Universo da obra
Universo da obra
Ó selva, esposa do silêncio, mãe da solidão e da neblina! Que fado maligno me deixou prisioneiro em teu cárcere verde? Os pavilhões de tuas ramagens, como imensa abóbada, estão sempre sobre minha cabeça, entre minha aspiração e o céu claro, que só entrevêjo quando tuas copas estremecidas movem sua ondulação, à hora de teus crepúsculos angustiosos. Onde estará a estrela querida que à tarde passeia pelas colinas? Aqueles celajes de ouro e múrice com que se veste o anjo dos poentes, por que não tremem em teu domo? Quantas vezes suspirou minha alma adivinhando, através de teus labirintos, o reflexo do astro que empurpura as lonjuras, para o lado de meu país, onde há planícies inesquecíveis e cumes de coroa branca, de cujos píncaros me vi à altura das cordilheiras! Sobre que sítio erguerá a lua seu apazível farol de prata? Tu me roubaste o devaneio do horizonte e só tens para meus olhos a monotonia de teu zênite, por onde passa o plácido albor, que jamais ilumina as folhagens secas de teus seios úmidos!
Tu és a catedral da tristeza, onde deuses desconhecidos falam a meia voz, no idioma dos murmúrios, prometendo longevidade às árvores imponentes, contemporâneas do paraíso, que já eram decanas quando as primeiras tribos apareceram e esperam impassíveis o afundamento dos séculos venturosos. Teus vegetais formam sobre a terra a poderosa família que nunca se trai. O abraço que tuas ramagens não podem dar entre si levam-no as trepadeiras e os cipós, e és solidária até na dor da folha que cai. Tuas multíssonas vozes formam um só eco ao chorar pelos troncos que desabam, e em cada brecha os novos germes apressam suas gestações. Tens a austeridade da força cósmica e encarnas um mistério da criação. Não obstante, meu espírito só se afaz ao instável, desde que suporta o peso de tua perpetuidade, e, mais que à azinheira de galho robusto, aprendeu a amar a orquídea raquítica, porque é efêmera como o homem e murchável como sua ilusão.
Deixa-me fugir, ó selva, de tuas penumbras enfermiças, formadas com o hálito dos seres que agonizaram no abandono de tua majestade! Tu mesma pareces um cemitério enorme, onde apodreces e ressuscitas! Quero voltar às regiões onde o segredo não aterra ninguém, onde é impossível a escravidão, onde a vista não tem obstáculos e o espírito se eleva na luz livre! Quero o calor dos areais, o espelhamento das canículas, a vibração dos pampas abertos! Deixa-me tornar à terra de onde vim, para desfazer essa rota de lágrimas e sangue que percorri em dia nefando, quando, atrás da pegada de uma mulher, me arrastei por montes e desertos, em busca da Vingança, deusa implacável que só sorri sobre as tumbas!
* * *
Esquecida seja a época miserável em que vagamos pelo deserto em quadrilha prófuga, como salteadores. Acusados de um crime alheio, desafiamos a injustiça e erguemos a insígnia da rebelião. Quem ousou desafiar o rancor bárbaro em meu peito? Quem teria podido amansar-nos? As múltiplas sendas do pampa ficaram pisoteadas naqueles dias ao galope de nossos potros, e não houve noite em que não acendêssemos em paragem diversa a fugitiva labareda do bivaque.
Depois, sob moriches inextricáveis, improvisamos um refúgio. Ali se amontoavam os pertences que Mauco e Tiana salvaram do incêndio, e que puseram em nossas mãos antes de irem a Orocué, em missão de espionagem. Mas não sabíamos que sorte teriam corrido. Fidel e o mulato, o Pipa e eu nos revezávamos a cada dia para atalaiar, do alto de uma palmeira, a presença de alguma gente no horizonte ou o triângulo de fumaça combinado como sinal.
Ninguém nos buscava nem perseguia! Todos nos haviam esquecido!
Eu não era mais que um resíduo humano de febres e pesares. À noite, a fome nos desvelava como um vampiro, e, porque já vinham as chuvas, combinamos a dispersão para depois nos asilarmos na Venezuela. Pensei então que dom Rafo voltaria de regresso a La Maporita, e que com ele poderíamos tornar a Bogotá. Muitos dias o esperamos nas planícies vizinhas a Tame. Mas, assim que Franco declarou que continuaria sua vida nômade, não por receio da justiça ordinária, mas pelo perigo de que algum Conselho de Guerra o castigasse como desertor, desisti da ideia da viagem para nos unirmos no desterro e afrontarmos vicissitudes iguais, já que uma mesma desventura nos havia unido e não tínhamos outro futuro senão o fracasso em qualquer país.
E nos decidimos pelo Vichada.
O Pipa nos conduziu aos bananais silvestres de Macuana, sobre a margem do turvo Meta, depois da desembocadura do Guanapalo. Morava nesses montes uma tribo guahiba, semidomada, que concordou em acolher-nos com a condição de que acolhêssemos o “guayuco”, respeitássemos as “pollonas” e ordenássemos aos winchesters “não soltarem trovões”.
Apareceu certa tarde o Pipa com cinco indígenas, que resistiam a aproximar-se enquanto não amarrássemos os dogos. Agachados na mata, erguiam-se para observar-nos, prontos a fugir ao menor deslize, razão pela qual o ladino intérprete foi conduzindo-os pela mão até nosso grupo, onde recebiam o advertido abraço de paz com esta frase protocolar: “Cunhado, eu querendo muito você, cachorro não fazendo nada, coração contente”.
Todos eram fortes e jovens, de pele achocolatada e costas hercúleas, cuja membratura estremecia temerosa dos fuzis. Arcos e aljavas haviam deixado junto à canoa, que nos embalaria sobre as águas desconhecidas de um rio selvagem, rumo a refúgios recônditos e temíveis, para onde um fátum implacável nos expatriava, sem outro delito além de sermos rebeldes, sem outra mácula além de sermos infortunados.
Chegara o momento de dispensar nossos cavalos, que nos deram amparo na adversidade. Eles recobravam o pampa virgem, e nós perdíamos aquilo que recuperavam jubilosos: a zona onde sofremos e batalhamos inutilmente, comprometendo a esperança e a juventude. Quando meu alazão suado se sacudiu, livre da montaria, e galopou com relinchos trêmulos em busca do bebedouro distante, senti-me indefeso e só, e gravei em meus olhos tristes o confim, com a amargura do condenado à morte que se resigna ao sacrifício e vê sobre as paisagens de sua infância avermelhar-se o último sol.
Ao descer o barranco que nos separava da curiara, tornei a cabeça para o limite dos llanos, perdidos numa nébula doce, onde as palmeiras se despediam de mim. Aquelas imensidões me feriram e, não obstante, eu queria abraçá-las. Elas foram decisivas em minha existência e se enxertaram em meu ser. Compreendo que, no instante de minha agonia, se apagarão de minhas pupilas vidradas as imagens mais leais; mas, na atmosfera sempiterna por onde ascenda meu espírito, adejando, estarão presentes as meias-tintas desses crepúsculos carinhosos que, com suas pinceladas de opala e rosa, já me indicaram no céu amigo a senda que a alma segue rumo à suprema constelação.
* * *
A curiara, como um ataúde flutuante, seguiu águas abaixo, à hora em que a tarde alonga as sombras. Do dorso da corrente vislumbravam-se as margens paralelas, de vegetação sombria e pragas hostis. Aquele rio, sem ondulações, sem espumas, era mudo, tetramente mudo como o presságio, e dava a impressão de um caminho escuro que se movesse rumo ao vórtice do nada.
Enquanto prosseguíamos silenciosos, a terra principiou a lamentar-se pelo afundamento do sol, cujo vislumbre empalidecia sobre as praias. Os ruídos mais leves repercutiram em meu ser, consubstanciado a tal ponto com o ambiente que era minha própria alma que gemia, e minha tristeza que, à semelhança de uma lente opaca, entenebrecia todas as coisas. Sobre o panorama crepuscular foi-se ampliando meu desconsolo, como a noite, e lentamente uma mesma sombra apagou os perfis do bosque estático, a linha da água imóvel, as silhuetas dos remadores...
Desembarcamos no começo de uma ribanceira, suavizada por degraus que desciam ao porto, em cujo remanso se agrupavam algumas canoas. Por uma senda cheia de barro que se perdia entre o capim alto, saímos a uma pracinha de árvores derrubadas, onde nos aguardava o rancho palhiço, tão solitário naquele momento que vacilávamos em ocupá-lo, desconfiados de alguma emboscada. O Pipa discutia com os nativos que nos conduziram a semelhante morada, e nos transmitia a tradução da jerigonça, segundo a qual os da ramada haviam se dispersado ao ver os mastins. Os bogas me pediam permissão para dormir entre as curiaras.
E quando se foram, Fidel ordenou a Correa que se deitasse com o Pipa na barbacoa, caso tentasse trair-nos naquela noite; tirou as coleiras dos cães e, às escuras, mudou o lugar de nossas redes.
Oferecendo meu flanco à carabina, entreguei-me ao sono.
* * *
O Pipa costumava fazer-me protestos de adesão incondicional, e acabou por relatar-me a pavorosa série de suas andanças. Sua mão sabia disparar a flecha farpada em cuja ponta ia ardendo a pelota de “peramán”, que cruzava o ar como um cometa, com o uivo da consternação e do incêndio.
Muitas vezes, para livrar-se do inimigo, achatou-se no fundo das lagoas como um jacaré, e emergia sigiloso entre os juncais para renovar a respiração; e se os cães nadavam sobre sua cabeça, procurando-o, ele os estripava e consumia, sem que os vaqueiros pudessem ver outra coisa senão o chapinhar de alguns juncos no apartado centro dos charcos.
