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La vorágine

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La vorágine

Capítulo 5 · La vorágine

Terceira parte I

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Terceira Parte

Eu fui seringueiro, eu sou seringueiro! Vivi entre rebalsas lamacentas, na solidão das montanhas, com minha quadrilha de homens palúdicos, picando a casca de umas árvores que têm sangue branco, como os deuses.

A mil léguas do lar onde nasci, amaldiçoei as lembranças porque todas são tristes: a dos pais, que envelheceram na pobreza, esperando o amparo do filho ausente; a das irmãs, de beleza núbil, que sorriem às decepções, sem que a fortuna mude o cenho, sem que o irmão lhes leve o ouro restaurador!

Muitas vezes, ao cravar a machadinha no tronco vivo, senti desejos de descarregá-la contra minha própria mão, que tocou as moedas sem agarrá-las; mão desventurada que não produz, que não rouba, que não redime, e vacilou em libertar-me da vida! E pensar que tanta gente nesta selva está suportando dor igual!

Quem estabeleceu o desequilíbrio entre a realidade e a alma incalmável? Para que nos deram asas no vazio? Nossa madrasta foi a pobreza; nosso tirano, a aspiração. Por mirar a altura, tropeçávamos na terra; por atender ao ventre miseríssimo, fracassamos no espírito. A mediania nos ofereceu sua angústia. Fomos apenas os heróis do medíocre!

Aquele que conseguiu entrever a vida feliz não teve com que comprá-la; aquele que buscou a noiva encontrou o desdém; aquele que sonhou com a esposa encontrou a amante; aquele que tentou elevar-se caiu vencido diante dos magnatas indiferentes, tão impassíveis como estas árvores que nos veem languescer de febres e de fome entre sanguessugas e formigas!

Quis fazer desconto à ilusão, mas força incógnita disparou-me para além da realidade! Passei por cima da ventura, como flecha que erra o alvo, sem poder corrigir o impulso fatal e sem outro destino senão cair! E a isso chamavam meu “porvir”!

Sonhos irrealizáveis, triunfos perdidos! Por que sois fantasmas da memória, como se quisésseis envergonhar-me? Vede no que veio a dar este sonhador: em ferir a árvore inerte para enriquecer os que não sonham; em suportar desprezos e vexames em troca de um naco de pão ao anoitecer!

Escravo, não te queixes das fadigas; preso, não te lamentes de tua prisão; ignorais a tortura de vagar soltos numa cadeia como a selva, cujas abóbadas verdes têm por fossos rios imensos. Não sabeis do suplício das penumbras, vendo o sol que ilumina a praia oposta, aonde nunca conseguiremos ir! A corrente que morde vossos tornozelos é mais piedosa que as sanguessugas desses pântanos; o carcereiro que vos atormenta não é tão adusto como estas árvores, que nos vigiam sem falar!

Tenho trezentos troncos em minhas estradas e gasto nove dias em martirizá-los. Limpei-lhes os cipós e abri, até cada um, uma picada. Ao percorrer a tropa traiçoeira dos vegetais para derrubar os que não choram, costumo surpreender os castradores roubando a goma alheia. Brigamos a dentadas e a golpes de facão, e o leite disputado salpica-se de gotas avermelhadas. Mas que importa que nossas veias aumentem a seiva do vegetal? O capataz exige dez litros diários e o chicote é usurário que nunca perdoa!

E que tem demais que meu vizinho, o que trabalha na várzea próxima, morra de febre? Já o vejo estendido nas folhagens, sacudindo os moscardos que não o deixam agonizar. Amanhã terei de ir embora destes lugares, derrotado pela fedentina; mas roubarei a goma que ele tiver extraído e meu trabalho será menor. Outro tanto farão comigo quando eu morrer. Eu, que não roubei para meus pais, roubarei quanto puder para meus verdugos!

Enquanto cinjo ao tronco gotejante o talo acanalado do “caraná”, para que corra até a tigela seu pranto trágico, a nuvem de mosquitos que o defende suga meu sangue e o bafo das matas me turva os olhos. Assim a árvore e eu, com tormento diverso, somos lacrimatórios diante da morte e nos combatemos até sucumbir!

Mas eu não compadeço aquele que não protesta. Um tremor de ramos não é rebeldia que me inspire afeto. Por que não ruge toda a selva e nos esmaga como répteis, para castigar a exploração vil? Aqui não sinto tristeza, mas desespero! Quisera ter com quem conspirar! Quisera travar a batalha das espécies, morrer nos cataclismos, ver invertidas as forças cósmicas! Se Satã dirigisse esta rebelião!...

Eu fui seringueiro, eu sou seringueiro! E o que minha mão fez contra as árvores pode fazer contra os homens!

* * *

— Saiba, don Clemente Silva — disse-lhe ao tomar a picada do Guaracú —, que suas tribulações nos ganharam para a sua causa. Sua redenção encabeça o programa de nossa vida. Sinto que em mim se acende um anseio de imolação; mas não me ergue a piedade do mártir, e sim o desejo de contender com essa fauna de homens de rapina, a quem vencerei com armas iguais, aniquilando o mal com o mal, já que a voz da paz e da justiça só se pronuncia entre os rendidos. Que ganhou o senhor em sentir-se vítima? A mansidão prepara terreno à tirania, e a passividade dos explorados serve de incentivo à exploração. Sua bondade e sua timidez foram cúmplices inconscientes de seus vitimários.

Embora minhas iniciativas já pareçam súplicas ao fracasso, porque minha má sorte as desvia, tenho o pressentimento de que desta vez meus passos se movem rumo ao desforço. Não sei como se cumprirão os fatos futuros, nem quantas provas minha perseverança há de resistir; o que menos me importa é morrer aqui, contanto que morra a tempo. E por que pensar na morte diante dos obstáculos, se, por maiores que sejam, nunca fecharam ao animoso a possibilidade de sobreviver a eles? A crença no destino deve servir-nos para aquecer a decisão.

— Estes jovens que me seguem são valorosos; mas, se o senhor não quiser enfrentar calamidades, escolha o que lhe agradar e escape numa balsa por este rio.

— E meu tesouro? Não sabe que o Cayeno guarda os despojos de Lucianito? Acha que sem essa relíquia eu andaria solto?

Por ora nada tive a replicar.

— Os ossos de meu filho são minha corrente. Vivo forçado a portar-me bem para que me permitam pô-los ao sol. Já lhes disse que nem sequer os possuo todos: no dia em que os exhumei, tive de deixar à sepultura algumas falanges que ainda estavam frescas. Eu os carregava embrulhados em meu cobertor, e quando o Cayeno me capturou, no meu regresso do Vaupés, na picada que liga o Isani ao Kerari, queria jogá-los fora à força. Agora os conservo, limpos, brancos, dentro de uma caixa de querosene, debaixo da jirau de meu patrão.

— Don Clemente, o senhor tem certeza de que esses restos...

— Tenho! São eles! A caveira é inconfundível: na gengiva superior, um dente trepado sobre os outros! Talvez com a picareta eu tenha perfurado o crânio, pois ele tem um buraco no frontal.

Houve uma pausa. Não sei se naquele momento se havia rachado a decisão de meus companheiros, que se calavam em roda meditativa. O mulato disse, aproximando-se de don Clemente:

— Camarada, sempre é melhorzinho que a gente volte. Minha mãe ficou sozinha, e meu gado anda se mal-acostumando. Tenho quatro vacas chifrudas de primeira cria, e com certeza já tão paridas. Deixe de ossos, que ossos são agourentos. É ruim se meter em coisas de defunto. Por isso diz a ladainha: “Aqui te encerro e aqui te tapo, o diabo me leve se um dia te saco”. Peça a estes senhores que reclamem a ossamenta e a sepultem debaixo de uma cruz, e o senhor vai ver que sua sorte se apruma. Resolva ligeiro, que já é tarde!

— Como! Arriscarmo-nos a que Funes nos prenda? O senhor não sabe em que terra está. Os sequazes do coronel rondam por aqui.

— E já não é tempo de indecisões — exclamei colérico. — Mulato, adiante! Sua hora já passou!

Helí Mesa, então, aproximou-se do tambo para atear-lhe fogo. Don Clemente o olhava sem protestar.

— Não, não! — ordenei. — Os mapires envenenados queimariam. Os caçadores de índios podem voltar, e oxalá todos se envenenem!

* * *

Eu teria desejado que meus amigos caminhassem menos silenciosos; meus pensamentos me faziam mal, e uma espécie de pânico me invadia ao meditar em minha situação. Quais eram meus planos? Em que se apoiava minha altivez? Que me deviam importar as desventuras alheias, se com as minhas eu ia de arrasto? Por que fazer promessas a don Clemente, se Barrera e Alicia me tinham comprometido? O conceito de Franco começou a angustiar-me: “Eu era um desequilibrado impulsivo e teatral”.

Paulatinamente cheguei a duvidar de meu espírito: estaria louco? Impossível! A febre me havia esquecido por algumas semanas. Louco por quê? Meu cérebro era forte e minhas ideias límpidas. Eu não apenas compreendia que era urgente ocultar minhas cismas, como também me dava conta até dos detalhes minuciosos. A prova estava no que eu ia vendo: a mata, naquela parte, não era muito alta, não havia caminho, e don Clemente abria a marcha, partindo raminhos no matagal para deixar sinais do rumo, como se costuma entre caçadores; Fidel levava a carabina atravessada sobre o peito, enganchando com o cano, por cima das clavículas, os cabrestos da sacola, rica em mañoco, que fingia sobre suas costas uma imensa corcova; o mulato portava a trouxa das redes, um caldeirão e dois canaletes; Mesa, naquele momento, debaixo de seus apetrechos, saboreava um coquinho maduro e balançava no ar o tição fumegante, que carregava na destra, por falta de fósforos.

Louco, eu? Que absurdo imenso! Já me ocorrera um projeto lógico: entregar-me como refém nos barracões do Guaracú, enquanto o velho Silva partiria para Manaus, levando secretamente um libelo de acusações dirigido ao Cônsul de meu país, com o rogo de que viesse imediatamente libertar-me e redimir meus compatriotas. Quem, sendo anormal, raciocinaria com maior acerto?

O Cayeno deveria aceitar minha vantajosa proposta: em troca de um velho inútil adquiria um seringueiro jovem, ou dois mais, porque Franco e Helí não me abandonariam. Para lisonjeá-lo, eu procuraria falar-lhe em francês: “Senhor, este ancião é parente meu; e, como não pode pagar-lhe a conta, deixe-o livre e dê-nos trabalho até quitá-la”. E o antigo fugitivo de Caiena acederia sem vacilar.

