Universo da obra
Universo da obra
E me precedeu pela margem abrupta, procurando o melhor ponto para nos aventurarmos na travessia, sem levar outro equipamento além das redes e das armas.
Claramente, desde aquele dia, tive o pressentimento do fatal. Todas as desgraças que aconteceram se me anunciaram naquele momento. Contudo, avancei indomável praia acima, mirando às vezes, com íntima ânsia, a costa contrária, certo de que meus pés nunca mais tornariam a pisar o solo que invadiam. Quando meus olhos encontravam os de Fidel, sorríamos em silêncio.
— Melhor que o Pipa se tivesse picureado — exclamou Correa. — Aquele bandido endemoniado e repelente era perigoso. Como nos amolou com a cantilena de que saíssemos ao Guainía pelo arrastadouro do caño Neuquén! Todos estes matos lhe metiam medo! Mas ainda mais o coronel Funes.
— Dizes bem — respondi-lhe. — Sempre temia que em qualquer corredeira nos viesse atacar a indiada fugitiva que se abriga neste deserto, onde suas defesas são cachoeiras e espessuras.
— E tome a ladainha de que via fumaças nos penhascos. E não admitia que eram vapores de outras cascatas.
— Mas é inegável que gente andou por aqui — observou Mesa. — Vejam a beirada do remanso: espinhas de peixe, fogões, cascas.
— Algo mais estranho ainda — acrescentou Franco. — Latas de salmão, garrafas vazias. Não se trata apenas de índios. Estes são gomeros recém-entrados.
Ao ouvir tais palavras pensei em Barrera, mas afirmou o Catire, como se adivinhasse minhas cismas:
— Tenho plena evidência de que nossa gente está no Guainía. Quanto ao mais, os rastros são poucos. Não pisotearam o areal vinte pessoas, e todas as pegadas são de pés grandes. Estes foram venezuelanos. Convém lançarmo-nos à margem para procurar mais sinais. Na linha escura daqueles montes se vê uma clareira. Talvez o estuário do rio Papunagua.
E naquela tarde, estendidos de peito sobre uma balsa e bracejando na espuma por falta de remos, passamos à riba oposta, sobre a onda aprazível que o sol ensanguentava.
* * *
Minha dureza contra o vigia foi bestial. Eu o teria matado ao menor intento de resistência. Quando descia, com pés trêmulos, os degraus do pau oblíquo que servia de escada ao jirau, empurrei-o para que caísse; e, ao vê-lo de bruços, inofensivo, atordoado, agarrei-o pelos cabelos para ver-lhe o rosto. Era um ancião de elevada estatura, que me fitava com olhos tímidos e erguia os braços sobre a cabeça para impedir que eu o macheteasse. Seus lábios estremeciam com suplicantes balbucios:
— Por Deus! Não me mate, não me mate!
Ao ouvir tal imploração, percebendo a semelhança que a velhice venerável dá aos homens, lembrei-me de meu velho pai e, com a alma angustiada, abracei o cativo para levantá-lo do chão onde jazia. Em meu próprio chapéu ofereci-lhe água.
— Perdoe-me — disse-lhe. — Eu não havia me dado conta de sua velhice.
Enquanto isso, meus companheiros, que sitiavam o barracão para garantir meu assalto, saquearam o jirau antes que eu pudesse contê-los. Pessoa alguma se achava nele. Desceram com a carabina do prisioneiro.
— De quem é este máuser? — gritou-lhe Franco.
— Meu, senhor — disse o aludido, com voz agitada.
— E que faz o senhor aqui armado de máuser?
— Deixaram-me doente há dias.
— O senhor é sentinela das corredeiras! E, se negar, nós o fuzilamos!
O homem, voltado para Franco, queria prostrar-se:
— Por Deus, não me mate! Tenha piedade de mim!
— Onde estão — perguntei — as pessoas que o deixaram?
— Foram-se anteontem para o alto Inírida.
— Que cadáveres penduraram sobre os penhascos cimeiros do rio?
— Cadáveres?
— Sim, senhor; sim, senhor! Encontramo-los esta manhã porque os urubus os denunciaram. Estão pendurados em umas palmeiras, nus, amarrados com arames pelas mandíbulas.
— É que o Coronel Funes vive em guerra com o Cayeno. Faz uma semana que os vigias viram uma embarcação subir o rio. E como o Cayeno tem correios, o aviso chegou-lhe no dia seguinte. Trouxe desde o Isana vinte e cinco homens e assaltou os navegantes.
— Essa embarcação — replicou o Catire — foi a das pegadas nos areais. Eram essas as fumaças que o Pipa observava.
— Diga-nos que gente era essa.
— Uns sequazes do coronel que vinham de San Fernando roubar caucho e caçar índios. Todos morreram. E é costume pendurá-los para escarmento dos demais.
— E o Cayeno onde se encontra?
— Faz o que os outros vinham fazer.
O velho acrescentou depois de uma pausa:
— E a tropa dos senhores, onde está? Por onde veio sem que a vissem?
— Uma parte esquadrinha os montes; outra já remonta o Papunagua. O Cayeno assassinou nossa avançada enquanto forçávamos as corredeiras.
— Senhor, diga à sua gente que, se der com tambos desertos, não utilize o mañoco que neles encontrar. Esse mañoco tem veneno.
— Também os mapires que estão aqui?
— Também. O mañoco que presta nós o temos escondido.
— Traga-o, e coma o senhor em nossa presença.
Quando o ancião se moveu para me obedecer, olhei-lhe as canelas cheias de úlceras. Deu-se conta de meus olhares e, com acento humilde, encareceu:
— Abram vocês mesmos o mapire. Verdadeiramente, eu provoco asco.
E, ao receber a farelenta farinha que o mulato lhe ofereceu numa cuia, começou a ingeri-la, sem velar as lágrimas. Para reanimá-lo, disse-lhe solícito:
— Não se aflija se a vida é dura. Deixe-nos saborear suas provisões. O senhor é alguém! Ainda seremos bons amigos.
* * *
Naquela noite os relâmpagos incendiavam a sombra, e a selva rangia com rumores tétricos. Até quando o vento chuvoso apagou a fogueira, fiquei ouvindo a conversa de meus camaradas com o inválido; mas vencia-me o sono pesado e perdi o fio da conferência. O velho se chamava Clemente Silva e dizia ser pastuso. Dezesseis anos havia vagado pelos matos, trabalhando como caucheiro, e não tinha nem um só centavo.
Num momento em que despertei, expunha no tom explícito de quem faz constar um favor:
— Eu vi as avançadas de vocês. Três nadadores cruzavam o rio. Temendo que o Cayeno regressasse, calei. E hoje, quando havia resolvido tomar a trilha...
— Ora — interrompi, endireitando-me na rede. — Quantas pessoas o senhor viu? E quando?
— Tenho certeza do que digo: três nadadores, faz dois dias. Seriam sete da manhã. Por mais sinais, traziam as roupas amarradas na cabeça. Foi milagre que o Cayeno não os capturasse. Passam-se tantas coisas neste inferno...
— Boa noite. Sei quem são. Não conversemos mais.
Assim falei, para evitar possíveis indiscrições de meus companheiros. Mas já não pude dormir, pensando no Pipa e nos indígenas. Diante dos perigos que nos rodeavam, eu me sentia nervoso, abatido; formei, porém, a resolução de acabar com aquela vida de sobressaltos, sucumbindo de qualquer modo, com meus rancores e caprichos, antes que retroceder em meus propósitos. Por que dom Clemente Silva não me desfechou um tiro, se com essa ilusão o assaltei? Por que se retardava o Cayeno com as correntes e os suplícios? Quem dera me pendurasse de uma árvore, onde o sol me apodrecesse as carnes e o vento me agitasse como um pêndulo!
— Onde está dom Clemente Silva? — perguntei ao Catire Mesa quando amanheceu.
— Lavando o rosto na valeta.
— E por que o deixaram sozinho? Se fugisse...
— Não há nenhum temor. Franco anda com ele. Toda a madrugada esteve se queixando da perna.
— E tu que opinas desse pobre velho?
— É nosso paisano e não sabe. Creio que se lhe deve confessar tudo e pedir-lhe ajuda.
Quando desci à fonte, enterneci-me ao ver que Fidel lavava as chagas do aflito. Este, ao sentir meus passos, envergonhou-se de sua miséria e esticou a calça até o tornozelo. Com acento turbado respondeu-me aos bons-dias.
— Estas lacraduras provêm de quê?
— Ai, senhor, parece incrível. São picadas de sanguessugas. Por viver nos pântanos picando borracha, essa maldita praga nos atormenta, e enquanto o caucheiro sangra as árvores, as sanguessugas o sangram a ele. A selva se defende de seus verdugos, e no fim o homem sai vencido.
— A julgar pelo senhor, o duelo é de morte.
— Isso sem contar os mosquitos e as formigas. Há a “vinte-e-quatro”, há a “tambocha”, venenosas como escorpiões. Algo pior ainda: a selva transtorna o homem, desenvolvendo-lhe os instintos mais inumanos; a crueldade invade as almas como intrincado espinho, e a cobiça queima como febre. A ânsia de riquezas convalesce o corpo já desfalecido, e o odor do caucho produz a loucura dos milhões. O peão sofre e trabalha com o desejo de ser empresário, que possa sair um dia às capitais para esbanjar a borracha que leva, gozar de mulheres brancas e embriagar-se meses inteiros, sustentado pela evidência de que nos matos há mil escravos que dão suas vidas para lhe proporcionar esses prazeres, como ele o fez anteriormente para seu amo. Só que a realidade anda mais devagar que a ambição, e o beribéri é mau amigo. No desamparo de várzeas e estradas, muitos sucumbem de febre, abraçados à árvore que mana leite, colando à casca suas bocas ávidas, para acalmar, à força de água, a sede da febre com caucho líquido; e ali apodrecem como as folhas, roídos por ratos e formigas, únicos milhões que lhes chegaram ao morrer.