Ainda adolescente, veio aos llanos quando estava no auge o hato de San Emigdio, e ali serviu de “coquis” vários meses. Trabalhava o dia inteiro com os llaneros, e à noite somava-se a suas fadigas a de juntar lenha e água, acender o fogo e assar carne. De madrugada, os capatazes o despertavam a pontapés, para que recozesse o café cerrero; e depois de tomá-lo, iam-se embora sem ajudá-lo a selar a besta manhosa nem lhe dizer para que banco se dirigiam. E ele, levando pelo cabresto a mula dos caldeirões e dos víveres, trotava pelas estepes escurecidas, pondo ouvido nas vozes dos cavaleiros, até orientar-se e seguir com eles.
Para cúmulo, a cozinheira da ramada exigia que ele cooperasse em seus afazeres, e ele, tisnado e humilde como um trapo, resignava-se à sua situação. Mais de uma vez, ao despejar o “cozido” na barbacoa, sobre as folhas frescas que serviam de toalhas, os peões se atropelaram com a presteza de abutres famintos, e ele estendeu, como todos, as mãos imundas à carne para trinchar algum pedaço com seu “belduque”. O “arrimado” da maritornes, um avô de aspecto torvo, que o vigiava estupidamente por ciúme e que já o havia açoitado com o cinturão, começou a vociferar, mastigando, porque não se repetia depressa a caldeirada. Como o coquis não se apressou em obedecer-lhe, agarrou-o por uma orelha e banhou-lhe o rosto em caldo quente. O rapaz, enfurecido, rasgou-lhe o bucho de um só talho, e as vísceras do comilão se espalharam fumegantes pela barbacoa, entre as viandas.
O dono do hato prendeu o fedelho, atando-lhe garganta e braços com um “mecate”, e mandou dois homens matá-lo naquele mesmo dia, sob as ressacas do Yaguarapo. Por sorte, pescavam ali alguns índios, que estriparam os verdugos e deram liberdade ao sentenciado, mas levando-o consigo.
Errante e nu, viveu nas selvas mais de vinte anos, como instrutor militar das grandes tribos, no Capanaparo e no Vichada; e como seringueiro, no Inírida e no Vaupés, no Orinoco e no Guaviare, com os piapocos e os guahibos, com os baniyas e os barés, com os cuivas, os carijonas e os huitotos. Mas sua maior influência exercia-a sobre os guahibos, a quem havia aperfeiçoado na arte das guerrilhas. Com eles assaltou sempre as rancherías dos sálivas e as fundações banhadas pelo Pauto. Caiu prisioneiro em épocas distintas, quando uma “raya” lhe lanceou o pé, ou quando as febres o consumiam; mas, com arriscada sorte, fez-se passar por vaqueiro cativo dos hatos da Venezuela, e conheceu diferentes cárceres, onde observava conduta irrepreensível para voltar logo à inclemência dos desertos e ao usufruto das revoltosas capitanias.
— Eu — dizia — serei sua estrela nestes confins, se puser sob meus cuidados a expedição: conheço trochas, baixadas, caminhos, e em alguns caños tenho amizades. Procuraremos os seringueiros por toda parte, até o fim do mundo; mas não volte a permitir que o mulato Correa durma comigo, nem que me satirize com tanta roña. Isso não é corrente entre cristãos e desanima qualquer homem de sentimento. Algum dia eu o arranho, e ficamos em paz!
Por esse tempo a misantropia me invadiu, sombreando-me as ideias e desconjuntando-me a decisão. No sonambulismo da angústia, eu devorava minhas próprias bílis, inepto, sonolento, como a serpente que troca a pele. Ninguém voltara a nomear Alicia, para desterrá-la de meu pensamento; mas essa mesma delicadeza sublevava em meu coração todos os ódios reconcentrados, ao compreender que se compadeciam de mim como de um vencido. Então as blasfêmias me queimavam os lábios e um véu de sangue se retecia sobre meus olhos.
E a Fidel, atormentava-o a lembrança tenaz? Apenas me parecia triste em suas confidências, talvez para se ajustar ao meu quebranto. Tudo perdera em hora impensada, e no entanto dava a entender que desde esse instante se sentira mais livre e poderoso, como se o infortúnio fosse simples sangria para seu espírito.
E eu, por que me lamentava como um eunuco? Que perdia em Alicia que não topasse em outras fêmeas? Ela fora um mero incidente em minha vida louca e teve o fim que devia ter. Barrera merecia minha gratidão!
Além disso, a que fora minha querida tinha seus defeitos: era ignorante, caprichosa e colérica. Sua personalidade carecia de relevo: vista sem a lente da paixão amorosa, aparecia a mulher comum, a dos encantos atribuídos pelos admiradores que a perseguem. Suas sobrancelhas eram mesquinhas, seu pescoço curto, a harmonia de seu perfil um tanto convencional. Desconhecia a ciência do beijo e suas mãos foram incapazes de inventar a menor carícia. Jamais escolheu um perfume que a distinguisse; sua juventude cheirava como a de todas.
Qual era a razão de sofrer por ela? Era preciso esquecer, era preciso rir, era preciso começar de novo. Meu destino assim o exigia; assim o desejavam, tácitos, meus camaradas. O Pipa, disfarçando a intenção com o dissimulo, cantou certa vez um “llorao” genial, ao compasso das maracas, para infundir-me a ironia confortadora:
No domingo a vi na missa,
na segunda a enamorei,
na terça já lhe propus,
na quarta me casei;
na quinta me deixou só,
na sexta por ela suspirei;
no sábado, o desengano...
e no domingo, buscar outra,
porque sozinho não me ajeitei.
Enquanto isso, iniciava-se em minha vontade uma reação quase dolorosa, em que colaboraram o rancor e o ceticismo, a impenitência e os propósitos de vingança. Zombei do amor e da virtude, das noites belas e dos dias formosos. Não obstante, alguma rajada do passado voltava a refrescar meu peito ardido, nostálgico de ilusões, de ternura e serenidade.
* * *
Os aborígenes do bohío eram mansos, astutos, pusilânimes, e se pareciam como os frutos de uma mesma árvore. Chegaram nus, com suas dádivas de “cambures” e “mañoco”, acondicionadas em cestas de palmarito, e as descarregaram sobre o pousio, em lugar visível. Dois dos índios que manejavam a canoa traziam peixes cozidos ao fumo.
Cuidadosos para que os cães não rosnassem, fomos ao encontro do arisco grupo e, depois de uma livre conversa em gerúndios e monossílabos castelhanos, os visitantes resolveram ocupar uma extremidade da morada, a imediata aos montes e à barranca.
Com indiscreta curiosidade perguntei-lhes onde haviam deixado as mulheres, pois nenhuma vinha com eles. O Pipa apressou-se em explicar-me que era imprudência fazer indagações tão desusadas, sob risco de que se alarmassem os ciumentos índios, a cujas “petrivas” fora negado, por experiência tradicional, mostrar incautamente sua nudez a forasteiros brancos, sempre luxuriosos e abusivos. Acrescentou que não tardariam a aproximar-se as índias velhas, para ir aquilatando nossa conduta, até se convencerem de que éramos varões comedidos e recomendáveis.
Dois dias depois apareceram as matronas, em traje de paraíso, senis, repugnantes, batendo ao caminhar os flácidos seios, que lhes pendiam como esfregões. Traziam sobre a grenha sendas “taparas” de chicha mordente, cujos ressumos pegajosos lhes gotejavam pelas rugas das faces, com aparência de suor ácido. Ofereceram-nos a bebida pelo bico da cabaça, impondo seu gesto hierático, e depois resmungaram mal-humoradas ao ver que só o Pipa pôde saborear o cáustico beberrão.
Mais tarde, quando a chuva começou a ressoar, agacharam-se junto ao fogão, como gorilas mumificadas, enquanto os homens emudeciam nos chinchorros com o letargo da desídia. Nós calávamos também no trecho oposto, vendo a água cair na extensão da vega umbrosa, que oprimia o espírito com suas neblinas e cerrações.
— É imperioso — irrompeu Franco — decidir esta situação, pondo em prática algum propósito. Na semana entrante deixaremos este covil.
— As índias já vieram preparar-nos o mantimento — respondeu o Pipa. — Subiremos o rio, cruzando-o diante de Caviona, um pouco acima das lagoas. Por ali vai uma senda terrestre para o Vichada e gastam-se sete dias para percorrê-la. É preciso levar o equipamento às costas, mas nenhum destes “cuñaos” quer ir de carregador. Estou trabalhando para convencê-los. Mas é urgente a compra de alguns “corotos” em Orocué.
— E com que dinheiro os adquirimos? — adverti, alarmado.
— Isso corre por minha conta. Só peço que creiam em mim e continuem afáveis com a tribo. Precisamos de sal, anzóis, “guarales”, tabacos, pólvora, fósforos, ferramentas e mosquiteiros. Tudo para vocês, porque para mim nada é indispensável. E como ninguém sabe o que nos espera nessas lonjuras...
— Será preciso vender as selas e os arreios?
— E quem os compra? E quem os vende sem que o apanhem? Já podemos ir jogando tudo fora. De agora em diante não teremos outro cavalo além da canoa.
— E em que lugar escondes o ouro para teus planos?
— No garceiro de Las Hermosas. Quatro libras de pluma fina, se nos sairmos mal. Cada semana trocaremos um manojinho por mercadorias. Quando lhes der vontade, eu sou baquiano, mas é muito longe.
— Isso não importa! Amanhã mesmo!
* * *
Bendita seja a difícil landa que nos conduziu à região dos revoos e da alvura! O bosque inundado do garceiro, milionário de garças-reais, parecia algodoeiro de copos nutridos; e na turquesa do céu ondulava, perenemente, um desfile de remos cândidos sobre as cúpulas dos moriches, onde fervilhava a arrepiada multidão de filhotes. À nossa passagem, encumbrava-se em espiras a nívea frota e, depois de girar com insólita algazarra, debandava em unidades que desciam ao esteiro, entrecerrando as asas lentas, como um velame de seda alvicante.