Coisa fácil haveria de ser para mim adquirir a confiança do empresário, agindo com paciência e dissimulação. Não empregaria contra ele a força, mas a astúcia. Quanto iam durar nossos sofrimentos? Dois ou três meses. Talvez nos mandasse “siringar” em Yaguanarí, pois Barrera e Pezil eram seus sócios. E, ainda que não fossem, exporíamos a conveniência de aliciar para seus seringais os colombianos daquela zona. Em todo caso, se se opusesse aos nossos desejos, fugiríamos pelo Isana, e, qualquer dia, enfrentando meu inimigo, eu lhe daria morte, na presença de Alicia e dos enganchados. Depois, quando nosso Cônsul desembarcasse em Yaguaraní, a caminho do Guaracú, com uma guarnição de gendarmes, para devolver-nos a liberdade, meus companheiros exclamariam: O implacável Cova nos vingou a todos e se internou por este deserto!

Enquanto discorria dessa maneira, comecei a notar que minhas panturrilhas afundavam na folhagem e que as árvores iam crescendo a cada segundo, com aparência de homens acocorados que se punham de pé, espreguiçando-se até elevar os braços esverdeados por cima da cabeça. Em vários instantes, acreditei perceber que o crânio me pesava como uma torre e que meus passos iam de lado. Efetivamente, o rosto se me voltou sobre o ombro esquerdo e tive a impressão de que um espírito me repetia: “Vais bem assim, vais bem assim! Para que marchar como os outros?”.

Embora meus companheiros caminhassem perto, eu não os via, não os sentia. Pareceu-me que meu cérebro ia entrar em ebulição. Tive medo de me achar sozinho e, repentinamente, pus-me a correr para qualquer parte, ululando apavorado, longe dos cães que me perseguiam. Não soube mais nada. De dentro de uma malha de trepadeiras meus camaradas me desenredaram.

— Por Deus! Que te acontece? Não nos reconheces? Somos nós!

— Que lhes fiz? Por que me ameaçam? Por que me têm amarrado?

— Don Clemente — prorrompeu Franco —, desandemos este caminho: Arturo está doente.

— Não, não! Já me tranquilizei. Creio que quis pegar um esquilo branco. Os rostos de vocês me aterrorizaram. Que caretas horríveis...!

Assim falei e, embora todos estivessem pálidos, para que não duvidassem de minha saúde pus-me de guia entre a mata. Um momento depois, don Clemente sorriu:

— Paisano, o senhor sentiu o encantamento da montanha.

— Como? Por quê?

— Porque pisa com desconfiança e a cada momento olha para trás. Mas não se aflija nem tenha medo. É que algumas árvores são zombeteiras.

— Na verdade, não entendo...

— Ninguém soube qual é a causa do mistério que nos transtorna quando vagamos na selva. Contudo, creio acertar na explicação: qualquer uma destas árvores se amansaria, tornando-se amistosa e até risonha, num parque, num caminho, numa planície, onde ninguém a sangrasse nem a perseguisse; mas aqui todas são perversas, ou agressivas, ou hipnotizantes. Nestes silêncios, sob estas sombras, têm sua maneira de combater-nos: algo nos assusta, algo nos crispa, algo nos oprime, e vem a vertigem das espessuras, e queremos fugir, e nos extraviamos; e por essa razão milhares de seringueiros nunca mais voltaram a sair.

“Eu também senti a má influência em diversos casos, especialmente em Yaguanarí.”

* * *

Pela primeira vez, em todo o seu horror, alargou-se diante de mim a selva inumana. Árvores disformes sofrem o cativeiro das trepadeiras adventícias, que a grandes trechos as unem às palmeiras e pendem em curva elástica, semelhantes a redes mal estendidas, que, de tanto armazenar por anos inteiros folhagens, gravetos e frutos, arrebentam como um saco de podridão, despejando na erva répteis cegos, salamandras mofentas, aranhas peludas.

Por toda parte o cipó de “matapalo” — polvo rasteiro das florestas — cola seus tentáculos aos troncos, estrangulando-os e retorcendo-os, para enxertá-los em si e transfundi-los em metempsicoses dolorosas. Vomitam os “bachaqueros” seus trilhões de formigas devastadoras, que recortam o manto da montanha e por largas veredas regressam ao túnel, como porta-bandeiras do extermínio, com seus galhardetes de folhas e flores. O cupim adoece as árvores como sífilis galopante, que dissimula sua lepra supliciatória enquanto lhes vai carcomendo os tecidos e pulverizando a casca, até derrubá-las, subitamente, com o peso de suas ramagens vivas.

Entretanto, a terra cumpre as sucessivas renovações: ao pé do colosso que desaba, o germe que brota; em meio aos miasmas, o pólen que voa; e por toda parte o hálito do fermento, os vapores quentes da penumbra, o torpor da morte, o marasmo da procriação.

Qual é aqui a poesia dos retiros, onde estão as borboletas que parecem flores translúcidas, os pássaros mágicos, o arroio cantor? Pobre fantasia dos poetas que só conhecem as solidões domesticadas!

Nada de rouxinóis enamorados, nada de jardim versalhesco, nada de panoramas sentimentais! Aqui, os responsos de sapos hidrópicos, as brenhas de cerros misantropos, os rebalses de caños apodrecidos. Aqui a parasita afrodisíaca que enche o chão de abelhas mortas; a diversidade de flores imundas que se contraem com pulsações sexuais e cujo odor pegajoso embriaga como uma droga; a liana maligna cuja penugem cega os animais; a “pringamosa” que inflama a pele, a semente do “curujú”, que parece globo irisado e só contém cinza cáustica, a uva purgante, o corozo amargo.

Aqui, de noite, vozes desconhecidas, luzes fantasmagóricas, silêncios fúnebres. É a morte, que passa dando a vida. Ouve-se o golpe do fruto, que ao abater-se faz a promessa de sua semente; o cair da folha, que enche o monte com vago suspiro, oferecendo-se como adubo às raízes da árvore paterna; o estalo da mandíbula, que devora com temor de ser devorada; o silvo de alerta, os ais agônicos, o rumor do arroto. E quando a aurora espalha sobre os montes sua glória trágica, inicia-se o clamor sobrevivente: o zumbido da pava gritadeira, os retumbos do porco selvagem, os risos do macaco ridículo. Tudo pelo júbilo breve de viver algumas horas mais!

Esta selva sádica e virgem infunde ao ânimo a alucinação do perigo próximo. O vegetal é um ser sensível cuja psicologia desconhecemos. Nestas solidões, quando nos fala, só o pressentimento entende seu idioma. Sob seu poder, os nervos do homem se convertem em feixe de cordas, distendidas para o assalto, para a traição, para a cilada. Os sentidos humanos confundem suas faculdades: o olho sente, as costas veem, o nariz explora, as pernas calculam e o sangue clama: Fujamos, fujamos!

Não obstante, é o homem civilizado o paladino da destruição. Há um valor magnífico na epopeia destes piratas que escravizam seus peões, exploram o índio e se debatem contra a selva. Atropelados pela desdita, desde o anonimato das cidades, lançaram-se aos desertos buscando um fim qualquer para sua vida estéril. Delirantes de paludismo, despojaram-se da consciência e, conaturalizados com cada risco, sem outras armas além do winchester e do facão, sofreram as necessidades mais atrozes, ansiando gozos e abundância, ao rigor das intempéries, sempre famélicos e até nus, porque as roupas lhes apodreciam sobre a carne.

Por fim, um dia, na pedra de qualquer rio, erguem uma choça e chamam-se “patrões de empresa”. Tendo a selva por inimiga, não sabem a quem combater, e se arremetem uns contra os outros, matam-se e se subjugam nos intervalos de sua bravura contra a mata. E é de ver, em alguns lugares, como seus rastros são semelhantes a avalanches: os seringueiros que há na Colômbia destroem anualmente milhões de árvores. Nos territórios da Venezuela, o “balatá” desapareceu. Desse modo exercem a fraude contra as gerações do porvir.

Um daqueles homens escapou de Caiena, presídio célebre, que tem por fosso o oceano. Embora soubesse que os carcereiros engordam os tubarões para que rondem a muralha, sem livrar-se dos grilhões atirou-se ao mar. Veio às várzeas do Papunagua, assaltou os tambos alheios, submeteu os seringueiros prófugos e, monopolizando a exploração da goma, vivia com seus partidários e seus escravos nos barracões do Guaracú, cujas luzes longínquas, através da espessura, palpitavam diante de nós na noite em que retardamos a chegada.

Quem nos teria dito naquele momento que nossos destinos descreveriam a mesma trajetória de crueldade!

* * *

Durante os dias empregados no percurso da picada fiz uma comprovação humilhante: minha fortaleza física era aparente, e minha musculatura — que febres pretéritas haviam desgastado — afrouxava com o cansaço. Só meus companheiros pareciam imunes à fadiga, e até o velho Clemente, apesar de seus anos e chagas, mostrava-se mais vigoroso nas marchas. A todo momento se detinham para esperar-me; e, embora me tivessem aliviado de todo peso, do bornal e da carabina, eu seguia precisando que o cérebro mantivesse em tensão o meu orgulho para não me atirar ao chão e confessar-lhes meu abatimento.

Ia descalço, de pernas nuas, mal-humorado, vadeando tremedais e lagoas, pelo meio de uma mata altíssima cujas raízes esqueceram a luz do sol. A mão de Fidel me prestava ajuda ao pisar os troncos que usávamos como pontes, enquanto os cães uivavam em vão para que eu os soltasse naquele paraíso de caçadores, que nem por isso me entusiasmava.

Essa situação de inferioridade me tornou desconfiado, irritável, díscolo. Nosso chefe em tais emergências era, sem dúvida, o ancião Silva, e comecei a sentir contra ele uma rivalidade secreta. Suspeito que de propósito buscou aquele rumo, desejoso de fazer-me experimentar minha falta de condições para medir-me com o Cayeno. Don Clemente não perdia oportunidade de ponderar-me os sofrimentos da vida nos barracões e a contingência de qualquer fuga, sonho perene dos seringueiros, que o veem esboçar-se e nunca o realizam porque sabem que a morte fecha todas as saídas da montanha.

Essas prédicas encontravam eco em meus camaradas, e os conselheiros se multiplicaram. Eu não os ouvia. Contentava-me em replicar:

— Embora vós andeis comigo, sei que vou sozinho. Estais fatigados? Podeis ir caminhando atrás de mim.

