Universo da obra
Universo da obra
—É coisa de “chuzo”. Dizem que ele dá quanta mercadoria o freguês quiser, faz assinar num livro e entrega qualquer retalho, avisando: “O resto eu tenho guardado no Vichada”. Eu perdi a estima por ele.
—E quanto dinheiro ele te deu?
—Cinco pesos, mas me arrancou recibo de dez. Tem me prometido uma muda nova e nada me deu. Assim com todos. Já despachou gente para San Pedro de Arimena, para que lhe preparem os “bongos” no Muco. O hato ficou quase sozinho. Até o Jesús já se mandou, mas passando por Orocué com um recado do velho Zubieta para a autoridade.
—Está bem! Pega o requinto e canta.
—Ainda é cedo.
Esperamos quase uma hora. A ideia de que Alicia me fosse infiel enchia-me de cóleras súbitas, e, para não rebentar em soluços, eu mordia as mãos.
—O senhor pensa em matar o homem?
—Não, não! Só quero saber a que vem.
—E se for para se encontrar com sua mulherzinha?
—Tampouco.
—Mas isso ficaria feio para o senhor.
—Você acha que devo matá-lo?
—Essas coisas são suas. O que tem de ter é cuidado comigo. Espere-o na porteira, porque eu vou começar a cantar.
Obedeci. Daí a pouco, disse-me:
—Não se embebede. Ponha pulso na pontaria.
Por cima do bananal, mais tarde, a lua estendeu um reflexo indeciso, que se foi dilatando até envolver a imensidão. O tiple elevou seu rasgueado melancólico no prelúdio da toada:
Pobrezinha pombinha,
que o gavião apanhou;
aqui vai o sanguinho
por onde ele a levou.
Com a alma nos olhos, eu apontava a espingarda para o caño, para os currais, para toda parte. O peru, do alto da cumeeira da cozinha, feriu a noite com gritos desafinados. Lá fora, em alguma vereda do capinzal, os cães uivaram.
Aqui vai o sanguinho
por onde ele a levou.
As mulheres acenderam luz no quarto. A velha Tiana, como uma alma penada, apareceu no umbral:
—Olá, Miguel! A menina Griselda diz que deixe dormir.
O cantador emudeceu e depois veio me procurar.
—Esqueci de lhe dizer que eu estava obrigado a levar a curiara. Vou-me embora. Quando voltarmos, atire no da frente. Se acertar nele, eu o jogo aos jacarés e as contas ficam encerradas!
Vi-o afastar-se na embarcação, sobre a água enlutada onde as árvores estendiam suas sombras imóveis. Entrou depois na zona escura do charco, e só percebi o lampejo do canalete, rútilo como cimitarra larga.
Esperei até a madrugada. Ninguém voltou.
Deus sabe o que teria acontecido!
* * *
Ao raiar do dia, encilhei o cavalo de Miguel e pus a espingarda no zarzo. A menina Griselda, que andava com um balde regando as plantas, observava-me inquieta.
—Que está fazendo?
—Espero Barrera, que amanheceu por aqui.
—Exagerado! Exagerado!
—Ouça, menina Griselda: quanto lhe devemos?
—Cristão! Que está me dizendo?
—O que a senhora ouviu. A casa da senhora não é para gente honrada. Nem à senhora convém deitar-se no capinzal, tendo sua barbacoa.
—Põe freio nessa língua! Você está bêbado.
—Mas não com a bebida que Barrera lhe trouxe.
—Acaso foi para mim?
—Quer a senhora dizer que foi para Alicia?
—Você não pode obrigá-la nem a que te queira nem a que te siga, porque o carinho é como o vento: sopra para qualquer lado.
Ao ouvir isso, com alternada pressa, sorvi a garrafa e baixei a arma. A menina Griselda saiu correndo. Empurrei a porta. Alicia, meio vestida, estava sentada no catre.
—Compreendes o que está acontecendo por tua causa? Veste-te! Vamos embora! Depressa! Depressa!
—Arturo, por Deus!...
—Vou matar Barrera na tua presença!
—Como vais cometer esse crime!...
—Não chores! Já te dói o morto?
—Meu Deus!... Socorro!
—Matá-lo! Matá-lo! E depois a ti, e a mim, e a todos! Não estou louco! Nem digam que estou bêbado! Louco? Não! Mentes! Louco, não! Tira-me esse ardor que me queima o cérebro! Onde estás? Toca-me! Onde estás?
Sebastiana e a menina Griselda esforçavam-se por me segurar.
—Calma, calma, pelo que você mais quer! Sou eu. Não me conhece?
Atiraram-me num chinchorro e pretenderam costurá-lo por fora; mas, com brutal patear, rompi as cordas e, agarrando a menina Griselda pelo coque, arrastei-a até o pátio.
—Alcoviteira! Alcoviteira! —e, com um murro no rosto, banhei-a em sangue.
Depois, no delírio vesânico, sentei-me a rir. Divertia-me o zumbido da casa, que girava em rápido círculo, refrescando-me a cabeça. “Assim, assim! Que não pare, porque estou louco!”. Convencido de que era uma águia, agitava os braços e sentia-me flutuar no vento, por cima das palmeiras e das planícies. Queria descer para levantar Alicia nas garras e levá-la sobre uma nuvem, longe de Barrera e da maldade. E subia tão alto que, batendo asas contra o céu, o sol me ardia os cabelos e eu aspirava o ígneo resplendor.
Quando a convulsão entrou em crise, tentei caminhar, mas sentia o chão correr sob minhas plantas em sentido contrário. Apoiando-me na parede, entrei na sala vazia. Tinham fugido! Eu tinha sede e de novo esgotei a garrafa. Recolhi a arma e, para esfriar as faces, comprimia-as contra os canos. Triste porque Alicia me desamparava, comecei a chorar. Depois, declamei aos gritos:
—Não importa que me deixes só! Para isso sou homem rico! Nada quero de ti, nem do teu menino, nem de ninguém! Tomara que esse bastardo te nasça morto! Nem será filho meu! Vai-te com quem te der na veneta! Tu não passas de uma amante qualquer.
Depois disparei tiros.
—Onde está Franco, que não sai para defender sua fêmea? Aqui me tem! Eu vingarei a morte do Capitão! Quem se apresentar, eu mato! Barrera não, Barrera não; para que Alicia vá embora com ele! Troco-a por brandy, por uma garrafa apenas!
E, recolhendo a que tinha, montei no potro, atravessei a espingarda ao ombro e parti a galope pelo llano impassível, lançando aos ares este pregão rouco e diabólico:
—Barrera, Barrera! Álcool, álcool!
* * *
Meia hora depois, os do hato me viram passar. Do outro lado do caño, gritavam-me e faziam sinais. Pelo vau que me indicaram, esporeei o potro e saí ao pátio, dispersando a gente a peitadas, entre uma algazarra de protestos.
—Vamos ver! Quem manda aqui? Por que Barrera se esconde? Que saia!
E, pendurando a espingarda na montaria, saltei desarmado. Todos esperavam perplexos. Alguns sorriram, olhando-se.
—Ué, rapaz! Que é que você quer?
Assim disse uma mulherzinha, falcoeira de rosto envilecido pelo ruge, cabelo oxigenado e braços magricelas, postos em jarra sobre o cinto do vestido vistoso.
—Quero jogar dados! Nada mais que jogar! Neste bolso estão as libras!
E atirei algumas para o alto, que se espalharam pelo chão.
Então ouvi a voz roufenha do velho Zubieta, que ordenava do quarto contíguo:
—Clarita, o cavalheiro, que entre.
Montado no chinchorro e estendido de costas, em camiseta e cuecas, estava o fazendeiro, de barriga protuberante, olhos de lince, cara sardenta e cabelo ruivo. Estendendo-me as mãos, que além de ásperas pareciam inchadas, fez ranger entre os bigodes uma risada:
—Cavalheiro, desculpe eu não poder me endireitar!
—Eu sou o sócio de Franco, o cliente dos mil touros, e, se quiser, pago-lhe à vista!
—Assim sim, assim sim! Mas o senhor deve pegá-los, porque a “zambagem” que tenho está de pé e não serve para nada.
—Eu conseguirei vaqueiros, bem montados, e não deixarei que os desviem para o Vichada.
—Gosto do senhor. Isso está bem falado!
Saí para recolher meus arreios e vi Clarita cochichando com meu inimigo, enquanto lhe derramava água nas mãos com uma cuia. Ao me verem, esconderam-se atrás da casa.
—Que ladrão recolheu o ouro que joguei aqui?
—Venha tirá-lo de mim —replicou um homem, no qual reconheci o do winchester que pretendera confiscar a mercadoria de dom Rafael—. Agora sim podemos acertar o negócio do outro dia! Sem-vergonha, agora sim você me encontra!
Adiantou-se ameaçador, olhando para o ponto onde seu patrão estava escondido, como à espera de uma ordem. Sem lhe dar tempo, achatei-o com um só soco.
Barrera acudiu, exclamando:
—Senhor Cova, o que acontece? Venha aqui! Não dê atenção aos peões! Um cavalheiro como o senhor!...
O ofendido foi sentar-se contra o peitoril e, sem afastar de mim os olhos, enxugava o sangue das narinas.
Barrera repreendeu-o com ditos cruéis: “Malcriado, atrevido! O senhor Cova merece respeito!”. Mas, no momento em que me convidava a entrar no corredor, prometendo que o ouro me seria devolvido, o homem desencilhou meu cavalo e guardou a espingarda, e eu me esqueci da arma. A gente fazia comentários na cozinha.
No quarto, Clarita estava contando ao velho o que se passava, pois emudeceram ao me ver.
—O cavalheiro volta hoje?
—Não, amigo Zubieta. Não me dá vontade! Vim beber e jogar, dançar e cantar!
—É uma honra que não merecemos —afirmou Barrera—. O senhor Cova é uma das glórias de nosso país.
—E glória, por quê? —interrogou o velho—. Sabe montar? Sabe laçar? Sabe tourear?
—Sim, sim! —gritei—. O que o senhor quiser!
—Assim eu gosto, assim eu gosto! —E se abaixou para o couro de tigre que tinha debaixo do chinchorro—. Clarita, dá-nos uns “brandies” —disse, indicando-lhe o garrafão.
Barrera, para não beber, saiu ao corredor e, pouco depois, veio estendendo-me um punhado de ouro.
—Estas moedas são suas.
—Mente! De agora em diante são de Clarita.
Ela as recebeu sorrindo e me agradeceu com este cumprimento:
—Aprendam! É uma felicidade encontrar cavalheiros!
Zubieta ficou pensativo. De repente, mandou aproximarem a mesa e, quando esvaziamos outras taças, apontou uma sacolinha suspensa de um chifre na parede fronteira:
—Clarita, dá-nos “os dentes de santa Apolônia”.
Clarita pôs os dados sobre a mesa.