Pensativo, junto às linfas, demorava-se o “garzón soldado” de quepe vermelho, altura heroica e marcial talante, cujo largo bico é prolongado como uma espada; e ao seu redor revoava o mundo babélico de pernaltas e palmípedes, desde a “corocora” lacre, que humilharia o íbis egípcio, até a azul cerceta de penacho dourado e o pato ilusório de cor-de-rosa, que no rosicler da aurora llanera tinge suas plumas. E por cima desse alado tumulto voltava a girar a coroa eucarística de garças, despetalava-se sobre a ciénaga, e meu espírito se sentia deslumbrado, como nos dias de seu candor, ao evocar as hóstias divinas, os coros angelicais, os círios imaculados.
Parecia-me impossível que pudéssemos encostar ao sítio dos ninhos e das plumas. O charco transparente deixou-nos ver um submerso exército de jacarés, em contorno das palmeiras, ocupado em recolher filhotes e ovos, que caíam quando as garças, entre algaravias e bicadas, desnivelavam com seu peso as ramagens. Nadava por toda parte a inumerável banda de caribes, de ventre avermelhado e escamas plúmbeas, que se devoram uns aos outros e descarnam num segundo todo ser que cruze as ondas de seu domínio, razão pela qual homens e quadrúpedes resistem a lançar-se a nado, e muito mais ao se sentirem feridos, pois o sangue excita instantaneamente a voracidade do terrível peixe. Via-se a traiçoeira arraia, de nadadeiras gelatinosas e arpão venenoso, que descansa no lodo como um escudo; a enguia elétrica, que imobiliza com suas descargas quem a toca; a palometa de nácar e ouro, semelhante ao disco lunar, que desce ao fundo e turva a água para escapar às dentadas da tonina. E todo o imenso aquário se estendia rumo ao horizonte, como um lago de estanho onde flutuam as plumas ambicionadas.
Remando em balsinhas inverossímeis, distribuímo-nos aqui e ali para recolher o caro tesouro. Os índios invadiam a trechos as espessuras, remexendo as trevas com as varas, por medo de güios e jacarés, até completar seu feixe branco, que às vezes custa a vida de muitos homens, antes de ser levado às cidades longínquas para exaltar a beleza de mulheres desconhecidas.
* * *
Naquela tarde rendi meu ânimo à tristeza, e uma emoção romântica me surpreendeu com vagas carícias. Por que viveria sempre só na arte e no amor? E pensava com dolorida inconformidade: se tivesse agora a quem oferecer este arminhado ramalhete de plumagens, que parecem espigas brancas! Se alguém quisesse abanar-se com esta asa de “codúa” marinha, onde vai prisioneiro o arco-íris! Se houvesse encontrado com quem contemplar o garceiro nítido, primavera de aves e cores!
Com pena humilhada, adverti depois que no véu de minha ilusão se embuçava Alicia, e procurei manchar com realismo cru o pensamento em que a intrusa ressurgia.
Felizmente, depois de penosa viagem por planícies pantanosas e caños fundos, demos com o lugar onde haviam ficado as canoas; e, à vara, começamos a remontar os rios sinuosos, até que entramos, à boca da noite, no atracadouro da ramada.
De longe, a brisa nos trouxe o choro de uma criança e, quando chegamos à huta, saíram correndo umas índias jovens, sem atender ao Pipa, que em idioma terrígeno alcançou gritar-lhes que éramos gente amiga. Nas soleras e esteios havia chinchorros numerosíssimos, e no fogão, a meio rescaldo, gorgolejava a panela das infusões.
Lentamente, mal a fogueira ergueu sua luz, foram-se apresentando os índios novos, acompanhados de suas mulheres, que lhes punham a mão direita no ombro esquerdo, para advertir-nos de que eram casadas. Uma que chegou sozinha apontava-nos o chinchorro do marido e espremia o seio leitoso, dando a entender que dera à luz naquele dia. O Pipa, diante dela, começou a instruir-nos nos costumes que regem a maternidade em tal tribo: ao pressentir o parto, a parturiente toma o mato e volta, já lavada, para buscar seu homem e entregar-lhe a criatura. O pai, ato contínuo, acama-se para guardar dieta, enquanto a mãe lhe prepara cozimentos contra as náuseas e as cefaleias.
Como se entendesse essas explicações, a moça fazia sinais de aprovação a tudo quanto o Pipa referia; e o cônjuge folgazão, de cabeça vendada com folhas, queixava-se desde o chinchorro e pedia cocos de chicha para aliviar seus padecimentos.
As índias que haviam fugido eram as pollonas, e cada um de nós poderia tomar a que lhe agradasse quando o chefe, um cacique matusalênico, recompensasse com essa sorte nossa adesão. Mas seria candura pensar que, com galanteios e sorrisos, aceitariam nosso agrado. Era preciso espreitá-las como gazelas e correr nos bosques até rendê-las, pois a superioridade do macho deve impor-se a elas pela força, em troca de submissão e ternura.
Eu me sentia incapaz de toda ilusão.
* * *
O chefe da família manifestava-me certa frieza, que se traduzia em silêncio desdenhoso. Eu procurava agradá-lo de várias formas, pelo desejo de que me instruísse em suas tradições, em seus cantos guerreiros, em suas lendas; inúteis foram minhas cortesias, porque aquelas tribos rudimentares e nômades não têm deuses, nem heróis, nem pátria, nem pretérito, nem futuro.
Aconteceu que trouxe do garceiro dois patos cinzentos, pequenos como pombas, ocultos numa mochila. Encontrei um morto no dia seguinte, e o desplumei junto ao fogão para que meus cães o comessem. Mas, ao ver-me, o cacique tomou suas flechas e me ameaçou com a macana, dando alaridos e trenós, até que as mulheres, apavoradas, recolheram as plumas e as sopraram ao ar da manhã.
Meus companheiros me rodearam e me arrebataram a carabina para que eu não ameaçasse o velho audaz. Este se atirou ao chão, cobrindo o rosto com as mãos; retorcia-se em convulsões epilépticas, começou a dar soluços de despedida, beijava a terra e a manchava com espumaradas. Depois ficou rígido, entre o espanto do harém desnudo, mas o Pipa lhe jogou rescaldo nas orelhas para que a morte não lhe comunicasse seu fatal segredo.
Então nosso intérprete me advertiu que as almas daqueles bárbaros residem em diferentes animais, e que a do cacique se assemelhava a um pato cinzento. Provavelmente morreria de sugestão por ter contemplado a ave sem vida, e a tribo se vingaria de meu “homicídio”. Apressei-me a tirar o outro pato e deixei-o esvoaçar pela ramada; ao vê-lo, o índio ficou em êxtase diante do milagre e seguiu os zigue-zagues do voo sobre a plenitude do rio próximo.
O pueril incidente bastou para acreditar-me como ser sobrenatural, dono de almas e destinos. Nenhum aborígene se atrevia a olhar-me, mas eu estava presente em seus pensamentos, exercendo influências desconhecidas sobre suas esperanças e suas tristezas. A meus pés caíram dois rapazes, e se ofereceram para acompanhar nossa expedição sem que suas mulheres resistissem. Nunca pude recordar seus nomes vernáculos, e apenas sei que traduzidos em bom português queriam dizer, quase literalmente, “Passarinho do Mato” e “Morrinho da Savana”. Abracei-os em sinal de que aceitava seu oferecimento, razão pela qual despenduraram do teto as varas e remudaram o fique das forquilhas, para que suportassem o impulso da canoa ao fincar-se nos “carameros” dos charcos ou nos arrecifes costeiros.
Por sua vez, as índias velhas ralavam mandioca para a preparação do “casabe” que devia alimentar-nos no deserto. Jogavam a mistura aquosa no “sebucán”, largo cilindro de folhas de palma retecidas, cuja extremidade inferior se torce com um travessão para espremer o suco amiláceo da raladura. Outras, nuas em torno da fogueira, reaqueciam o “budare”, testo redondo e plano, sobre cuja superfície iam estendendo a massa imunda e a alisavam com os dedos ensalivados até que a torta endurecesse. Umas torciam sobre as coxas as fibras tiradas do broto dos moriches, para tecer um chinchorro novo, digno de minha estatura e de minha pessoa, enquanto o cacique, gesticulando, me fazia entender que celebraria com baile pomposo a vassalagem devida à minha fortaleza e à minha autoridade.
Meu espírito pregustava o acre sabor das próximas aventuras.
* * *
Os índios encarregados de procurar-nos a mercadoria foram ludibriados pelos vendeiros de Orocué. Em troca dos artigos que levaram — “seje”, chinchorros, “pendare” e plumas —, receberam quinquilharias que valiam mil vezes menos. Embora o Pipa lhes tivesse ensinado cuidadosamente os preços razoáveis, sucumbiram à própria ignorância, e a avilantez dos exploradores voltou a enriquecer-se com o engano. Uns pacotes de sal poroso, uns lenços azuis e vermelhos e algumas facas foram pagamento írrito da remessa, e os emissários tornaram felizes porque, como outras vezes, não os haviam obrigado a varrer as lojas, carregar água, capinar a rua, empacotar couros.
Falhada a esperança de aumentar os equipamentos, consolamo-nos com a certeza de que a viagem seria menos complicada. E, afinal, numa noite de plenilúnio, ficou pronta a grande curiara que, com balanço brando, oferecia-se para conduzir-nos a Caviona.
Acorreram ao baile mais de cinquenta índios, de todo sexo e idade, pintarrajados e licenciosos, e foram amontoando-se na praia aberta, com os cabaços de chicha fervente. Desde a tarde haviam feito provisão de “mojojoyes”, grossos vermes de anéis peludos que vivem enroscados nos troncos podres. Degolavam-nos com os dentes, como o fumante que corta a ponta do charuto, e sorviam o conteúdo amanteigado, esfregando depois a vazia capa do animal nas cabeleiras, para lustrosá-las. As das pollonas, de seios altivos, resplandeciam como verniz, sob o nimbo de plumas de arara e sobre os colares de coroços e cornalinas.