Então, silenciosos, tomavam-me a dianteira e, ao esperar-me, cochichavam olhando-me de soslaio. Isso me indignava. Sentia contra eles ódio súbito. Provavelmente zombavam de minha jactância. Ou teriam tomado uma direção que não era a do Guaracú?

— Ouça, velho Silva — gritei, detendo-o. — Se não me levar ao Isana, eu lhe dou um tiro!

O ancião sabia que eu não o ameaçava por brincadeira. Nem sentiu surpresa diante de minha ameaça. Compreendeu que o deserto me possuía. Matar um homem! E por quê? Por que não? Era um fenômeno natural. E o hábito de defender-me? E a maneira de emancipar-me? Que outro modo mais rápido de solucionar os conflitos diários?

E por esse processo — ó selva! — passamos todos os que caímos em tua voragem.

* * *

Agachados entre a fronde, com as mãos nas carabinas, espreitávamos as luzes dos barracões, temerosos de que alguém nos descobrisse. Naquele esconderijo devíamos pernoitar sem acender fogo. Soluçando na escuridão passava uma corrente desconhecida. Era o Isana.

— Don Clemente — disse, abraçando-o —, nisso de rumos o senhor é a mais alta sabedoria.

— No entanto, tomei medo da profissão: andei perdido mais de dois meses no seringal de Yaguanarí.

— Tenho presentes os pormenores. Quando sua fuga para o Vaupés...

— Éramos sete seringueiros prófugos.

— E quiseram matá-lo...

— Acreditavam que eu os extraviava intencionalmente.

— E umas vezes o maltratavam...

— E outras me pediam de joelhos a salvação.

— E o amarraram uma noite inteira...

— Temendo que eu pudesse abandoná-los.

— E se dispersaram para buscar o rumo...

— Mas só toparam com o da morte.

Esse mísero ancião Clemente Silva sempre teve o monopólio da desventura. Desde o dia em que, indo de Iquitos para Manaus, ouviu notícias do filho morto, cifrou sua esperança em prolongar a escravidão. Queria ser seringueiro alguns anos mais, até que a terra lhe permitisse exumar os restos. A selva, indiretamente, o reclamava como a um prófugo, e era o espectro de Lucianito que lhe pedia voltar atrás.

Ainda que a madona quisesse dar-lhe liberdade, que ganharia com a liberdade se de novo deveria engajar-se, obrigado pela indigência, na quadrilha de qualquer patrão que talvez o afastasse do Vaupés? Em Manaus percorreu as agências onde os imigrantes procuram trabalho, e saiu descoroçoado desses tugúrios onde a escravidão se contrata, porque os patrões só “adiantavam” gente para o Madeira, para o Purus, para o Ucayali. E ele queria ir ao infausto rio que guardava, ao pé de seu raudal, a tumba enmatada, distinguida por quatro pedras.

O turco Pezil não tinha trabalhos naquelas paragens, mas levava-o ao alto Rio Negro, e isso era muito. Só que fingia não querer comprá-lo, e por fim acedeu a seus rogos, estipulando com a madona uma retrovenda, caso não lhe satisfizessem as aptidões do “colombiano”. Levou-o à sua bela quinta de Naranjal, na margem oposta de Yaguanarí, e por algum tempo o manteve em ofícios fáceis, sob sua vigilância de muçulmano, desprezativo e taciturno, sem maltratá-lo nem escarnecê-lo.

Mas certa vez algumas mulheres brigaram na cozinha e despertaram seu senhor, que dormia a sesta. Don Clemente estava no corredor, observando o mapa do muro. Nessa atitude o surpreendeu o patrão. Ordenou-lhe aos gritos que despisse as contendoras até a cintura e as açoitasse. O velho Silva resistiu a cumprir a ordem. Naquela mesma tarde o despacharam para siringar em Yaguanarí.

Uma das infelizes era a antiga camareira da madona, a que conheceu no Vaupés Luciano Silva quando de seu concubinato com dona Zoraida. “Não o viu morto”, mas sabia o lugar da sepultura, junto ao correntão de Yavaraté, e já dera a don Clemente todas as indicações indispensáveis para encontrá-la.

A desobediência do colombiano não conseguiu poupá-la dos açoites, porque o turco feroz, com um chicote em cada mão, encheu-a de sangue e contusões. Gemendo entre a despensa, escreveu um bilhete para seu amante, que trabalhava nos seringais, e rogou a don Clemente que o entregasse ao destinatário, sem omitir detalhe algum sobre a covarde flagelação.

Esse homem, que se chamava Manuel Cardoso, era capataz num barracão do caño Yurubaxi. Ao saber dos percalços da mulher, ofereceu-se para matar Pezil onde o encontrasse, e, para vingar-se interinamente, quis proceder contra os interesses de seu patrão, aconselhando aos gomeros que fugissem com a goma que tinham no tambo.

O velho Silva fingiu rejeitar essa ideia, receoso de alguma cilada. Contudo, nos dias seguintes, comentava com os peões a insinuação do vigilante, enquanto procediam a defumar o leite extraído. A resposta nunca mudou: “Cardoso sabe que não há rumbero capaz de enfrentar estas montanhas”.

De noite, os seringueiros deliberavam sobre tal hipótese, tão sugestiva quanto impossível, por terem do que conversar:

— É claro que a fuga seria irrealizável pelo Rio Negro: as lanchas do patrão parecem cães de caça.

— Mas, conseguindo remontar o Cababurí, é fácil descer ao Maturacá e sair ao rio Casiquiare.

— Conforme. Mas o Rio Negro tem uma largura de quatro quilômetros. É preciso descartar os afluentes de sua margem esquerda. Melhor seria, águas acima por este caño Yurubaxí, aos sessenta e tantos dias de curiara, dizem que se encontra um “igarapé” que desemboca no Caquetá.

— E para o rio Vaupés não há rumo direto?

— A quem ocorre essa estupidez?

O barracão estava situado sobre um arrecife que não inundava, único refúgio naquele deserto. Mensalmente chegava a lancha de Naranjal para recolher a goma e deixar víveres. Os trabalhadores eram escassos e o beribéri diminuía o número, sem contar os que pereciam nas lagoas, lançados pela febre desde o andaime onde subiam para ferir as árvores.

Apesar de tudo, muitos passavam meses inteiros sem ver a cara do capataz, abrigando-se em choças mínimas, e voltavam ao tambo com a goma já defumada, convertida em bolões, que entregavam à corrente em vez de conduzi-los nas curiaras. Acostumados a não se afastarem das margens, careciam do instinto de orientação, e essa circunstância ajudou o prestígio de don Clemente, quando se aventurava pela floresta e, cravando o facão em qualquer lugar, instava-os dias depois a que o acompanhassem para recolhê-lo, partindo do sítio que quisessem.

Uma manhã, ao nascer do sol, veio uma catástrofe imprevista. Os homens que no caney curavam o fígado ouviram gritos desaforados e agruparam-se na rocha. Nadando no meio do rio como se fossem patos descomunais, baixavam os bolões de goma, e o seringueiro que os tangia vinha atrás, numa canoa minúscula, apressando com a vara os que se demoravam nos remansos. Diante do barracão, enquanto lutava para encerrar seu rebanho negro na enseada do portinho, ergueu estas vozes, de maior gravidade que um pregão de guerra:

— Tambochas, tambochas! E os seringueiros estão isolados!

Tambochas! Isso equivalia a suspender trabalhos, deixar a moradia, abrir caminhos de fogo, buscar outro refúgio em alguma parte. Tratava-se da invasão de formigas carnívoras, que nascem sabe-se lá onde e, ao vir o inverno, emigram para morrer, varrendo o monte por léguas e léguas, com ruídos longínquos, como de incêndio. Vespas sem asas, de cabeça vermelha e corpo citrino, impõem-se pelo terror que inspiram seu veneno e sua multidão. Toda toca, toda greta, todo buraco; árvores, folhagens, ninhos, colmeias sofrem a infiltração daquele vagalhão espesso e fétido, que devora filhotes, ratos, répteis, e põe em fuga povos inteiros de homens e de bestas.

Essa notícia derramou consternação. Os peões do tambo recolhiam suas ferramentas e “macundales” com rapidez revoltosa.

— E por que lado vem a ronda? — perguntava Manuel Cardoso.

— Parece que tomou ambas as margens. As antas e os cafuches atravessam o rio desde esta margem, mas na outra as abelhas estão alvoroçadas!

— E quais seringueiros ficam isolados?

— Os cinco do brejo de “El Silencio”, que nem canoa têm!

— Que remédio? Que se defendam! Não se lhes pode levar socorro! Quem se arrisca a extraviar-se nestes pântanos?

— Eu — disse o ancião Clemente Silva.

E um jovem brasileiro, que se chamava Lauro Coutinho:

— Também irei. Lá está meu irmão!

* * *

Recolhendo os víveres que puderam e providos de armas e fósforos, aventuraram-se os dois amigos por uma picada que, partindo da barraca, aprofundava as espessuras em direção ao caño Marié.

Marchavam pressurosos por entre o barro das brenhas, com ouvido atento e olho sagaz. De repente, quando o ancião, desviando-se da senda, começou a orientar-se para o brejo de El Silencio, Lauro Coutinho o deteve.

— Chegou o momento de nos picurearmos!

Don Clemente já pensava nisso, mas soube dissimular sua satisfação.

— Seria preciso consultar os seringueiros...

— Respondo que eles concordam, sem vacilar!

E assim foi, porque no dia seguinte os encontraram num bohío, jogando dados sobre um lenço e embebedando-se com vinho de “palmachonta”, que se ofereciam numa cabaça.

— Formigas? Que formigas! Rimos das tambochas! Vamos nos picurear! Vamos nos picurear! Um rumbero como o senhor é capaz de nos tirar dos infernos!

E lá vão pela selva, com a ilusão da liberdade, cheios de risos e projetos, adulando o guia e prometendo-lhe sua amizade, sua lembrança, sua gratidão. Lauro Coutinho cortou uma folha de palmeira e a conduz erguida, como um pendão; Souza Machado não quer abandonar seu bolão de goma, que pesa mais de dezoito quilos, com cujo produto pensa adquirir durante duas noites as carícias de uma mulher que seja branca e loura e trescale a brandy e a rosas; o italiano Peggi fala em sair para qualquer cidade, para empregar-se como cozinheiro em algum hotel onde abundem as sobras e as gorjetas; Coutinho, o mais velho, quer casar-se com uma moça que tenha rendas; o índio Venancio anseia dedicar-se a lavrar curiaras; Pedro Fajardo aspira comprar um teto para hospedar sua mãe cega; don Clemente Silva sonha em achar uma sepultura. É a procissão dos infelizes, cujo caminho parte da miséria e chega à morte!

