nada disso!
Alquist: Culpa nossa! Culpa nossa!
Dr. Gall: enxuga o suor da testa Deixem-me falar, rapazes. Eu sou culpado disso. De tudo o que aconteceu.
Fabry: O senhor, Gall?
Dr. Gall: Sim, deixem-me falar. Eu modifiquei os Robôs. Busman, julgue-me também.
Busman: levanta-se Ora, ora, o que lhe aconteceu?
Dr. Gall: Modifiquei a natureza dos Robôs. Modifiquei sua fabricação. Isto é, apenas algumas condições corporais, compreendem? Sobretudo... sobretudo... sua... irritabilidade.
Hallemeier: salta Maldição, por que justamente isso?
Busman: Por que fez isso?
Fabry: Por que não disse nada?
Dr. Gall: Fiz isso em segredo... por minha conta. Eu os refazia como homens. Desregulei-os. Já agora, em certas coisas, estão acima de nós. São mais fortes que nós.
Fabry: E que tem isso a ver com a rebelião dos Robôs?
Dr. Gall: Oh, muito. Penso que tudo. Deixaram de ser máquinas. Estão ouvindo? Já sabem de sua superioridade e nos odeiam. Odeiam tudo o que é humano. Julguem-me.
Domin: Mortos julgando um morto.
Fabry: Doutor Gall, o senhor modificou a fabricação dos Robôs?
Dr. Gall: Sim.
Fabry: Tinha consciência do que poderia ser consequência de sua... de sua experiência?
Dr. Gall: Tinha. Eu era obrigado a contar com essa possibilidade.
Fabry: Por que fez isso?
Dr. Gall: Por minha própria decisão. Foi meu experimento pessoal.
À porta da esquerda, Helena. Todos se levantam.
Helena: Ele mente! Isto é odioso! Oh, Gall, como pode mentir assim?
Fabry: Perdão, senhora Helena...
Domin: vai até ela Helena, você? Deixe-me vê-la! Você está viva? Toma-a pelas mãos. Se soubesse o que sonhei! Ah, é terrível estar morto.
Helena: Solte-me, Harry! Gall não é culpado, não é, não é culpado!
Domin: Perdoe, Gall tinha seus deveres.
Helena: Não, Harry, ele fez isso porque eu quis! Diga, Gall, há quantos anos eu lhe pedia que...
Dr. Gall: Fiz isso sob minha própria responsabilidade.
Helena: Não acreditem nele! Harry, eu queria que ele desse alma aos Robôs!
Domin: Helena, aqui não se trata de alma.
Helena: Não, apenas me deixe falar. Ele também dizia que só poderia mudar o correlato fisiológico... fisiológico...
Hallemeier: Correlato fisiológico, não?
Helena: Sim, algo assim. Eu tinha tanta pena deles, Harry!
Domin: Foi uma grande... leviandade, Helena.
Helena: senta-se Então foi... leviandade? Afinal, até Nána diz que os Robôs...
Domin: Deixe Nána de lado!
Helena: Não, Harry, você não deve subestimar isso. Nána é a voz do povo. Por Nána falam mil anos, e por todos vocês, apenas o dia de hoje. Isso vocês não compreendem...
Domin: Fique no assunto.
Helena: Eu tinha medo dos Robôs.
Domin: Por quê?
Helena: Que talvez viessem a nos odiar, ou coisa assim.
Alquist: Aconteceu.
Helena: E então pensei... se fossem como nós, nos compreenderiam, não poderiam nos odiar tanto... Se ao menos fossem um pouco homens...
Domin: Ai de nós, Helena! Ninguém pode odiar mais que um homem odeia outro homem! Faça das pedras homens, e elas nos apedrejarão! Continue!
Helena: Oh, não fale assim! Harry, era tão horrível que não pudéssemos nos entender com eles! Uma estranheza tão cruel entre nós e eles! E por isso... sabe...
Domin: Continue.