O cacique embijara o rosto com urucum e mel, e aspirava o pó do “yopo”, introduzindo nas narinas sendos canudinhos. Como se o houvesse atacado o “delirium tremens”, bamboleava-se embrutecido entre as moças, e as apertava e perseguia, semelhante a um bode rijoso, porém impotente. Às vezes, a meia língua, vinha felicitar-me porque, segundo o Pipa, eu era, como ele, inimigo dos vaqueiros e lhes queimara as fundações, coisas que me faziam digno de uma macana fina e de um arco novo.
Em meio à orgiástica balbúrdia, prodigalizava-se a chicha de fermento atroz, e as mulheres e os pequenos irritavam a bacanal com seu vozerio. Depois começaram a girar sobre as areias em moroso círculo, ao compasso dos fotutos e das canas, sacudindo o pé esquerdo a cada três passos, como manda o rigor do baile nativo. A dança mais parecia um lento desfile de prisioneiros ao redor de imensa argola, obrigados a repisar uma só pegada, com a vista no chão, governados pelo queixume da charamela e pelo grave bate-estacas dos tamboris. Já não se ouvia mais que o som da música e o quente respirar dos dançantes, tristes como a lua, mudos como o rio que os consentia sobre suas praias. De repente, as mulheres, que permaneciam silenciosas dentro do círculo, abraçaram as cinturas de seus amantes e trançavam o mesmo passo, inclinadas e entorpecidas, até que, com súbito desafogo, todos os peitos corearam ascendente alarido, que estremecia selvas e espaços como uma badalada lúgubre: Aaaaai... Ohé!...
Estendido de cotovelos sobre o areal, aurirrubro pelas luminárias, eu olhava a singular festa, contente de que meus companheiros girassem bêbados na dança. Assim esqueceriam suas tristezas e sorririam à vida outra vez, ao menos. Mas, pouco depois, adverti que gritavam como a tribo, e que seu lamento acusava a mesma pena recôndita, como se a todos devorasse a alma uma só dor. Sua queixa tinha o desespero das raças vencidas, e era semelhante ao meu soluço, esse soluço de minhas aflições que costuma repercutir em meu coração ainda que os lábios o dissimulem: Aaaaai... Ohé!...
* * *
Quando me retirei a meu chinchorro, na mais completa desolação, umas índias seguiram meus passos e se agacharam perto de mim. A princípio conversavam a meia voz, mas mais tarde uma se atreveu a levantar a ponta de meu mosquiteiro. As outras, por sobre o ombro da companheira, espreitavam-me e sorriam. Fechando os olhos, rejeitei a provocação amorosa, com profundo desejo de libertar-me da lascívia e pedir à castidade seu refúgio tranquilo e revigorante.
Ao amanhecer regressaram à ramada os foliões. Estendidos no chão, como cadáveres, dissolviam no sono o pesadelo da embriaguez. Nenhum de meus camaradas havia voltado, e sorri ao notar que faltavam algumas pollonas. Mas quando desci ao rio para observar o estado da curiara, vi o Pipa, de bruços na areia, exânime e nu sob o raio do sol.
Tomando-o pelos braços, arrastei-o para a sombra, desgostoso com seu prurido de desnudar-se. Aquele homem, vaidoso de suas tatuagens e cicatrizes, preferia o guayuco à vestimenta, apesar de minhas repreensões e ameaças. Deixei-o dormitar a bebedeira, e ali permaneceu até a noite. Raiou o dia seguinte e nem despertava nem se movia.
Então, despendurando a carabina, agarrei o cacique pela melena e o ajoelhei na brita, enquanto Franco fazia menção de soltar os cães. O ancião abraçou-me as panturrilhas, trabalhando uma explicação:
— Nada, nada! Tomando “yagé”, tomando “yagé”...
Eu já conhecia as virtudes daquela planta, que um sábio de meu país chamou “telepatina”. Seu suco faz ver em sonhos o que está acontecendo em outros lugares. Recordei que o Pipa me falara dela, agradecido porque servia para saber com segurança a que savanas vão os vaqueiros e em que sítios abunda a caça. Oferecera a Franco ingeri-la para adivinhar o ponto preciso onde estivesse o raptor de nossas mulheres.
O visionário foi carregado em peso e recostado contra um esteio. Seu rosto singular e imberbe tomara uma cor violácea. Às vezes babava o próprio ventre e, sem abrir os olhos, queria agarrar os pés. Entre o círculo tolo dos espectadores, sustive-lhe a testa com minhas mãos.
— Pipa, Pipa, que vês? Que vês?
Com angustioso esforço, começou a queixar-se e saboreava a língua como um confeito. Os índios afirmavam que só falaria quando despertasse.
Com descrente curiosidade, tornei a dizer:
— Que vês? Que vês?
— Um... ri... o. Ho... mens, dois... homens...
— Que mais? Que mais?
— U... m... a... ca... no... a...
— Gente desconhecida?
— Uuuuh... Uuuuuh... Uuuuuh...
— Pipa, sentes-te mal? Que queres? Que queres?
— Dor... mir... dor... mir... dor...
As visões do sonhador foram estrafalárias: procissões de jacarés e tartarugas, pântanos cheios de gente, flores que davam gritos. Disse que as árvores da selva eram gigantes paralisados e que à noite conversavam e se faziam sinais. Tinham desejos de escapar com as nuvens, mas a terra as agarrava pelos tornozelos e lhes infundia a perpétua imobilidade. Queixavam-se da mão que as feria, do machado que as derrubava, sempre condenadas a rebrotar, a florescer, a gemer, a perpetuar, sem fecundar-se, sua espécie formidável, incompreendida. O Pipa entendeu suas vozes iradas, segundo as quais deveriam ocupar pousios, planícies e cidades, até apagar da terra o rastro do homem e balançar uma só ramagem em urdidura cerrada, como nos milênios do Gênesis, quando Deus ainda flutuava sobre o espaço como uma nebulosa de lágrimas.
Selva profética, selva inimiga! Quando há de cumprir-se tua predição?
* * *
Chegamos às margens do rio Vichada derrotados pelos mosquitos. Durante a travessia, a morte os atiçou atrás de nós, e nos perseguiram dia e noite, flutuando em halo fatídico e queixoso, trêmulos como uma corda a meio vibrar. Era-nos impossível poupar nosso sangue astênico, porque nos sugavam através de chapéu e roupa, inoculando-nos o vírus da febre e do pesadelo.
As que antes foram savanas úberes haviam se convertido em desoladas ciénagas; e com a água pela cintura, seguíamos o roteiro dos baquianos, a fronte banhada em suor e úmidas as malas que levávamos às costas, famélicos, macilentos, pernoitando em altiplanos de brenha inóspita, sem fogueira, sem leito, sem proteção.
Aquelas latitudes são imisericordes na seca e no inverno. Certa vez, em La Maporita, quando Alicia ainda me amava, saí ao deserto para apanhar para ela um veadinho recém-nascido. O verão calcinava a estepe tórrida, e as reses, no fogaréu do calor, trotavam por toda parte procurando água. Nos meandros de álveo árido, umas novilhas escavavam a terra do bebedouro ao lado de um cavalinho que agonizava com o focinho posto sobre o lameiro. Um bando de caricaris apanhava cobras, rãs, lagartixas, que palpitavam loucas de sede entre carniças de “cachicamos” e “chigüires”. O touro que presidia a grei repartia topadas com protetora solicitude, para obrigar suas fêmeas a acompanhá-lo rumo a outras paragens em busca de alguma poça, e mugia arreando suas companheiras em meio ao banco cintilante e pajonaloso.
Entretanto, uma novilha recém-parida, que destapou os cascos cavando o secadal, regressou para buscar seu bezerrinho e oferecer-lhe a úbere rachada. Deitou-se para lambê-lo, e ali morreu. Levantei a cria, e ela expirou em meus braços.
Mas depois, ao caírem algumas chuvas, o território invertia sua hostilidade: por toda parte, trepados em troncos, viam-se “lapas”, raposas e coelhos, sobrenadando na inundação; e, embora as vacas pastassem nos esteiros, com a água sobre os lombos, perdiam as tetas nos dentes dos caribes.
Por aquelas intempéries atravessamos a pé nu, como fizeram os lendários homens da conquista. Quando, no oitavo dia, me apontaram o monte do Vichada, tomou-me intenso tremor e adiantei-me com a arma ao braço, esperando encontrar Alicia e Barrera em sensual colóquio, para cair-lhes de surpresa, como o falcão sobre a ninhada. E arquejante, feito tigre, agachei-me sobre os barrancos da margem.
Ninguém! Ninguém! O silêncio, a imensidão...
* * *
A quem poderíamos perguntar pelos seringueiros? Para que seguir caminhando rio acima sobre a costa desaprazível? Era melhor renunciar a tudo, estender-nos em qualquer sítio e pedir à febre que nos rematasse.
O fantasma impávido do suicídio, que continua a esboçar-se em minha vontade, estendeu-me os braços naquela noite; e permaneci no chinchorro, com a mandíbula posta sobre o cano da carabina. Como iria ficar meu rosto? Repetiria o espetáculo de Millán? E este único pensamento me acovardava.
Lenta e obscuramente insistia em apoderar-se de minha consciência um demônio trágico. Poucas semanas antes, eu não era assim. Mas logo os conceitos de crime e os de bondade se compensavam em minhas ideias, e concebi o mórbido intento de assassinar meus companheiros, movido pela compaixão. Para que a tortura inútil, quando a morte era inevitável e a fome andaria mais lenta que meu fuzil? Quis libertá-los rapidamente e morrer depois. Com a mão esquerda no bolso, comecei a contar as cápsulas que tinha, escolhendo para mim a mais pontuda. E qual deveria matar primeiro? Franco estava perto de mim. Na noite chuvosa estendi o braço e tateei-lhe a cabeça febricitante.