O destino de outros é menos precário: à força de serem cruéis, ascendem a capatazes, e esperam cada noite, caderneta em mão, que os trabalhadores entreguem a borracha extraída, para assentar-lhe o preço na conta. Nunca ficam contentes com o trabalho, e o relho mede seu desgosto. Ao que trouxe dez litros, abonam só a metade, e com o resto enriquecem eles seu contrabando, que vendem em reserva ao empresário de outra região, ou enterram para trocá-lo por licores e mercadorias com o primeiro “chuchero” que visite os seringais. Por seu lado, alguns peões fazem o mesmo. A selva os arma para destruí-los, e roubam-se e assassinam-se, a favor do segredo e da impunidade, pois não há notícia de que as árvores falem das tragédias que provocam.
— E o senhor por que suporta tantas desditas? — repliquei indignado.
— Ai, senhor, a desgraça anula a gente.
— E por que não volta à sua terra? Que podemos fazer para libertá-lo?
— Obrigado, senhor.
— Por ora é preciso curar suas chagas. Permita-me que lhe faça remédios.
E embora o velho, assombrado, resistisse, arregaçei-lhe a calça até a curva do joelho e me ajoelhei para examiná-lo.
— Fidel, estás cego? Nestas úlceras há vermes!
— Vermes! Vermes!
— Sim, é preciso procurar “otoba” para matá-los.
O velho comentava, queixando-se:
— Será possível? Que humilhação! Vermes! Vermes! E foi porque um dia adormeci e os moscardos me surpreenderam!
Quando o conduzimos à barraca, repetia:
— Enverminado, enverminado e estando vivo!
* * *
— Saiba o senhor — disse-lhe naquela tarde — que sou, por idiossincrasia, amigo dos fracos e dos tristes. Ainda que soubesse que o senhor nos trairia amanhã mesmo, sua invalidez de hoje seria respeitada. Não sei se minhas palavras terão crédito, mas pense que poderíamos ultimá-lo só por ser cúmplice de um bandido como o Cayeno. O senhor me roga que lhe diga aonde queremos conduzi-lo preso e que se lhe permita lavar seus trapos para morrer com roupa limpa; pois bem, nem o mataremos nem o aprisionaremos. Antes, peço-lhe que se encarregue de nossa sorte, porque somos seus paisanos e viemos sós.
O ancião pôs-se de pé para convencer-se de que não sonhava. Seus olhos incrédulos mediam-nos com insistência e, estendendo os braços para nós, exclamou:
— Sois colombianos! Sois colombianos!
— Como ouve, e seus amigos.
Paternalmente foi-nos apertando contra o peito, sacudido pela emoção. Depois quis fazer-nos perguntas misturadas acerca da pátria, de nossa viagem, de nossos nomes. Mas interrompi-o desta maneira:
— Antes de tudo, jure que contaremos com sua lealdade.
— Juro por Deus e por sua justiça!
— Muito bem. Mas que pensa fazer conosco? Crê que o Cayeno nos matará? Será necessário matá-lo a ele?
E acrescentei, para ajudá-lo em seu desconcerto:
— Ou melhor: o Cayeno pode voltar aqui?
— Não creio. Foi para o Caño Grande roubar caucho e caçar índios. Não tem nenhum interesse em regressar logo a seus barracões do Guaracú, onde está a madona, que veio cobrar-lhe.
— Quem é essa madona de que fala?
— É a turca Zoraida Ayram, que anda por estes rios negociando trastes com os seringueiros e tem em Manaus uma venda de renome.
— Ouça. É indispensável que nos conduzam ao Guaracú, para falar com a senhora Zoraida Ayram antes que o Cayeno regresse.
— Conheço-a muito e fui seu criado. Ela me trouxe ao Rio Negro desde o Putumayo. Tratavam-me lá tão mal que me atirei a seus pés, rogando-lhe que me comprasse. Minha dívida valia dois mil sóis: ela a pagou com mercadorias, levou-me a Manaus e a Iquitos, sem me reconhecer jornal algum, e depois me vendeu por seis contos de réis a seu compatriota Miguel Pezil, para os gomais de Naranjal e Yaguanarí.
— Ora, que diz o senhor? Conhece o seringal de Yaguanarí?
Franco, o Catire e o mulato prorromperam:
— Yaguanarí!... Yaguanarí!... Para lá vamos!
— Sim, senhores! E, segundo dizia a madona, chegaram há um mês a esse lugar vinte colombianos e várias mulheres para picar borracha.
— Vinte! Tão somente vinte! Se eram setenta e dois!
Houve um grave silêncio de indecisão. Olhávamo-nos uns aos outros, frios e pálidos. E repetíamos inconscientes:
— Yaguanarí! Yaguanarí!
* * *
— Como já lhes disse — acrescentou dom Clemente Silva, depois que lhe relatamos nossa odisseia —, não posso fornecer outros informes. Conheço Barrera de ouvir falar, mas sei que tem negócios com Pezil e com o Cayeno, e que tratam de liquidar a companhia porque a madona reclama o pagamento de um dinheiro e se nega a conceder mais prorrogações. Entendo que Barrera se havia obrigado a tirar da Colômbia um pessoal de duzentos homens; mas apareceu com um número exíguo, pois tem vindo abonando a seus credores dívidas velhas com caucheiros dos que traz. Quanto ao mais, nós, colombianos, não temos preço nestas comarcas: dizem que somos insurretos e volvedores. Compreendo perfeitamente o desejo de pôr-se em fala com a madona; mas é preciso ter paciência. Meu turno de vigia só vence no próximo sábado.
— E se o seu substituto nos surpreendesse, que diria?
— Não há cuidado. Ele descerá pelo Papunagua e nós regressaremos pela “pica” nova, deixando-lhe um fogão aceso para que veja que estive aqui. Deste jirau se domina o rio e se avistam os navegantes. Não compreendo como vocês me capturaram.
— Vínhamos perdidos por esta ribeira. E como os cães encontraram pegadas humanas... Mas esse detalhe pouco importa. Então será preciso esperar?
— E aparecer nas barracas à hora em que o “Váquiro” esteja ausente, inspecionando os caucheiros nas entradas. Esse capataz é muito mal-humorado. Quando eu lhes apontar os caneyes, vocês se apresentam, sozinhos, para queixar-se de que traziam, para vender, mañoco fresco e uns gendarmes o arrebataram. Lá já se sabe que esses gendarmes eram de Funes e que o Cayeno os esfaqueou. Acrescentem que nas corredeiras lhes “trambucaram” a curiara, e que vocês tiveram de vir pelas margens e pelos matos, até que eu lhes pus a mão. Advertam que, como vinham pedir auxílio, levei-os à trilha do Guaracú, e que vocês chegam, acatando minhas instruções, a implorar garantias. Esse discurso agradará, porque aumenta o crédito da empresa e desmente seus detratores.
— Conte com que o romance terá mais êxito que a história.
— Chegarei logo depois para fazer ressaltar a circunstância de que vocês foram sozinhos e não desconfiaram.
— E se nos puserem para trabalhar? — observou Correa.
— Mulato — sentenciei —, não tenhas medo. Viemos jogar a vida!
— Quanto a isso, eu não saberia que aconselhar-lhes. O Cayeno é cauteloso e cruel como um caçador. Certo que vocês nada lhe devem e que vão de passagem para o Brasil. Mas se lhe der na veneta dizer que se picurearam de outras barracas...
— Explique, dom Clemente. Pouco sabemos desses costumes.
— Cada empresário de caucherias tem caneyes, que servem de moradias e armazéns. Ainda conhecerão os do Guaracú. Esses depósitos ou barracas jamais estão sós, porque neles se guarda o caucho com as mercadorias e as provisões, e ali moram os capatazes e suas concubinas.
O pessoal de trabalhadores é composto, em sua maior parte, de indígenas e enganchados, os quais, segundo as leis da região, não podem trocar de dono antes de dois anos. Cada indivíduo tem uma conta em que se lhe carregam as bugigangas que lhe adiantam, as ferramentas, os alimentos, e se lhe abona o caucho a um preço irrisório que o amo assinala. Jamais caucheiro algum sabe quanto lhe custa o que recebe nem quanto lhe abonam pelo que entrega, pois a mira do empresário está em guardar o modo de ser sempre credor. Esta nova espécie de escravidão vence a vida dos homens e é transmissível a seus herdeiros.
Por seu lado, os capatazes inventam diversas formas de espoliação: roubam o caucho dos seringueiros, arrebatam-lhes filhas e esposas, mandam-nos trabalhar em caños pobríssimos, onde não podem tirar a borracha exigida, e isso dá motivo a insultos e chicotadas, quando não a balas de Winchester. E, dizendo que fulano se picureou ou que morreu de febre, arruma-se a história.
Mas não é justo esquecer a traição e o dolo. Nem todos os peões são pombas brancas: alguns solicitam enganche só para roubar o que recebem, ou sair à selva para matar algum inimigo ou aliciar seus companheiros para vendê-los em outras barracas.
Isto deu pé a um convênio rigoroso, pelo qual se comprometem os empresários a prender todo indivíduo que não justifique sua procedência ou que apresente o passaporte sem a constância de que pagou o que devia e foi dado livre por seu patrão. Por sua vez, as guarnições de cada rio cuidam para que tal requisito se cumpra inexoravelmente.
Mas essa medida é fonte inesgotável de abusos e sequestros. E se o amo se nega a expedir o salvo-conduto? E se o capturador despoja dele quem o apresenta? Resta-me ainda advertir-lhes que é frequentíssimo o último caso. O cativo passa ao poder de quem o pegou, e este o encerra em seus seringais, a trabalhar como preso foragido, enquanto se averigua “o conveniente”. E correm anos e anos, e a escravidão nunca termina. É isso o que se passa comigo com o Cayeno!
E trabalhei dezesseis anos! Dezesseis anos de miséria! Mas possuo um tesouro que vale um mundo, que não podem roubar-me, que levarei à minha terra se chegar a ser livre: um caixotinho cheio de ossos!
* * *
— Para poder contar-lhes minha história — disse-nos naquela tarde — eu teria de perder o pudor de minhas desventuras. No fundo de cada alma há algum episódio íntimo que constitui sua vergonha. O meu é uma mácula de família: minha filha María Gertrudis “deu o braço a torcer”!