E qual era o rumo que perseguiam? O do rio Curí-curiarí. Por ali entrariam no Rio Negro, setenta léguas acima de Naranjal, e passariam a Umarituba, para pedir amparo. O senhor Costanheira Fontes era muito bom. Naquele sítio o horizonte se lhes ampliava. Em caso de captura, a explicação era inquestionável: saíam do monte derrotados pelas tambochas. Que perguntassem ao capataz.

Ao quarto dia de montanha principiou a crise: as provisões escassearam e os lamaçais eram intermináveis. Detiveram-se para descansar e, despindo as blusas, faziam-nas em tiras para envolver as panturrilhas, atormentadas pelas sanguessugas. Souza Machado, generoso pela fadiga, a golpes de faca dividiu seu bolão de goma em vários pedaços para presentear os companheiros. Fajardo negou-se a receber sua parte: não tinha alento para carregá-la. Souza a recolheu. Era borracha, “ouro negro”, e não se devia desperdiçar.

Houve um indiscreto que perguntava:

— Para onde vamos agora?

Todos replicaram, repreendendo-o:

— Para diante!

Enquanto isso, o rumbero havia perdido a orientação. Avançava às cegas, sem deter-se nem dizer palavra, para não difundir o medo. Por três vezes em uma hora voltou a sair num mesmo pântano, sem que seus camaradas reconhecessem o percurso. Concentrando na memória todo o seu ser, olhando para dentro de seu cérebro, recordava o mapa que tantas vezes estudara na casa de Naranjal, e via as linhas sinuosas, que pareciam uma rede de veias, sobre a mancha de um verde pálido em que ressaltavam nomes inesquecíveis: Teya, Marié, Curí-curiarí. Quanta diferença entre uma região e a carta que a reduz! Quem lhe teria dito que aquele papel, onde mal cabiam suas mãos abertas, encerrava espaços tão infinitos, selvas tão lúgubres, brejos tão letais! E ele, rumbero curtido, que tão facilmente costumava passar a unha do indicador de uma linha a outra, abrangendo rios, paralelos e meridianos, como pôde crer que suas plantas fossem capazes de mover-se como seu dedo?

Mentalmente começou a rezar. Se Deus quisesse emprestar-lhe o sol!... Nada! A penumbra era fria, a fronde transpirava um vapor azul. Adiante! O sol não nasce para os tristes!

Um dos gomeros declarou, com certeza súbita, que lhe parecia escutar assobios. Todos se detiveram. Eram os ouvidos que lhes zumbiam. Souza Machado queria meter-se entre os demais: jurava que as árvores lhe faziam gestos.

Estavam nervosos, tinham o pressentimento da catástrofe. A menor palavra faria explodir o pânico, a loucura, a cólera. Todos se esforçavam por resistir. Adiante!

Como Lauro Coutinho pretendia mostrar-se alegre, soltou uma pilhéria contra Souza Machado, que havia parado para jogar fora a borracha. Isso forçou os ânimos a resignarem-se à hilaridade. Falaram um trecho. Não sei quem fez perguntas a don Clemente.

— Silêncio! — grunhiu o italiano. — Lembrem-se de que aos pilotos e aos rumberos não se deve falar!

Mas o ancião Silva, detendo-se de repente, levantou os braços, como o homem que se entrega preso, e, encarando seus amigos, soluçou:

— Andamos perdidos!

No mesmo instante, o grupo desventurado, com os olhos voltados para os ramos e uivando como cães, ergueu seu coro de blasfêmias e preces:

— Deus inumano! Salva-nos, meu Deus! Andamos perdidos!

* * *

“Andamos perdidos.” Essas duas palavras, tão simples e tão comuns, fazem estalar, quando pronunciadas entre os montes, um pavor que não é comparável nem ao “salve-se quem puder” das derrotas. Pela mente de quem as escuta passa a visão de um abismo antropófago, a própria selva, aberta diante da alma como uma boca que engole os homens que a fome e o desalento lhe vão colocando entre as mandíbulas.

Nem os juramentos, nem as advertências, nem as lágrimas do rumbero, que prometia corrigir a rota, conseguiam aplacar os extraviados. Arrancavam os cabelos, torciam as falanges, mordiam os lábios, cheios de uma espuma sanguinolenta que envenenava as inculpações.

— Este velho é o responsável! Perdeu o rumo porque queria largar-se para o Vaupés!

— Velho maldito, velho bandido, tu nos levavas com enganos para vender-nos sabe-se lá onde!

— Sim, sim, criminoso! Deus se opôs a teus planos!

Vendo que aqueles loucos podiam matá-lo, o ancião Silva pôs-se a correr, mas uma árvore cúmplice enlaçou-lhe as pernas com um cipó e o lançou ao chão. Ali o amarraram; ali Peggi os exortava a fazê-lo em pedaços. Foi então que don Clemente pronunciou aquela frase de tanto efeito:

— Quereis matar-me? Como poderíeis andar sem mim? Eu sou a esperança!

Os agressores, maquinalmente, se contiveram.

— Sim, sim, é preciso que viva para que nos salve!

— Mas sem soltá-lo, porque ele nos foge!

E, embora não lhe tirassem as amarras, prostraram-se de joelhos a implorar-lhe a salvação, e lhe limpavam os pés com beijos e prantos.

— Não nos desampare!

— Voltemos à barraca!

— Se o senhor nos abandonar, morreremos de fome!

Enquanto uns plangiam desse modo, outros puxavam-no pela corda, suplicando o regresso. As explicações de don Clemente pareciam reconciliá-los com a razão. Tratava-se de um contratempo muito conhecido de rumberos e caçadores, e não era razoável perder o ânimo à primeira dificuldade, quando havia tantos modos de solucioná-la. Para que o assustaram? Para que se puseram a pensar no extravio? Não os havia instruído uma e outra vez sobre a urgência de repelir essa tentação, que a espessura infunde no homem para transtorná-lo? Ele os aconselhara a não olhar as árvores, porque fazem sinais, nem escutar os murmúrios, porque dizem coisas, nem pronunciar palavra, porque as ramagens imitam a voz. Longe de acatar essas instruções, entraram em gracejos com a floresta e lhes veio o encantamento, que se transmite como por contágio; e ele também, embora fosse adiante, começou a sentir a influência dos maus espíritos, porque a selva começou a mover-se diante dele, as árvores lhe dançavam ante os olhos, os cipós não lhe deixavam abrir a picada, os ramos se escondiam sob sua faca e repetidas vezes quiseram tirá-la dele. Quem tinha culpa?

E, depois, por que diabos se punham a gritar? Que logravam fazendo tiros? Quem senão o tigre correria a buscá-los? Por acaso lhes apetecia sua visita? Bem podiam esperá-la ao escurecer!

Isso os aterrorizou e guardaram silêncio. Mas também não teriam podido fazer-se entender a mais de duas jardas: de tanto dar alaridos, a garganta lhes fechou, e dolorosamente falavam em surdina, com um arquejo gutural e torpe como o dos gansos.

Antes da hora em que o sol sanguíneo empluma as lonjuras, tornou-se imperioso acender a fogueira, porque entre as matas a tarde se enluta. Cortaram ramos e, espalhando-os sobre o barro, amontoaram-se ao redor do ancião Silva para esperar o suplício das trevas. Oh, a tortura de passar a noite com fome, entre o pensar e o bocejar, sabendo que o bocejo há de intensificar-se no dia seguinte! Oh, o peso de sentir soluços entre as sombras quando os consolos sabem a morte! Perdidos! Perdidos! A insônia lançou sobre eles seu tropel de alucinações. Sentiram a angústia do indefeso quando suspeita que alguém o espreita no escuro. Vieram os ruídos, as vozes noturnas, os passos medrosos, os silêncios impressionantes como um buraco na eternidade.

Don Clemente, com as mãos na cabeça, espremia o pensamento para que brotasse alguma ideia lúcida. Só o céu poderia indicar-lhe a orientação. Que lhe dissesse de que lado nasce a luz! Isso lhe bastaria para calcular outro roteiro. Por uma abertura do teto, semelhante a uma claraboia, vislumbrou um retalho de éter azul, sobre o qual um galho seco inscrevia seu varilhame. Essa visão lembrou-lhe o mapa. Ver o sol, ver o sol! Ali estava a chave de seu destino. Se falassem aquelas copas enaltecidas que todas as manhãs o veem passar! Por que as árvores silenciosas hão de negar-se a dizer ao homem o que deve fazer para não morrer? E, pensando em Deus, começou a rezar à selva uma prece de desagravo!

Trepar por qualquer daqueles gigantes era quase impossível: os troncos eram grossos demais, os ramos altos demais e a vertigem da altura espreitava nas frondes. Se Lauro Coutinho se atrevesse, ele que dormia nervoso, abraçado a seus pés... Quis chamá-lo, mas se conteve: um ruído estranho, como de ratos em madeira fina, arranhou a noite... eram os dentes de seus companheiros roendo sementes de tagua!

Don Clemente sentiu por eles tal compaixão que resolveu dar-lhes o alívio da mentira.

— Que há? — sussurraram-lhe a meia voz, aproximando-lhe os rostos escuros.

E apalparam os nós da corda que o cingia.

— Estamos salvos!

Estúpidos de júbilo, repetiram a mesma frase: “Salvos! Salvos!”. E, prostrando-se em terra, apertavam o lodo com os joelhos, porque a dor os deixou contritos, e entoaram um grande ronco de ação de graças, sem perguntar em que consistia a salvação. Bastou que outro homem a prometesse para que todos a proclamassem e bendissessem o salvador.

Don Clemente recebeu abraços, súplicas de perdão, palavras de emenda. Alguns queriam atribuir a si o mérito exclusivo do milagre:

— As orações de minha mãezinha!

— As missas que ofereci!

— O escapulário que trago no peito!

Enquanto isso, a Morte deve ter rido na escuridão.

* * *

Amanheceu.

A ansiedade que os sustentava acentuou-lhes no rosto a careta trágica. Magros, febricitantes, com os olhos avermelhados e os pulsos trêmulos, puseram-se a esperar que saísse o sol. A atitude daqueles dementes sob as árvores infundia medo. Esqueceram o sorrir, e, quando pensavam no sorriso, a boca se lhes pregueava num ricto fantástico.

Desconfiavam do céu, que não se divisava por parte alguma. Lentamente começou a chover. Ninguém disse nada, mas se olharam e se compreenderam.