— Que queres? — disse. — Por que mexias no manúbrio do winchester? A febre me deixa louco.
E, tomando-me o pulso, repetia:
— Pobre...! A tua tem mais de quarenta graus. Agasalha-te com minha ruana até suares.
— Esta noite será interminável!
— Logo sairá a estrela da madrugada. Sabes — acrescentou — que o mulatinho pode “rasgar-se”? Não tens ouvido como se queixa? Delirou com Sebastiana e com os rodeios. Diz que tem o fígado endurecido como pedra.
— Tua é a culpa. Não quiseste que ele ficasse. Ardias por vê-lo morrer no desamparo.
— Pensei que sua ânsia de retorno obedecesse à aversão que sente pelo Pipa.
— Eu os reconciliarei para sempre.
— É que Correa o teme pela ameaça de que vai causar-lhe malefício. Deu para entristecer-se quando escuta cantar certo pássaro.
Recordando os filtros de Sebastiana, respondi duvidoso:
— Ignorância, superstição!
— Ontem tirou o tiple para repor-lhe a cravelha quebrada. Mas, ao tocá-lo, pôs-se a chorar.
— Dize-me, não haverá migalhas de casabe em tua maleta? Levanta-te, aproxima-te.
— Para quê? Tudo acabou! Como me dói que tenhas fome!
— As sementes desta árvore serão venenosas?
— Provavelmente. Mas os índios estão pescando. Aguardemos até amanhã.
E com os olhos cheios de lágrimas, balbuciei, desviando o calibre:
— Está bem, está bem! Até amanhã.
* * *
Os cães começaram a dar patadas em meu mosquiteiro para que abandonássemos o playón. Evidentemente, o rio continuava crescendo.
Quando nos abrigamos numa laje do promontório, havia estrelas sobre os montes. Os cães latiam desde os barrancos.
— Pipa, chama esses cachorros, que uivam como se vissem o diabo.
E assobiei-lhes lugubremente.
Franco me esclareceu que o Pipa andava com os indígenas.
Então advertimos um reflexo como de lanterna que, muito abaixo, parecia sulcar a água. Com intermitência iluminava e se perdia, e ao amanhecer não o vimos mais.
Passarinho do Mato e Morrinho da Savana chegaram fatigados com esta notícia:
— “Falca” subindo rio. Companheiro seguindo ela pela margem. Falca se escondendo.
O Pipa nos trouxe novos informes: era uma canoa ligeira, com teto de palma entretecida. Ao notar que na sombra andavam índios, apagou o candil e desviou o rumo. Devíamos espreitá-la, fazer-lhe fogo.
Por volta das onze do dia, ela remontou à vara, sigilosamente, escondendo-se nos rebalses, sob os densos guamos. Empenhava-se em forçar uma queda, e, para escapar ao remoinho, tocou a costa para que um homem a rebocasse na extremidade da corrente. Endereçamos a pontaria para o boga, enquanto Franco lhe saiu ao encontro com o facão no alto. No instante, o que timoneava a embarcação exclamou de pé:
— Tenente! Meu tenente! Eu sou Helí Mesa!
E, saltando à margem, apertaram-se enternecidos.
Depois, ao oferecer-nos a “yucuta” feita de mañoco, que parecia farelo grosso, expôs Mesa, repartindo-nos a ração:
— Que projetos vocês ocultam, que me perguntam pelos seringueiros? O tal Barrera roubou essa gente e a leva para o Brasil, para vendê-la no rio Guainía. A mim também me enganchou há já dois meses, mas lhe fugi na entrada do Orinoco, depois de matar-lhe um capataz. Estes dois índios que me acompanham são de Maipures.
Olhei estupefato para meus camaradas, sentindo uma vertigem mais horripilante que a da febre. Calávamos cogitabundos, estremecidos. Mesa nos observava com inquietação. Franco rompeu o silêncio.
— Dize-me, a Griselda vai com os seringueiros?
— Sim, meu Tenente.
— E uma moça chamada Alicia? — perguntei-lhe com voz convulsa.
— Também, também!...
* * *
Junto ao fogão que fulgia na areia, envolvíamo-nos na fumaça para esquivar-nos da praga. Já seria meia-noite quando Helí Mesa resumiu seu brutal relato, que eu escutava sentado no chão, a cabeça afundada entre os joelhos.
— Se os senhores tivessem visto o caño Muco no dia do embarque, teriam pensado que aquela festa não tinha fim. Barrera prodigalizava abraços, sorrisos, congratulações, satisfeito com a mesnada que ia segui-lo. Os tiples e as maracas não descansavam, e, à falta de foguetes, disparávamos os revólveres. Houve cantos, garrafas, almoço a rodo. Depois, ao tirar novas damajuanas de aguardente, Barrera pronunciou um falaz discurso, empalagoso de promessas e carinho, e suplicou-nos que levássemos nossas armas a um só bongo, para que tanto júbilo não provocasse alguma desgraça. Todos lhe obedecemos sem protesto.
Embora muito bêbado, seguiu-me o pressentimento de que por aqui não há mata apropriada para organizar seringais, e estive a ponto de voltar para buscar meu rancho, para me juntar de novo à indiazinha que deixei. Mas como até a menina Griselda fazia troça de meus receios, resolvi gritar como todos ao embarcar: “Viva o progressista senhor Barrera! Viva nosso empresário! Viva a expedição!”.
Já lhes referi o que aconteceu depois de uma marcha de horas, mal caímos no Vichada. O “Palomo” e o “Matacano” estavam acampados com quinze homens num playón, e, quando arribávamos, intimaram revista a todos, dizendo que havíamos invadido territórios venezuelanos. Barrera, diretor da jungla, ordenou-nos: “Compatriotas queridos, filhos amados, não resistais. Deixai que estes senhores vasculhem bongo por bongo, para que se convençam de que somos gente de paz”.
Aqueles homens entraram, mas não saíram: ficaram na popa e na proa como sentinelas. Seguros de que íamos desarmados, mandaram-nos permanecer num só lugar, ou disparariam sobre nós. E escalavraram os cinco que se moveram.
Então Barrera clamou que seguiria adiante, rumo a San Fernando del Atabapo, para protestar contra o abuso e reclamar do coronel Funes uma crescida indenização. Ia no melhor bongo, com as mulheres aludidas, e com as armas e as provisões. E foi-se, foi-se, surdo aos prantos e às censuras.
Aproveitando a bebedeira que nos vencia, o Palomo nos filiava e nos amarrava de dois em dois. Desde esse dia fomos escravos e em parte alguma nos deixavam desembarcar. Jogávamos o mañoco em umas “coyabras” e, ajoelhados, o comíamos em pares, como cães em junta, metendo a cara nas vasilhas, porque nossas mãos iam atadas.
No bongo das mulheres vão os pequenos, a pleno sol, molhando as cabecinhas para não morrerem carbonizados. Partem a alma com seus vagidos, tanto quanto as súplicas das mães, que pedem ramos para cobri-los. No dia em que saímos ao Orinoco, um menino de peito chorava de fome. O Matacano, ao vê-lo cheio de chagas pelas picadas dos mosquitos, disse que se tratava de varíola e, tomando-o pelos pés, volteou-o no ar e o lançou às ondas. No instante, um jacaré atravessou-o nas mandíbulas e, pondo-se a flutuar, buscou a ribeira para tragá-lo. A mãe enlouquecida se lançou à água e teve a mesma sorte que a criaturinha. Enquanto as sentinelas aplaudiam a diversão, consegui livrar-me das ligaduras e, arrancando o grazt do que estava perto, cravei no Matacano a baioneta entre os rins, deixei-o pregado contra a borda e, na presença de todos, saltei ao rio.
Os crocodilos se entretiveram com a mulher. Nenhum disparo acertou em mim. Deus premiou minha vingança, e aqui estou!
* * *
As mãos de Helí Mesa me reconfortaram. Apertei-as, ansioso, e elas me transmitiam em suas pulsações a contração com que cravaram no capataz o temerário aço em sua carne odiosa. Aquelas mãos, que sabiam amansar a selva, também desbravavam os rios com o canalete ou com a vara, e estavam cobertas de penugem dourada, como as faces do indomável jovem.
— Não me felicite — dizia —, eu devia tê-los matado a todos!
— E então, para que minha viagem? — repliquei-lhe.
— O senhor tem razão. A mim não roubaram mulher nenhuma, mas um simples sentimento de humanidade enfurece meu braço. Bem sabe meu Tenente que continuarei sendo seu subalterno, como em Arauca. Vamos, pois, buscar os foragidos, libertar os enganchados. Estarão no rio Guainía, no “seringal” de Yaguanarí. Deixando o Orinoco, passariam pelo Casiquiare, e quem sabe que dono têm agora, porque ali dizem que abundam os compradores de homens e mulheres. O Palomo e o Matacano eram sócios de Barrera nesse comércio.
— E tu crês que Alicia e Griselda vivam escravas?
— O que garanto é que valem alguma coisa, e que qualquer endinheirado dará por uma delas até dez quintais de borracha. Nisso as avaliavam as sentinelas.
Retirei-me pelo areal até meu chinchorro, sombrio de pesar e satisfação. Que felicidade que as fugitivas conhecessem a escravidão! Que vingador o açoite que as ferisse! Andariam pelos montes sórdidos, desgrenhadas, enfraquecidas, levando na cabeça os caldeirões cheios de borracha, ou o feixe de lenha verde, ou os tachos de fumigar. A língua venenosa do sobrestante as aguilhoaria com indecências e não lhes daria respiro nem para gemer. De noite dormiriam no tambo escuro, com os peões, em fétida promiscuidade, defendendo-se de beliscões e apalpadelas, sem saber quem as forçava e possuía, enquanto a guarda passaria número, como indicando o turno à homarada lúbrica: Um!... Dois!... Três!...