* * *
Indubitavelmente, minha nova amiga me favoreceu naquela noite nesse jogo plebeu, desconhecido para mim. Eu lançava os dados com nervosismo, e às vezes eles caíam debaixo do chinchorro. Então o velho, entre gargalhadas e tosses, perguntava: Ganhei? Ganhei? E ela, entre uma fumaceira de tabaco, inclinando a lamparina, respondia: Deu “cenas”. É um rapaz de sorte.
Barrera, simulando confiança nas palavras da mulher, confirmava tais decisões, mas vivia cioso de que não faltasse bebida. Clarita, bêbada, apertava-me a mão ao descuido; o velho, bêbado, cantarolava uma canção obscena; meu rival, por cima da luz trêmula, sorria-me irônico; eu, semiconsciente, repetia as “paradas”. À porta do quartucho abafado, os peões acompanhavam o jogo com interesse.
Quando fiquei dono de quase todo o monte de feijões que representava um valor combinado, Barrera propôs jogá-lo em “paro”, “vaciando” as morrocotas do colete. “Jogue pela metade, cem touros”, exclamou o velhote, dando fortes golpes na mesa. Então notei que os sapatos de meu adversário pisavam os de Clarita e tive o pressentimento de que chegava a fraude.
Com frase feliz decidi a mulher:
—Joguemos isto em companhia.
Ela estendeu imediatamente sobre o montinho de grãos as mãos avaras. O rubi de seu anel acendeu-se em sangue.
Zubieta amaldiçoou a sorte quando minha jogada o venceu.
—Agora com o senhor —disse a Barrera, fazendo soar os dados. Recolheu-os sem se perturbar e, enquanto os agitava, trocando-os, pretendeu distrair-nos com uma piada rasteira. Mas, ao lançá-los sobre a mesa, agarrei-os de um golpe:
—Canalha, estes dados são falsos!
Travou-se de súbito uma rixa, e a lâmpada rolou pelo chão. Gritos, ameaças, imprecações. O velho caiu do chinchorro, pedindo auxílio. Eu, no escuro, esgrimava os punhos à direita e à esquerda, para qualquer lugar onde ouvisse uma voz de homem. Alguém deu um tiro, os cães latiram, a porta rangia no afã do tumulto afugentado, e eu a fechei de um empurrão, sem saber quem ficava lá dentro.
Barrera exclamou no pátio:
—Esse bandido veio matar-me e roubar o senhor Zubieta! Ontem à noite esteve me “tocaiando”! Graças a Miguel, que se opôs ao crime e me denunciou a cilada! Prendam esse miserável! Assassino! Assassino!
Eu, lá de dentro, lançava-lhe insultos atrevidos, e Clarita, contendo-me, suplicava:
—Não saia, não saia, porque o crivam de balas!
O velho gemia, apavorado:
—Alumiai, que estou cuspindo sangue!
Quando me ajudaram a correr o ferrolho, senti um de meus pulsos umedecido. Eu tinha uma punhalada no braço esquerdo.
Conosco ficou encerrada uma pessoa que me pôs nas mãos um winchester. Ao sentir que me procurava, tentei agarrá-la, razão pela qual, sussurrando, repetia-me:
—Cuidado comigo! Sou o caolho Mauco, amigo de todo mundo!
Lá fora empurravam a porta, e eu, sem permanecer num só ponto, perfurava as tábuas a tiros, iluminando a sala com o relampejo dos estampidos. Por fim terminou a agressão. Ficamos submersos no mais pavoroso silêncio, e meu ouvido vigilante dominava a escuridão. Pelos buracos que minhas balas abriram, observei com pupila sigilosa. Havia lua, e o pátio estava deserto.
Mas, de instante em instante, eu recolhia o rumor de vozes e gargalhadas que vinham sabe Deus de onde. A dor da ferida começou a render-me, e a vertigem do álcool me lançou ao chão. Ali me dessangrei até Deus querer, entre o pânico de meus companheiros, que em algum canto diziam entre si: Parece que está agonizando.
—Água, água! Estou ferido! Morro de sede!
* * *
Ao amanhecer, abriram o quarto e me deixaram só. Despertei com desmaiada dor aos gritos que dava o dono do hato, repreendendo a peonada por indolente, pois não quis salvá-lo da balbúrdia.
—Graças ao guate —repetia—, graças ao guate estou contando a história! Ele tinha razão, os dados eram falsos e com eles esse trapaceiro do Barrera me havia roubado meu dinheiro. Aqui achei um debaixo da mesa! Convençam-se. Tem azougue por dentro.
—Não podíamos nos aproximar por causa dos tiros.
—E quem feriu Cova?
—Quem vai saber?
—Vão dizer a Barrera que não o quero aqui; que para isso tem seus toldos, que fique lá. Que, se não sabe para que servem os caminhos, saiba que o guate está aqui com a carabina!
Clarita e o caolho Mauco vieram em meu socorro trazendo um caldeirão de água quente. Descosturaram a manga da camisa para tirá-la sem machucar o braço tumefato e depois, umedecendo as bordas do tecido grudado, descobriram a ferida, pequena porém profunda, aberta sobre o músculo próximo ao ombro. Lavaram-na com aguardente e, antes de estenderem sobre ela a cataplasma morna, o caolho, com unção ritual, exclamou:
—Tenham fé, porque vou rezá-la.
Admirado, eu observava o homenzinho, de cor terrosa, bochechas fofas e lábios arroxeados. Pôs no chão, com minuciosa solicitude, o bordão em que se apoiava, e por cima o chapéu gordurento, de abas roídas, que tinha como fita um maço de cabuyas meio torcidas. Entre os farrapos viam-se-lhe as carnes hidrópicas, principalmente o abdome, escorrido em rolo sobre o peito do pé. Voltou, piscando para a porta, o olhinho caolho, para ralhar com os rapazes que espiavam.
—Isto não é coisa de brincadeira! Se não vão ter fé, sumam daqui, porque se perde a virtude!
Os mandriões permaneceram fervorosos, como num templo, e o velho Mauco, depois de fazer no ar alguns sinais de magia, mascou uma ladainha que se chamava “A oração do justo juiz”.
Satisfeito com seu ministério, recolheu o chapéu e o pau, e disse, inclinando-se sobre o couro de touro onde eu jazia estendido:
—Não se deixe “acochinhar” pela dor. Eu o curo ligeiro: com outra rezada fica.
Olhei com assombro para Clarita, como para indagar a certeza de quanto se passava. Era crente convicta, que manifestava respeito fanático. Para afugentar minhas dúvidas, expôs:
—Ué, rapaz!, Mauco sabe de medicina. É ele quem mata as bicheiras, rezando-as. Cura pessoas e animais.
—Não só isso —acrescentou o espantalho—. Sei muitas orações para tudo. Para achar reses perdidas, para desenterrar tesouros, para me fazer invisível aos inimigos. Quando, no recrutamento da guerra grande, vieram me pegar, eu me transformei numa bananeira. Uma vez me apanharam antes de eu acabar a reza e me trancaram num quarto, com chave dupla; mas me virei formiga e me escafedi. Se não fosse por mim, sabe-se lá o que nos teria acontecido na confusão de ontem à noite. Eu estava pronto para me evaporar quando entrassem e cobri-los todos com minha neblina. Assim que soube que o senhor estava ferido, rezei-lhe a oração do “sara que sara” e a hemorragia se conteve.
Lentamente fui caindo numa quietude sonâmbula, num vago desejo de dormir. As vozes iam se afastando de meus ouvidos e os olhos se me encheram de sombra. Tive a impressão de que afundava num buraco profundo, a cujo fundo jamais chegava.
* * *
Um sentimento de rancor me tornava odiosa a lembrança de Alicia, responsável por tudo quanto se passava. Se alguma culpa podia caber-me no transe calamitoso, era a de não ter sido severo com ela, a de não lhe ter imposto a todo custo minha autoridade e meu carinho. Assim, com a desrazão desse raciocínio, eu envenenava minha alma e ulcerava meu coração.
Verdadeiramente ela me teria sido infiel? Até que ponto a sedução de Barrera lhe teria aturdido o espírito? Teria existido essa sedução? Em que hora pôde chegar-lhe a influência do outro? As palavras reveladoras da menina Griselda não seriam mensagens de astúcia para decidir-me a seu favor, caluniando minha companheira? Talvez eu tivesse sido injusto e violento; mas ela devia perdoar-me, ainda que eu não lhe pedisse perdão, porque eu lhe pertencia com minhas qualidades e defeitos, sem que lhe fosse dado fazer distinções em mim. Acrescentava-se, em meu favor, que a vengavenga me levou à loucura. Quando, em são juízo, lhe dei motivos de queixa? Então, por que não vinha me procurar?
Por vezes, parecia-me vê-la chegar, sob o chapéu de lânguidas plumas, estendendo-me os braços entre soluços:
“Que desalmado te feriu por minha causa? Por que estás deitado no chão? Como não te dão a cama?”. E, afogando-me o rosto em lágrimas, sentava-se à minha cabeceira, dando-me por travesseiro suas coxas trêmulas, penteando para trás meus cabelos com mão enternecida e amorosa.
Alucinado pela obsessão, eu me reclinava sobre Clarita, afastando-me ao reconhecê-la.
—Rapaz, por que não descansa nos meus joelhos? Quer mais limonada para a febre? Troco o curativo?
Às vezes eu sentia a tosse impaciente de Zubieta no corredor.
—Mulher, sai daí que você esquenta o enfermo. Nem teu marido que fosse!
Clarita dava de ombros.
E por que aquela mulher não me desamparava, sendo uma escória de lupanar, uma sombra do baixo prazer, uma loba ambulante e famélica? Que mistério redimia sua alma quando me consentia com envergonhada ternura, como qualquer mulher de bem, como Alicia, como todas as que me amaram?
Uma vez me perguntou quantas libras restavam em meu bolso. Eram poucas, e ela as guardou no seio; mas, num momento em que nos deixaram a sós, leu-me um papel ao ouvido: “Zubieta te deve duzentos e cinquenta touros; Barrera, cem libras, e eu tenho guardadas para ti vinte e oito”.
—Clarita, tu me disseste que meu ganho no jogo esteve isento de dolo. Tudo isso é para ti, que foste tão boa comigo.
—Rapaz, que está dizendo? Não creias que te sirvo por interesse. Só quero voltar à minha terra, pedir perdão aos meus pais, envelhecer e morrer com eles. Barrera ficou de custear minha viagem à Venezuela e, em compensação, abusa de mim sem outra medida além de seu desejo. Zubieta diz que quer se casar comigo e me levar a Ciudad Bolívar, para perto dos meus velhinhos. Confiada nessa promessa, tenho vivido bêbada há quase dois meses, porque ele me admoesta com sua norma invariável: “Qual será minha mulher? A que me acompanhe a beber”.
“Nestas fundações me deixou jogada o Coronel Infante, guerrilheiro venezuelano que tomou Caicara. Ali me rifaram no tresillo, como simples coisa, e fui ganha por um tal Puentes, mas Infante me descontou ao liquidar o jogo. Depois o derrotaram, teve de se asilar na Colômbia e me abandonou por aqui.