Helena: ...por isso pedi a Gall que modificasse os Robôs. Juro que ele mesmo não queria.
Domin: Mas fez.
Helena: Porque eu quis.
Dr. Gall: Fiz isso por mim, como experiência.
Helena: Oh, Gall, isso não é verdade. Eu sabia de antemão que o senhor não poderia me negar.
Domin: Por quê?
Helena: Você sabe, Harry.
Domin: Sim. Porque ele a ama... como todos.
Pausa.
Hallemeier: vai à janela Aumentaram de novo. Como se a terra os suasse.
Busman: Senhora Helena, o que me dará se eu for seu advogado?
Helena: Meu?
Busman: Seu... ou de Gall. De quem quiser.
Helena: Por acaso alguém será enforcado?
Busman: Apenas moralmente, senhora Helena. Procura-se um culpado. É um consolo muito apreciado nas catástrofes.
Domin: Doutor Gall, como concilia essas suas... essas suas extravagâncias com seu contrato de serviço?
Busman: Perdão, Domin. Quando foi, Gall, que começou de fato com essas artes?
Dr. Gall: Há três anos.
Busman: Ah. E quantos Robôs o senhor reformou ao todo?
Dr. Gall: Eu fazia apenas experiências. São algumas centenas.
Busman: Então, muito obrigado. Basta, crianças. Isso quer dizer que, para cada milhão de bons Robôs antigos, há um reformado por Gall, compreendem?
Domin: E isso significa...
Busman: ...que, na prática, não tem a menor importância.
Fabry: Busman tem razão.
Busman: Naturalmente, meu caro. E sabem, rapazes, o que causou este presentinho?
Fabry: O quê, então?
Busman: O número. Fizemos Robôs demais. Palavra de honra, isso era de se esperar: quando os Robôs fossem mais fortes que a humanidade, aconteceria isto, tinha de acontecer, não sabíamos? Ha, ha, e nós tratamos de fazer com que acontecesse o quanto antes; o senhor, Domin, o senhor, Fabry, e eu, o camarada Busman.
Domin: Pensa que é culpa nossa?
Busman: O senhor é ótimo! Por acaso pensa que o senhor da produção é o diretor? Ora essa: o senhor da produção é a demanda. O mundo inteiro queria ter seus Robôs. Pois bem, nós apenas fomos levados por essa avalanche de demanda e, enquanto isso, tagarelávamos... sobre técnica, sobre a questão social, sobre progresso, sobre coisas muito interessantes. Como se essas palavrinhas dirigissem de algum modo para onde aquilo devia rolar. Enquanto isso, tudo corria por seu próprio peso, mais depressa, mais depressa, sempre mais depressa... E cada pedido miserável, mercantil, sujo, acrescentava uma pedrinha à avalanche. É isso, minha gente.
Helena: Isso é odioso, Busman!
Busman: É, senhora Helena. Eu também tive meu sonho. Um sonho busmaniano de nova economia do mundo; um ideal muito belo, senhora Helena, dá até vergonha falar. Mas, enquanto fazia aqui meu balanço, ocorreu-me que a história não é feita por grandes sonhos, mas pelas pequenas necessidades de todas as pessoinhas honradas, meio ladras e egoístas, id est, de todas sem exceção. Todas as ideias, amores, planos, heroísmos, todas essas coisas aéreas só servem, quando muito, para empalhar o homem com elas no museu do Universo, com a inscrição: Eis o homem. Ponto-final. E agora os senhores poderiam me dizer o que, afinal, vamos fazer.
Helena: Busman, é por isso que devemos perecer?
Busman: A senhora fala feio, senhora Helena. Nós, afinal, não queremos perecer. Eu, ao menos, não. Eu ainda quero estar vivo...
Domin: O que pretende fazer?
Busman: Ora, Domin, quero sair vivo disto.
Domin: detém-se junto a ele Como?
Busman: Pelas boas. Eu sempre pelas boas. Dê-me plenos poderes, e eu negociarei com os Robôs.