De repente, com o augúrio de tais visões, o coração começou a crescer-me dentro do peito até prostrar-me em sufocante impotência. Alicia levaria em suas entranhas martirizadas meu filho? Que tormento mais inumano que meu tormento poderia inventar-se contra varão algum? E caí num colapso sibilante e minha cabeça se dessangrava sob minhas unhas.
Insensivelmente, reagi de modo perverso. Barrera a teria reservado para seu leito e para seu negócio, porque aquele miserável era capaz de ter concubina e viver dela. Que depravadas salacidades, que voluptuosos refinamentos lhe teria ensinado! E se a tivesse vendido, bem, muito bem! Dez quintais de borracha a repagavam! Ela se entregaria por uma só libra!
Talvez não estivesse como peona nos seringais, mas como rainha na casa entabuada de algum empresário, vestindo sedas custosas e finas rendas, humilhando suas servas como Cleópatra, rindo-se da pobreza em que a tive, sem poder procurar-lhe outro gozo que o de seu corpo. De sua cadeira de balanço de vime, no corredor de sombra cheirosa, solta a cabeleira, amplo o corpete, veria desfilar os carregadores com os fardos de borracha rumo às balandras, suados e rasgados, enquanto ela, ociosa e rica, entre os leques das “iracas”, apagaria os olhos no mormaço, ao som de uma victrola de vozes sedantes, satisfeita de ser formosa, de ser desejada, de ser impura.
Mas eu era a morte e estava em marcha!...
* * *
Na ranchería autóctone de Ucuné, um cacique nos presenteou com tortas de casabe e discutiu com o Pipa o roteiro que devíamos seguir: cruzar a estepe que vai do Vichada ao caño do Vúa, descer às vegas do Guaviare, subir pelo Inírida até o Papunagua, atravessar um istmo selvoso em busca do Isana bramador e pedir a suas correntes que nos arremessassem ao Guainía, de negras ondas.
Esse trajeto, que implica uma marcha de meses, resulta mais curto que a rota dos seringueiros pelo Orinoco e o Casiquiare. Carenamos a embarcação com “peramán” e nos pusemos a navegar sobre as savanetas encharcadas, ajoelhados na canoa, em martirizante incômodo, com cães e víveres, tirando por turnos, numa concha, a água impertinente das chuvas.
O mulato Correa continuava com febre, enovelado dentro da curiara, sob o bayetón llanero que noutros dias lhe serviu para defender-se dos touros perseguidos. Quando o ouvi dizer que inclinava a cabeça sobre o peito para escutar um tenaz gorgulho que lhe ia carcomendo o coração, abracei-o com pena:
— Ânimo, ânimo! Não pareces o homem que conheci!
— Branco, essa é a verdade. O que eu era ficou nos llanos.
Queixou-se de que o Pipa queria “apertar-lhe a maturranga” porque ele se negara a emprestar-lhe o tiple. Chamei o embusteiro e o sacudi.
— Se voltares a assustar este pobre rapaz com tantas mentiras, vou amarrar-te nu num formigueiro.
— Não me creia de tão má índole. É certo que apertei a maturranga nos fugitivos, mas este sócio encasquetou que o malefício é para ele. Convença-se do que ouve — tirou da mochila um feixe de palha, atado com arame pelo meio, como se fosse uma vassoura inútil, e o desenrolou, expondo: — Todas as noites eu a retorcia, pensando no Barrera, para que ele sinta o estrangulamento na cintura e vá se partindo até dividir-se. Ah, se eu pudesse cravar-lhe as unhas! Conste, pois, que ele se salva pelos medos deste mulatinho ignorante — e dizendo isso, arrojou longe a feitiçaria.
Às vezes levávamos em “guando” a canoa, pelas costas das corredeiras, ou a carregávamos nos ombros, como se fosse a caixa vazia de algum morto incógnito que íamos buscar em terras remotas.
— Esta curiara parece um féretro — disse Fidel.
E o mulato sibilino respondeu:
— Bem pode ser pra nós mesmos.
Embora rios ignorados nos oferecessem pesca pródiga, a falta de sal nos minguou o alento, e aos mosquitos somaram-se os vampiros. Todas as noites sobrecarregavam os mosquiteiros, rangendo, e era indispensável cobrir os cães. Ao redor da fogueira a onça rugia, e houve momentos em que os tiros de nossos fuzis alarmaram as selvas, sempre intermináveis e agressivas.
Certa tarde, quase ao escurecer, nas praias do rio Guaviare, adverti uma pegada humana. Alguém estampara sobre a greda o contorno de um pé, enérgico e diminuto, sem que seu vestígio reaparecesse em parte alguma. O Pipa, que caçava peixes com as flechas, acudiu ao meu chamado, e em breve todos os meus camaradas fizeram círculo em torno do sinal, procurando indagar o rumo que haveria seguido. Mas Helí Mesa interrompeu a cisma com esta notícia:
— Eis aqui o rastro da indiazinha Mapiripana!
E naquela noite, enquanto virava uma tartaruga no espeto, rematou suas polêmicas com o Pipa:
— Não continues argumentando que foi “El Poira” quem andou ontem à noite por estas praias. El Poira tem os pés tortos, e, como carrega na cabeça um braseiro ardente que não se apaga nem ao submergir nos remansos, vê-se por toda parte o fio de cinza indicadora. Tracemos neste areal uma borboleta com o dedo do coração, como ex-voto propício à morte e aos gênios do bosque, pois vou contar a história da indiazinha Mapiripana.
À exceção dos maipureños, todos obedecemos.
* * *
A indiazinha Mapiripana é a sacerdotisa dos silêncios, a zeladora de mananciais e lagoas. Vive no rim das selvas, espremendo as nuvenzinhas, encauzando as infiltrações, buscando pérolas de água na felpa dos barrancos, para formar novas vertentes que deem seu tesouro claro aos grandes rios. Graças a ela, têm tributários o Orinoco e o Amazonas.
Os índios destas comarcas a temem, e ela lhes tolera a caçada com a condição de não fazerem ruído. Os que a contrariam nada caçam; e basta fixar-se na argila úmida para compreender que ela passou assustando os animais e marcando a pegada de um só pé, com o calcanhar para a frente, como se caminhasse retrocedendo. Sempre leva nas mãos uma parasita e foi quem primeiro usou os leques de palmeira. À noite sente-se seu grito nas espessuras, e nos plenilúnios costeia as praias, navegando sobre uma concha de tartaruga, puxada por “bufeos”, que movem as nadadeiras enquanto ela canta.
Em outros tempos veio a estas latitudes um missionário, que se embebedava com vinho de palmas e dormia no areal com índias impúberes. Como era enviado do céu para derrotar a superstição, esperou que a indiazinha baixasse certa noite dos remansos do Chupave, para laçá-la com o cordão do hábito e queimá-la viva, como às bruxas. Numa curva destes playones, talvez nessa areia onde vocês estão sentados, viu-a roubar os ovos de “terecay”, e advertiu ao fulgor da lua cheia que ela tinha um vestido de teias de aranha e aparência de viuvinha jovem. Com luxurioso afã começou a segui-la, mas ela lhe escapava nas trevas; chamava-a com premura, e o eco enganoso respondia. Assim o foi internando nas solidões até dar com uma caverna onde o manteve preso muitos anos.
Para castigar-lhe o pecado da luxúria, chupava-lhe os lábios até rendê-lo, e o infeliz, perdendo seu sangue, fechava os olhos para não lhe ver o rosto, peludo como o de um macaco orangotango. Ela, poucos meses depois, ficou prenhe e teve dois gêmeos aborrecíveis: um vampiro e uma coruja. Desesperado o missionário porque engendrava tais seres, fugiu da cova, mas seus próprios filhos o perseguiram, e à noite, quando ele se escondia, o vampiro o sangrava, e a coruja o refletia, acendendo seus olhos piscantes, como lampadinhas de vidro verde.
Ao amanhecer prosseguia a marcha, dando ao flácido estômago alguma ração de frutas e “palmitos”. E desde a que hoje se conhece com o nome de Laguna Mapiripana, andou por terra, saiu ao Guaviare, por aqui acima, e, desorientado, remontou-o numa canoa que encontrou cravada num varadouro; mas foi-lhe impossível vencer o chorreón de Mapiripán, onde a indiazinha enfurecera a água, metendo na corrente enormes pedras. Desceu depois à bacia do Orinoco e foi detido pelas corredeiras do Maipures, obra endemoninhada de sua inimiga, que fez também os saltos do Isana, do Inírida e do Vaupés. Vendo perdida toda esperança de salvação, regressou à cova, guiado pelos foquinhos da coruja, e ao chegar viu que a indiazinha lhe sorria em seu balanço de trepadeiras floridas. Prostrou-se para pedir-lhe que o defendesse de sua progênie, e caiu sem sentidos ao escutar esta cruel admoestação: “Quem pode livrar o homem de seus próprios remorsos?”.
Desde então entregou-se à oração e à penitência, e morreu envelhecido e descarnado. Antes da agonia, em seu leito mísero de folhas e líquens, encontrou-o a indiazinha estendido de costas, agitando as mãos no delírio, como para apanhar no ar a própria alma; e, ao fenecer, ficou revolteando pela caverna uma borboleta de asas azuis, imensa e luminosa como um arcanjo, que é a visão final dos que morrem de febres nestas zonas.
* * *
Nunca conheci pavor igual ao do dia em que surpreendi a alucinação em meu cérebro. Por mais de uma semana vivi orgulhoso da lucidez de minha compreensão, da sutileza de meus sentidos, da finura de minhas ideias; sentia-me tão dono da vida e do destino, encontrava soluções tão fáceis para seus problemas, que me julguei predestinado ao extraordinário. A noção do mistério surgiu em meu ser. Regozijava-me em adestrar a fantasia e passava noites inteiras em claro, querendo saber o que é o sonho e se está na atmosfera ou nas retinas.