Decididos a regressar, moveram-se sobre o rastro do dia anterior, pela margem de uma lagoa onde os sinais desapareciam. Suas pegadas no barro eram pequenos poços que se inundavam. Contudo, o rumbero tomou a pista, gozando do mais absoluto silêncio até por volta das nove da manhã, quando entraram em uns “chuscales” de vegetação plebeia onde ocorria um fenômeno singular: tropas de coelhos e guatins, dóceis ou atordoados, metiam-se por entre suas pernas buscando refúgio. Momentos depois, um grave rumor como de linfas precipitadas sentia-se vir pela imensidão.

— Santo Deus! As tambochas!

Então só pensaram em fugir. Preferiram as sanguessugas e se abrigaram num rebalse, com a água pelos ombros.

Dali viram passar a primeira ronda. À semelhança das cinzas que, de longe, as queimadas lançam, caíam sobre a poça tribos fugitivas de baratas e coleópteros, enquanto as margens se povoavam de aracnídeos e répteis, obrigando os homens a sacudir as águas mefíticas para que não avançassem nelas. Um tremor contínuo agitava o solo, como se as folhagens fervilhassem sozinhas. Por baixo de troncos e raízes avançava o tumulto da invasão, ao tempo que as árvores se cobriam de uma mancha negra, como casca movediça, que ia ascendendo implacavelmente para afligir os ramos, saquear os ninhos, infiltrar-se nos buracos. Alguma doninha desorbitada, algum lagarto moroso, alguma rata recém-parida eram presas ansiadas daquele exército, que as descamava, entre guinchos, com presteza de ácidos dissolventes.

Quanto tempo durou o martírio daqueles homens, sepultados em cieno líquido até o queixo, que observavam com olhos pávidos o desfile de um inimigo que passava, passava e voltava a passar? Horas horripilantes em que saborearam, gole a gole, os alambicados felões da tortura! Quando calcularam que a última ronda se afastava, pretenderam sair à terra, mas seus membros estavam paralisados, sem forças para despegar-se do lamaçal onde se haviam enterrado vivos.

Mas não deviam morrer ali. Era preciso fazer um esforço. O índio Venancio conseguiu agarrar-se a algumas moitas e começou a lutar. Agarrou-se depois a alguns cipós. Várias tambochas desgarradas lhe roeram as mãos. Pouco a pouco sentiu alargar-se o molde de lama que o cingia. Suas pernas, ao desprenderem-se do fundo, produziram estalos surdos. “Upa! Outra vez e não desfalecer! Ânimo! Ânimo!”.

Já saiu. No buraco vazio borbulhou a água.

Ofegante, de boca para cima, ouviu desesperarem-se seus companheiros que imploravam ajuda. “Deixem-me descansar!”. Uma hora depois, valendo-se de paus e cordas, conseguiu tirá-los todos.

Essa foi a derradeira vez que sofreram juntos. Para que lado ficou a pista? Sentiam a cabeça em chamas e o corpo rígido. Pedro Fajardo começou a tossir convulsivamente e caiu banhando-se em sangue por um vômito de hemoptise.

Mas não tiveram piedade do cadáver. Coutinho, o mais velho, aconselhava-os a não perder tempo. “Tirar-lhe a faca da cintura e deixá-lo aí. Quem o convidou? Para que veio, se estava doente? Não devia nos prejudicar.” E, dizendo isso, obrigou seu irmão a subir por uma copaíba para observar o rumo do sol.

O desventurado jovem, com pedaços de sua camisa, fez uma peia para os tornozelos. Em vão pretendeu aderir ao tronco. Montaram-no sobre as costas para que se agarrasse mais acima, e ele repetiu o forcejo titânico, mas a casca se desprendia e o fazia deslizar e recomeçar. Os de baixo o sustentavam escorando-o com forquilhas e, alucinados pelo desejo, como que triplicavam suas estaturas para ajudá-lo. Por fim ganhou o primeiro ramo. Ventre, braços, peito, joelhos, vertiam-lhe sangue. “Vês algo? Vês algo?”, perguntavam-lhe. E com a cabeça ele dizia que não!

Já nem se lembravam de fazer silêncio para não provocar a selva. Uma violência absurda lhes pervertia os corações e lhes atiçava um furor de náufragos, que não reconhece parentes nem amigos quando, à faca, mesquinha seu bote. Agitavam as mãos para a altura ao interrogar Lauro Coutinho. “Não vês nada? É preciso subir mais e reparar bem!”.

Lauro, sobre o ramo, colado ao tronco, arquejava sem responder-lhes. A tamanha altura, tinha a aparência de um macaco ferido, que ansiava esconder-se do caçador. “Covarde, é preciso subir mais!” E, loucos de fúria, ameaçavam-no.

Mas, de repente, o rapaz tentou descer. Um grunhido de ódio ressoou de baixo. Lauro, apavorado, respondia-lhes: “Vêm mais tambochas! Vêm mais tambo...!”.

A última sílaba ficou-lhe esmagada na garganta, porque o outro Coutinho, com um tiro de carabina que lhe arrancou a alma pelo costado, o fez descer como uma bola.

O fratricida ficou olhando para ele. “Ai, meu Deus, matei meu irmão, matei meu irmão!” E, atirando a arma fora, pôs-se a correr. Cada qual correu sem saber para onde. E para sempre se dispersaram.

Noites depois don Clemente Silva os sentiu gritar, mas temeu que o assassinassem. Também havia perdido a compaixão, também o deserto o possuía. Às vezes o remorso o fazia chorar, mas ele se justificava diante de sua consciência só pensando em sua própria sorte. Apesar de tudo, voltou para procurá-los. Encontrou as caveiras e alguns fêmures.

Sem fogo nem fuzil, vagou dois meses entre os montes, feito um idiota, ausente de seus sentidos, animalizado pela floresta, desprezado até pela morte, mastigando talos, cascas, fungos, como besta herbívora, com a diferença de que observava que espécie de sementes os micos comiam para imitá-los.

Não obstante, certa manhã teve repentina revelação. Parou diante de uma palmeira de “cananguche”, que, segundo a lenda, descreve a trajetória do astro diurno, à maneira do girassol. Nunca havia pensado naquele mistério. Ansiosos minutos esteve em êxtase, constatando-o, e acreditou observar a alta folhagem movendo-se pausadamente, com o ritmo de uma cabeça que gastasse doze horas justas para inclinar-se desde o ombro direito até o contrário. A voz secreta das coisas encheu-lhe a alma. Seria verdade que aquela palmeira, erguida naquele desterro como um índice para o azul, estava indicando-lhe a orientação? Verdade ou mentira, ele ouviu isso dizer. E creu! O que necessitava era uma crença definitiva. E pelo roteiro do vegetal começou a perseguir o próprio.

Foi assim que pouco tempo depois encontrou a baixada do rio Tiquié. Aquele caño de curvas estreitas pareceu-lhe rebalse de brejo estagnado, e pôs-se a lançar folhinhas para ver se a água corria. Nessa tarefa o encontraram os Albuquerques e, quase de rastos, o conduziram ao barracão.

— Quem é esse espantalho que conseguiram na caçada? — perguntaram-lhes os seringueiros.

— Um picure que só sabe dizer: Coutinho!... Peggi!... Souza Machado!...

Dali, ao terminar o ano, fugia-lhes numa canoa para o Vaupés.

Agora está aqui, sentado em minha companhia, esperando que risque a alvorada para que cheguemos aos barracões do Guaracú. Talvez pense em Yaguanarí, em Yavaraté, nos companheiros extraviados. “Não vá a Yaguanarí”, aconselha-me sempre. Eu, recordando Alicia e meu inimigo, exclamo colérico:

— Irei, irei, irei!

* * *

Ao amanhecer suscitou-se uma discussão em que, por fortuna, não perdi o aprumo. Tratava-se da forma como devíamos demandar a hospitalidade.

Era indubitável que a presença inesperada de quatro homens desconhecidos provocaria nos tambos sérios alarmes. Um de nós devia arriscar-se a explorar o ânimo do empresário, para que os demais, que ficariam em expectativa, com a selva livre, não se expusessem a sofrer servidão irreparável. Por fim se convencionou que aquela missão me correspondia; mas meus companheiros se negavam resolutamente a deixar-me ir armado.

Com essa precaução ofendiam minha razão, e, no entanto, aceitei-a de maneira tácita. Evidentemente, certos atos como que se antecipam às minhas ideias: quando o cérebro manda, meus nervos já estão em ação. Era bom privar-me de qualquer meio que pudesse acender minha agressividade; e todo homem armado está sempre a dois passos da tragédia.

Entregando-lhes o revólver que trazia à cintura, repeti-lhes minhas advertências:

— Esperai-me aqui; se algo grave acontecer, escaparei esta mesma noite e nos reuniremos para...

E parti sozinho, com o dia já avançado, rumo à moradia do capataz.

Enquanto marchava com passo incerto, minha decisão começou a tomar corpo e recordei o projeto do Catire Mesa: assaltar a barraca, apoderar-nos do “tesouro” de don Clemente, apanhar os víveres que encontrássemos e fugir com o rumbero por entre as matas, em busca das próximas nascentes do rio Guainía, prevenidos para descê-lo, sem correr contingências com o Isana, seu tributário.

Não seria melhor invadir os tambos a chumbo e faca? Por que chegar como mendigo a pedir amparo? Detive-me indeciso e olhei para trás. Meus camaradas, tirando as cabeças por entre as frondes, esperavam alguma ordem. Em outra situação, eu lhes teria gritado com voz áspera: “Mentecaptos! Para que deixam vir os cães!”.

Porque Martel e Dólar corriam pressurosos sobre meu rastro; e, em breve instante, desesperando-me de inquietação, levavam pelos barracões o anúncio de minha presença. Impossível retroceder!

Avancei. Não acreditava no que estava vendo. Eram aquelas pobres ramadas de estilo indígena os tão falados barracões do Guaracú? Aquelas vis casuchas, ameaçadas pelo matagal, podiam ser a sede de um sátrapa que tinha escravos e concubinas, senhor dos montes e dono dos rios? Certo que os seringueiros só constroem habitações ocasionais e mudam sua residência de um caño a outro, conforme a abundância do seringal; certo que o Cayeno, estabelecido anos antes perto dos raudales do Guaracú, foi movendo-se Isana acima, sem mudar o nome da empresa, até situar-se no istmo de Papunagua para exercer domínio sobre o Inírida, contra Funes. Mas essas razões não aliviavam meu desencanto diante do mau aspecto da caucheria.