“Anteontem, quando chegaste a cavalo, com a espingarda no arção, atropelando a gente, a gorra caída sobre a nuca, pareceste-me o meu homem. Depois simpatizei contigo desde que soube que eras poeta”.
* * *
Mauco entrava para rezar minha ferida, e tive o tino de fingir que acreditava na eficácia de suas orações. Sentava-se no chinchorro para mascar tabaco, roendo-o de uma rosca que parecia tasajo ressequido, e inundava o piso de salivadas sonoras. Depois me dava informes sobre Barrera:
—Passa o tempo metido no toldo, febril. Só me pergunta até quando o senhor vai ficar aqui. Quem sabe em que coisas o senhor estará lhe fazendo “mau terço”!
—Por que Zubieta não veio ocupar seu chinchorro?
—Porque é “alertado” e teme outra “chirinola”. Dorme na cozinha e se tranca por dentro.
—E Barrera voltou a La Maporita?
—As febres não o deixam parar de pé.
Essa afirmação aquietava meu espírito, pois eu vivia enciumado de Alicia e até da menina Griselda. Que estariam fazendo? Como qualificariam minha conduta? Quando viriam por mim?
No primeiro dia em que tive forças para levantar-me, suspendi o braço num lenço, à maneira de tipoia, e saí ao corredor. Clarita embaralhava as cartas junto ao chinchorro onde o velho dormia a sesta. A casa, de palha e meio construída, imunda como nenhuma, mal tinha habitável o trecho que eu ocupava. A cozinha, de paredões cobertos de fuligem, defendia sua entrada com um lamaçal formado pelas águas que derramavam as cozinheiras, sujas, suadas e andrajosas. No pátio, desigual e áspero, secavam ao sol, sob o zumbido dos moscardos, couros de reses sacrificadas, e deles um zamuro arrancava tiras sanguinolentas. No caney dos vaqueiros vigiavam, amarrados sobre poleiros, os galos de rinha, e no chão refocilavam-se cães e leitões.
Sem ser visto, aproximei-me da porteira. Nos currais, de grossos troncos cravados, a tourada prisioneira enfraquecia de sede. Atrás da casa dormiam uns peões sobre um cobertor estendido em cima do lixo. A pouca distância, na costa do caño, divisavam-se os toldos de meu rival e, no horizonte, em direção à fundação de La Maporita, perdia-se a curva dos morichales... Alicia estaria pensando em mim!
Clarita, ao me ver, acudiu com a sombrinha de moiré branco:
—Rapaz, o sol pode irritar tua ferida. Vem para a sombra. Não voltes a cometer disparates semelhantes!
E sorria, exibindo os dentes cheios de ouro.
Como intencionalmente me falava em voz alta, o velho, ao ouvi-la, incorporou-se:
—Assim eu gosto! Os jovens não devem viver acamados!
Sentei-me sobre a viga que servia de parapeito e iniciei o interrogatório meditado.
—Por quanto pensa nos dar as rezinhas?
—Quais serão?
—As do nosso negócio com Franco.
—Com ele, propriamente, não ficamos em nada. A fundação que dá em penhor vale muito pouco. Mas, como o senhor as paga “de relance”, será bom pegá-las, se tiver cavalos, e depois lhes damos preço.
Clarita interrompeu-nos:
—E quando dás a Cova as duzentas e cinquenta que ele te ganhou?
—Como! Que duzentas e cinquenta?
Endireitando-se, argumentava comigo:
—E, se o senhor tivesse perdido, com que teria pagado? Mostre-me as libras que trouxe.
—Que é isso? —replicou a mulher—. Acaso o único rico é você? Quem perde paga!
O velho afundava os dedos entre as malhas do chinchorro. De repente, propôs:
—Amanhã é domingo, e o senhor me dá a revanche nas rinhas de galos.
—Muito bem!
* * *
“Meu admirado senhor Cova:
“Que poder maléfico tem o álcool, que humilha a razão humana, rebaixando-a à torpeza e ao crime? Como pôde comprometer a condição mansa de meu temperamento numa altercação que me enlouqueceu a língua, até ofender de palavra a dignidade do senhor, quando seus merecimentos me impõem vassalagem enaltecedora que me enche de orgulho?
“Se eu pudesse publicamente lançar-me a seus pés para que o senhor me pisoteasse antes de perdoar-me as reprováveis ofensas, creia-me que eu não tardaria em implorar-lhe essa graça; mas, como não tenho direito nem de lhe oferecer essa satisfação, aqui me tem, constrangido e enfermo, maldizendo os passados ultrajes que, por fortuna, nem chegaram a salpicar a merecida fama de que o senhor goza.
“Como estou envilecido por meus desacertos, enquanto o senhor não me dignificar com sua benevolência, não lhe parecerá estranha a condição lamentável em que chego até o senhor, convertido em mercachifle comum, que trata de introduzir nos domínios da poesia a proposta de um negócio burguês. O caso é —e perdoe-me o atrevimento— que nosso bom amigo, o senhor Zubieta, me devia somas consideráveis, por dinheiro emprestado e por mercadorias, e pagou-mas com uns touros que se acham no curral, e que recebi então na expectativa de que o senhor pudesse necessitá-los. Veja-os, pois, e, se algum preço se dignar a lhes pôr, saiba que meu maior ganho será o de ter-lhe sido útil em alguma coisa.
“Beija seus pés, fervorosamente, seu desgraçado admirador,
Barrera”
Diante de Clarita foi-me entregue esta carta. O moleque que a trouxe via-me empalidecer de cólera e ia se retirando, cautelosamente, diante da demora da resposta.
—Diga o senhor a esse desavergonhado que, quando se encontrar a sós comigo, saberá no que dá sua adulação!
Enquanto isso, Clarita relia o papelucho.
—Rapaz, ele nada te diz do que te deve, nem da punhalada, nem do disparo; porque foi ele quem te feriu. Naquele dia, ao te ver chegar, preparou o revólver e lubrificou o estilete. “Olho de garça” com o Millán, o homem em quem você bateu no pátio: esse tem ordens terminantes. E sabes que Zubieta nada deve ao seringueiro por somas emprestadas? Este lhe deu para guardar umas morrocotas, confiando que eu as roubaria; mas o velho as enterrou. Depois o roubou com os dados que conheces. Toda manhã me pergunta: “Já lhe tiraste as amarelas? Daí te darei para a viagem. Bem se vê que não desejas voltar ao teu extraordinário país”. Esse homem tem planos sinistros. Se não tivesses estado aqui...
—Dá-me a carta para mostrá-la ao velho.
—Não digas nada, que ele é muito sabido. Compreende que Barrera é perigoso e, para distraí-lo, entregou-lhe a tourada que está no curral; mas, para que ele não possa tirá-la, mandou esconder os cavalos. Mal lhe deixou os peões de aluguel, depois de enviar emissários por toda parte com a notícia de que este ano não venderia gado a ninguém. Como Barrera soube disso, o velho, para desmenti-lo, fez um simulacro de negócio com Fidel Franco, sem adverti-lo de que era uma simples trapaça contra o hóspede importuno.
—De modo que não nos venderá gado nenhum?
—Parece que simpatizou contigo.
—Como farei para ganhar sua vontade?
—É muito simples. Soltar o gado que deu a Barrera. Só de assustá-lo, romperá os currais.
—Tu me ajudarás esta noite na empresa?
—Quando te der na gana. Bastará que eu, com este vestido branco, apareça à porteira para que a tourada “barajuste”. O importante é que não morram atropelados os peões que velam ao redor dos cercados. Felizmente se retiram cedo.
—E poderão nos descobrir?
—Absolutamente. Os poucos homens e mulheres que não se engancharam vão aos toldos jogar cartas assim que o velho se “encozinha”. Eu também irei, para afastar falsos testemunhos; e, quando calculares que volto, espera-me no corredor com a pele de tigre que Zubieta tem na sala, debaixo do chinchorro abandonado. Levamo-la pelo bananal e a sacudimos no curral.
Depois, quem pudesse nos ver pensaria: “Esses se levantaram ao fragor do tropel”.
* * *
Sepultei em meu ânimo o ardil vingativo como se pode guardar um escorpião no seio: a cada instante ele despertava para cravar-me o ferrão.
Já quando a tarde se reclinou nas pradarias, regressaram os vaqueiros com a numerosa tourada. Haviam-na levado ao pastoreio vespertino, de gramais profusos e charcos imóveis, onde, ao beber, apagavam com os beiços a imagem de alguma estrela crepuscular. Vinha à frente o rapaz que servia de ponteiro, acompassando ao trotezinho de sua égua a toada pueril que amansa os gados selvagens. Seguiam-no em grupos os touros de venerável testa e enormes chifres, solenes no cativeiro, fiando uma espuma no focinho, adormecidos os olhos, que a fúria enrubesce com fogo repentino. Atrás, ao passo de seus rocins e entre o resíduo de assobios monótonos, avançavam as fileiras de peões, aos flancos do “rodeo” formidável e letárgico.
Encerraram-no de novo, com paciente manha, cuidadosos da dispersão. Ouvia-se apenas a melancólica cantilena do guia, mais eficaz que o toque de corno nas majadas de minha terra. Correram as trancas e as ataram com “rejos” indóceis. E, quando escureceu, acenderam ao redor do curral fogueiras de bosta seca, para aquerenciar o rebanho, que absorto mirava as labaredas e a fumaça, ruminando apaziguado, ao abrigo das constelações.
Enquanto isso, eu meditava em nosso plano da meia-noite, em luta contra o temor que me esfriava as têmporas e me franzia as sobrancelhas. Mas a certeza da vingança, a possibilidade de causar a meu inimigo algum mal, punha vivacidade em meus olhos, engenho em minhas palavras, ardência em minha decisão.
Por volta das oito, o caolho Mauco protestou contra as fogueiras porque lhe tiravam o sono dos galos de rinha. Como ninguém quis apagá-las, levou-os ao meu quarto.
—Dê pousadinha a eles, que os frangos são bons. Mas, se passarem a noite em claro, não viram nada!
Mais tarde, o hato ficou em silêncio. Sobre os capinzais vizinhos, as lâmpadas dos toldos estendiam sua risca luminosa.
Clarita voltou quase bêbada.
—Ânimo, rapaz, e segue-me!
Chegamos à cerca dos currais por entre o bananal. Um vasto repouso adormecia a manada. Lá fora, espirravam os cavalos dos vigias. Então Clarita, trepada em meu joelho, sacudiu a pele malhada de ouro.
Súbito, o gado começou a remoinhar, entre espantado choque de cornamentas, comprimindo-se contra a cerca do encerramento, como vertiginosa marejada, com ímpeto arrasador. Uma rês quebrou o peito contra a porta e morreu no instante, pisoteada pelo tumulto. Os vigias começaram a cantar, acorrendo com os cavalos, e a tourada se conteve; mas logo voltou a remexer-se em ondas borrascosas, rangeu a porteira, houve berros, empurrões, chifradas. E assim como o desmoronamento arranca montes e rebate pelo desfiladeiro satânico, o grupo mugente rompeu os troncos da prisão e se derramou sobre a planície, sob a noite pávida, com um estrondo de cataclismo, com uma convulsão de mar embravecido.