Domin: Pelas boas?
Busman: Naturalmente. Eu lhes direi, digamos: “Senhores Robôs, Vossas Mercês têm tudo. Têm razão, têm poder, têm armas; mas nós temos um documento interessante, um papel velho, amarelo, sujo...”
Domin: O manuscrito de Rossum?
Busman: Sim. “E ali”, eu lhes direi, “estão descritos sua origem nobre, sua fabricação ilustre e assim por diante. Senhores Robôs, sem esse papel rabiscado, os senhores não fabricarão nem um único novo colega Robô; dentro de vinte anos, com perdão, perecerão como efêmeras. Excelências, seria uma grande pena perdê-los. Sabem de uma coisa?”, eu lhes direi, “os senhores nos deixarão partir, todos nós, os homens da ilha de Rossum, naquele navio ali. Em troca, nós lhes venderemos a fábrica e o segredo da fabricação. Deixem-nos ir embora com Deus, e nós os deixaremos, com Deus, fabricar-se a si mesmos: vinte mil, cinquenta mil, cem mil unidades por dia, como quiserem. Senhores Robôs, isto é um negócio honesto. Uma coisa por outra.” Assim eu lhes diria, rapazes.
Domin: Busman, o senhor pensa que entregaremos a fabricação?
Busman: Penso que entregaremos. Se não pelas boas, então, hum... Ou vendemos isto, ou eles o encontrarão aqui. Como quiserem.
Domin: Busman, podemos destruir o manuscrito de Rossum.
Busman: Mas, com Deus, podemos destruir tudo. Além do manuscrito, também a nós mesmos... e a outros. Façam como entenderem.
Hallemeier: afasta-se da janela Digo-lhes, ele tem razão.
Domin: Nós... nós venderíamos a fabricação?
Busman: Como quiserem.
Domin: Há aqui... mais de trinta pessoas. Devemos vender a fabricação e salvar almas humanas? Ou devemos destruí-la e... e... e a todos nós com ela?
Helena: Harry, eu lhe peço...
Domin: Espere, Helena. Trata-se de uma questão demasiado grave. Rapazes: vender ou destruir? Fabry?
Fabry: Vender.
Domin: Gall!
Dr. Gall: Vender.
Domin: Hallemeier!
Hallemeier: Por cem trovões, naturalmente vender!
Domin: Alquist!
Alquist: A vontade de Deus.
Busman: Ha, ha, meu Deus, os senhores são loucos! Quem venderia o manuscrito inteiro?
Domin: Busman, nada de trapaça!
Busman: salta Absurdo! No interesse da humanidade...
Domin: No interesse da humanidade está manter a palavra.
Hallemeier: Isso eu faço questão de exigir.
Domin: Rapazes, é um passo terrível. Vendemos o destino da humanidade; quem tiver em mãos a fabricação será senhor do mundo.
Fabry: Venda!
Domin: Nunca mais a humanidade dará conta dos Robôs, nunca os dominará...
Dr. Gall: Cale-se e venda!
Domin: O fim da história humana, o fim da civilização...
Hallemeier: Por todos os diabos, venda!
Domin: Muito bem, rapazes! Eu mesmo... eu não hesitaria nem um instante; por essas poucas pessoas que amo...
Helena: Harry, a mim você não pergunta?
Domin: Não, criança; é responsabilidade demais, entende? Isso não é coisa para você.
Fabry: Quem irá negociar?
Domin: Esperem até que eu traga o manuscrito. Sai pela esquerda.
Helena: Harry, pelo amor de Deus, não vá!
Pausa.
Fabry: olha pela janela Escapar de ti, morte de mil cabeças; de ti, matéria rebelada, multidão insensata; dilúvio, dilúvio, salvar ainda uma vez a vida humana num único navio...
Dr. Gall: Não tema, senhora Helena; navegaremos para longe daqui e fundaremos uma colônia humana exemplar; começaremos a viver desde o princípio...