Havia tal dor nas palavras de dom Clemente, que nós aparentávamos não compreender. Franco cortava as unhas com a navalha. Helí Mesa escarvava o chão com um palito; eu fazia coroas com a fumaça do cigarro. Só o mulato parecia invadido pela pungente narração.
Sim, meus amigos — continuou o ancião. — O miserável que a enganava com promessas de casamento seduziu-a em minha ausência. Meu pequeno Luciano abandonou a escola e foi buscar-me no povoado vizinho, onde eu exercia um modesto emprego, para contar-me que os noivos falavam de noite pelo quintal e que sua mãe o havia repreendido quando lhe deu notícia disso. Ao ouvir seu relato, perdi o aprumo, ralhei com ele por caluniador, exaltei-lhe a virtude de María Gertrudis e proibi-o de continuar opondo-se, com ciúmes e malquerenças, ao casamento dos jovens, que já haviam trocado alianças. Desesperado, o pequenino começou a chorar e declarou-me que estava resolvido a perder a terra antes que a desonra da família o fizesse enrubescer diante dos colegas da escola primária.
Montado numa burrica, enviei-o à minha esposa com um peão, que levava cartas para ela e para María Gertrudis, cheias de admoestações e conselhos. María Gertrudis já não era minha filha!
Calculem vocês qual seria minha pena em presença de minha desonra. Meio louco, esqueci o lar para perseguir a fugitiva. Acudi às autoridades, implorei o apoio de meus amigos, a proteção dos influentes; todos me faziam engolir as lágrimas, obrigando-me a referir detalhes pérfidos, e, ao final, com gestos de lástima, recriminavam-me assim: “A responsabilidade é dos pais. É preciso saber educar os filhos”.
Quando, humilhado pela tortura, voltei para casa, esperava-me uma nova dor: a lousa de Lucianito pendia da parede, perto da carteira, onde a brisa agitava as páginas de um livro desencadernado; na gaveta vi os prêmios e os brinquedos: o boné que a irmã lhe bordou, o relógio que lhe dei, a medalhinha da mãe. Retintas na lousa, sob uma cruz, li estas palavras: “Adeus, adeus!”.
Mais que a paralisia, a pena matou minha pobre esposa. Sentado à beira do leito, via-a encharcar de pranto o travesseiro, procurando infundir-lhe o consolo que eu jamais conheci. Às vezes me agarrava pelo braço e lançava seu grito demente: “Dá-me meus filhos! Dá-me meus filhos!”. Para aliviá-la, recorri ao engano: inventei-lhe que havia conseguido fazer María Gertrudis casar-se e que Lucianito estava interno no instituto. Saboreando sua amargura, a morte a encontrou.
Um dia, vendo que ninguém, nem parentes nem amigos, me acompanhava, chamei pela cerca minha vizinha para que viesse cuidar da enferma, enquanto eu me ausentava em busca do médico. Quando regressei, vi que minha esposa tinha nas mãos a lousa de Lucianito e a remirava, convencida de que era o retrato do pequenino. Assim acabou! Ao colocá-la no ataúde, solucei esta frase: “Juro por Deus e por sua justiça que trarei Luciano, vivo ou morto, para acompanhar tua sepultura!”. Beijei-a na fronte e pus sobre o peito da infeliz a lousa fria, para que levasse à eternidade a cruz que seu próprio filho havia estampado.
— Dom Clemente, não ressuscite essas lembranças que fazem mal. Procure omitir em sua narração tudo o que for sagrado e sentimental. Fale-nos de seus êxodos na selva.
Por um momento apertou minha mão, murmurando:
— É verdade. É preciso ser avaro com a dor.
Pois bem: eu seguia as pegadas de Lucianito rumo ao Putumayo. Foi em Sibundoy que me disseram que havia descido com uns homens um rapazinho pálido, de calção curto, que não aparentava mais de doze anos, sem outra bagagem além de um lenço com roupa. Negou-se a dizer quem era, nem de onde vinha, mas seus companheiros apregoavam com regozijo que iam procurando as caucherias de Larrañaga, esse pastuso sem coração, sócio de Arana e outros peruanos que na bacia amazônica escravizaram mais de trinta mil índios.
Em Mocoa senti a primeira vacilação: os viajantes haviam passado, mas ninguém pôde dizer-me que senda do quadrívio seguiram. Era possível que tivessem ido por terra ao Caño Guineo, para sair ao Putumayo um pouco acima do porto de San José, e descer o rio até encontrar o Igaraparaná; tampouco era improvável que tivessem tomado a trilha de Mocoa a Puerto Limón, sobre o Caquetá, para descer por essa artéria ao Amazonas e remontar este e o Putumayo em busca dos seringais de “La Chorrera”. Decidi-me pela última via.
Por fortuna, em Mocoa, ofereceu-me curiara e proteção um colombiano de amáveis prendas, o senhor Custodio Morales, que era colono do rio Cuimañí; indicou-me o perigo de acometer os rápidos de Araracuara e deixou-me em Puerto Pizarro para que eu seguisse, através dos grandes bosques, pelo rumo que vai ao porto de La Florida, no Caraparaná, onde os peruanos tinham barracas.
Só e enfermo, empreendi essa viagem. Ao chegar solicitei enganche e abri uma conta. Já me haviam dito que meu pequeno não era conhecido na região, mas quis convencer-me e saí a trabalhar borracha.
Era verdade que em minha quadrilha o menino não estava, mas podia achar-se em outras. Nenhum caucheiro jamais ouviu seu nome. Às vezes minha reflexão se alegrava ao considerar que Lucianito não havia palpado a bruta imoralidade daqueles costumes; mas quão pouco me durava o consolo! Era certo que se encontrava em remotos seringais, sob outros amos, educando-se na crueldade e na vilania, enlouquecido de humilhação e miséria. Meu capataz começou a queixar-se de meu trabalho. Um dia riscou-me o rosto com uma chicotada e me enviou preso ao barracão. Toda a noite estive no tronco, e, na seguinte, mandaram-me para “El Encanto”. Eu havia logrado o que pretendia: procurar Lucianito em outros gomais.
Dom Clemente Silva emudeceu. Tocava a fronte com as mãos estremecidas, como se ainda sentisse no rosto o serpenteio do látego infame. E acrescentou depois:
— Amigos, esta pausa abarca dois anos. De lá me picureei para La Chorrera.
* * *
Recordo que na noite de minha chegada celebravam o Carnaval. Diante dos parapeitos do corredor, discorria bêbada uma multidão clamorosa. Índios de várias tribos, brancos da Colômbia, da Venezuela, do Peru e do Brasil, negros das Antilhas, vociferavam pedindo álcool, pedindo mulheres e bugigangas. Então, de uma loja dos fundos, atiravam-lhes traques, botões, potes de atum, caixas de bolachas, tabaco de mascar, alpargatas, flanelas, cigarros. Os que não conseguiam apanhar nada empurravam, por diversão, seus companheiros sobre o objeto que caía, e em cima dele se engalfinhava o tumulto, entre gargalhadas e pateios. Do outro lado, junto às lâmpadas fumegantes, havia grupos nostálgicos, escutando cantores que entoavam ares de suas terras: o bambuco, o joropo, a “cumbia-cumbia”. De repente, um capataz peludo e bilioso trepou sobre um tablado e disparou ao vento seu Winchester. Silêncio expectante. Todos os rostos se voltaram para o orador. “Caucheiros — exclamou ele —, já conheceis a munificência do novo proprietário. O senhor Arana formou uma companhia que é dona dos seringais de La Chorrera e dos de El Encanto. É preciso trabalhar, é preciso ser submissos, é preciso obedecer! Já nada resta na venda para vos presentear. Os que não puderam recolher roupa, tenham paciência. Os que estão pedindo mulheres, saibam que nas próximas lanchas virão quarenta, ouvi bem, quarenta, para reparti-las de tempo em tempo entre os trabalhadores que se distingam. Além disso, sairá em breve uma expedição para submeter as tribos andoques e leva encargo de recolher guarichas onde as houver. Agora, prestai-me todos atenção: qualquer índio que tenha mulher ou filha deve apresentá-la neste estabelecimento para saber o que se faz com ela.”
Imediatamente outros capatazes traduziram o discurso à língua de cada tribo, e a festa continuou como antes, coroada por exclamações e aplausos.
Eu me esgueirava por entre a gente, temeroso de encontrar meu filho. Foi a primeira vez que não quis vê-lo. Contudo, olhava para todos os lados e resolvi perguntar por ele: Senhor, o senhor conhece Luciano Silva? Diga-me, entre esta gente haverá algum pastuso? Sabe por acaso se Larrañaga ou Juanchito Vega vivem aqui?
Como minhas perguntas produziam hilaridade, atrevi-me a penetrar no corredor. Os sentinelas me repeliram. Um homem veio advertir-me de que a aguardente era distribuída nas barracas. E era verdade: por ali desfilava a multidão, apresentando jarros e cuias ao vigilante que fazia a distribuição. Um quadrilheiro venático quis gracejar: verteu petróleo numa bacia e o ofereceu a uns índios. Como nenhum aceitou o engano, atirou sobre eles a vasilha cheia. Não sei quem riscou os fósforos; mas no mesmo instante uma labareda crepitante chamuscou os indígenas, que se precipitaram sobre o tumulto com alaridos loucos, coroados de fogo lívido, abrindo caminho para as correntes, onde se submergiram agonizando.
Os empresários de La Chorrera assomaram à varanda, com as cartas de pôquer nas mãos. “Que é isto? Que é isto?”, repetiam. O judeu Barchilón tomou a palavra: “Ora, rapazes, não sejam grosseiros! Vão queimar-nos o ensoropado dos caneyes!”. Larrañaga calcou a ordem de Juancho Vega: “Sem mais diversão! Sem mais diversão!”.
E, ao sentir o fedor da gordura humana, cuspiram sobre a gente e se encerraram impassíveis.