A peonada e a mulherada acudiram com lâmpadas, pedindo socorro. Até Zubieta, sempre encerrado, averiguava aos gritos o que acontecia. Os cães perseguiram o barajuste, as galinhas medrosas cacarejaram, e os zamuros da sumaumeira vizinha fenderam a sombra com voos entorpecidos.
Nas brechas da corraleja ficaram esmagadas dez reses, e mais longe, quatro cavalos. Clarita veio com esses pormenores encarecer-me o segredo de nossa cumplicidade.
Quando coloquei em seu antigo lugar a pele de tigre, o deserto ainda retumbava.
* * *
No dia seguinte, levantei-me depois dos comentários sobre o acontecimento noturno e das bravatas do velho, que dissimulava com blasfêmias seu regozijo interior:
—Maldição! Eu não tenho culpa de o gado ter barajustado. Digam a Barrera que vá pegá-lo, se tem bagagens para remontar a gente. Mas que me pague primeiro os cavalos que se estragaram! Maldição!
—O senhor Barrera quer vir para cá discutir com o senhor o de ontem à noite.
—Aqui não pode se aproximar, porque o guate anda armado e não quero mais desgostos em minhas propriedades.
—Me parece —observava um— que foi a alma do defunto Julián Hurtado que apareceu no curral, e por isso barajustou a tourada. Algum dos vigias viu uma figura branca sobre a cerca do lado onde dizem que ele deixou o enterro.
—Pode ser verdade.
—Sim, porque na outra noite apareceu para nós, com uma lanterninha na mão, pela beira da savana, caminhando sem pisar o chão.
—E por que não lhe perguntaram, em nome de Deus, o que queria?
—Porque apagou a luzinha e quase caímos privados.
—Bandidos —rugiu Zubieta—: foram vocês então que andaram cavando entre as raízes do algarrobo. Tomara eu os pegue nessas vagabundagens para meter bala!
Quando saí ao pátio, havia muita gente reunida, mas Barrera não estava ali. Fazendo-me de inocente, assomei ao curral, onde vários homens esquartejavam os touros estripados.
—Não valeu —dizia um— eu me pôr à frente do gado, correndo em disparada e cantando para ele no escuro, para ver se o acalmava. Fui até muito longe e, graças ao meu potro, não morri atropelado.
Momentos depois, ao regressar à casa, vi que Clarita vendia rum, num coquillo lavrado, aos da junta. Havia homens desconhecidos, e debaixo dos cobertores cantavam-lhes os galos. Uns discorriam caçando apostas “às escondidas”, ou afiavam as esporas dos campeões, ou lhes borrifavam o costado com goles de aguardente, levantando-lhes a asa. Amarrados pelas patas com cordéis, escarvando o chão, desafiavam-se os rivais de plumagens vistosas e pescoços congestionados. Por fim Zubieta tomou um carvão e traçou no piso do caney um círculo irregular. Colocou-se em seu assento, recostando-o a uma coluna, frequentou a garrafa e, com áspera gargalhada, propôs:
—Vou cem tourinhos no “requemado” contra o “canaguay”!
Clarita, atrás do grupo, moveu a cabeça para indicar-me que não apostasse. Mas eu, com insolente arrogância, avancei dizendo:
—Escolho o frango e aposto as duzentas e cinquenta reses que ganhei do senhor nos dados!
O velho “se correu”.
Então lhe disse um sujeito, apertando o punho:
—Ponha dez touros contra as libras que tenho aqui, ou contra o resto que guardo na minha faixa.
Zubieta tampouco aceitou. Mas o homem replicava, teimoso:
—Veja, patrão, são “aguilitas” e “reinitas” para seu enterrinho da “topochera”!
—Mente! Mas, se o ouro é legítimo, troco-o por moeda de papel.
—Nessa eu não entro.
—Empreste-me uma libra para reconhecê-la.
O velho observou-a por todos os lados, com olhos famintos, palpou a gravação, fê-la soar e depois a levou aos dentes. Satisfeito, gritou:
—Pago! Está fechada a briga contra o canaguay!
—Mas com a condição de que o caolho Mauco se mande, porque pode rezar meu frango.
—Eu, rezar o quê nem nada!
Não obstante, fizeram-no sair do grupo resmungando e o trancaram na cozinha.
Os careadores levantaram os frangos e, chupando-lhes os esporões, esfregaram-nos depois com limão, a contento do público. Logo, à voz do juiz da briga, enfrentaram-nos dentro do círculo.
O galista gritava, agachado sobre o palenque:
—Hurra, franguinho! No olho, que é vermelho; na perna, que é terna; na asa, que é rala; no bico, que é rico; no pescoço, que é teso; no cotovelo, que é gordo; na morte, que é minha sorte!
Os contendores olharam-se com ira, bicando a areia, eriçando sobre o dorso raspado e sanguíneo a gola de plumas irisadas e trêmulas. Com simultâneo revoo, em azul resplendor, lancearam o vazio, por cima de suas cabeças, esquivas à punhalada e ao golpe de asa. Raivosos, entre o vozerio dos espectadores que ofereciam “gabelas”, acometeram-se uma e outra vez, costuravam-se a punhaladas, prendiam-se arquejantes, e onde agarrava o bico entrava a espora, com tenacidade homicida, entre o cintilar das plumagens, entre o salpico do sangue ardoroso, entre o ruído das moedas no estádio, entre a ovação palmeada que fez a gente ao ver rolar o canaguay com o crânio aberto, sacudindo-se sob a pata do vencedor, que, erguido sobre o moribundo, saudou a vitória com um clarim triunfal.
Nesse momento empalideci: Franco passou a porteira, seguido de vários cavaleiros.
* * *
Zubieta não se impressionou menos ao ver os recém-chegados. Arrastando o passo, saiu-lhes ao encontro:
—E vocês, malandros, para onde vão de bom?
—Para cá mesmo —disse Franco, apeando-se.
E me abraçou com efusão.
—De meu rancho, que notícias me tens? Que aconteceu com teu braço?
—Nada! Acaso não vens de La Maporita?
—Saímos diretamente de Tame; mas desde ontem ordenei ao mulato Correa que se desviasse para minha casa e viesse contigo trazendo os cavalos. Este abraço te manda dom Rafael. Seguiu viagem sem complicações, graças a Deus. Onde podemos desencilhar?
—Aqui, no caney —resmungou Zubieta. E gritou aos jogadores—: Vão longe com sua vagabundagem, porque preciso da ramada!
Eles, recolhendo seus galos, saíram em direção aos toldos, com algazarra de tiples e maracas. E os vaqueiros desencilharam.
—É verdade que ontem à noite houve barajuste?
—Por que dizes isso?
—Desde esta manhã vimos partidas de gado que corriam sozinhas. E pensamos: ou barajuste, ou os índios! Mas agora que passamos pelos currais...
—Sim! Barrera deixou escapar o rodeo. Não sei como remediará, sem cavalos...
—Nós nos comprometemos a pegar-lhe as reses que quiser, conforme o que ele nos pague —repôs Franco.
—Não permito mais correrias em minhas savanas, porque os bichos se “manhoseiam”.
—Queria dizer que, como desde amanhã começamos a pegada dos touros que negociamos...
—Eu não assinei documento com ninguém, nem me lembro de negócio nenhum!
Ao repetir isso, golpeava a perna.
Quando o velho ocupou a rede, veio o galista perdedor e nos disse:
—Desculpem interromper.
—Joga para cá as libras que ganhei de ti.
—Disso eu queria tratar: o canaguay, enlouqueceram-no, deram quinina ao canaguay, porque desde ontem o caolho Mauco diminuiu as pílulas nos toldos, e o senhor mesmo as misturou com grãos de milho. O senhor Barrera quis que eu apostasse contra o senhor, apesar do sucedido, para provar que o senhor também não joga limpo e que não deve continuar desacreditando-o diante do senhor Cova.
—Isso vocês acertarão depois —interrompeu Franco, sacudindo o velhote amostardado—. O importante é que me esclareça agora mesmo o negócio, porque o senhor se engana se pensa que pode brincar comigo!
—Franquito, vens me matar?
—Venho pegar o gado que o senhor me vendeu, e para isso trouxe vaqueiros. Pegá-lo-ei, custe o que custar! E, se não, que Judas nos leve!
Os vaqueiros, desejosos de novo espetáculo, agruparam-se ao redor do chinchorro. Ao vê-los, exclamou Zubieta:
—Senhores, sirvam-me de testemunhas de que eu estava gracejando.
E, cadavérico, porque Franco tinha revólver, voltou-se para mim com pálpebras úmidas:
—Guate, por Deus! Eu te pago tuas rezinhas! Franquito, não me fales desse modo, que me assustas!
O intruso, que se presumia leguleio, sentenciou:
—A legalidade é para todos! Pague também ao senhor Barrera e ficamos em paz. Ele está de saída para o Vichada, e o senhor é responsável pela demora e pelos prejuízos.
Com enérgica reprimenda estourou o ancião, colocando-se entre Fidel e mim:
—Fujão, fujão! Não sabes quem está aqui? Queres que te tiremos a pauladas? Por que te metes com estes cavalheiros, que são meus clientes e amigos queridos? Dize ao teu Barrera que não me alise, porque estes me fazem respeitar!
E, apoiando-se em nossos ombros, acertou-lhe um pontapé.
* * *
Quando Franco viu minha ferida e lhe contei o sucedido, pegou o winchester para desafiar Barrera e saiu correndo. Clarita o conteve no pátio.
—Que vais fazer? Nós já tomamos vingança —e contou-lhe o barajuste.
Ao ver a decisão daquele homem leal, que arriscava a vida por mim, fui tomado de remorso e quis confessar-lhe o sucedido em La Maporita para que me matasse.
—Franco —disse-lhe—. Eu não sou digno de tua amizade. Eu bati na menina Griselda!
Desconcertado, ele se afogou nestas palavras:
—Alguma falta que ela cometeu contra ti? Contra tua senhora? Contra ti?
—Não, não! Embebedei-me e ofendi as duas, sem motivo algum. Já faz sete dias que as deixei sozinhas! Dispara contra mim essa carabina!
Atirando-a ao chão, lançou-se em meus braços:
—Tu deves ter razão, e, se não tens, eu a concedo.
E nos separamos sem dizer uma palavra mais.
Então Clarita apertou-me a mão:
—Por que não me tinhas dito que tens senhora?
—Porque dela nós dois não devemos falar.
Ficou pensativa, de vista baixa, volteando entre os dedos o cordão de uma chave. Depois me ofereceu, dizendo:
—Aí fica teu ouro!