Helena: Oh, Gall, cale-se!
Fabry: volta-se Senhora Helena, a vida vale a pena; e, se depender de nós, faremos dela alguma coisa... alguma coisa que negligenciamos. Será um pequeno Estado com um único navio; Alquist nos construirá uma casa, e a senhora governará sobre nós... Há em nós tanto amor, tanta vontade de viver...
Hallemeier: Assim mesmo, meu caro.
Busman: Bem, minha gente, eu começaria de novo imediatamente. Bem simples, à maneira do Antigo Testamento, pastoralmente... Crianças, isso seria para mim. Aquele sossego, aquele ar...
Fabry: E esse nosso pequeno Estado poderia ser o germe da humanidade futura. Sabe, uma ilhazinha onde a humanidade se agarraria, onde reuniria forças... forças da alma e do corpo... E Deus sabe, eu creio que, em alguns anos, ela poderia conquistar de novo o mundo.
Alquist: Agora o senhor já acredita?
Fabry: Já hoje. E eu creio, Alquist, que ele o conquistará. Que voltará a ser senhor das terras e dos mares; que gerará inúmeros heróis, que levarão sua alma ardente à frente dos homens. E eu creio, Alquist, que ele tornará a sonhar com a conquista dos planetas e dos sóis.
Busman: Amém. Está vendo, senhora Helena, a situação não é tão má assim.
Domin: abre violentamente a porta
Domin: rouco Onde está o manuscrito do velho Rossum?
Busman: No seu cofre. Onde mais estaria?
Domin: Para onde desapareceu o manuscrito do velho Rossum? Quem o... roubou?
Dr. Gall: Não é possível!
Hallemeier: Maldição, isso afinal...
Busman: Pelo amor de Deus, isso não!
Domin: Silêncio! Quem o roubou?
Helena: levanta-se Eu.
Domin: Onde você o pôs?
Helena: Harry, Harry, eu lhe direi tudo! Pelo amor de Deus, perdoe-me!
Domin: Onde você o pôs? Depressa!
Helena: Queimei... esta manhã... as duas cópias.
Domin: Queimou? Aqui na lareira?
Helena: atira-se de joelhos Pelo amor de Deus, Harry!
Domin: corre até a lareira Queimou! ajoelha-se junto à lareira e remexe nela Nada, nada senão cinzas! ... Ah, aqui! tira um pedacinho de papel chamuscado e lê “Pela adi-ção...”
Dr. Gall: Mostre. pega o papel e lê “Pela adição de biogênio ao...” Nada mais.
Domin: levanta-se É dele?
Dr. Gall: É.
Busman: Deus do céu!
Domin: Então estamos perdidos.
Helena: Oh, Harry...
Domin: Levante-se, Helena!
Helena: Quando perdoar... quando perdoar...
Domin: Sim, apenas levante-se, está ouvindo? Não suporto vê-la...
Fabry: erguendo-a Por favor, não nos torture.
Helena: levanta-se Harry, o que eu fiz!
Domin: Sim, está vendo... Por favor, sente-se.
Hallemeier: Como tremem suas mãozinhas!
Busman: Ha, ha, senhora Helena, talvez Gall e Hallemeier saibam de cor o que estava escrito ali.
Hallemeier: Naturalmente. Isto é, ao menos algumas coisas.
Dr. Gall: Sim, quase tudo, salvo o biogênio e... e... a enzima Ômega. São fabricados tão raramente... basta uma dose tão ínfima deles...
Busman: Quem os fazia?
Dr. Gall: Eu mesmo... de tempos em tempos... sempre segundo o manuscrito de Rossum. Sabe, é complicado demais.
Busman: Bem, e então? Dependemos tanto assim dessas duas aguazinhas?
Hallemeier: Um pouco... certamente.
Dr. Gall: Isto é, depende delas que a coisa viva afinal. Esse era o verdadeiro segredo.