Um dos tambos, por paciência de seus moradores, estava quase enredado por um cipó andarilho de folhas lanosas e cabacinhas amareladas. No chão, espinhas de peixe, cascas de tatu, vasilhas de latas corroídas pela ferrugem. Em sujos chinchorros, estendidos sobre uma fumaça de tições que afugentava mosquitos, entediavam-se umas mulheres de fístulas fétidas a iodofórmio e lenços amarrados na cabeça. Não me sentiram, não se moveram. Parecia-me ter chegado a uma mata de lenda onde dormitava a Desolação.

Foram meus cachorros que dissiparam o marasmo: no caney próximo fizeram chiar um mico, que, amarrado pela cintura, pendurava-se de um pau na ponta da correia. A dona saiu. Gentes enfermas apareceram. Por toda parte, pequenos nus e mulheres grávidas.

— O senhor trouxe mañoco para vender?

— Sim. O patrão está em casa?

— Naquele caney. Diga-lhe que compre. Estamos com fome!

— Mañoco, há mañoco! De qualquer modo pagamos!

E, com salivação antecipada, saboreavam seu próprio desejo.

O caney do patrão não tinha paredes; tabiques de palmeira dividiam os compartimentos. Propriamente carecia de portas, mas seus vãos eram tapados com pranchas de “chusque”. Eu não soube naquele momento onde chamar. Por cima da palmicha que servia de muro a uma alcova, olhei para dentro, com sutil suspeita. Numa rede de franjas floridas fumava uma mulher vestida de rendas. Era a madona Zoraida Ayram. E ela me viu espiando-a!

— Váquiro! Váquiro! Aqui há um homem!

Não encontrei o que dizer. Aproximei-me da porta imediata. A madona tinha na mão um revólver, pequenino como um brinquedo. Meus camaradas estariam observando meus movimentos. Entrar sem chapéu no barracão era sinal de que o capataz estava presente. Menos tardei eu em pensá-lo do que ele em sair da peça próxima, engatilhando a carabina.

— Que quer vustê?

— Senhor, sou Arturo Cova. Gente de paz.

A madona, como zombando de seus nervos, disse com pitoresca pronúncia, reparando em mim, enquanto guardava o revólver entre o corpete:

— Oh, Alá! Levem esse seboso para a cozinha!

O Váquiro respondeu estendendo-me sua mão quadrada.

— Sou Aquiles Vácares, veterano da Venezuela, valente pro chumbo e pra qualquer homem!

Pelo que murmurei, descobrindo-me reverente:

— Saúde, General!

* * *

O Váquiro ocupou seu chinchorro do corredor, com a carabina nas pernas. Ordenou-me que me sentasse no banco próximo. Fiquei perplexo, mas expliquei minha indecisão com estas razões:

— General, seria possível que eu tomasse assento ao lado de um chefe? Seus foros militares me proíbem.

— Isso sim é verdá.

O Váquiro era bêbado, vesgo, fanhoso. Seus bigodes, inimigos do beijo e da carícia, se lhe alvoroçavam, inexpugnáveis, sobre a boca, em cujo interior a dentadura se movia desajustada. Em seu rosto mestiço pedia justiça a cicatriz de algum golpe de facão, da orelha até o nariz. Pelo decote de sua flanela irrompia do peito uma reprimida mata de pelo hirsuto, tão ingrata de emanações quanto abundante em suor termal. Seu cinturão de couro curtido dava-se pretensões de mostruário bélico: faca, punhal, cápsulas, revólver. Vestia calças de cáqui sujo e calçava cotizas frouxas que, ao mover-se, lhe batiam debaixo dos calcanhares.

— Como fez vustê para adivinhar as patentes que tenho?

— Um veterano tão eminente deve ter percorrido o escalafão.

— O quê?

— O escalafão.

— Diga-me: e na Colômbia meu nome soa?

— Quem não ouviu nomear o “valente Aquiles”?

— Isso sim é verdá.

— Paladino homérida!

— Advirto que não sou de Mérida, mas de Coro.

Nesse momento, em grupo arfante, apareceram meus camaradas, desarmados, na extremidade do corredor. O Váquiro, desconfiado, manteve-se de pé. Fiz uma modesta apresentação.

— Senhor General, estes são meus companheiros.

Os três, sem se aproximarem, murmuraram confusos:

— Senhor General!... Senhor General!

Compreendi que era tempo de improvisar um discurso lírico para que o Váquiro se acalmasse. Tergiversei as instruções de don Clemente. Logo minha língua adquiriu um tom irresistível de convicção. Eu mesmo me admirava de minha inventiva, rindo, por dentro, de minha própria solenidade.

Éramos barraqueiros do rio Vaupés e residíamos numa zona equidistante de Calamar e da confluência do Itilla com o Unilla. Trabalhávamos em mañoco, seringa e tagua. Tínhamos em Manaus um cliente esplêndido, a casa Rosas, em cujo poder me restava uma poupança de umas mil libras, que representava meu trabalho de penosos meses como produtor e comissionista.

Ao dizer isso, notei que a madona prestava atenção a meu relato, porque a rede deixou de soar no quarto próximo. Esse detalhe me produziu certa zozobra e desviei o rumo de minhas fantasias.

— Senhor General, por desgraça, o Vaupés nos opõe raudales pérfidos; e perdemos num “trambuque”, no correntão de Yavaraté, nossa colheita de agora três anos.

E repeti intencionalmente:

— No próprio raudal de Yavaraté, contra as raízes de um jacarandá.

A madona assomou à porta, enchendo com sua figura ombreira e dintel. Era uma fêmea adiposa e agigantada, redonda de peitos e de quadris. Olhos claros, pele láctea, gesto vulgar. Com seus vestidos brancos e suas rendas, tinha a aparência de uma cascata. Longo colar de contas azuis descia de seu seio, qual madressilva sobre um cume. Seus braços, ressonantes pelas pulseiras e nus desde os ombros, eram polpudos e acetinados como duas almofadinhas para o prazer, e na mão enjoada tinha uma tatuagem que representava dois corações atravessados por um punhal.

Enquanto a olhava, absolvi mentalmente tua inexperiência, desventurado Luciano Silva, e adivinhei o desenlace de tua paixão!

— Quais são os rapazes que conhecem o rio Vaupés? — perguntou, espalhando na atmosfera o cálido perfume de seu leque.

— Os quatro, senhora.

— E o afiliado à casa Rosas? O comissionista?

— Seu admirador.

— A quanto lhe ordenaram pagar o caucho?

— O de primeira, a um conto de réis. Pouco mais ou menos trezentos pesos.

— Não te disse, Váquiro, que não se pode pagar mais?

— Olhe: não lhe permito me apelidar assim! Chame-me pelo meu nome: General Vácares! Aprenda com o jovem Cova, que sabe tratar os chefes.

— Nada tenho que ver com nomes e títulos. Devolva-me minha prata ou pague-me em caucho, à razão de trezentos pesos, menos o frete, porque eu não viajo de graça. O resto me importa um cominho!

— Não seja grosseira!

— Pois então não seja trapaceiro, não seja canalha, nem coisa que o valha! Saiba que as damas são atendidas com luva branca. Aprenda também com este cavalheiro, que me disse “sua admiradora”.

— Calma, minha senhora; calma, General.

O chefe sufocado ordenou-me com gesto heroico:

— Vamos pra fora, onde não venham nos interromper!

Ao despedir-me da madona fiz uma profunda reverência.

* * *

— E como eu lhe dizia, a casa Rosas me ordenou que, de agora em diante, evitássemos o Vaupés e, por Caño Grande, descêssemos ao Inírida, rumo a San Fernando del Atabajo, onde podíamos consignar ao Governador os produtos que conseguíssemos, pois ele era seu agente e tinha o encargo de remetê-los, pelo Orinoco, à ilha de Trinidad.

— Rapazes! E não sabiam que Pulido foi assassinado?

— General, vivemos no limbo dos desertos...

— Pois o esquartejaram, para roubar-lhe o que tinha e tomar a Governadoria.

— O coronel Funes!...

— Que coronel! Está degradado! Cuspa esse nome! Cuidado em voltar a mentá-lo aqui!

E, para dar-me exemplo, deixou cair larga saliva e a esfregou com os calcanhares.

— Senhor General, eu fui precavido: fiz saber à casa Rosas que em nenhum caso responderia pelos acidentes que a nova rota ocasionasse; e, aprovada essa base, deixamos nossas barracas há já dois meses, carregados de mañoco, sarrapia e goma. Mas o Inírida é tão invejoso quanto o Vaupés, e ao chegar à boca do Papunagua perdemos tudo! Viemos pelo meio do monte, no cúmulo da miséria, pedir amparo!

— E que será que vustê quer?

— Que me tripulem uma canoa para enviar um correio a Manaus, levando o aviso da catástrofe e trazendo dinheiro, seja do caixa de nosso cliente, seja de minha conta; e que nos deem pousada aos quatro náufragos até que tal expedição regresse.

— Não temos marinha... estamos escassíssimos de mañoco!

— Dê-me o senhor um boga conhecedor e o mulato Correa irá com ele. Pagaremos o que nos pedirem. Os chefes não conhecem dificuldades.

— Isso sim é verdá!

A madona, que ouvia esse diálogo, chamou-me à parte:

— Cavalheiro, eu poderia lhe vender um boga que é meu.

— Não interrompa vustê! Deixe-nos conversar!

— Acaso não é meu o rumbero Silva? Não lhes provei que era o picure do pessoal de Yaguanarí? Não sabem que Pezil não me pagou por ele?

— Senhora, se a senhora deseja... Se o General não me proíbe...

— Que General! Este não é quem manda, e sim o Cayeno! Este é um pobre-diabo que se gaba de administrador.

— Não seja desbocada! Vou provar que tenho mando: jovem, pode contar com a embarcação!

— Obrigado! Obrigado! Quanto ao boga, se a senhora me vende o picure, se aceita um saque sobre Manaus...

— E que me dá em penhor enquanto o pagam?

— Nossas pessoas.

— Oh, não! Isso não! Alá!

— Não me surpreende a desconfiança. É verdade que nossas figuras contradizem nossa solvência: descalços, esfarrapados, necessitados. Só aspiro a pôr nas mãos de vocês tudo quanto possuímos. Escolham o pessoal que realizará a comissão. O indispensável é que saia logo com nossas cartas e tenha cuidado com os valores e mercadorias que solicitamos e que vocês mesmos receberão: drogas, vitualhas e especialmente alguns licores, porque convém alegrar a vida neste deserto.

— Isso sim é verdá.