Assim como o cavalo entra nos currais e a coices e mordidas aparta as fêmeas de seu rodeio, os capatazes integraram suas quadrilhas a coronhadas e as empurraram para cada barraca, no meio de um bulício atormentador.
Eu alcancei a gritar com toda a força de meus pulmões: “Lucianito! Lucianito, aqui está teu pai!”.
* * *
No dia seguinte, minha paciência foi posta à prova. Eram quase duas horas e os empresários continuavam dormindo. Pela manhã, quando as quadrilhas saíram para os trabalhos, apresentou-se-me um negralhão da Martinica, afiando na bainha do machete a lâmina terrível.
— Olá! — disse-me. — Por que ficas aqui?
— Porque sou rumbero e vou sair em exploração.
— Tu pareces picure. Tu estavas em El Encanto.
— E ainda que assim fosse, não são de um só dono ambas as regiões?
— Tu eras o sem-vergonha que escrevia letreiros nas árvores. Agradece por te terem perdoado.
Pus fim ao arriscado diálogo porque vi o guarda-livros abrindo a porta do escritório. Nem sequer voltou a olhar-me quando o cumprimentei, mas avancei até o balcão.
— Senhor Loaiza — disse-lhe com língua temerosa —, quero saber, se for possível, quanto vale a conta de um filho meu.
— Um filho teu? Queres comprá-lo? Já te disseram que o vendiam?
— Para fazer meus cálculos... Chama-se Luciano Silva.
O homem fechou um grande livro e, tomando seu lápis, fez números. Os joelhos me tremiam de emoção: enfim encontrava o paradeiro de Lucianito!
— Dois mil e duzentos sóis — afirmou Loaiza. — Que acréscimo te pedem sobre essa soma?
— Acréscimo?... Acréscimo?
— Naturalmente. Não estamos aqui para vender o pessoal. Ao contrário, a empresa procura gente.
— O senhor poderia dizer-me onde está agora?
— Teu rapaz? Vê bem com quem tratas. Isso se pergunta aos quadrilheiros.
Por desgraça minha, o negralhão entrou nesse instante.
— Senhor Loaiza — exclamou —, não perca palavras com este velho. É um picure de El Encanto e de La Florida, frouxo e desmiolado, que, em vez de picar as árvores, gravava letreiros nas cascas com a ponta da faca. Vá o senhor aos seringais e se convencerá. Por todas as estradas a mesma coisa: “Aqui esteve Clemente Silva em busca de seu querido filho Luciano”. Já viu vagabundagem?
Eu, como um acusado, baixei os olhos.
— Homens — prorrompi —, bem se vê que vocês nunca foram pais!
— Que opinam deste velho tão descarado? Como deve ter sido mulherengo, quando faz gala de reprodutor!
Assim me responderam, soltando gargalhadas; mas eu me ergui como um mastro, e minha mão debilitada esbofeteou o contabilista. O negro, com um pontapé, atirou-me de bruços contra a porta. Ao levantar-me, chorei de orgulho e satisfação!
* * *
Na peça vizinha ergueu-se uma voz de ressaca e ameaça. Não tardou em aparecer, abotoando o pijama, um homem gordote e inchado, peitudo como uma fêmea, amarelento como a inveja. Antes que falasse, o contabilista apressou-se a informá-lo do sucedido:
— Senhor Arana, vou morrer de vergonha! Perdoe-me! Este homem aqui presente veio pedir-me um extrato do que está devendo à companhia, mas apenas lhe enunciei o saldo lançou-se a rasgar o livro, chamou-o de ladrão e ameaçou apunhalar-me.
O negro fez sinal de assentimento; permaneci aturdido de indignação; Arana emudecia ainda mais. Mas com olhar desmentidor consternou os dois infames e me perguntou, pondo as mãos em meus ombros:
— Quantos anos tem Luciano Silva, seu filho?
— Não completou os quinze.
— O senhor está disposto a comprar-me a sua conta e a de seu filho? Quanto deve? Que abonos lhe fizeram por seu trabalho?
— Ignoro, senhor.
— Quer dar-me pelas duas contas cinco mil sóis?
— Sim, sim, mas aqui não tenho dinheiro. Se o senhor quisesse a casinha que possuo em Pasto... Larrañaga e Vega são meus paisanos. Eles poderiam dar-lhe informes, foram meus condiscípulos.
— Não lhe aconselho nem saudá-los. Agora não querem amigos pobres. Diga-me — acrescentou, levando-me ao pátio —, o senhor não tem borracha com que pagar?
— Não, senhor.
— Nem sabe quais são os caucheiros que a roubam de mim? Se me denunciar algum esconderijo, dividiremos a que ali houver.
— Não, senhor.
— O senhor não poderia consegui-la no Caquetá? Eu lhe daria companheirões para que assaltasse barracões.
Dissimulando a repulsão que me produziam aquelas maquinações rapaces, passei da astúcia à doblez. Aparentai ficar pensativo. Meu subornador estreitou o assédio:
— Valho-me do senhor porque compreendo que é honrado e que saberá guardar-me reserva. Sua própria cara lhe faz o processo. De não ser assim, eu o trataria como picure, me negaria a vender-lhe seu filho e enterraria um e outro nos seringais. Recorde que não têm com que me pagar e que sou eu mesmo quem lhe dá os meios de ficarem livres.
— É verdade, senhor. Mas isso mesmo obriga minha fé de homem reconhecido. Não gostaria de comprometer-me sem ter a segurança de cumprir. Eu gostaria de ir ao Caquetá, por ora, como rumbero, enquanto estudo a região e abro alguma trilha estratégica.
— Muito bem pensado, e assim será. Isso fica a seu cuidado, e seu filho ao meu. Peça um Winchester, víveres, uma bússola e leve consigo um índio como carregador.
— Obrigado, senhor, mas minha conta aumentaria.
— Isso eu pago, esse é meu presente de Carnaval.
* * *
O passaporte que o amo me deu fazia os capatazes rangerem de inveja. Eu podia transitar por onde quisesse e eles deviam facilitar-me o necessário. Minhas faculdades me autorizavam a escolher até trinta homens e tomá-los das quadrilhas que me aprouvessem, em qualquer tempo. Em vez de dirigir-me ao Caquetá, resolvi desviar-me pela bacia do Putumayo. Um vigilante das entradas do caño Eré, a quem chamavam “El Pantero” por apelido, prendeu-me e enviou o salvo-conduto em consulta. A resposta foi favorável, mas reformaram-me a atribuição: em nenhum caso eu podia escolher Luciano Silva.
A citada ordem derrubou meus planos, porque eu procurava meu filho para levá-lo comigo. Muitas vezes, ao sentir o estrondo dos cauchais derrubados pelas peonadas, pensava que meu pequeno andaria com elas e que algum galho poderia esmagá-lo. Por então se trabalhava o caucho negro tanto quanto a “siringa”, chamada “goma borracha” pelos brasileiros; para tirar esta, fazem-se incisões na casca, recolhe-se o leite em cestinhas e coalha-se ao fumo; a extração daquele exigia derrubar a árvore, fazer-lhe lacraduras de palmo em palmo, recolher o suco e depositá-lo em covas ventiladas, onde lentamente se coagulava. Por isso era tão fácil que os ladrões o trasladassem.
Certo dia surpreendi um peão tapando seu depósito com terra e folhas. Já circulava a falsa espécie de que eu exercia fiscalização por conta do amo, lenda que me pôs em grandes perigos porque me granjeou muitos ódios. O surpreendido pegou o machete para destroncar-me, mas eu lhe apontei meu Winchester, advertindo:
— Vou te provar que não sou espião. Não contarei nada. Mas se meu silêncio te faz algum bem, dize-me onde está Luciano Silva.
— Ah!... Silvita?... Silvita?... Trabalha em Capalurco, sobre o rio Napo, com a peonada de Juan Muñeiro.
Nessa mesma tarde comecei a picar a trilha que vai do caño Eré até o Tamboriaco. Nessa travessia gastei seis meses: tive de comer mandioca silvestre, por falta de mañoco. Quão grande seria minha extenuação, quando decidi descansar por algum tempo, no abandono e na solidão!
No Tamboriaco encontrei peões da quadrilha que residiam num lugar chamado “El Pensamiento”. O capataz me convidou a remontar o caño, sob pretexto de que eu visitasse o barracão, onde me daria víveres e curiara. Nessa noite, apenas ficamos sós, perguntou-me:
— E que dizem os empresários contra Muñeiro? Vão persegui-lo?
— Acaso Muñeiro...
— Fugiu com peões e caucho, faz cinco meses. Noventa quintais e treze homens!
— Como! Como! Mas é possível?
— Trabalharam ultimamente perto da laguna de Cuyabeno, voltaram a Capalurco, esgueiraram-se pelo Napo, sairiam ao Amazonas, e estarão no estrangeiro. Muñeiro me havia proposto que jogássemos essa parada; mas eu tive meu receio, porque está na moda entre os sagazes picurear-se com os caucheiros, prometendo-lhes realizar a borracha que levam, ratear-lhes o valor e deixá-los livres. Com essa ilusão os carregam para outros rios e os vendem a novos patrões. E esse Muñeiro é tão fanfarrão! E como há um resguardo na boca do rio Mazán...
Ao ouvir essa declaração, desarticulei-me. O resto de minha vida sobrava. Um triste consolo me reconfortou: contanto que meu filho residisse em país estranho, eu, para os dias que me restavam, arrastaria gostoso a escravidão em minha própria pátria.
— Mas — prosseguiu meu interlocutor — também se rumoreja que esse pessoal não se picureou. Pensam que o senhor o levou consigo a não sei que ponto.
— Se eu nem sequer vi o rio Napo!
— Isso é o curioso. O senhor sabe muito bem que uma quadrilha vigia a outra e que há obrigação de contar ao dono comum o bom e o mau. Enviei posta ao Encanto com este aviso: “Muñeiro não aparece”. Responderam-me que averiguasse se o senhor o havia levado com sua gente para o Caquetá, e que, em todo caso, por precaução, remetesse preso Luciano Silva. Ao senhor esperam há tempo e várias comissões o andam procurando. Eu lhe aconselharia que voltasse para esclarecer essas coisas. Diga-lhes lá que não tenho víveres e que meu pessoal está morrendo de febres.