Pela primeira vez meu desvio mental se fez patente no hosco Inírida, quando ouvi as areias suplicarem-me: “Não pises tão forte, que nos machucas. Tem piedade de nós e lança-nos aos ventos, que estamos cansadas de ser imóveis”.
Agitei-as com bracejo febril, até provocar uma tolvanera, e Franco teve de segurar-me pela roupa para que eu não me atirasse à água ao escutar as vozes das correntes: “E para nós não há compaixão? Toma-nos em tuas mãos, para esquecermos este movimento, já que a areia ímpia não nos detém e temos horror ao mar”.
Mal toquei as ondas, fugiu a demência, e comecei a sofrer a tortura de que meu próprio ser me causasse receio.
Às vezes, para distrair a preocupação, empunhava o remo até ficar exausto, procurando indagar nos olhares de meus amigos o estado de minha saúde. Com frequência os surpreendia fazendo sinais de desconsolo, mas me estimulavam assim: “Não te fatigues muito: é preciso saber o que são as febres”.
No entanto, eu compreendia que se tratava de algo mais grave, e fazia poderosos esforços de sugestão para convencer-me de minha normalidade. Enriquecia meus discursos com temas amenos, ressuscitava na memória antigos versos, contente com a viveza de minha razão, e me afundava depois em lassitudes letárgicas, que terminavam desta maneira: “Franco, dize-me, por Deus, se me ouviste algum disparate”.
Pouco a pouco meus nervos se restauraram. Certa manhã despertei alegre e me pus a assobiar um ar de amor. Mais tarde, estendi-me sobre as raízes de uma caoba e, de rosto para os grumos, zombei da doença, atribuindo à neurastenia minhas apreensões pretéritas. Mas, de repente, comecei a sentir que estava morrendo de catalepsia. No desmaio da agonia, convenci-me de que não sonhava. Era o fatal, o irremediável! Queria queixar-me, queria mover-me, queria gritar, mas a rigidez me tinha preso e só meus cabelos se alvoroçavam, com a pressa das bandeiras durante o naufrágio. O gelo penetrou-me pelas unhas dos pés, e ascendia progressivamente, como a água que invade um torrão de açúcar; meus nervos iam se cristalizando, meu coração retumbava em sua caixa vítrea e o globo de minha pupila relampejou ao endurecer.
Aterrado, aturdido, compreendi que meus clamores não feriam o ar; eram ecos mentais que se apagavam em meu cérebro, sem emitir-se, como se eu estivesse refletindo. Enquanto isso, prosseguia a luta tremenda de minha vontade com o corpo imóvel. A meu lado, uma sombra empunhava a foice e começou a esgrimi-la no vento, sobre minha cabeça. Despavorido, eu esperava o golpe, mas a morte se mantinha irresoluta, até que, levantando um pouco o cabo, descarregou-o a prumo em meu crânio. A abóbada parietal, à semelhança de um vidro leve, tilintou ao rachar-se, e seus fragmentos ressoaram no interior, como moedas dentro do cofre.
Então a caoba balançou seus ramos e escutei em seus rumores estes anátemas: “Picai-o, picai-o com vosso ferro, para que experimente o que é o machado na carne viva. Picai-o, ainda que esteja indefeso, pois ele também destruiu as árvores e é justo que conheça nosso martírio!”.
Caso o bosque entendesse meus pensamentos, dirigi-lhe esta meditação: “Mata-me, se queres, que ainda estou vivo!”.
E um charco podre me replicou: “E meus vapores? Acaso estão ociosos?”.
Passos indiferentes avançaram na folhagem. Franco aproximou-se sorrindo e, com a polpa do indicador, tocou-me a pupila estática: “Estou vivo, estou vivo! — eu gritava dentro de mim. — Põe o ouvido sobre meu peito e ouvirás as pulsações”.
Alheio às minhas súplicas mudas, chamou meus companheiros para dizer-lhes sem uma lágrima: “Abri a sepultura, que está morto. Era o melhor que poderia acontecer-lhe”. E senti com angústia desesperada os golpes da picareta no areal.
Então, num esforço sobre-humano, pensei ao morrer: “Maldita seja minha estrela aziaga, que nem em vida nem em morte perceberam que eu tinha coração!”.
Mexi os olhos. Ressuscitei. Franco me sacudia:
— Não voltes a dormir sobre o lado esquerdo, que dás alaridos pavorosos!
Mas eu não estava dormindo! Não estava dormindo!
* * *
Os maipureños que vieram do Vichada com Helí Mesa pareciam mudos. Adivinhar sua idade era empresa tão aleatória quanto calcular os anos dos “careyes”. Nem a fome, nem a fadiga, nem as contrariedades alteraram o passivo cenho de sua indolência. À semelhança dos patos pescadores, que exibem na praia seu par cinzento, acordes no voo e no descanso, sempre juntos, singulares e tristes, conviviam aqueles indígenas, entendendo-se a meias vozes e afastando-se de nós nas paradas, para acomodar-se em grupo geminado a sorver o pocinho de yucuta, depois de acender as fogueiras, recolher as puyas de pescar e prover anzóis e guarales.
Nunca os vi misturar-se com os guahibos de Mucucuana nem celebrar ao Pipa suas anedotas e afagos. Nem pediam nem davam nada. O Catire Mesa era seu intermediário, e com ele sustentavam diálogos lacônicos, exigindo a entrega da curiara — que era sua única fazenda —, pois ansiavam tornar a seu rio.
— Vocês devem acompanhar-nos até o Isana.
— Não podemos.
Quando entrávamos no Inírida, o mais velho deles me encareceu, em tom metade de súplica e ameaça:
— Deixa-nos regressar ao Orinoco. Não remontes estas águas, que são malditas. Acima, seringais e guarnições. Trabalho duro, gente maluca, matam os índios.
Isso me confirmava velhos informes que o Pipa nos dera para que desistíssemos de aproximar-nos dos barracões do Guaracú.
À tarde fiz que Franco os interrogasse mais amplamente, e, embora remissos ao questionário, disseram que no istmo do Papunagua vivia uma tribo cosmopolita, formada por prófugos de seringais desconhecidos, até do Putumayo e do Acajú, do Apoporis e do Macaya, do Vaupés e do Papurí, do Ti-Paraná — rio do sangue —, do Tui-Paraná — rio da espuma —, e tinham corredores entre a selva para quando patrulhas armadas fossem persegui-los; que, desde anos atrás, uns guianeses de pouca monta estabeleceram uma fábrica perto do Isana, para ir avassalando os fugitivos, e os administrava um corso chamado “El Cayeno”; que devíamos torcer o rumo, porque, se déssemos com os prófugos, nos tratariam como inimigos; e, se com os barracões, nos poriam a trabalhar pelo resto de nossa vida.
Desbotou-se nas águas o último lampejo. Escureceu. Preocupações encontradas me combatiam com o desvelo. Aquela notícia, verídica ou falsa, pôs-me triste. Nos montes espessava-se a escuridão. Que acontecimentos se cumpririam com minha presença para além dessas sombras?
Pela meia-noite, senti latidos e palavras de briga. Diante da canoa destacava-se o grupelho discutidor.
— Mata-o! Mata-o! — dizia Mesa. Franco me chamou aos gritos. Acudi pressuroso, revólver em mão.
— Estes bandidos iam largar-se com a canoa. Querer nos jogar nestas selvas, para morrer de fome! Dizem que o Pipa os aconselhou!
— Quem me calunia? Isso não é possível! Serei eu capaz de maus conselhos?
Os maipureños lhe argumentaram, tímidos:
— Rogaste-nos embarcar tua cama e duas carabinas.
— Confusão lamentável! Eu lhes propus que fugissem, por conhecer suas intenções. Disseram que não. Vê-se que sim. Não tê-los denunciado de qualquer modo! Não poder cravar-lhes as unhas!
Cortando a discussão, decidi flagelar o Pipa e encomendei tal tarefa a seus cúmplices. Serpenteava mais que os chicotes, implorava clemência entre prantos e chegou até a invocar o nome de Alicia. Por isso, quando lhe saltou o primeiro sangue, ameacei atirá-lo aos caribes. Então fingiu que desmaiava, diante do pasmo angustioso de maipureños e guahibos, a quem adverti, enfaticamente, que dali em diante dispararia sobre qualquer um que se levantasse do chinchorro sem dar o aviso regulamentar.
As semanas seguintes malgastamo-las em domar corredeiras trovejantes. Mas, quando acreditávamos escaladas todas as torrentes, trouxe-nos o eco do monte o fragor de outro rápido turbulento, que batia ao longe sua espuma brava como um galhardete sobre o penhascal. Em zumbidora rapidez arqueava-se a água, provocando uma ventania que remexia as guedelhas dos bambus e fazia vacilar o arco-íris ingrávido, com um bamboleio da arcada móvel entre a névoa dos borbulhões.
Ao longo de ambas as margens erguia seus fragmentos o basalto rompido pelo rio — tormentoso torrente em estreita gorja —, e à direita, como um braço que o morro estendia aos vórtices, sobrenadava a fileira de rochas máximas com sua série de cascatas fulgentes. Era preciso forçar a passagem da esquerda, porque os barrancos não permitiam tirar a curiara em peso. Acostumados a vencer essas manobras, rebocávamo-la à sirga pela cornija de um despenhadeiro, mas, ao dar com o triângulo dos arrecifes, resistiu a golpes de banda e cabeçadas no torvelinho ensurdecedor, falta de lastro e de timoneiro. Helí Mesa, que dirigia o trabalho titânico, armou o revólver ao ordenar aos maipureños que descessem por uma laje e ganhassem de um salto a embarcação para vará-la de popa e de proa. Os briosos nativos obedeceram e, dentro do lenho escorregadio, que ziguezagueava sobre as espumas, forcejaram por impeli-lo rumo à cachoeira; mas, de repente, ao rebentarem as amarras, a canoa retrocedeu sobre o tombo rugente e, antes que pudéssemos lançar um grito, o funil trágico os sorveu a todos.