Quando a madona, pensativa, nos deixou a sós, roguei ao chefe:

— Jure-me, General, que contaremos com sua valia!

— Jovem, pouco gosto de jurar na cruz, porque sou ateu. Minha religião é a da espada!

E levando a destra ao cinto, como garantia de seu juramento, murmurou solene:

— Deus e Federação!

* * *

Ao entardecer, a madona reapareceu. Diante da ramada que o Váquiro nos destinara, fez-me a honra de passear seu tédio, coberta com um véu de gaze nívea que a defendia dos “jejenes”.

Junto ao fogão ocioso bocejávamos em silêncio, esperando os pescadores que foram ao rio conseguir o jantar. Franco esvaziou mañoco do bolso e o comíamos aos punhados, quando reparamos na mulher. Ao vê-la, voltei o rosto para outro lugar, com o chapéu sobre a testa, envergonhado da miséria em que me achava.

— Ela está me olhando?

— Muito, mas aparenta dissimular.

— Foi-se?

— Está fazendo carinho nos cães.

— Deixa de observá-la, porque ela se aproxima.

— Já vem! Já vem!

Levantei o rosto para afrontá-la, e a vi vir pisando as ervas, branca, entre a penumbra semilunar. Passou junto a mim, saudando-me com a mão, e envolveu esta censura num sorriso:

— Caramba! Estamos esquivos. Não há nada como ter saldo na casa Rosas!

Mudo, vi-a afastar-se para seu caney, quando Franco me sacudiu:

— Ouviste? Ela já está intrigada pelo dinheiro. É preciso conquistá-la imediatamente!

— Sim! A ver se volta a me chamar de “seboso”. Cairá! Cairá! O desprezo de uma mulher não tem perdão! Seboso! Esta noite lavaremos nossas roupas e as secaremos à fogueira. Amanhã...

A turca estendeu no pátio sua cadeira portátil e reclinou-se sob os luzeiros para respirar fragrâncias do monte. Aquela atitude não tinha outro fim senão fascinar-me; aqueles olhos dirigidos às alturas queriam que eu os contemplasse; aquele pensamento que fingia vagar na noite estava conspirando contra meu repouso. Outra vez, como nas cidades, a fêmea bestial e calculadora, sedenta de proveitos, vendia-me sua tentação!

Observando-a de esguelha, comecei a sentir a agressividade que precede os desafios. Mulher singular, mulher ambiciosa, mulher varonil! Pelos rios mais solitários, pelas correntadas mais perigosas, atrevia seu batelão em busca dos seringueiros, para trocar-lhes por bugigangas a goma roubada, expondo-se às violências de toda sorte, à traição de seus próprios bogas, ao fuzil dos salteadores, desejosa de acumular centavo a centavo a fortuna com que sonhava, ajudando-se com o corpo quando o bom êxito do negócio o exigia. Para enfeitiçar os homens selváticos, ataviava-se com grande esmero, e, ao desembarcar nos barracões, limpa, olorosa, confiava a defesa de seus haveres à sua sensualidade promissora.

Quantas noites como esta, em desertos desconhecidos, armaria sua cama sobre as areias ainda quentes, desiludida de seus esforços, ansiosa de chorar, órfã de amparo e proteção. Depois do dia sufocante, cujo sol tosta a pele e avermelha os olhos com dupla chama ao quebrar-se na onda fluvial, a suspeita noturna de que os bogas vão contrariados e conceberam algum plano sinistro; depois do suplício dos mosquitos, o tormento dos pernilongos, a ceia mesquinha, o resmungo do temporal, a borrasca acesa e vertiginosa! E aparentar confiança nos marinheiros que querem roubar a embarcação, e substituí-los na guarda, e aguentar-lhes resmungos e maus modos, para que ao alvorecer a viagem continue, rumo ao raudal que proíbe a passagem, rumo às lagoas onde o gomero prometeu entregar um quilo de goma, rumo aos ranchos dos devedores que nunca pagam e que se escondem ao divisar a nave tardia!

Assim, continuando o êxodo repetido, ao monótono chapinhar dos canaletes, deve ter medido a imensa distância que há entre a miséria e o ouro esplêndido. Sentada sobre os fardos, na proa do batelão, ao abrigo de seu guarda-chuva, repassaria na mente suas contas, confrontando dívidas e ingressos, vendo impaciente como passava um ano após outro sem deixar-lhe nas mãos dádiva valiosa, igual a esses rios que, onde confluem, só arremessam espumas no areal. Queixosa da sorte, agravaria sua decepção ao pensar em tantas mulheres nascidas na abundância, no luxo, na ociosidade, que brincam com sua virtude por terem com que se distrair, e que, embora a percam, seguem com honra, porque o dinheiro é outra virtude. E ela, jungida ao jugo da pobreza, lutando corpo a corpo para comprar o descanso da velhice e voltar à sua terra, que lhe negou todos os prazeres, menos o de amá-la, o de recordá-la. Talvez tivesse mãe a manter, irmãos a educar, dívidas sagradas a redimir. E por isso a necessidade a forçaria a polir o rosto, ataviar o corpo, refinar a lábia, para que os artigos adquirissem categoria; as cobranças, proveito; as ofertas, solicitude.

Isso pensava eu com juízo romântico, despojado de rancor, vendo-a engenhar-se para adquirir império sobre meu ser. Ambicionava meu ouro ou minha juventude? Bem podia escolher o que lhe aprouvesse. Naquele momento eu sentia por ela a solidariedade dos desgraçados. Sua alma, endurecida pelo comércio, devia pagar tributo ao pesar e à ilusão, embora suas ambições fossem sempre vulgares. Talvez, como eu, do amor humano só conhecesse a paixão sexual, que não deixa lágrimas, mas tédio. Alguém teria rendido seu coração? Parece que não se lembrou de Lucianito quando, ao mencionar o Yavaraté, fiz veladamente a evocação da sepultura. Talvez outros pesares constituíssem o patrimônio de sua dor, mas era certo que sua maciça feminilidade não vivia insensível às sugestões espirituais: seus grandes olhos denunciam às vezes uma angústia sentimental, que parece contagiada pela tristeza dos rios que percorreu, pela lembrança das paisagens que não voltou a ver.

Lentamente, dentro do perímetro dos ranchos, começou a flutuar uma melodia semirreligiosa, leve como a fumaça dos turíbulos. Tive a impressão de que uma flauta dialogava com as estrelas. Depois me pareceu que a noite era mais azul e que um coro de freiras cantava no seio das montanhas, com acento adelgaçado pelas folhagens, desde inconcebíveis lonjuras. Era a madona Zoraida Ayram tocando sobre as coxas um acordeão.

Aquela música de segredo e intimidade dava motivo a evocações e saudades. Cada qual começou a sentir no coração que uma voz conhecida o interrogava. Várias mulheres com seus pequenos vieram acocorar-se junto à tocadora. Paz, mistério, melancolia. Elevado no rastro do arpejo, o espírito desligava-se da matéria e empreendia fabulosas viagens, enquanto o corpo ficava imóvel, como os vegetais circunvizinhos.

Minha psique de poeta, que traduz o idioma dos sons, entendeu o que aquela música ia dizendo aos circunstantes. Fez aos seringueiros uma promessa de redenção, realizável desde a data em que alguma mão — oxalá fosse a minha — esboçasse o quadro de suas misérias e dirigisse a compaixão dos povos para as florestas aterradoras; consolou as mulheres escravizadas, recordando-lhes que seus filhos hão de ver a aurora da liberdade que elas nunca miraram; e individualmente nos trouxe a todos o dom de nos afeiçoarmos às nossas penas por meio do suspiro e do devaneio.

Em breves minutos voltei a viver meus anos pretéritos, como espectador de minha própria vida. Quantos antecedentes indicadores de meu futuro! Minhas brigas de menino, minha puberdade agreste e voluntariosa, minha juventude sem carinhos nem amor! E quem me comovia naquele momento até abrandar-me à mansidão e desejar estender os braços, num ímpeto de perdão, aos meus inimigos?

Tal milagre realizava uma melodia quase pueril! Indubitavelmente, a madona Zoraida Ayram era extraordinária! Tentei querê-la, como a todas, por sugestão. Bendisse-a, idealizei-a! E, recordando as circunstâncias que me cercavam, chorei por ser pobre, por andar malvestido, pelo sino da tragédia que me persegue.

* * *

Franco foi despertar-me pela manhã e encontrou o chinchorro vazio. Correu depois ao caño onde eu cumpria minha ablução matinal e me deu esta notícia espampanante:

— Veste-te ligeiro, que a madona vai te propor uma transação!

— Minhas roupas ainda estão úmidas!

— Que importa? É preciso aproveitar! Ela saiu do banho ao amanhecer e já nos fez um presente régio: bolachas, café, duas latas de atum. Quer falar contigo, agora que estamos sozinhos, pois o Váquiro partiu cedo para vigiar os seringueiros e só voltará pela tardinha.

— E que quer me dizer?

— Que a prefiras no negócio. Que, se pedires dinheiro para comprar caucho, tomes do Cayeno todo o que ele tiver nestes depósitos, para ver se ele lhe paga o que está devendo. Depressa, vamos!

A madona, no pátio, conversava animadamente com o Mulato e o Catire, mostrando-lhes as rendas e os dedos, como se quisesse instá-los a desmaiar de admiração.

— É um mostruário ambulante — advertiu-me Franco. — Propõe que lhe compremos tecidos, anéis, joias semelhantes às que usa ou de melhor qualidade. Diz que chegou sozinha numa curiara, tripulada por três naturais, e que deixou sua lancha no povoado de San Felipe, em pleno Rio Negro, porque o alto Isana é intransitável. Mas onde tem a mercadoria que nos oferece? Eu poderia jurar que seu batelão está escondido em alguma ciénaga, por temor de que possam desvalijá-lo, e que gente fiel a espera ali.

Ao calor da sesta, resolvi apresentar-me à mulher em sua própria alcova, sem anunciar-me, repensando um discurso preparado e com certa emoção que aumentava minha palidez. Surpreendi-a aspirando seu cigarro numa piteira de âmbar, estendida na rede soporosa, um pé sobre o outro, e a roda da saia varrendo o chão em compasso tardo. Ao ver-me, conseguiu sentar-se, com fingido desgosto por minha imprudência, ajustou a blusa desabotoada e, observando-me, emudeceu.

Então, com ilusória teatralidade, que, por certo, foi muito sincera, murmurei baixando os olhos:

— Não repare, senhora, em meus pés descalços, nem em meus remendos, nem em minha figura; meu porte é a triste máscara de meu espírito, mas por meu peito passam todos os caminhos para o amor.