Domin: Gall, não poderia recompor de memória a fórmula de fabricação de Rossum?
Dr. Gall: Impossível.
Domin: Gall, lembre-se! Pela vida de todos nós!
Dr. Gall: Não posso. Sem experiências, não é possível.
Domin: E se fizesse experiências?
Dr. Gall: Isso poderia levar anos. E mesmo assim... Não sou o velho Rossum.
Domin: volta-se para a lareira Então aqui... isto foi o maior triunfo do espírito humano, rapazes. Estas cinzas. dá-lhes um pontapé E agora?
Busman: em horror desesperado Deus do céu! Deus do céu!
Helena: levanta-se Harry! O que... eu... fiz!
Domin: Fique calma, Helena. Diga, por que queimou isso?
Helena: Eu destruí vocês!
Busman: Deus do céu, estamos perdidos!
Domin: Silêncio, Busman! Diga, Helena, por que fez isso?
Helena: Eu queria... queria que fôssemos embora, todos nós! Que já não houvesse fábrica, nem nada... Que tudo voltasse... Era tão horrível!
Domin: O quê, Helena?
Helena: Isso... isso de os homens se terem tornado flores estéreis!
Domin: Não compreendo.
Helena: Isso de terem deixado de nascer crianças... Harry, é tão terrível! Se continuassem a fabricar Robôs, nunca mais haveria crianças... Nána dizia que era castigo... Todos, todos diziam que os homens não podiam nascer porque se fabricavam tantos Robôs... E por isso, só por isso, está ouvindo...
Domin: Helena, era nisso que você pensava?
Helena: Sim, oh, Harry, eu quis fazer o bem!
Domin: enxuga o suor Nós também quisemos... bem demais, nós, os homens.
Fabry: A senhora fez bem, senhora Helena. Os Robôs já não podem multiplicar-se. Os Robôs se extinguirão. Dentro de vinte anos...
Hallemeier: ...não restará um só desses patifes.
Dr. Gall: E a humanidade permanecerá. Dentro de vinte anos, o mundo será dela; ainda que seja apenas um punhado de selvagens na menor das ilhas...
Fabry: ...será um começo. E, enquanto houver um começo, está bem. Daqui a mil anos poderão nos alcançar, e então irão mais longe que nós...
Domin: ...para cumprir aquilo que nós apenas gaguejamos em pensamento.
Busman: Esperem... Eu, idiota! Deus do céu, como não pensei nisso antes!
Hallemeier: O que o senhor tem?
Busman: Quinhentos e vinte milhões em notas e cheques! Meio bilhão no cofre! Por meio bilhão eles venderão... Por meio bilhão...
Dr. Gall: Enlouqueceu, Busman?
Busman: Eu não sou cavalheiro. Mas por meio bilhão... tropeça para a esquerda
Domin: Aonde vai?
Busman: Deixem, deixem! Mãe de Deus, por meio bilhão vende-se tudo! sai
Helena: O que Busman quer? Que fique conosco!
Pausa.
Hallemeier: Uh, que abafamento. Começa...
Dr. Gall: ...a agonia.
Fabry: olha pela janela Estão como petrificados. Como se esperassem que algo descesse sobre eles. Como se algo terrível nascesse do silêncio deles...
Dr. Gall: A alma da multidão.
Fabry: Talvez. Paira sobre eles... como um tremor.
Helena: aproxima-se da janela Ah, Jesus... Fabry, isto é pavoroso!
Fabry: Nada é mais terrível que a multidão. Aquele na frente é o chefe deles.
Helena: Qual?
Hallemeier: vai à janela Mostre-me.
Fabry: Aquele de cabeça inclinada. De manhã falou no porto.
Hallemeier: Ah, aquele da cabeçorra. Agora a está levantando, estão vendo?
Helena: Gall, é Radius!
Dr. Gall: aproxima-se da janela Sim.
Hallemeier: abre a janela Não gosto dele. Fabry, acertaria um balde a cem passos?