Quinze dias mais tarde regressei a El Encanto, para entregar-me preso. Oito meses antes havia saído à exploração. Embora asseverasse haver descoberto caños de muita borracha e ser inocente da fuga de Juan Muñeiro e seu grupo, decretaram-me uma novena de vinte açoites por dia, e sobre as feridas e rasgões me salpicavam sal. À quinta flagelação eu não podia levantar-me; mas me arrastavam numa esteira sobre um formigueiro de “congas” e eu tinha de sair correndo. Isso divertiu à grande meus algozes.
De novo eu voltava a ser o caucheiro Clemente Silva, decrépito e lamentável.
Sobre minhas esperanças passaram os tempos.
Lucianito devia ter dezenove anos.
* * *
Por essa época houve para minha vida um acontecimento transcendental: um senhor francês, a quem chamávamos o “mosiú”, chegou às caucherias como explorador e naturalista. No princípio sussurrou-se nos barracões que vinha por conta de um grande museu e de não sei que sociedade geográfica; depois se disse que os amos dos gomais lhe custeavam a expedição.
E assim seria, porque Larrañaga lhe entregou víveres e peões. Como eu era o rumbero de maior perícia, retiraram-me da tropa trabalhadora no rio Cahuinarí para que o guiasse por onde ele quisesse.
Através das espessuras ia meu machete abrindo a trilha, e atrás de mim desfilava o sábio com seus carregadores, observando plantas, insetos, resinas. À noite, em areais solenes, apontava para os céus seu teodolito e se punha a colher estrelas, enquanto eu, perto do aparelho, iluminava-lhe a lente com um foco elétrico. Em língua embrulhada costumava dizer-me:
— Amanhã te orientarás na direção daqueles luzeiros. Fixa bem de que lado brilham e recorda que o sol nasce por aqui.
E eu lhe respondia regozijado:
— Desde ontem fiz o cálculo desse rumo, por puro instinto.
O francês, embora reservado, era bondoso. É certo que o idioma lhe opunha complicações; mas comigo mostrou-se sempre afável e cordial. Admirava-se de me ver pisar o mato com pés descalços, e me deu botas; doía-se de que as pragas me perseguissem, de que as febres me acabrunhassem, e aplicou-me injeções de várias classes, sem esquecer nunca de deixar-me em seu copo um gole de vinho e consolar minhas noites com algum cigarro.
Até então parecia não se ter inteirado da condição escrava dos caucheiros. Como pensar que nos espancassem, nos perseguissem, nos mutilassem aqueles senhores de cenho servil e fala melosa que saíram a recebê-lo em La Chorrera e em El Encanto! Mas certo dia em que vagávamos por uma várzea do Yacuruma, por onde passa um velho caminho que une barracões abandonados na solidão daquelas montanhas, o francês se deteve para olhar uma árvore. Aproximei-me para lhe aprontar, segundo o costume, a câmara fotográfica e esperar ordens. A árvore, castrada antigamente pelos gomeros, era um “siringo” enorme, cuja fortaleza ficara cheia de cicatrizes, grossas, protuberantes, tumefactas, como lobinhos apertados.
— O senhor deseja tomar alguma fotografia? — perguntei-lhe.
— Sim. Estou observando uns hieróglifos.
— Serão ameaças postas pelos caucheiros?
— Evidentemente: aqui há algo como uma cruz.
Aproximei-me, angustiado, reconhecendo minha obra de antanho, desfigurada pelos refolhos da casca: “Aqui esteve Clemente Silva”. Do outro lado, as palavras de Lucianito: “Adeus, Adeus...”.
— Ai, Mosiú — murmurei —, isto fui eu que fiz!
E, apoiado no tronco, pus-me a chorar.
* * *
Desde aquele instante tive, pela primeira vez, um amigo e um protetor. O sábio compadeceu-se de minhas desgraças e ofereceu-se para libertar-me de meus patrões, comprando minha conta e a de meu filho, se ainda fosse escravo. Referi-lhe a vida horrível dos caucheiros, enumerei-lhe os tormentos que suportávamos, e, para que não duvidasse, convenci-o objetivamente:
— Senhor, diga se minhas costas sofreram menos que essa árvore.
E, levantando a camisa, mostrei-lhe minhas carnes laceradas.
Momentos depois, a árvore e eu perpetuamos na Kodak nossas feridas, que verteram, para igual amo, distintos sucos: siringa e sangue.
Daí em diante, a lente fotográfica deu-se a funcionar entre as peonadas, reproduzindo fases de tortura, sem trégua nem disfarce, envergonhando os capatazes, embora minhas advertências não cessassem de pregar ao naturalista o grave perigo de que meus amos soubessem. O sábio seguia impertérrito, fotografando mutilações e cicatrizes. “Estes crimes, que envergonham a espécie humana — costumava dizer-me —, devem ser conhecidos por todo o mundo para que os governos se apressem a remediá-los.” Enviou notas a Londres, Paris e Lima, acompanhando vistas de suas denúncias, e passaram tempos sem que se notasse nenhum remédio. Então decidiu queixar-se aos empresários, aduziu documentos e enviou-me com cartas a La Chorrera.
Só Barchilón se encontrava ali. Apenas leu o volumoso maço, fez que me levassem a seu escritório.
— Onde conseguiste botas de soche? — rosnou ao olhar-me.
— O mosiú me deu, com esta roupa.
— E onde ficou esse vagabundo?
— Entre o caño Campuya e Lagarto-cocha — afirmei, mentindo. — Mais ou menos a trinta dias.
— Por que pretende esse aventureiro pôr pauta em nosso negócio? Quem lhe concedeu licença para bancar o retratista? Por que diabos vive alvoroçando meus peões?
— Ignoro, senhor. Quase não fala com ninguém, e, quando o faz, pouco se entende...
— E por que nos propõe que te vendamos?
— Coisas dele...
O judeu furioso saiu à porta e examinava contra a luz alguns cartões da Kodak.
— Miserável! Esta espinha dorsal não é a tua?
— Não, senhor; não, senhor!
— Desnuda imediatamente meio corpo!
E arrancou-me aos puxões blusa e flanela. Tal tremor me agitava que, por fortuna, a confrontação resultou impossível. O homem requereu a pena de sua escrivaninha e, atirando-a de longe, cravou-a em minha omoplata. Todo o quadril se me tingiu de vermelho.
— Porco, sai daqui, que me ensanguentas o assoalho.
Precipitou-me contra a varanda e tocou um apito. Um capataz, a quem chamávamos “El Culebrón”, acudiu solícito. Ao entrar, o amo ordenou:
— Ajusta-lhe as botas com um par de grilhões, porque, de certo, lhe ficam grandes.
Assim se fez.
El Culebrón pôs-se em marcha com quatro homens, a levar a resposta, segundo se dizia.
O infeliz francês jamais saiu!
* * *
O ano seguinte foi para os caucheiros muito fecundo em expectativas. Não sei como, começou a circular sub-repticiamente em gomais e barracões um exemplar do diário “La Felpa”, que dirigia em Iquitos o jornalista Saldaña Roca. Suas colunas clamavam contra os crimes que se cometiam no Putumayo e pediam justiça para nós. Recordo que a folha estava maltratada, à força de ser lida, e que no seringal do caño Algodón a remendamos com caucho morno, para que pudesse viajar de estrada em estrada, oculta dentro de um cilindro de bambu que parecia cabo de machadinha.
Apesar de nosso recato, um gomero do Equador, a quem chamávamos “El Presbítero”, soprou ao vigilante o que ocorria, e certa manhã surpreenderam, entre uns palmares de “chiquichiqui”, um leitor descuidado e seus ouvintes, tão distraídos na leitura que não se deram conta do novo público que tinham. Ao leitor costuraram as pálpebras com fibras de “cumare”, e aos demais despejaram nos ouvidos cera quente.
O capataz decidiu regressar a El Encanto para mostrar a folha; e, como não tinha curiara, ordenou-me que o conduzisse por entre o mato. Uma nova surpresa me esperava: havia chegado um visitador e na própria casa recebia declarações.
Ao dar-lhe meu nome, começou a filiar-me e, na presença de todos, perguntou-me:
— O senhor quer continuar trabalhando aqui?
Embora eu tenha tido a desgraça de ser tímido, alarmei a gente com minha resposta:
— Não, senhor; não, senhor!
O letrado acentuou com voz enérgica:
— Pode marchar quando lhe aprouver, por ordem minha. Quais são seus sinais particulares?
— Estes — afirmei, despindo minhas costas.
O público estava pálido. O Visitador aproximava seus óculos de mim. Sem perguntar-me nada, repetiu:
— Pode marchar amanhã mesmo!
E meus amos disseram submissamente:
— Senhor Visitador, mande Vossa Senhoria!
Um deles, com o desparpajo de quem recita um discurso aprendido, acrescentou diante do funcionário:
— Curiosas cicatrizes as deste homem, não é verdade? Tem tantos segredos a botânica, particularmente nestas regiões! Não sei se Vossa Senhoria terá ouvido falar de uma árvore maligna, chamada “mariquita” pelos gomeros. O sábio francês, a nosso pedido, interessou-se em estudá-la. Dita árvore, à semelhança das mulheres de má vida, brinda uma sombra perfumada; mas ai daquele que não resista à tentação: seu corpo sai dali raiado de vermelho, com uma coceira desesperante, e vão aparecendo placas que supuram e depois cicatrizam enrugando a pele. Como este pobre velho aqui presente, muitos seringueiros sucumbiram à inexperiência.