—Eu o dei de presente a ti, e, se não o aceitas como obséquio, deixa-o em pagamento de teus cuidados durante minha enfermidade.
—Tomara que tivesses morrido!
Vi-a afastar-se para a cozinha, onde os músicos bebiam guarapo. Dali, para que eu a ouvisse, acentuou:
—Digam a Barrera que ainda vou embora com ele!
E, despeitada, começou a dançar um bunde, erguendo o vestido acima dos joelhos, entre chalaças e palmas.
Meu coração, libertado do peso da inquietude, começou a bater agilmente. Já não me restava outra angústia senão a de ter ofendido Alicia, mas quão doce era o pensamento da reconciliação, que se anunciava como aroma de sementera, como lonjura de amanhecer. De todo nosso pretérito só ficaria perdurável a marca dos pesares, porque a alma é como o tronco da árvore, que não guarda memória das florações passadas, mas das feridas que lhe abriram na casca. Contudo, desditosos ou felizes, devíamos sê-lo em grau supremo, para que mais tarde, se a fatalidade nos apartasse por diversos caminhos, a lembrança nos aproximasse ao encontrarmos abrolhos semelhantes aos que um dia nos sangraram, ou perspectivas como as que outrora sorriram, quando tínhamos a ilusão de que nos amávamos, de que nosso amor era imortal.
Até tive desejos de me confinar para sempre nessas planícies fascinadoras, vivendo com Alicia numa casa risonha, que eu ergueria com minhas próprias mãos à beira de um caño de águas opacas, ou em qualquer uma daquelas colinas minúsculas e verdes onde há um poço glauco ao lado de uma palmeira. Ali, à tarde, congregar-se-iam os gados, e eu, fumando no umbral, como patriarca primitivo de peito suavizado pela melancolia das paisagens, veria os poentes no horizonte remoto onde nasce a noite; e, livre já das vãs aspirações, do engano dos triunfos efêmeros, limitaria meus anelos a cuidar da zona que meus olhos abarcassem, ao gozo das fainas campesinas, à minha consonância com a solidão.
Para que as cidades? Talvez minha fonte de poesia estivesse no segredo dos bosques intactos, na carícia das auras, no idioma desconhecido das coisas; em cantar o que diz ao penhasco a onda que se despede, o arrebol à ciénaga, a estrela às imensidões que guardam o silêncio de Deus. Ali, nesses campos, sonhei ficar com Alicia, envelhecer entre a juventude de nossos filhos, declinar diante dos sóis nascentes, sentir cansados nossos corações entre a seiva vigorosa dos vegetais centenários, até que um dia eu chorasse sobre seu cadáver, ou ela sobre o meu.
* * *
Franco decidiu que eu não fosse às savanas, pois meu braço podia gangrenar se a cicatriz inflamasse. Além disso, escasseavam os potros e era melhor destiná-los aos vaqueiros reconhecidos. Esse raciocínio encheu-me de amargura.
Saíram do hato quinze cavaleiros às duas da madrugada, depois de sorverem o gole de café preto tradicional. Ao lado das montarias, sobre o flanco direito dos animais, pendiam enroladas as cordas llaneras, cuja ponta se atava à cauda de cada trotão. Os vaqueiros ostentavam seus bayetones, estendidos sobre as coxas para se defenderem do touro nos lances frequentes, e ao cinto levavam a faca dentada para descornar. Franco deu-me o revólver, mas pendurou seu winchester no cepilho da sela.
Depois tornou a me vencer o sono. Ah, se eu tivesse sentido o que então deve ter acontecido!
Pouco depois de sair o sol, chegou o mulato Correa, trazendo reatados os cavalos de dom Rafael. Saí ao seu encontro, pela frente dos toldos, e vi que Barrera estava se barbeando. Clarita, sentada sobre um baú, segurava-lhe o espelho com as mãos. Sem responder ao cumprimento deles, pus-me ao estribo do mulato e entramos na corraleja.
—Viste Alicia? Que recado me trazes?
—Com ela não pude me ver, porque estava chorando trancada. A menina Griselda mandou esta mala de roupa para vocês, deve ser para que se apresentem trocados. A todo momento ela se assoma para ver se vocês chegam. Estava arrumando as arcas e disse que hoje viriam para cá.
Essa notícia me tornou jovial. Por fim minha companheira viria buscar-me!
—E chegarão na curiara?
—A patroa mandou deixar três cavalos.
—E perguntaram por mim?
—Minha mãe me disse que o senhor ia encher a cabeça do homem de histórias.
—E sabiam do meu braço?
—Que aconteceu? Alguma besta o derrubou?
—Uma feridinha, mas já estou bem.
—E onde o senhor guarda minha “morocha”?
—Tua espingarda? Deve estar com minha montaria nos toldos. Vai reclamá-la.
Ao ficar só, uma dúvida lancinante me comoveu: Barrera teria voltado a La Maporita? Eu o fazia vigiar por Mauco de manhã e de noite; mas o caolho me diria a verdade? E pensei: já que Barrera se embeleza, já soube que Alicia chega. Talvez sim, talvez não.
Mas Alicia saberia conduzir-se. Além disso, aquele homem tinha medo de mim. Por que eu não o apartava de meu pensamento para afundar-me no augúrio da visita feliz? Se Alicia me procurava, era obedecendo ao amor, e viria reconquistar-me, fazer-me seu para sempre, entre assustada e melindrada. Com acento agravado, com tom de reconvenção, reprovar-me-ia minhas faltas; e, para torná-las maiores, ajudaria-se daquele gesto inesquecível e habitual com que selava a boca, contraindo os lábios para encher de graça as covinhas das faces. E, querendo perdoar, repetir-me-ia que o perdão era impossível, ainda que a emenda superasse o propósito e a súplica.
De minha parte, poria também em jogo minha habilidade para retardar-lhe o instante do beijo gemebundo e conciliador. Da margem do caño eu lhe estenderia a mão cerimoniosa para que saísse da curiara, cuidando que notasse a tipoia de meu braço enfermo, e negando-me depois à urgência de suas perguntas:
—Estás ferido? Estás ferido?
—Não é nada grave, senhora. Aflige-me tua palidez!
O mesmo faria ao me aproximar de seu cavalo, se viessem por terra.
Pensei exibir-me a ela como então não me vira: com certo descuido no traje, os cabelos revoltos, o rosto ensombrecido de barba, aparentando o porte de um macho almiscarado e trabalhador. Embora Mauco costumasse esfolar-me a cara com sua navalha de cortar correias, tomei a resolução de não ocupá-lo naquele dia, para distinguir-me de meu rival.
Decidi depois ir-me do hato sem esperar as mulheres e aparecer mais tarde confundido com os vaqueiros, trazendo à cauda do potrejón algum touro iracundo, que me perseguisse bufando e derrubasse minha cavalgadura, para que Alicia, desfalecida de pânico, me visse rendê-lo com o bayetón e mancorná-lo de um só coleo, entre o anseio da peonada atônita!
O mulato voltou dos toldos com arma e montaria.
—O senhor Barrera ficou muito sentido. Que não sabia que essas coisas estavam lá. Entendi que mandariam gente pegar os bichos dispersos.
—Proíbo-te essa companhia. Se não queres ir só, irei contigo.
—Onde lhe disseram que anoiteciam?
—Em Matanegra.
—Mas dom Fidel me indicou a várzea do Pauto. Vou-me embora porque a noite me pega e a brigada se me espalha.
—Guarda essa roupa naquele quarto e traz-me a carabina. Vamos a qualquer parte. Eu te acompanharei.
Fui à cozinha despedir-me de Zubieta. Chamei-o várias vezes. Ninguém respondeu.
* * *
Quando íamos tão distantes do hato que só se percebiam os penachos de suas palmeiras, o mulato desmontou para carregar a espingarda.
—Sempre é bom andar prevenido. Pólvora pouca e munição até a boca.
—A que obedece tua precaução?
—Pode nos alcançar a gente do homem. Por isso repeti que íamos à várzea do Pauto, para que ouvissem os molecotes que consertavam as portas do curral. Agora tomamos por onde o senhor disse.
Teríamos caminhado mais três léguas quando voltou a afastar-me do pensamento de Alicia.
—Quero consultar meu caso, e perdoe. A Clarita “pôs os olhos em mim”.
—Estás apaixonado por ela?
—Essa é a consulta. Há quinze dias me lançou este floreio: “Que negrinho tão bem formado! Assim dá vontade na gente!”.
—E que respondeste?
—Fiquei com vergonha...
—E depois?
—Isso também vai na consulta: propôs que enforcássemos o velho Zubieta e fugíssemos para longe.
—E por quê? Como? Para quê?
—Para que diga onde enterrei o ouro escondido.
—Impossível! Impossível! Essa é sugestão de Barrera.
—Justamente, porque ele me disse depois: “Se este mulatinho se vestisse bem, como ficaria aprumado e que mulheres encontraria. Eu sei de uma pessoinha que gosta muito dele”.
—E que respondeste?
—“Essa pessoinha dorme com o senhor!”. Assim lhe joguei, mas o maldito não se ofende com nada. Pôs-se a falar mal de Zubieta, dizendo que não paga à zambagem o seu trabalho; e que, quando lhe ocorre dar alguma coisinha a um, saca os dados para deixá-lo sem camisa no jogo. E essa sim é a verdade.
Como o calor me ia sufocando, ordenei ao mulato que me levasse a algum esteiro onde eu pudesse saciar a sede.
—Por aqui não achamos água em parte nenhuma. Onde há um “jagüey” famoso é ao lado daqueles médanos.
Começamos a atravessar uns terrenais imensos, de terra tão ressequida e endurecida que limava os cascos das cavalgaduras. E era necessário avançar por ali, pois zurais labirínticos estendiam aos lados suas redes de valas exaustas, conhecidas apenas pelo tigre e pela serpente.
O bebedouro era uma poceta de água salobra e turva, espessa como xarope, sujada pelos quadrúpedes da região. Ao vê-la, senti repugnância instintiva, mas Correa me seduziu com o exemplo. Abaixou-se sobre o estribo e, entre as patas dos cavalos sedentos, tirou seu chifre transbordante.
—Tape com o lenço para que sirva de coador.
Assim fiz várias vezes, sacudindo os animaizinhos que fervilhavam grudados no avesso do tecido úmido.
—Branco, por aqui anda gente forasteira. Aqui está o rastro de uma mula ferrada, e isso não é de lei nestas savanas, onde não há pedra.
O mulato tinha razão, porque a pouca distância do poço divisamos dois pontos que se moviam ao longe.
—Essas são pessoas que andam perdidas.
—Parece mais gado.
—Aposto que são racionais.
Provavelmente nos haviam visto, porque se dirigiram a nós. Já percebíamos o guarda-chuva vermelho do que vinha à frente, afligindo a mula com os estribos, envoltos numa enorme manta, à maneira das matronas rurais. Esperamo-los sob um moriche de sombra egoísta, com curiosidade e receio.