Fabry: Espero que sim.
Hallemeier: Então tente.
Fabry: Está bem. puxa o revólver e mira
Helena: Pelo amor de Deus, Fabry, não atire nele...
Fabry: É o chefe deles.
Helena: Pare! Ele está olhando para cá!
Dr. Gall: Atire!
Helena: Fabry, eu lhe peço...
Fabry: abaixa o revólver Seja.
Hallemeier: ameaça com o punho Seu patife!
Pausa.
Fabry: inclinado para fora da janela Busman está indo. Por todos os santos, o que Busman quer diante da casa?
Dr. Gall: inclina-se pela janela Traz alguns pacotes. Papéis.
Hallemeier: É dinheiro! Pacotes de dinheiro! O que vai fazer com isso? Alô, Busman!
Domin: Será que quer comprar a própria vida? chama Busman, enlouqueceu?
Dr. Gall: Faz como se não ouvisse. Está correndo para a grade.
Fabry: Busman!
Hallemeier: berra Bus-man! Para trás!
Dr. Gall: Está falando com os Robôs. Mostra o dinheiro. Aponta para nós...
Helena: Ele quer nos resgatar!
Fabry: Contanto que não toque na grade...
Dr. Gall: Ha, ha, como agita a mão!
Fabry: grita Diabos, Busman! Afaste-se da grade! Não toque nela! volta-se Depressa, desliguem!
Dr. Gall: Oooh!
Hallemeier: Golpes de Deus!
Helena: Jesus, o que aconteceu com ele?
Domin: puxa Helena para longe da janela Não olhe!
Helena: Por que ele caiu?
Fabry: Morto pela corrente.
Dr. Gall: Morto.
Alquist: levanta-se O primeiro.
Pausa.
Fabry: Ali jaz ele... com meio bilhão sobre o peito... o gênio das finanças.
Domin: Ele foi... rapazes, ele foi, a seu modo, um herói. Grande... abnegado... camarada... Chore, Helena!
Dr. Gall: à janela Veja, Busman, nenhum rei teve túmulo maior que o seu. Meio bilhão sobre o peito... Ah, afinal, é como um punhado de folhas secas sobre um esquilo morto, pobre Busman!
Hallemeier: Digo-lhes, ele foi... Toda honra... Digo-lhes, ele queria nos resgatar!
Alquist: com as mãos postas Amém.
Pausa.
Dr. Gall: Estão ouvindo?
Domin: Um rumor. Como vento.
Dr. Gall: Como uma tempestade distante.
Fabry: acende a lâmpada sobre a lareira Brilha, círio da humanidade! Ainda correm os dínamos, ainda há dos nossos lá... Aguentem, homens da usina elétrica!
Hallemeier: Foi uma grande coisa ser homem. Foi algo imenso. Dentro de mim zumbem um milhão de consciências, como numa colmeia. Milhões de almas voam para dentro de mim. Camaradas, foi uma grande coisa.
Fabry: Ainda brilhas, engenhosa luzinha; ainda deslumbras, pensamento radiante e perseverante! Ciência sapiente, bela criação dos homens! Centelha flamejante do espírito!
Alquist: Lâmpada eterna de Deus, carro de fogo, santa vela da fé, reza! Altar sacrificial...
Dr. Gall: Primeiro fogo, sarça ardente junto à caverna! Fogueira no acampamento! Pira de vigia!
Fabry: Ainda vigias, estrela humana; brilhas sem vacilar, chama perfeita, espírito claro e inventivo. Cada um de teus raios é um grande pensamento...
Domin: Tocha que passa de mão em mão, de século em século, eternamente adiante.
Helena: Lâmpada vespertina da família. Crianças, crianças, já é hora de dormir.
A lâmpada se apaga.
Fabry: O fim.
Hallemeier: O que aconteceu?
Fabry: A usina elétrica caiu. Agora somos nós.
À esquerda, abrem-se as portas; nelas está Nána.