Os chapéus dos dois náufragos ficaram girando no remoinho, sob o arco-íris que abria suas pétalas como a borboleta da indiazinha Mapiripana.
* * *
A visão frenética do naufrágio me sacudiu com uma rajada de beleza. O espetáculo foi magnífico. A morte escolhera uma forma nova contra suas vítimas, e era de agradecer-lhe que nos devorasse sem verter sangue, sem dar aos cadáveres livores repulsivos. Belo morrer o daqueles homens, cuja existência se apagasse de repente, como uma brasa entre as espumas, através das quais o espírito subiu, fazendo-as ferver de júbilo!
Enquanto corríamos pelo penhasco para lançar o cabo de salvamento, no ímpeto de uma ajuda tardia, eu pensava que qualquer manobra que empreendêssemos apequeneza ria a imponente catástrofe; e, fixos os olhos na escollera, sentia o daninho temor de que os náufragos sobrenadassem, inchados, para misturar-se à dança dos chapéus. Mas já o borbotão espumante havia apagado com ondas definitivas os últimos vestígios da desgraça.
Impaciente com a insistência de meus companheiros, que rondavam de pedra em pedra, gritei:
— Franco, tu és um néscio! Como pretendes salvar quem pereceu subitamente? Que benefício lhes darias se ressuscitassem? Deixa-os aí, e invejemos sua morte!
Franco, que recolhia da margem tábuas quebradas da embarcação, armou-se com uma delas para golpear-me.
— Nada te importam teus amigos? Assim nos pagas? Jamais te acreditei tão inumano, tão detestável!
Eu, no estouro de sua cólera, permanecia perplexo. Tive vagas noções do dever e busquei com o olhar minha carabina. Por sobre o eco das torrentes feriam-me as palavras da agressão, que Franco continuava emitindo aos gritos enquanto gesticulava diante de meu rosto. Jamais conhecera eu uma iracúndia tão eloquente e tumultuosa. Falou de sua vida sacrificada por meu capricho, falou de minha ingratidão, de meu caráter voluntarioso, de meu rancor. Nem sequer eu fora leal com ele quando pretendi disfarçar minha condição em La Maporita: dizer-lhe que era homem rico, quando a penúria me denunciava como um pobretão; dizer-lhe que era casado, quando Alicia revelava em suas atitudes a indecisão da concubina. E vigiá-la como a uma virgem depois de tê-la aviltado e pervertido! E esgoelar-me porque outro a levava, quando eu, ao raptá-la, a havia iniciado na perfídia! E continuar procurando-a pelo deserto, quando nas cidades viviam, aborrecidas de sua virtude, mulheres solícitas de índole dócil e bela estampa! E arrastá-los a eles na aventura de uma viagem mortífera, para alegrar-me de que perecessem tragicamente! Tudo por ser eu um desequilibrado, tão impulsivo quanto teatral!
Esta última frase me caiu como uma martelada. Eu, desequilibrado? Por quê? Apressei-me a devolver-lhe o golpe e foi feliz minha investida.
— Seu estúpido! Onde está meu desequilíbrio? O que vou fazendo por Alicia, já o fizeste por Griselda! Crês que eu não sabia? Por ela assassinaste teu Capitão!
E para ofendê-lo com maior afinco, acrescentei, parodiando um conceito célebre:
— O mal não está em ter querida, mas em casar-se com ela!
Enquanto eu o feria com risadas de sarcasmo, ele se apoiou na rocha erguida. Houve um instante em que pensei que fosse cair. Minha voz o traspassara como uma lança. Então escutei revelações esmagadoras:
— Eu não dei morte ao meu Capitão. Griselda mesma o apunhalou. Aqui está o Catire Mesa, que foi me dar o aviso. É verdade que na sala escura fiz disparos, sem saber como. A mulher tirou-me o revólver e acendeu a luz, advertindo-me com frase heroica: “Este apagou a vela para vir para cima de mim à força, e aqui o tens”. Estava revolvendo-se no próprio sangue!
Griselda, por culpada que resultasse, havia se redimido com sua bravura. Tirei-lhe o punhal e me dei preso, declarando ser o autor de tudo. Mas o Capitão evitou o escândalo. Não acusou ninguém!
Digam estes que me ouvem como me espoliava o Juiz de Orocué. Quis sumariar meu amancebamento, mas vacilou diante da ideia de que pudéssemos ser casados. Por isso Griselda, que é mulher viva, não perdia ocasião de pregar nosso matrimônio. Nessa mentira se apoiava nossa conveniência. Juro que disse a verdade!
Tanta surpresa me causaram aqueles fatos que eu sentia um mareio de confusão e incerteza. Fidel continuava despindo o coração e descobrindo dramas íntimos, penas de lar, fastios de convivência com a homicida, projetos de anelada separação. Todos os dias cultivou o desejo de que a mulher o abandonasse, poupando-lhe assim a vergonha de repudiá-la sem motivo justificável. Mas ela, por desgraça, não lhe fora infiel, e de tal maneira se pôs a considerá-lo e atendê-lo que o ligou indestrutivelmente com uma piedade carinhosa, superior ao mais grave desvio. Para ela organizara, à força de suores, a fundação de La Maporita. Queria deixar-lhe um passar mediano enquanto prescrevia a deserção, para depois voltar a Antioquia. Mas quando se deu conta de que Barrera a desejava, acendeu-se em ciúmes. Talvez sem meu exemplo pernicioso tivesse se resignado a deixá-la livre; mas eu lhe contagiei meu furor e agora ele seguia meus passos rumo ao desastre. E já era impossível a reflexão. Não podia voltar atrás! Nem viva nem morta admitiria a desertora; mas tampouco ia causar-lhe dano! Na verdade, não sabia o que fazer!
Não guardo outra memória de seu discurso: embora o ouvisse, não o escutava. O véu do passado se descorreu diante de meus olhos. Detalhes esquecidos se esclareceram, e dei-me conta de circunstâncias inadvertidas. Com razão a menina Griselda queria emigrar! Por algo elevou seus alaridos de consternação no dia em que empunhei minha faca contra Millán para impedir que arrebatasse a mercadoria de dom Rafael! O relampejo da arma lúcida lhe representaria a cena terrível, quando sobre o sangue do sedutor acendeu a vela, apontando-o: “Quis vir para cima de mim à força, e aqui o tens”. Recordei também suas sentenças contra os homens e até o estribilho com que moderava minhas ousadias: “Se não vais me levar, não sejas indigno! Que estás pensando? Contigo fui mulher brincalhona, mas com outros... me fiz valer!”. E, estremecida, descarregava o punho sobre meu peito como para cravar-me o ferro vingador.
E dessa mulher sorridente e selvagem Alicia fizera sua conselheira, sua confidente. Em sua alma reconcentrada e inexperiente ia se desenvolvendo um caráter novo, sob a influência perigosa da amiga. Pensando talvez que eu a repudiaria a qualquer momento, pôs sua esperança no amparo da patroa, a quem imitava até nos defeitos, sem admitir minhas repreensões, para dar-me a entender que não estava só e que eu podia abandoná-la quando quisesse.
Certa vez, a menina Griselda, estando eu ausente, dava-lhe aulas de tiro ao alvo. Surpreendi-as com o revólver fumegante e permaneceram impassíveis, como se estivessem com a costura.
— Que é isto, Alicia? A tal ponto perdeste a timidez?
Sem me responder, encolheu os ombros, mas sua companheira sentenciou sorrindo:
— É que as mulheres devemos saber de tudo! Já não há garantia nem com os maridos!
Helí Mesa veio interromper minha meditação com esta súplica:
— Uma amizade como a de vocês resiste a choques! Este altercado não tem importância. As mãos do Tenente não se mancharam. Pode apertá-las.
Enquanto oprimia as de Fidel, ordenei ao Catire:
— Dá-me também as tuas, que por justiceiras se mancharam!
O Pipa e os guahibos fugiram naquela noite.
* * *
Amigos meus, faltaria à minha consciência e à minha lealdade se não declarasse neste momento, como ontem à noite, que sois livres para seguir vossa própria estrela, sem que minha sorte vos detenha o passo. Mais que em minha própria vida, pensai na vossa. Deixai-me só, que meu destino desenvolverá sua trajetória. Ainda é tempo de regressar para onde quiserdes. Quem seguir minha rota vai com a morte.
Se insistis em acompanhar-me, que seja correndo o mundo por conta própria. Seremos solidários pela amizade e pelo proveito comum; mas cada qual afrontará separadamente seu destino. De outra maneira, não aceitarei vossa companhia.
Dizeis que desde a boca desta corrente no Guaviare só se gasta meia jornada para baixar ao povoado de San Fernando. Se não temeis que o coronel Funes possa prender-vos como suspeitos, desfazei as margens destes rápidos, fazei uma balsa de platanillos e deixai-a rolar rumo ao Atabapo. Vossa despensa está nos montes: leite de seje, talos de “manaca”.
De minha parte, só vos peço que me ajudeis a ganhar a margem oposta. Afirmavam os maipureños que o Papunauga abre seu delta a poucos quilômetros deste salto e que ali moram os índios “puinabes”. Com eles quero atrever-me até o Guainía. E já sabeis o que pretendo, ainda que pareçam coisas de louco.
Assim admoestei meus companheiros na manhã em que amanhecemos no Inírida, abandonados sobre algumas rochas.
O Catire Mesa respondeu por todos:
— Os quatro formaremos um só homem. Não nascemos para relíquias. Ao que está feito, peito!
Clássico colombiano e latino-americano, La vorágine acompanha Arturo Cova na travessia dos llanos e da selva, expondo a violência da exploração do caucho e a força devoradora da natureza. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.