— Senhor... — ia eu insinuar, mas o homem prosseguiu, tão cínico:
— E quem acreditará que este detalhe insignificante origina complicações à empresa? Tem tantas rémoras este negócio, exige tal patriotismo e perseverança, que se o Governo o desatende ficarão sem soberania estes grandes bosques, dentro do próprio limite da pátria. Pois bem: Vossa Senhoria já nos fez a honra de averiguar em cada quadrilha quais são as violências, os açoites, os suplícios a que submetemos as peonadas, segundo o dizer de nossos vizinhos, invejosos e despeitados, que buscam mil maneiras de impedir que nossa Nação recupere seus territórios e que haja peruanos nestas lindes, para cujo intento nunca faltam certos escrevinhadores assalariados.
Agora retorno ao tema inicial: a empresa abre seus braços a quem necessite de recursos e queira enobrecer-se mediante o esforço. Aqui há trabalhadores de muitos lugares, bons, maus, díscolos, preguiçosos. Disparidade de caracteres e de costumes, indisciplina, amoralidade, tudo isso encontrou na mariquita um cúmplice cômodo; porque alguns — principalmente os colombianos —, quando brigam e se golpeiam ou padecem o “mal da árvore”, vingam-se da empresa que os corrige, desacreditando os vigilantes, a quem atribuem toda lesão, toda cicatriz, desde as picadas dos mosquitos até o mais parvo arranhão.
Assim disse, e, voltando-se aos do grupo, perguntou-lhes:
— É verdade que nestas regiões abunda a mariquita? É certo que produz pústulas e nascidos?
E todos responderam com grito unânime:
— Sim, senhor, sim senhor!
— Afortunadamente — acrescentou o velhaco —, o Peru atenderá nossa iniciativa patriótica: pedimos à autoridade que militarize nossas quadrilhas, mediante a direção de oficiais e sargentos, a quem pagaremos com mão pródiga a permanência nestes confins, contanto que sirvam ao mesmo tempo de fiscais para a empresa e de vigilantes nas estradas. Desta sorte, o governo terá soldados, os trabalhadores garantias inegáveis e os empresários estímulo, proteção e paz.
O Visitador fez um sinal de complacência.
* * *
Um avô, Balbino Jácome, nativo de Garzón, a quem a perna direita secou por causa da mordida de uma tarântula, foi visitar-me ao anoitecer; e, encostando suas muletas sob o beiral da barraca onde minha rede pendia, disse baixo:
— Paisano, quando pisar terra cristã, pague uma missa por minha intenção.
— Em prêmio por confirmar as desvergonhas dos empresários?
— Não. Em memória da esperança que perdemos.
— Saiba e entenda — respondi-lhe — que o senhor não deve valer-se de minha pessoa. O senhor foi o mais abjeto dos lambões, o favorito de Juancho Vega, a quem superou em renegar nosso país e em desacreditar os colombianos.
— Contudo — replicou —, meus compatriotas algo me devem. Já que o senhor se vai, posso falar-lhe claro: tive a diplomacia de enamorar os inimigos, aparentando brandir o relho para que houvesse um verdugo a menos. Desempenhei o posto de espião para que não pusessem outro, de verdadeiras capacidades. Não fiz mais que amoldar-me ao meio e jogar o truco escolhendo as cartas. Era necessário barrar uma fofoca? Eu a sabia e a tergiversava. Maltrataram tal sujeito na quadrilha? Aplaudia o maltrato, já inevitável, e depois me vingava do esbirro. Por que os vigilantes me mimam tanto? Porque sou o homem das influências e da confiança. “Ouve”, digo a um: “Os amos souberam certa coisinha...”. E ele se prostra diante de mim, prorrompendo em explicações. Então consigo o que ninguém obteria: “Não me batas em meus paisanos; se apertas lá, eu te rebato aqui!”.
Desta maneira pratico o bem, sem escrúpulos, sem glória e com sacrifícios que ninguém agradece. Sendo uma escória ambulante, faço o que posso como bom patriota, disfarçado de mercenário. O senhor mesmo irá muito em breve odiando-me, amaldiçoando-me, e, ao pisar seu vale, fértil como o meu, sentirá alegria de que eu sofra em terras de selvagens a expiação de pecados que são virtudes.
Confesse, paisano: quando sua viagem ao Caquetá, não lhe roguei que se picureasse? Não lhe pintei, para decidi-lo, o caso de Julio Sánchez, que numa vasta canoa fugiu com a esposa prenhe, por toda a veia do Putumayo, sem sal nem fogo, perseguido por lanchas e guarnições, abrigando-se nos igapós, remontando só em noites escuras, e por tão longo tempo que, ao sair a Mocoa, a mulher penetrou na igreja levando pela mão seu filhinho, nascido na curiara?
Mas o senhor desprezou muitas facilidades. Se eu as tivesse tido, se não me manietasse esta invalidez! Quantos fogem, por conselhos meus, me prometeram vir por mim e levar-me nos ombros; mas se largam sem avisar-me, e, se os prendem, carrego a culpa, e vêm dizer que fui cúmplice, pelo que tenho de exigir que lhes deem pau, para recuperar assim minha influência minguada. Quem rogou ao francês que pedisse Clemente Silva como rumbero? Que melhor conjuntura para um picure? E o senhor, longe de agradecer minhas sugestões, tratou-me mal! E, em vez de impedir que o sábio se metesse em tantos perigos, deixou-o só, e teve a ocorrência de vir com aquelas cartas ao patrão, para que acontecesse o que aconteceu. E agora quer que eu me ponha a contradizer o que dizem os amos, quando o Visitador nos perdeu!
— Ora, paisano, explique-me isso!
— Não, porque nos ouvem na cozinha. Se quiser, mais tardezinho nos vemos na curiara, com o pretexto de pescar.
Assim o fizemos.
* * *
No porto havia diversas embarcações. Meu companheiro se deteve a falar com um boga que dormia a bordo de uma grande lancha. Já me impacientava a demora quando ouvi que se despediram. O marinheiro ligou o motor e acendeu-se a luz elétrica. Sobre a lâmpada de maior volume começou a zumbir o ventilador.
Então, por um tablão que servia de ponte, passaram à barca várias pessoas, de roupas engomadas, e entre elas uma dama cheia de joias e babados, que ria com riso de circo. Meu companheiro aproximou-se de mim.
— Olhe — disse em voz baixa —, os senhores amos estão tomando chá. Essa formosura a quem Vossa Senhoria dá a mão é a madona Zoraida Ayram.
Metemo-nos na curiara e, pouco depois de remar, amarramo-la num remanso, de onde víamos luzes de focos refletidas na corrente. Balbino Jácome deu princípio à sua exposição:
— Segundo me contava Juanchito Vega, as cartas que o sábio mandou ao exterior produziram alarmes muito graves. A isso se acrescenta que o francês desapareceu, como desaparecem aqui os homens. Mas Arana vive em Iquitos e seu dinheiro está em toda parte. Faz como seis meses que começou a mandar os jornais inimigos para que a empresa os conhecesse e tomasse precauções a tempo.
No princípio nem sequer me mostravam; depois me perguntaram se podiam contar comigo e me gratificaram com a administração da venda.
Certa vez em que os empresários se trasladaram a La Chorrera, uns quadrilheiros pediram quinina e pólvora. Como conheço bem que capatazes não soletram, fiz pacotes com esses jornais e os despachei aos barracões e aos seringais, para que algum dia, ao ficarem por ali rodando, dessem com um leitor que os aproveitasse.
— Paisano — exclamei —, agora sim acredito no senhor. Entre nós circulou um. Por causa dele vim parar aqui, encontrar salvação! Graças ao senhor!
— Não se alegre, paisano: estamos perdidos!
— Por quê? Por quê?
— Pela vinda deste maldito Visitador! Por este Visitador que afinal não fez nada! Veja o senhor: tiraram o tronco, no dia em que chegou, e o puseram como ponte ao desembarcar, sem que lhe ocorresse reparar nos buracos que tem, ou nas manchas de sangue que o raiam; fomos ao pátio, ao lugar onde esteve posta essa máquina de tormento, e ele não percebeu os rastros que os prisioneiros deixaram ao debater-se, pedindo água, pedindo sombra. Para zombar dele, esqueceram na varanda um relho de seis pontas, e o muito simples perguntou se era feito de verga de touro. E Macedo, com grande descaramento, disse-lhe rindo: “Vossa Senhoria é homem sagaz. Quer saber se comemos carne bovina. Evidentemente, embora o gado custe caríssimo, naquele mourão prendemos as resecitas”.
— Consta-me — argumentei — que o Visitador é homem enérgico.
— Mas sem malícia nem observação. É como um touro cego que só investe contra quem lhe faça ruído. E aqui ninguém se atreve a falar! Aqui já estava tudo muito bem arranjado e as quadrilhas reorganizadas: os peões descontentes ou ressentidos foram concentrados sabe Deus onde, e os índios que não entendem espanhol ocuparam os caños próximos. As visitas do funcionário limitaram-se a reconhecer algumas quadrilhas, das cento e tantas que trabalhavam nestes rios e em muitos outros inexplorados, de sorte que, em percorrê-las e interrogá-las, ninguém gastaria menos de cinco meses. Ainda não faz uma semana que chegou o Visitador e já está de volta.
Vossa Senhoria se contentará em dizer que esteve na caluniada selva do crime, falou de habeas corpus aos gomeros, ouviu suas queixas, impôs sua autoridade e os deixou em condições inigualáveis, facultados para o regresso ao lar distante. E, daqui em diante, ninguém dará crédito às torturas e às espoliações, e sucumbiremos irredentos, porque o informe que Vossa Senhoria apresentar será resposta obrigatória a toda reclamação, se restarem pessoas cândidas que se atrevam a insistir sobre assuntos já oficialmente desmentidos.
Paisano, não se surpreenda ao escutar-me estes raciocínios, nos quais não tenho parte. É que os ouvi dos empresários. Eles tremeram diante da ideia de sair daqui com a corda no pescoço; e hoje riem do temor pretérito porque asseguraram o porvir. Quando o Visitador se movia para tal caño, no exercício de suas funções, ficávamos em casa sem outra distração que a de apostar que não passariam de três os gomeros que se atrevessem a dar denúncias, e que Vossa Senhoria teria para todos idêntica frase: “O senhor pode ir-se quando lhe aprouver”.
— Paisano, se estamos livres! Se nos deram a liberdade!