Enquanto Correa trocava os animais de carga, chegaram os sujeitos desconhecidos, saudando-nos em altas vozes:
—Favor à justiça, que anda extraviada!
—Agora e sempre —respondeu o mulato ingênuo.
—Mostrem-nos o caminho de Hato Grande. Este doutor é Juiz de Orocué, e eu seu secretário interino, por acréscimo, baquiano.
Ao ouvi-lo, averiguei se esse funcionário era o que assinava José Isabel Rincón Hernández; e fiz esta pergunta porque desse tal eu sabia que, de peãozinho de estrada, ascendera a músico de banda municipal e depois a Juiz do Circuito de Casanare, onde seus abusos o tornavam célebre.
—Sim! —respondeu o de guarda-chuva—. Eu sou o doutor, e este que lhes fala é um simples escrevente.
O rosto tísico do senhor Juiz era bilioso como seus óculos de celuloide e repulsivo como seus dentes cheios de tártaro. Simiescamente risível, apoiava no ombro o guarda-sol para enxugar o pescoço com uma toalha, maldizendo os deveres da justiça, que lhe impunham tantos sacrifícios, como o de viajar mal montado por terras selvagens, em inevitável comércio com gentes ignorantes e mal-nascidas, expondo-se ao risco dos índios e das feras.
—Levem-nos agora mesmo —ordenou com acento declamador, revolvendo o “mulengue”— ao hato infernal onde um tal Cova comete crimes cotidianos; onde meu amigo, o potentado Barrera, corre sérios perigos de vida e fazenda; onde o prófugo Franco abusa de meu critério tolerante, que só lhe exige conduta correta e nada mais. Ponham-se vocês incondicionalmente a serviço da justiça e troquem-nos estas bestas por outras melhores!
—O senhor se engana, senhor, tanto em seus conceitos como no caminho que procura. Nem o hato fica por aí, nem as pessoas que nomeia são todas como o senhor pensa, nem meus cavalos são bens mostrencos.
—Saiba o senhor, jovem irrespeitoso —replicou-me irado—, que por zelo plausível nos aventuramos sozinhos nestas pampas. O mensageiro que Zubieta me enviou clamando auxílio contra Barrera foi seguido por outro deste, para exigir caução ao facínora Cova. Viemos dispensar garantias, e vocês se favorecem também com elas, porque a justiça é como o céu, que nos cobre a todos. E, se é verdade que o empíreo nos abriga de graça, não é menos certo que as relações dos humanos tornam necessário o sustento unânime do bem comum. Toda contribuição é legal e pertence ao direito público. Se vocês não querem servir de guias, entreguem-me uma cota equivalente ao que um baquiano de boa vontade pediria por seu serviço.
—O senhor nos decreta uma multa?
—Irrevogável, sem apelação! —confirmou o secretário—. Considere que agora não nos pagam os salários.
—Pois vejam os senhores —repliquei, malandro—, o hato está perto e nós vamos para Carozal. Cortem aquela savana, margeiem depois a mata de monte, cruzem o caño, “deixem-se ir” pelo esterão, e dali divisarão a casa antes de meia hora.
—Ouves? —ralhou o juiz—. O que eu te dizia! Fizeste-me apanhar sol por aqui, por rotas desacostumadas, por capinzais trágicos, defraudando tuas obrigações de conhecer. Imponho-te uma multa de cinco pesos!
E depois de reduzir a nossa ao fornecimento de tabaco e fósforos, entraram no horizonte, com rumo contrário.
* * *
Correa me esclareceu alguns detalhes relativos ao embrulho de Franco em Arauca. Um jovem chamado Helí Mesa, que “atualmente vivia como colono no caño Caracarate”, veio certa vez a La Maporita e, enquanto capinavam o conuco, contou-lhe os acontecimentos como testemunha presencial. Franco era tenente da guarnição e estabelecera sua casa longe do quartel, à beira do rio. O capitão deu em perseguir a menina Griselda e, para cortejá-la a seu gosto, deixava o subalterno em serviço.
Este, já inteirado dos propósitos do chefe, abandonou o posto uma noite e correu à sua habitação. Ninguém soube o que teria acontecido a portas fechadas. O capitão apareceu com duas punhaladas no peito e, debilitado pela perda de sangue, morreu de febres na mesma semana, depois de fazer declarações à justiça favoráveis ao acusado.
Nem o homem nem sua mulher foram perseguidos jamais, embora tenham desaparecido na mesma noite da desgraça. Só o juiz de Orocué lhes expedia motu proprio boletins de comparecimento, equivalentes a letras de câmbio, pois o ouro corria para falar por eles, com costume tão descarado que as ordens judiciais já se limitavam a dizer: “Mandem o deste mês”.
Enquanto conversávamos pela estepe, um zefirinho repentino e crescente começou a alvoroçar as crinas dos cavalos e a brincar com nossos chapéus. Pouco depois, umas nuvens endemoninhadas se ergueram na direção do sol, devorando a luz, e um canhoneio subterrâneo estremecia a terra. Correa me advertiu que se aproximava o aguaceiro, e abreviamos as planícies a galope estendido, tocando a brigada, solta, para que se defendesse com liberdade. Buscávamos o abrigo dos montes longínquos e saímos a uma esplanada onde gemiam as palmeiras, sacudidas pelo ventão com tão poderosa insolência que as fazia desaparecer do espaço, abaixando-as sobre o chão, para que varressem a poeira dos pastos crispados. Nas rampas, com disciplinada pressa, congregavam-se os rebanhos, presididos por touros mugentes, de caudas desviadas, que se impunham ao vendaval agrupando as fêmeas covardes e abrindo ao redor uma brecha categórica e defensiva. As águas corriam ao contrário, e as bandadas de patos volteavam nas alturas, como folhas dispersas. Súbito, cerrando as lonjuras entre céu e terra, o nublado despendurou seus telões, terrível, rasgado por centelhas, aturdido por trovões, convulsionado por borrascas que vinham empurrando a escuridão.
O furacão foi tão furibundo que quase nos arrancava das montarias, e nossos cavalos detiveram-se, dando as ancas à tormenta. Rapidamente desmontamos e, puxando os bayetones sob o aguaceiro, deitamo-nos de peito entre o capinzal. Escureceu-se o âmbito que nos separava das palmeiras, e só víamos uma, de grosso talo e longas asas, que se erguia como a bandeira do vento e zumbia ao chispar como isca sob o relâmpago que a incendiava; e era belo e aterrador o espetáculo daquela palmeira heroica, que agitava ao redor do tronco fendido as fibras do penacho flamejante e morria em seu lugar, sem se humilhar nem emudecer.
Quando passou a tromba, advertimos que a brigada desaparecera e montamos para persegui-la. Encharcados, entre a ventania procelosa, andamos léguas e léguas sem poder encontrá-la, e, caminhando atrás da nuvem que corria como negro muro, demos com os penhascos do Meta transbordado. Dali víamos ferver as ondas revolucionadas, em cujas cristas os raios se molhavam em culebreio implacável, enquanto os barrancos ribeirinhos se desprendiam com suas colônias de monte virgem, levantando altíssimas colunas de água. E o estrondo da queda era seguido pelo traqueteio dos cipós, até que por fim o bosque girava no vagalhão, como a jangada do espanto.
Depois, entre ervais chovidos onde as palmeiras iam se endireitando com medo, prosseguimos a busca da bestiada, e, sempre ambulando, a noite caiu sobre nós. Carrancudo, eu trotava atrás de Correa, ao piscar dos derradeiros relâmpagos, metendo-nos até a cincha nos baixios inundados, quando, do começo de uma lombada, divisamos fogueiras distantes que pareciam alegrar o monte. “Ali bivacam nossos companheiros, ali estão!”. E, alvoroçado, comecei a gritar-lhes.
—Por Deus, por Deus, feche a boca, que são índios!
E outra vez nos afastamos pelo deserto escuro, onde começavam a rugir as panteras, sem nos resolvermos a descansar, sem abrigo, sem rumo, até que a aurora tardia abriu seu alcácer de ouro à nossa esperança desfaleçante.
* * *
Mal clareou o dia, vimos uns vaqueiros que traziam à frente a “madrinha” de bois amansados, indispensável em toda faina, pois serve para aquietar os touros recém-pegos. O sol havia saído, e, sobre os grandes reflexos que estendia na planície, avançavam as reses descopando a grama.
Entre os cavaleiros que nos saudaram não estava Fidel, mas Correa chamou-os pelos nomes, atropelando-se nos detalhes do repentino aguaceiro, do desaparecimento dos animais, do encontro com os indígenas.
—Mano Ugenio, é a primeira vez que me “embrenho” de noite nestas savanas, e, para cúmulo, com este branco tão resignado, que nem sequer tem os braços bons. Já pensará que sou um zambo indecente.
—Isso acontece com todos nós, mano Antuco: llanero não bebe caldo nem pergunta por caminho; mas, com água, trovão e relâmpago, não se pode garantir.
—E vocês andavam de “ojeo”? Como foi?
—Porcamente. Ficamos contentes de que chovesse e viemos pela tardezinha. A noite toda velamos sem ver nenhuma “ponta”, porque o gado se assustou com a trovoada e não quis deixar o monte. De madrugada saiu uma manchinha de reses, mas não foi possível tocá-la, embora a madrinha tenha se portado muito bem, convidando-a com mugidos. Então resolvemos lançar os rangos em cima, para ver o que pegávamos: era puro “vacaje” velho, e a corrida se perdeu. Todos laçamos sem proveito, menos aquele zambinho do interior, que deixou o cavalo quebrar o pescoço correndo no escuro. Por isso vem a pé, com a montaria nas costelas.
—Mano Tista —gritou Correa—, venha, monte neste potro, que eu desejo me desentorpecer.
Para que não se acreditasse que as fadigas me acovardavam, invoquei a lembrança de Alicia para me avivar e disse:
—Mano Sidoro, quantas reses pegaram ontem a laço?
—Umas cinquenta. Mas à tarde “burriaram” os pescoções e quase houve “vaina” entre Millán e Fidel.
—Que acontece? Que acontece?
—Que Millán apareceu com uma gente para dizer que precisava dos currais de Matanegra, para meter os touros do barajuste, porque vinham pegá-los de novo. Franco não quis responder-lhe uma vírgula, mas, quando viu que tinham trazido cachorrada, “mencionou-lhe a mãe”. Enquanto isso, os outros, que por certo andam mal montados, aproximaram-se da madrinha e disseram que os “orejanos” que estavam pegos eram os mesmos que se tinham ido de dom Barrera, e queriam tomá-los à força. Então nos atracamos a “murros” uns com os outros, e Franco apontou a carabina para Millán.
—E onde lança corda a gente de Barrera?
—Uns voltaram. Outros andam por aí, de machete em punho. Isto fica feio. E, para piorar, vocês deixaram escapar os cavalos.