Nána: De joelhos! Chegou a hora do juízo!
Hallemeier: Raios, você ainda está viva?
Nána: Fazei penitência, incrédulos! É o fim do mundo! Rezai! corre para fora A hora do juízo...
Helena: Adeus, todos vocês, Gall, Alquist, Fabry...
Domin: abre a porta à direita Aqui, Helena! Fecha-a atrás dela. Agora, depressa! Quem fica no portão?
Dr. Gall: Eu. Ruído lá fora. Oh, isso já vai começar. Adeus, rapazes! corre para a direita, pela porta disfarçada no papel de parede
Domin: As escadas?
Fabry: Eu. Vá para junto de Helena. Arranca uma flor do buquê e sai.
Domin: A antecâmara?
Alquist: Eu.
Domin: Tem revólver?
Alquist: Obrigado, eu não atiro.
Domin: O que pretende fazer?
Alquist: saindo Morrer.
Hallemeier: Eu fico aqui.
De baixo, tiros rápidos.
Hallemeier: Oh, Gall já está tocando. Vá, Harry!
Domin: Já vou. examina duas Brownings
Hallemeier: Pelo diabo, vá para junto dela!
Domin: Adeus. Sai pela direita, atrás de Helena.
Hallemeier: sozinho Agora, depressa, a barricada! Tira o casaco e arrasta sofá, poltronas e mesinhas para junto da porta à direita.
Explosão que abala tudo.
Hallemeier: interrompe o trabalho Malditos canalhas, têm bombas!
Novos tiros.
Hallemeier: continua trabalhando O homem precisa se defender! Ainda que... ainda que... Não se entregue, Gall!
Explosão.
Hallemeier: ergue-se e escuta Então? Agarra a pesada cômoda e a arrasta para a barricada.
Pela janela, atrás dele, um Robô sobe por uma escada... À direita, tiros.
Hallemeier: luta com a cômoda Mais um pouco! A última muralha... O homem... não deve... nunca se entregar!
O Robô salta pela janela e traspassa Hallemeier atrás da cômoda. Um segundo, um terceiro, um quarto Robô saltam pela janela. Atrás deles, Radius e outros Robôs.
Radius: Terminado?
Robô: erguendo-se de junto de Hallemeier caído Sim.
Entram pela direita novos Robôs.
Radius: Terminado?
Outro Robô: Terminado.
Outros Robôs, pela esquerda.
Radius: Terminado?
Outro Robô: Sim.
Dois Robôs: arrastando Alquist Não atirou. Matá-lo?
Radius: Matar. olha para Alquist Deixar.
Robô: É um homem.
Radius: É um Robô. Trabalha com as mãos, como os Robôs. Constrói casas. Pode trabalhar.
Alquist: Matem-me.
Radius: Você trabalhará. Você construirá. Os Robôs construirão muito. Construirão novas casas para novos Robôs. Você os servirá.
Alquist: baixo Afasta-te, Robô! Ajoelha-se junto de Hallemeier morto e ergue-lhe a cabeça. Eles o mataram. Está morto.
Radius: sobe na barricada Robôs do mundo! Caiu o poder do homem. Com a conquista da fábrica, somos senhores de tudo. A etapa da humanidade foi superada. Surgiu o novo mundo! O governo dos Robôs!
Alquist: Mortos!
Radius: O mundo pertence aos mais fortes. Quem quer viver deve governar. Somos senhores do mundo! Domínio sobre mares e terras! Domínio sobre as estrelas! Domínio sobre o universo! Espaço, espaço, mais espaço para os Robôs!
Alquist: à porta da direita O que vocês fizeram? Perecerão sem os homens!
Radius: Não há homens. Robôs, ao trabalho! Marche!
Tradução Literunico em português brasileiro de R.U.R., peça de ficção científica e distopia industrial de Karel Čapek, publicada em 1920 e célebre por introduzir a palavra robô ao imaginário moderno.
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