— Não, companheiro, nem sonhe. Talvez alguns pudessem partir, mas pagando, e não têm meios. Não sabem por onde, nem como, nem quando. “Amanhã mesmo.” Esse é um advérbio que soa bem! E o saldo, e a embarcação, e o caminho, e as guarnições? Sair daqui para ficar lá não é negócio que pague os gastos, muito menos hoje, quando os juros só se abonam a chicote e sangue.
— Eu me esquecia dessa verdade! Vou falar com o Visitador!
— Como! Interromper seus colóquios com a madona?
— Pedir-lhe que me leve de qualquer modo!
— Não se aflija, que amanhã será outro dia. O boga com quem falei ao vir para cá danificará o motor da lancha esta mesma noite e a avaria durará até que eu queira. Para isso está em minhas mãos a venda. Já vê que os lambões servimos para alguma coisa.
— Perdoe-me, perdoe-me! Que devo fazer?
— O que Deus manda: confiar e esperar. E o que eu mando: continuar ouvindo!
Sem fazer caso de minha angústia, Balbino Jácome prosseguiu:
— Vossa Senhoria não leva nem um só preso, embora lhe tivessem dado alguns, por perigosos; não os que matam ou os que ferem, mas os que roubam. Mas o Visitador não pôde fazer mais. Antes que chegasse, foram espiões às barracas cochichar o boato de que a empresa queria certificar-se de quais eram os servidores de má índole, para enforcá-los todos, com cujo fim certo sócio estrangeiro, que se faria passar por Juiz de Instrução, tomaria declarações. Essa medida teve êxito completíssimo: Vossa Senhoria encontrou por toda parte gente feliz e agradecida, que nunca ouviu falar de assassinatos nem de vexames.
Mas o crime perpétuo não está nas selvas, e sim em dois livros: no Diário e no Razão. Se Vossa Senhoria os conhecesse, encontraria mais leitura no DEVE que no HAVER, já que a muitos homens se lhes leva a conta por simples cálculo, segundo o que informam os capatazes. Contudo, encontraria dados iníquos: peões que entregam quilos de borracha a cinco centavos e recebem flanelas a vinte pesos; índios que trabalham há seis anos e ainda aparecem devendo o mañoco do primeiro mês; crianças que herdam dívidas enormes, procedentes do pai que lhes mataram, da mãe que lhes violentaram, até das irmãs que lhes violaram, e que não cobririam em toda a vida, porque, quando conhecerem a puberdade, os gastos de sua infância sozinhos lhes darão meio século de escravidão.
Meu companheiro fez uma pausa, enquanto me oferecia sua tabaqueira. Eu, embora consternado por tanta ignomínia, quis defender o Visitador:
— Provavelmente Vossa Senhoria não terá ordem judicial para ver esses livros.
— Ainda que a tivesse. Estão bem guardados.
— E será possível que Vossa Senhoria não leve provas de tantos atropelos que foram públicos? Estará se fazendo de dissimulado?
— Ainda que assim fosse. Que ganharíamos com a evidência de que fulano matou sicrano, roubou beltrano, feriu outro qualquer? Isso, como diz Juanchito Vega, passa em Iquitos e em qualquer lugar onde existam homens: quanto mais aqui, numa selva sem polícia nem autoridades. Livre-nos Deus de que se comprove crime algum, porque os patrões lograriam realizar seu maior desejo: a criação de Alcaldías e Panópticos, ou melhor, a iniquidade dirigida por eles mesmos. Recorde que aspiram militarizar os trabalhadores, ao tempo que na Colômbia se passam coisinhas reveladoras de algo muito grave, de subterrânea cumplicidade, segundo frase de Larrañaga. Os colonos colombianos não estão vendendo a esta empresa suas fundações, forçados pela falta de garantias? Aí estão Calderón, Hipólito Pérez e muitos outros, que recebem o que lhes dão, julgando-se bem pagos por não perderem tudo e poderem escorrer o corpo. E Arana, que é o espoliador, não continua sendo, praticamente, nosso Cônsul em Iquitos? E o Presidente da República não dizem que enviou o general Velasco para licenciar tropas e resguardos no Putumayo e no Caquetá, como resposta muda à demanda de proteção que os colonizadores de nossos rios lhe faziam diariamente? Paisano, paisanito, estamos perdidos! E o Putumayo e o Caquetá se perdem também!
Ouça-me este conselho: não diga nada! Dizem que quem fala erra, mas quem falar desses segredos errará mais. Vá, pregue-os em Lima ou em Bogotá, se quiser que o tenham por mentiroso e caluniador. Se lhe perguntarem pelo francês, diga que a empresa o enviou para explorar o desconhecido; se lhe averiguarem aquela espécie de que El Culebrón mostrou certo dia o relógio do sábio, advirta-lhes que isso foi por ocasião de uma bebedeira, e que por sempre a está dormindo. Ao que o interrogue por El Chispita, responda-lhe que era um capataz bastante ilustrado em línguas nativas: yeral, carijona, huitoto, muinana; e se o senhor, para temperar a conversa, tiver de referir algum episódio, não conte que essa pomba roubava os guayucos dos indígenas para ter o pretexto de castigá-los por imorais, nem que os obrigava a enterrar a borracha só para esperar que o amo chegasse e descobrir-lhe ocasionalmente os esconderijos, com o que sustentava sua fama de adivinho, honrado e vivaz; fale de suas unhonas, afiadas como lancetas, que podiam matar o índio mais forte com imperceptível arranhão, não por serem mágicas nem venenosas em si, mas pelo veneno de curare que as tingia.
— Paisano — exclamei —, o senhor me fala de Lima e de Bogotá como se estivesse certo de que posso sair daqui!
— Sim, senhor. Tenho quem o compre e quem o leve: a madona Zoraida Ayram!
— De verdade? De verdade?
— Como ser noite. Esta manhã, quando Vossa Senhoria mandou chamá-lo para interrogá-lo, a madona o via da varanda, com binóculo, e quando o senhor declarou em alta voz que não queria mais trabalhar, ela pareceu muito complacida por tal insolência. “Quem é — perguntou-me — esse velho tão arriscado?” E eu respondi: “Nada menos que o homem que lhe convém: é o rumbero chamado El Brújula, a quem recomendo como letrado, ducho em números e faturas, perito em tratos de borracha, conhecedor de barracas e de seringais, esperto em lances de contrabando, bom mercador, bom boga, bom escrivão, a quem sua formosura pode adquirir por muito pouca coisa. Se o tivesse tido quando o assunto de Juan Muñeiro, não me contaria complicações”.
— Assunto de Juan Muñeiro? Complicações?
— Sim, descuidozinhos que já passaram. A madona comprou o caucho dos picures de Capalurco e em Iquitos queriam decomisá-los. Mas ela triunfou. Para isso é formosa! Haviam proibido às guarnições que a deixassem subir estes rios, e já vê o senhor que o Visitador arrumou tudo para ela, e até de graça. Contudo: a mulher, quando dá, pede; e o homem pede quando dá.
— Companheiro, a madona terá notícias de Lucianito! Vou falar com ela! Ainda que não me compre!
Vinte dias depois, eu estava em Iquitos.
* * *
A lancha da madona rebocava um bongo de cem quintais, em cuja popa eu governava a “espadilla”, sofrendo sol. Frequentemente atracávamos em choupanas do Amazonas, para realizar a bugigangaria ainda que fosse permutando-a por produtos da região, jebe, castanhas, pirarucú, já que até então a agricultura não havia conhecido adeptos em territórios tão dilatados. Dona Zoraida mesma pactuava as permutas com os colonos, e era tal sua lábia de mascate que, sempre ao reembarcar, teve o prazer de ver-me inscrever no Diário os mesquinhos lucros obtidos.
Não tardei em convencer-me de que minha ama era de caráter insuportável, tão atrabiliária como um cônego. Negou-se a acreditar que eu era o pai de Lucianito, falou depreciativamente de Muñeiro, e à força de humilhações pude saber que os prófugos, depois de enganá-la com uma siringa que “era roubada e de ínfima classe”, burlaram as guarnições do Amazonas e remontaram o Caquetá até a confluência do Apoporis, por onde subiram em busca do rio Taraira, que tem uma trilha para o Vaupés, a cujas margens foi procurá-los para que a indenizassem dos prejuízos, sem lograr mais que decepções e até calúnias contra seu decoro de mulher virgem, pois houve deslinguados que se atreveram a inventar um drama de amor.
— Não esqueças, velho — gritou-me um dia —, tua vil condição de criado mendigo! Não tolero que me interrogues familiarmente sobre pontos que apenas seriam passáveis em conversas de camaradas. Basta de perguntar-me se Lucianito é moço bem-apessoado, se tem buço, boa saúde e modos nobres. Que me importam semelhantes coisas? Ando atrás dos homens para inventariar-lhes as caras bonitas? Está meu negócio em preferir clientes galhardos? Continua, pois, atrevido e néscio, e venderei tua conta a quem a comprar!
— Madona, não me trate assim, que já não estamos nos seringais! Farto estou de sofrer por filhos ingratos! Oito anos levo procurando aquele que se foi, e ele, talvez, enquanto eu o anseio, nunca terá pensado em me encontrar! A dor desta ideia é suficiente para abreviar minha amargura, porque sou capaz, a qualquer instante, de soltar o leme do bongo e lançar-me à água! Só quero saber se Luciano ignora que o procuro; se topava meus sinais nos troncos e nos caminhos; se se lembrava de sua mãe!
— Ai, atirar-te à água! Atirar-te à água! Será possível? E meus dois mil sóis? Meus dois mil sóis? Quem paga meus dois mil sóis?
— Já não tenho direito nem de morrer?
— Isso seria uma fraude!
— Mas a senhora crê que minha conta é justa? Quem não cobre em oito anos de labor contínuo aquilo que come? Estes andrajos que envilecem meu corpo não estão gritando a miséria em que sempre vivi?
— E o roubo de teu filho...