—O mau não é isso —exclamou um a quem chamavam mano Jobián—; o grave é que o Juiz está no hato, segundo disseram. Parece que o encontraram “embarbascoado”, e Millán fez um vaqueiro encaminhá-lo até a moradia. E com a justiça não nos metamos, porque ela nos pega sem dinheiro. Nós queremos ir embora.
—Companheiros —repliquei—, eu responderei a vocês que nada acontece!
—E quem responde pelo senhor, que é quem procura a autoridade?
* * *
Fidel não se amedrontou com o contratempo nem repreendeu o mulato; até se alegrou de ver que meu braço ferido podia reger as rédeas. Era de opinião que a brigada voltara aos comedouros de costume e que em La Maporita a encontraríamos.
Notei-o renitente em me contar a altercação com Millán. “Essa discussão não vale um cominho. Além disso, nesta savana cabem muitíssimas sepulturas; o cuidado está em conseguir que outros façam de mortos e nós, de enterradores”. Assim disse, sorridente; mas recebeu sobressaltado a notícia de que os vaqueiros queriam nos deixar sós. “Com certeza irão embora, porque todos têm contas com a justiça, porque todos roubam gado”.
—E a que horas continuará a pegada? —averiguei, devorando o almoço de carne tostada, que eu mesmo cortava da costela chiando no rescaldo.
—Só esperávamos a madrinha. Foi um erro levá-la ao Guanapalo, sabendo que por ali gadeiam os índios e que os rodeios se enmontam por causa disso. Mas neste banco há dois mil “cachões”, um melhor que o outro. Os cavalos ainda resistem a duas corridas, ou seja, trinta touros pegos, porque o jinete que perde laço paga multa.
—E os enviados de Barrera, onde se acham?
—Olhe-os: amanheceram naqueles mogotes. Essa gente não é do ofício, com exceção de Millán, que “é uma lança” para o coleo. Já lhes notifiquei pessoalmente que, se a cachorrada me alvoroçasse a vaquejada, se encomendassem ao diabo e lhe levassem nossas saudações, porque os mandaríamos ao inferno.
Entretanto, os da madrinha encaminhavam-na planície abaixo e a deixaram num esteiro, pastoreada por vários rapazes. No limite oposto de um morichal viam-se pontas de touros pastando ao descuido. Avançamos abertos em arcos para cair sobre eles como torvelinho, quando ouvíssemos o grito dos caporais; mas as reses nos farejaram e correram para os montes, ficando apenas algum macho desafiador, que empinava a cornamenta para amedrontar a cavalgada.
Então os cavalos lançaram-se sobre a debandada, por cima de moitas e tocas de coelho, com vertiginosa celeridade, e os fugitivos se fatigaram sob o zumbido das laçadas que, abertas, cruzavam o vento para lhes cair nos “cachos”. E cada vaqueiro laçou seu touro, desviando-se à esquerda, para que saltasse longe da montaria o resto da corda enrolada e o potro resistisse ao puxão na cauda sem enredar-se nem fraquejar.
Saltava nos matos a fera indômita ao sentir-se pega, e aguilhoava-se atrás do cavaleiro, inclinando sua meia-lua de punhais. Com frequência, chifrava-lhe o rocim, que se enlouquecia corcoveando para derrubar o cavalgador sobre as hastes inimigas. Então o bayetón prestava ajuda: ou caía estendido para que o touro o chifrasse enquanto o potro se continha, ou, nas mãos do vaqueiro apeado, coloria como um capote, em sortes desconcertantes, sem espectadores nem aplausos, até que a rês, coleada, caísse. Destremente a maneava, fendia-lhe o nariz com a faca e por ali passava a corda, atando as pontas à crina traseira do potrajão, para que o vacum ficasse preso pela cartilagem no seio vibrante da corda dupla. Assim era conduzido à madrinha, e, quando nela se incorporava, o cavaleiro voltava-se sobre a garupa, soltava uma ponta do rejo brutal e a fazia sair a puxões pelo nariz atormentado e sangrante.
Eu montava, alegremente, um cavalinho coral, apaixonado pelas distâncias, que, ao ver seus companheiros se arrojarem sobre a grei, disparou a rédea solta atrás deles, com tão ágil violência que, num instante, a planície lhe passou sob os cascos. Adestrado pelo costume, deu em perseguir um touro barcino, e era de ver com que pujança lhe fazia soar o freio sobre os lombos. Eu atirava o laço uma e outra vez, com mão inexperta; mas, de repente, o bicho, voltando-se contra mim, afundou ambos os chifres na virilha da cavalgadura. O matungo, arrebentado, descarregou-me com golpe raivoso e fugiu enredando-se nas entranhas, até que o cornúpeto embravecido o ultimou a chifradas contra a terra.
Advertidos do transe em que me via, dois cavaleiros se desbocaram em meu socorro. O animal fugiu pelos torrões. Correa me deu seu potro e, ao sair desenfreado atrás de Franco, vi que Millán, com aceleramento emulador, estendia seu cavalo sobre a rês; mas esta, ao inclinar-se o homem para coleá-la, fisgou-o com um chifre pela orelha de parte a parte, arrancou-o da montaria e, levando-o no alto como um boneco, abria com as coxas do infeliz uma trilha profunda no capinzal. Surda a besta ao nosso clamor, trotava com o morto de arrasto, mas, em horrível instante, pisando-o, arrancou-lhe a cabeça de um golpe e, arremessando-a longe, começou a defender o tronco mutilado a casco e a chifre, até que o winchester de Fidel, com dois disparos, perfurou-lhe a testa homicida. Gritamos por auxílio e ninguém vinha; corri por toda parte com a notícia e ninguém encontrava. Por fim topei uns vaqueiros que tinham unidos cavalo e touro às extremidades de cada corda. Ao me verem, cortaram-nas com suas facas para acudir ao meu chamado.
E corríamos mais pálidos que o cadáver.
* * *
Quando chegamos ao lugar da tragédia, levavam para o monte os despojos da vítima, na pequena rede de um bayetón sustentado pelas quatro pontas. Franco tinha a camisa cheia de sangue e desafogava aos brados sua agitação entre o grupo de peões silenciosos. O morto jazia de costas sobre um moriche caído, e o tinham coberto com sua própria ruana, à espera da rigidez.
Então fomos procurar os restos da cabeça entre as moitas atropeladas, e em parte alguma os encontramos. Os cães, ao redor do touro jacente, lambiam-lhe a cornamenta.
A pleno sol regressamos ao montezinho. Correa, com um ramo, espantava as moscas do morto. Franco, num pequeno esteiro próximo, limpava-se dos coágulos. Os companheiros de Millán faziam projetos para dançar o “velório”.
—Quanto a mim —resmungava um—, teria agradecido se desde ontem tivessem se descogotado em nossa presença. Mas isso de dizer que o touro o matou, quando ouvimos claramente os tiros, pouco me convence. Não havia por que arrastá-lo e decapitá-lo. Essa crueldade sim ofende a Deus.
—O senhor não sabe como foi a desgraça?
—Sim, senhor. O assassino, o touro; o morto, Millán; os cúmplices, nós; e os inocentes, vocês. Por isso vou na frente com o aviso, para que abram o buraco, preparem música e trago e cortem a mortalha para quem a merece!
Assim disse e, mascando ameaças, afastou-se a galope.
Eu não queria ver o defunto. Sentia repugnância ao imaginar aquele corpo arrebentado, incompleto, lívido, que fora abrigo de uma alma inimiga e que minha mão castigara. Perseguia-me a lembrança daqueles olhos vermelhos e rancorosos que me assaltaram por toda parte, calculando se na minha cintura ia o revólver. Aqueles olhos, onde caíram? Ficariam pendurados em alguma brenha, aderidos ao frontal quebrado, vazados, repulsivos, gotejantes? Que seria daquela cabeça obtusa, centro da malícia, filtro da vingança, covil da maldade e do ódio? Senti-a ranger ao choque do chifre curvo, que lhe apareceu pela têmpora oposta, enquanto o chapéu preso ao barbicacho saltava no ar; vi-a quando o touro, arrancando-a da cerviz, projetou-a para cima, qual bola cabeluda. E que foi feito dela? Onde sangrava? A fera a teria enterrado com os cascos, quando, defendendo o cadáver, trilhou o barzal?
Lentamente, o desfile mortuário passou diante de mim: um homem a pé cabestreava o cavalo fúnebre, e os taciturnos cavaleiros vinham atrás. Embora o asco me enrugasse a pele, curvei as pupilas sobre o despojo. Atravessado na montaria, com o ventre ao sol, ia o corpo decapitado, entreabrindo as ervas com os dedos rígidos, como para agarrá-las pela última vez. Tinindo nos calcanhares nus, pendiam as esporas que ninguém se lembrou de tirar, e, do lado oposto, entre o parêntese dos braços, destilava aquossangue o coto do pescoço, rico de nervos amarelados, como radículas recém-arrancadas. A abóbada do crânio e a mandíbula que a segue faltavam ali, e somente o maxilar inferior ria de lado, como zombando de nós. E esse riso sem rosto e sem alma, sem lábios que o corrigissem, sem olhos que o humanizassem, pareceu-me vingativo, torturador, e ainda através dos dias que correm me repete sua careta do além-túmulo e me estremece de pavor.
* * *
Mais tarde, quando a comitiva começou a fumar e a conversa se fez ruidosa, propôs Franco:
—Pois, já que será preciso suspender a pegada enquanto se normaliza a situação, convém regressar em busca das cavalhadas. Os vaqueiros melhor montados venham cá; os outros levem a madrinha atrás do morto. Por lá lhes cairemos ao anoitecer.
Só sete peões obedeceram. Antes de abandonar os remissos, roguei a um rapaz que se adiantasse com notícias nossas, para prevenir o ânimo de Alicia quando divisasse o cortejo, que naquele minuto entrava no morichal da lonjura, como entre as colunatas de uma basílica descoberta. Os bois do madrineo alongavam a procissão.
Embora o mulato me assinalasse as sabanetinhas onde havíamos anoitecido na véspera, foi-me impossível reconhecê-las, por sua semelhança com as demais; mas eu percebia o rastro do ventarrão no desalinho dos ramos, nos troncos fulminados de algumas palmeiras, no desencaixe dos pastos vencidos. Entretanto, a lembrança do mutilado me acompanhava; e, com angústia jamais padecida, quis fugir do llano bravio, onde se respira um calor guerreiro e a morte cavalga à garupa dos cuartagos. Aquele ambiente de pesadelo me enfraquecia o coração, e era preciso voltar às terras civilizadas, ao remanso da moleza, ao sonho e à quietude.
Destemperado pela zozobra, atrasei-me de meus camaradas quando os cães nos alcançaram. De repente, a uivante matilha, de nariz erguido, circundou o perímetro de uma lagoa dissimulada por altos juncos. Enquanto os cavaleiros corriam fazendo fogo, vi que uma tropa de índios se dispersava entre o matagal, fugindo de quatro, com tão acelerada “vaquía” que mal se adivinhava seu rumo pelo tremor dos capinzais. Sem gritos nem lamentos, as mulheres se deixavam assassinar, e o homem que pretendia vibrar o arco caía sob as balas, despedaçado pelos colossos. Mas, com repentina resolução, surgiram indígenas de todas as partes e fecharam com os potros para jarretá-los a macana e vencer corpo a corpo os cavaleiros. Dizimados nas primeiras arremetidas, debandaram em carreira, em longa competição com os cavalos, até se refugiarem em intrincados montes.