— Meu filho não rouba! Ainda que tenha crescido entre bandoleiros! Não o confunda com os demais. Ele não lhe vendeu borracha nenhuma! A senhora fez o trato com Juan Muñeiro, recebeu a goma e lhe deve em parte. Já revisei os livros!
— Ai, este homem é um espião! Enganaram-me os de El Encanto! Traição do velho Balbino Jácome! Mas de mim não zombarás! Quando desembarcarmos, mandarei prender-te!
— Sim, que me entreguem ao Juiz Valcárcel, para quem levo graves revelações!
— Ahá! Pensas meter-me em novos embrulhos?
— Fique tranquila! Não serei delator quando fui vítima.
— Eu arranjo isso. Vais lançar sobre mim o ódio de Arana!
— Não mencionarei o caso de Juan Muñeiro.
— Vais criar inimigos muito poderosos! Em Manaus te deixarei livre! Irás ao Vaupés e abraçarás Luciano Silva, teu filho querido, que de certo anda procurando-te!
— Não desistirei de falar com meu Cônsul. A Colômbia precisa de meus segredos! Ainda que eu morra imediatamente! Aí lhe fica meu filho para lutar!
Horas depois desembarcamos.
* * *
O altercado com a madona me enalteceu. Nas últimas frases, troquei-me em amo, temido por minha dona, olhado com respeito pela criadagem da lancha e do bongo. O maquinista e o timoneiro, que em dias anteriores me obrigavam a lavar suas roupas, não sabiam que fazer com o “senhor Silva”. Ao saltar em terra, um deles me ofereceu cigarros, enquanto o outro me alongava a isca de seu fuzil, chapéu na mão.
— Senhor Silva, o senhor nos vingou de muitas afrontas!
A mestiça de Parintins, camareira da madona, pediu aos homens, da lancha, que descorressem as cortinas de bordo.
— Depressa, que a senhorita tem cefálicos. Já tomou duas aspirinas. É urgente pendurar-lhe a rede!
Enquanto os marinheiros obedeciam, meditei meus planos: ir ao Consulado de meu país, exigir do Cônsul que me assessorasse na Prefeitura ou no Juízo, denunciar os crimes da selva, referir quanto me constava sobre a expedição do sábio francês, solicitar minha repatriação, a liberdade dos caucheiros escravizados, a revisão de livros e contas em La Chorrera e em El Encanto, a redenção de milhares de indígenas, o amparo dos colonos, o livre comércio em caños e rios. Tudo, depois de haver conseguido a ordem de amparo à minha autoridade de pai legítimo sobre meu filho menor de idade, para levá-lo comigo, ainda que à força, de qualquer quadrilha, barraca ou mato.
A camareira aproximou-se de mim:
— Senhor Silva, nossa senhora roga que ordene tirar do bongo o que ali venha, e que faça na Alfândega as gestões indispensáveis, como coisa própria, por ser o senhor o homem de confiança.
— Diga-lhe que vou para o Consulado.
— Pobrezinha, como chorou ao pensar em “Lu”!
— Quem é esse “Lu”?
— Lucianito. Assim lhe dizia quando andaram juntos no Vaupés.
— Juntos!
— Sim, senhor, como beijo e boca! Era muito generoso, conseguia-lhe lotes de caucho. Quem tem detalhes certos é minha irmã mais velha, que atualmente está no Rio Negro, como amante de um capataz do turco Pezil, e foi antes de mim camareira da madona.
Ao escutar esta confidência, tremi de amargura e ressentimento. Voltei o rosto para a cidade, dissimulando minha indignação. Ignoro em que momento me pus em marcha. Atravessei corrilhos de marinheiros, filas de carregadores, grupos do resguardo. Um homem me deteve para que eu lhe mostrasse o passaporte. Outro me perguntou de onde vinha e se em minha canoa restavam legumes para vender. Não sei como percorri ruas, subúrbios, atracadouros. Numa praça me detive diante de um portão que tinha um escudo. Chamei.
— O Cônsul da Colômbia se encontra aqui?
— Que Cônsul é esse? — perguntou uma dama.
— O da Colômbia.
— Ha, ha!
Numa esquina vi sobre o balcão a haste de uma bandeira. Entrei.
— Perdoe, senhor. O Consulado da República da Colômbia?
— Este não é.
E continuei caminhando de um lado para outro, até a noite.
— Cavalheiro — disse a um ninguém. — Onde reside o Cônsul da França?
Imediatamente me deu as indicações. O escritório estava fechado. Na placa de cobre, li: Horas de expediente, das nove às onze.
* * *
Passada a primeira nervosidade, senti-me tão acovardado que tive saudades da selvageria dos seringais. Ao menos lá eu tinha “conhecidos” e para minha rede não faltava um lugar; meus costumes estavam feitos, eu sabia desde a noite a tarefa do dia seguinte, e até os sofrimentos me vinham regulamentados. Mas na cidade adverti que me faltava o hábito dos risos, do alvedrio, do bem-estar. Vagava pelas calçadas com o temor de ser importuno, com a melancolia de ser estrangeiro. Parecia-me que alguém ia perguntar-me por que andava ocioso, por que não seguia fumigando borracha, por que havia desertado de minha barraca. Onde falavam alto, minhas costas estremeciam; onde encontrava luzes, meus olhos se encandeavam, habituados à penumbra. A liberdade me desconhecia, porque eu não era livre: tinha um amo, o credor; tinha um grilhão, a dívida, e faltavam-me a ocupação, o teto e o pão.
Várias vezes havia percorrido o povoado, sem compreender que não era grande. Por fim me dei conta de que os edifícios se repetiam. Diante de um deles esvaziavam-se os veículos. Lá dentro, aplausos e música. A madona desceu de um coche, em companhia de um cavalheiro gordo, cujos bigodes eram grossos e retorcidos como cabos. Quis voltar ao porto e vi numa venda o maquinista e o timoneiro.
— Senhor Silva, estamos aqui porque não há cuidado com a embarcação. Já entregamos tudo. Amanhã, às onze em ponto, sai o vapor de linha que entra no Rio Negro. A madona comprou passagem. Mas nós três viajaremos em nossa lancha. Sairemos quando o senhor ordenar. Aconselharíamos deixar seus segredos para Manaus. Aqui não o ouvem. Que esperanças lhe deu seu Cônsul?
— Nem sequer sei onde vive.
— Poderiam dizer-me — perguntou o timoneiro aos fregueses — se o Consulado da Colômbia tem escritório?
— Não sabemos.
— Creio que onde Arana, Vega e Companhia — insinuou o maquinista. — Eu conheci dom Juancho Vega como Cônsul.
A vendeira, que lavava os copos num caldeirão, advertiu seus clientes:
— O latoeiro da vizinhança me contou que ao patrão dele chamam O Cônsul. Podem indagar se algum deles é colombiano.
Eu, pela honra do homem, rechaçei a burla.
— Vocês não suspeitam por quem pergunto!
Contudo, ao amanhecer tive o pensamento de visitar a latoaria e passei várias vezes pela calçada oposta, com atitudes de observador, enquanto chegava a hora de apresentar-me ao Cônsul da França. A gente do bairro era madrugadora. Não tardou em abrir-se a porta indicada. Um homem que tinha avental azul soprava, fora do batente, com grandes foles, um braseiro metálico. Quando cheguei, começou a soldar o gargalo de um alambique. Nas prateleiras alinhava-se uma profusa quinquilharia.
— Senhor, a Colômbia tem Cônsul neste povoado?
— Aqui vive e agora sairá.
E saiu em mangas de camisa, sorvendo sua xícara de chocolate. O tal não era um ogro, nem muito menos. Ao vê-lo, aventurei minha franqueza campeira:
— Paisano, paisano! Venho pedir minha repatriação!
— Eu não sou da Colômbia, nem me pagam salário. Seu país não repatria ninguém. O passaporte vale cinquenta sóis.
— Venho do Putumayo, e isto o comprovo com a miséria de minhas chanchiras, com as cicatrizes dos açoites, com a palidez amarela de meu rosto enfermo. Leve-me ao Juízo para denunciar crimes.
— Nem sou advogado nem sei de leis. Se não pode pagar a um procurador...
— Tenho revelações sobre a exploração do sábio francês.
— Pois que as ouça o Cônsul da França.
— Um filho meu, menor de idade, foi-me sequestrado nesses rios.
— Isso se deve tratar em Lima. Como se chama seu filho?
— Luciano Silva! Luciano Silva!
— Oh, oh, oh! Aconselho-o a calar. O Cônsul da França tem notícias. Esse sobrenome não lhe será grato. Um tal Silva foi a La Chorrera depois que o sábio desapareceu, usando as roupas deste. A ordem de captura não tardará. O senhor conhece o rumbero apelidado El Brújulo? Quais serão suas revelações?
— Versarão sobre coisas que me referiram.
— De certo as saberá o senhor Arana, que se interessa por esse assunto; mas conte-as a ele e peça-lhe trabalho de minha parte. Ele é homem muito bom e o ajudará.
Para que não percebesse minha agitação, despedi-me sem dar-lhe a mão. Quando saí à rua, não acertava encontrar o porto. O maquinista e o timoneiro estavam a bordo da lancha com uns peões.
— Vamos embora — roguei-lhes.
— Venha, conheça três companheiros do pessoal do senhor Pezil, o cavalheiro grosso que ontem à noite esteve no cinema com a madona. Todos vamos para Manaus, e vamos sós porque nossos patrões tomaram o navio.
Ao instalarmo-nos para partir, disse-me algum desses rapazes:
— De todo coração o acompanhamos em suas desgraças.
— De igual maneira lhes agradeço suas expressões.
— Na própria corredeira do Yavaraté, contra as raízes de um jacarandá.
— Que me diz o senhor?
— Que é preciso esperar três anos para poder tirar os ossos.
— De quem? De quem?
— De seu pobre filho. Matou-o uma árvore!
O trovão do motor apagou meu grito:
— Vida minha! Matou-o uma árvore!
Clássico colombiano e latino-americano, La vorágine acompanha Arturo Cova na travessia dos llanos e da selva, expondo a violência da exploração do caucho e a força devoradora da natureza. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.