—Aqui, Dólar, aqui, Martel! —gritava eu em disparada, defendendo um índio veloz que desconcertava com suas corvetas dois cães ferozes. Seguindo-o sempre, paralelo às curvas que descrevia, vi-o desandar a mesma pegada, engatinhando manhosamente, sem abandonar sua fieira de peixes. Ao topar comigo, entocou-se no mato, e eu, receoso de seus arroubos, parei as rédeas. Mas, de joelhos, ele abriu os braços:
—Senhor Intendente, senhor Intendente! Eu sou o Pipa! Piedade de mim!
E, sem esperar que eu respondesse, temeroso da cachorrada, saltou à garupa do meu alazão, abraçando-me compungido:
—Perdão, perdão! Agora lhe conto o do cavalo!
Crendo que o coitado me maltratava, os homens acudiram em meu socorro, e Correa o atirou ao chão com uma coronhada; mas mais demorou a cair do que a encarapitar-se de novo, exclamando:
—Nós somos amigos! Eu sou o pajem da senhora!
—Olhem este come-gado, capitão da “guajibera”, salteador das fundações, a quem tantas vezes temos corrido. Agora me pagas à vista!
—Cavalheiro, não se engane, não se precipite, não me confunda; foi que os índios me apreenderam, me “empelotaram” e o senhor Intendente me libertou! Ele me conhece muito, e sua senhora precisa de mim!
Como todos lhe atribuíam os incêndios no Hatico, fingia chorar a cântaros, consternado pela calúnia. Depois, aferrando-se aos meus quadris, ergueu as pernas sobre as minhas para que os cães não o mordessem, simulando vergonha de se ver nu. E eu, que passei da surpresa à caridade, conduzi-o na garupa rumo ao hato, entre o protesto de meus companheiros, que o ameaçavam com a castração em represália por suas façanhas.
* * *
Mal recuperou a confiança, o cativo iniciou seu mendoso discurso, que interrompia para pedir-me que ordenasse aos vaqueiros que se adiantassem.
—Não o faço por mim —dizia—, mas pelo senhor: pode escapar-lhes um tiro e atravessar nossas costas!
Depois, no tom do amante que convence ao ouvido, acrescentou:
—Como ia ser possível que o senhor Intendente chegasse à sua capital sem que lhe fizessem digno recebimento? Essas minúcias me tiravam o sono naquela noite, e montei em seu cavalo para levar a notícia ao povo, tão decidido a voltar logo que deixei ao senhor minha égua ajaezada. Mas, ao saber das tropelias que iam cometer contra o senhor por trazer a senhora, fiz a conta deste modo: se o encarceram, ninguém me livra de meu padrinho; se lhe revistam a bagagem, ficam com tudo; o cavalo vale mais que a potranca, mas ambos lhos tirarão, e é preferível que eu dê minha trotadinha por Casanare e regresse no fim do verão para devolver tudo, rango e montaria. Mas, ao descer por estas savanas, barraram-me os vaqueiros de um tal Barrera, dizendo que eu andava atrás do gado, e queriam levar-me preso para o Hatico, e roubaram-me até o chapéu, e, por ficar a pé, os guahibos me cativaram. Mas eu me esquecia de perguntar pela senhora. Como está ela?
Em qualquer outra situação me teria divertido a pitoresca trama de suas desculpas; mas então, quase ao anoitecer, eu só queria alcançar o morto para impedir que Alicia o visse.
Pelas planícies, à meia-luz, iam dois cavaleiros a passo lento.
Quando os alcançamos, seus rostos não se distinguiam, mas Franco os reconheceu:
—Por onde seguem os do cadáver?
—Os caporais resolveram jogá-lo no caño, porque não se aguentava a “fedentina”. Depois foram para suas terras, pois não queriam trabalhar mais.
—Nós tampouco os acompanharemos —advertiram alguns.
—Eu não gosto de sem-vergonhas e prefiro ficar só. Quem quiser seus jornais, venha comigo.
Eles pronunciaram esta grande frase:
—Nós preferimos a liberdade.
—Para que lado foram os camaradas?
—Para a costa do Guachita.
—Adeus, pois!
E galoparam diante da noite.
Os quatro restantes caminhamos a toda pressa em busca do hato semiborroso, onde uma fogueira piscava. Embora o Pipa clamasse por amparo, forcei-o a apear-se. E, zagueiro, como escuro fantasma, perseguia-nos na sobretarde.
* * *
Raro temor me arrepiava quando nos aproximamos dos currais. Dali percebemos que a ramada estava em silêncio e que uma grande fogueira aclarava o pátio. Olhei para os toldos e já não os vi. Com súbita corrida cheguei à porteira, e o potro, encandeado, resistia a invadir a estância. Mauco e umas mulheres acudiram.
—Por Deus! Vão embora depressa, que os pegam!
—Que acontece? Onde está Alicia? Onde está Alicia?
—O velho Zubieta dorme enterrado e estamos nos consolando com a fogueira.
—Que sucedeu? Dize logo!
—Que essa “voada” saiu mal para vocês.
Foi preciso ameaçá-lo para que informasse; cometera-se um crime na véspera. Vendo que Zubieta não se levantava, arrancaram a porta da cozinha. Pendurado pelos pulsos no laço do chinchorro, balançava-se o velhote, ainda vivo, sem se queixar nem articular, porque na raiz da língua lhe amarraram um cânhamo. Barrera não quis vê-lo; mas, quando o juiz chegou ao hato, fez contra nós tremendas imputações. Jurou que em dias anteriores havíamos ameaçado o avô para que revelasse o esconderijo de seus tesouros; que naquela noite, mal a gente foi aos toldos embebedar-se, penetramos pela cumeeira e cometemos a atrocidade, distribuídos em grupos, para cavar simultaneamente na topochera, no quartucho, nos currais. O juiz fez todos assinarem a consabida declaração e regressou naquela mesma tarde, custodiado por Barrera e seu pessoal, e o morto foi sepultado em uma daquelas escavações, debaixo da mangueira grande, talvez em cima das talhas de morrocotas, sem que lhe pusessem alpargatas novas, sem que lhe ajustassem as mandíbulas com um lenço, nem lhe rezassem o Santo Deus, nem lhe dançassem as nove noites. E, para maior desgraça, tinham eles de cuidar para que os porcos não revolcassem a sepultura, pois uma vez já haviam desenterrado um braço do morto e o engoliram entre horríveis grunhidos.
Tão aturdido estava eu com tal história que não reparara que uma das mulheres era Bastiana. Ao vê-la, gritei-lhe com pávido acento:
—Onde está Alicia? Onde está minha Alicia?
—Foram embora! Foram embora e nos deixaram!
—Alicia? Alicia? Que estás dizendo?
—A menina Griselda a levou!
Apoiando na porteira os cotovelos, comecei a chorar com choro fácil, sem soluços nem contorções; era que a fonte da desgraça, vertendo-se de meus olhos, aliviava-me o coração de maneira tão desconhecida que permaneci um momento insensível a tudo. Olhei com cara aflita para meus companheiros, sem sentir pudor por minhas lágrimas, e os via consolar-me como em sonho. Ali me rodearam todos, o Pipa se havia apropriado de uma de minhas roupas, as mulheres assavam carne e Franco exigia que eu me deitasse. Mas, ao me dizer que Alicia e Griselda eram duas vagabundas e que as substituiríamos por outras melhores, meu despeito estourou como um vulcão e, saltando no potro, parti enlouquecido para alcançá-las e matá-las. E, na vertigem da disparada, parecia-me ver Barrera, decapitado como Millán, preso pelos calcanhares à cauda de meu corcel, espalhando membros nos matagais, até que, atomizado, se extinguisse entre a poeira dos desertos.
Tão cego ia pela iracúndia que só tarde adverti que galopava atrás de Franco e que estávamos chegando a La Maporita. Era verdade que Alicia não estava ali! Na rede de meu rival ela se estenderia libidinosa, enquanto eu, desesperado, desvelava aos gritos a imensidão.
Foi então que Franco pôs fogo em sua própria casa.
* * *
A língua do fósforo fez vibrar as franjas da palmicha, abrindo-se em onda sonora que encheu a comarca de resplendores cárdenos. No mesmo instante, o bananal, chamuscado, afrouxou as folhas, e as faíscas multiplicaram o estrago na cozinha e no caney. À maneira da víbora mapanare, que volta os colmilhos contra a cauda, a labareda retorcia-se sobre si mesma, enfumaçando a limpidez da noite, e começou a disparar bombas na planície, onde o vento —aliado luciferino— emprestou suas asas ao fogo.
Nossos cavalos, espantados, recuaram para o caño de águas rubras, e dali vi desabar a morada que dera abrigo a meus sonhos de riqueza e paternidade. Entre os muros da alcova que fora de Alicia, o fogo se embalava como um berço.
Idiotizado, eu contemplava o pélago assolador sem me dar conta do perigo; mas, quando vi que Franco se afastava daqueles lares amaldiçoando a vida, clamei que nos atirássemos às chamas. Alarmado por minha demência, lembrou-me que era preciso perseguir as fugitivas até vingar a ofensa incrível. E correndo, correndo entre claridades desmedidas, observamos que a casa do hato também ardia e que a gente dava alaridos nos montes.
A quente devastação campeava nos capinzais de ambas as margens, serpenteando nos cipós, trepando aos moriches e rebentando-os com retumbos de pirotecnia. Saltavam foguetes flamejantes a grandes trechos, roubando combustível da linha de retaguarda, que estendia para trás suas melenas de fumaça, ávida de abarcar os limites da terra e bater seus estandartes flamígeros nas nuvens. A falange devoradora ia deixando fogueiras nos llanos enegrecidos, sobre corpos de animais chamuscados, e em toda a curva do horizonte os troncos das palmeiras ardiam como círios enormes.
O estalar dos arbustos, o coro ululante das serpentes e das feras, o tropel dos gados apavorados, o amargo cheiro de carnes queimadas, lisonjearam-me a soberba; e senti deleite por tudo o que morria à retaguarda de minha ilusão, por esse oceano purpúreo que me arrojou contra a selva, isolando-me do mundo que conheci, pelo incêndio que estendia sua cinza sobre meus passos.
Que restava de meus esforços, de meu ideal e minha ambição? Que lograra minha perseverança contra a sorte? Deus me desamparava, e o amor fugia!...
No meio das chamas comecei a rir como Satanás!
Clássico colombiano e latino-americano, La vorágine acompanha Arturo Cova na travessia dos llanos e da selva, expondo a violência da exploração do caucho e a força devoradora da natureza. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.
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