Bastou-me um olhar da madona para compreender meu equívoco. Tampouco ela entendia a necessidade de minha rendição, quando teria podido dar à minha alma, ansiosa de um afeto qualquer, as orientações definitivas; tampouco soube velar-se com o espírito para fazer-me esquecer a fêmea diante da mulher.

Desgostoso por meu ridículo, sentei-me a seu lado, decidido a vingar-me de minha estupidez, e, estendendo-lhe o braço sobre os ombros, dobrei-a contra mim, bruscamente, e meus dedos tenazes lhe ficaram impressos na pele. Arrumando os pentes, protestou anelante:

— Estes colombianos são atrevidos!

— Sim, mas em empresas de muita monta!

— Quieto! Quieto! Deixa-me repousar!

— És insensível como teus cabelos!

— Oh! Alá!

— Beijei-te a cabeça e não sentiste.

— Para quê!

— Como se eu tivesse beijado tua inteligência!

— Oh, sim!

Durante um momento ficou imóvel, menos pudica que alarmada, sem olhar-me nem protestar. De repente, pôs-se de pé.

— Cavalheiro, não me belisque! Está equivocado!

— Meu coração nunca se equivoca!

E, dizendo isso, mordi-lhe a face, uma só vez, porque em meus dentes ficou um saborzinho de vaselina e pó de arroz. A madona, estreitando-me contra o seio, prorrompeu chorosa:

— Anjo meu, prefere-me no negócio! Prefere-me!

O resto ficou por minha conta!

* * *

Até dez pequenos barrigudos me cercaram com suas cuias, choramingando um rogo ensinado por suas mamães, que em círculo famélico os instigavam desde outro caney, ajudando-os com os olhos na súplica mendicante:

— Mañoco, ai, mañoco!

Então, a madona Zoraida Ayram, com sua mão usurária e branca, que ainda tinha a agitação das últimas sensações, quis demonstrar sua munificência e obter meu aplauso: exercendo direitos de dona da casa, franqueou a despensa aos pedintes e lhes ordenou encher suas vasilhas até saciarem-se. Os meninos se precipitaram sobre o mapire, como pintassilgos sobre o trigal, quando, de súbito, uma velha invejosa os alarmou com estas palavras:

— Uiií! Pirralhos! O velho!

E a turba apavorada debandou com tal precipitação que alguns caíram derramando o farelo precioso; apesar disso, os mais espertos recolheram do chão vários punhados e os levaram à boca com terra e tudo.

O “espanto” daqueles párvulos era o rumbero Clemente Silva, que, tendo ido pescar, regressava com as redes ineficazes. Grave receio sentem diante do ancião, com quem os assustam desde que saem da lactância, ensinando-lhes que, quando crescerem, ele vai extraviá-los no centro dos rebalses, sob seringais escurecidos, onde a selva haverá de engoli-los.

A arisca timidez dos indiozinhos cresce sob o influxo de grotescas superstições. Para eles o patrão é um ser sobrenatural, amigo do “maguare”, isto é, o diabo, e por isso os montes lhe prestam ajuda e os rios guardam os segredos de suas violências. Ali está a ilha do “Purgatório”, onde viram perecer, por ordem do capataz, os seringueiros desobedientes, as índias ladras, os meninos díscolos, amarrados à intempérie em total nudez, para que os pernilongos e os morcegos os ajusticiassem. Semelhante castigo amedronta os pequeninos, e antes de completar cinco anos de idade saem aos cauchais, na quadrilha das mulheres, com medo do patrão, que os obriga a picar os troncos, e com medo da selva, que deve odiá-los por sua crueldade. Sempre anda com eles algum machadeiro que lhes derruba determinado número de árvores, e é de ver, então, como, no chão, torturam o vegetal, ferindo-lhe ramos e raízes com pregos e puas, até extrair-lhe a última gota de suco.

— Que opina o senhor, don Clemente, destes rapazes?

— Que em mim eles têm medo de seu porvir.

— Mas o senhor é homem de bom agouro. Compare nossos temores de dois dias atrás com a tranquilidade de que gozamos.

Assim falei; e, pensando em nossa pronta separação, arrependemo-nos intimamente de ter falado, e emudecemos, procurando que nossos olhos não se encontrassem.

— Hoje conferenciou com meus companheiros?

— Como amanhecemos pescando, devem estar dormindo a sesta.

— Vamos vê-los!

E, quando passamos diante de um caney, perto do rio, vi um grupo de meninas de oito a treze anos, sentadas no chão, em círculo triste. Todas vestiam chingues imundos, atravessados em forma de faixa e suspensos sobre o ombro por um cordão, de sorte que lhes ficavam nus o peito e o braço. Uma catava piolhos na companheira, que lhe adormecera sobre os joelhos; outras preparavam um cigarro numa casca de “tabarí”, fina como papel; esta, de quando em quando, mordia com displicência um caimito leitoso; aquela, de olhos estúpidos e cabelos desgrenhados, distraía a fome de uma criatura que lhe esperneava nas pernas, metendo-lhe o mindinho na boquinha, à falta do seio já exausto. Nunca verei outro grupo de mais infinita desolação!

— Don Clemente, que ficam fazendo estas indiozinhas enquanto seus pais tornam à barraca?

— Estas são as amantes de nossos patrões; trocaram-nas com seus parentes por sal, por tecidos e bugigangas, ou as arrancaram de seus bohíos como imposto de escravidão. Elas quase não conheceram a serena inocência que a infância respira, nem tiveram outro brinquedo além da pesada lata de carregar água ou o irmãozinho sobre o quadril. Quão impuro foi o holocausto de sua trágica virgindade! Antes dos dez anos, são compelidas ao leito como a um suplício; e, descadeiradas por seus patrões, crescem mirradas, taciturnas, até que um dia sofrem o espanto de se sentirem mães, sem compreender a maternidade!

Enquanto caminhávamos, estremecidos de indignação, observei um semiteto de “mirití”, sustentado por dois esteios, dos quais pendia um chinchorro miserável, onde descansava um sujeito jovem de cútis ceroso e aspecto extático. Seus olhos deviam ter alguma lesão, porque os velava com dois trapinhos amarrados sobre a testa.

— Como se chama aquele indivíduo que cobriu o rosto com o cobertor, como desgostoso com minha presença?

— Um paisano nosso. É o solitário Esteban Ramírez, que tem a vista meio perdida.

Então, aproximando-me do chinchorro e descobrindo-lhe a cabeça, disse-lhe com voz tênue e emocionada:

— Olá, Ramiro Estévanez! Crês que não te conheço?

Um singular afeto sempre me ligou a Ramiro Estévanez. Eu teria querido ser seu irmão mais novo. Nenhum outro amigo conseguiu inspirar-me aquela confiança que, mantendo-se dignamente sobre a esfera do trivial, tem elevado império no coração e na inteligência.

Sempre nos víamos, nunca nos tratávamos por tu. Ele era magnânimo; impulsivo, eu. Ele, otimista; eu, desolado. Ele, virtuoso e platônico; eu, mundano e sensual. Não obstante, a dessemelhança nos aproximou e, sem desviar inclinações inatas, completávamo-nos no espírito, pondo eu a imaginação, ele a filosofia. Também, embora distanciados pelos costumes, influímo-nos pelo contraste. Pretendia manter-se incólume diante da sedução de minhas aventuras, mas, ao censurá-las, inundava-o certa curiosidade, uma espécie de regozijo pecaminoso pelos desvios de que seu temperamento o tornou incapaz, sem deixar de reconhecer às tentações vital atrativo. Creio que, por cima de seus conselhos, mais de uma vez teria trocado sua temperança por minhas loucuras. De tal sorte me habituei a comparar nossos pareceres que já em todos os meus atos me preocupava uma reflexão: Que pensará disto meu amigo mental?

Amava da vida tudo quanto era nobre: o lar, a pátria, a fé, o trabalho, tudo o que era digno e louvável. Arca de seus parentes, vivia circunscrito à sua obrigação, reservando para si os serenos gozos espirituais e conquistando da pobreza o luxo real de ser generoso. Viajou, instruiu-se, comparou civilizações, compreendeu homens e mulheres, e por tudo aquilo adquiriu depois um sorrisinho sardônico, que ganhava relevo quando punha em seus juízos a pimenta da análise e em suas conversas a coqueteria do paradoxo.

Outrora, mal soube que galanteava certa beldade de categoria, quis perguntar-lhe se era possível que um jovem pobre pensasse em compartilhar com outra pessoa o pão escasso que conseguia para seus pais. Nada tratei com ele a fundo porque me interrompeu com frase justa: “Não me resta direito nem à ilusão?”.

E a louca ilusão o levou ao desastre. Tornou-se melancólico, reservado, e acabou por negar-me sua intimidade. Contudo, algum dia lhe disse, para sondá-lo: “Queira o destino reservar meu coração a qualquer mulher cuja parentela não se creia superior, por nenhum motivo, à minha gente”. E ele me replicou: “Também pensei nisso. Mas que fazer? Naquela donzela deteve-se minha aspiração!”.

Pouco tempo depois de seu fracasso sentimental, não voltei a vê-lo. Soube que emigrara para não sei onde, e que a fortuna lhe foi risonha, segundo o pregavam, tacitamente, as relativas comodidades de sua família. E agora o encontrava nos barracões do Guaracú, faminto, inútil, usando outro nome e com uma venda sobre as pálpebras.

Grande desconcerto me produziu seu pesar, e, por compadecida delicadeza, não me atrevi a indagar detalhe nenhum de sua sorte. Em vão esperei que iniciasse a confidência. O tal Ramiro estava mudado; nem um aperto, nem uma palavra cordial, nem um gesto de regozijo por nosso encontro, por todo esse passado que em mim renascia e no qual possuíamos partes iguais. Em represália, adotei um mutismo glacial. Depois, para mortificá-lo, disse-lhe secamente:

— Ela se casou! Sim, sabias que se casou?

Ao influxo dessa notícia ressuscitou para minha amizade um Ramiro Estévanez desconhecido, porque em vez do suave filósofo apareceu um homem mordaz e amargo, que via a vida tal como ela é por certos aspectos. Tomando-me a mão, interrogou:

— E será verdadeira esposa, ou apenas concubina de seu marido?

— Quem poderá dizê-lo?

— Claro que ela possui virtudes para ser a esposa ideal de que nos fala o Evangelho; mas unida a um homem que não a pervertesse nem a “encanalhasse”. Entendo que o seu é um de tantos como conheço, viúvos de concubinato, momentâneos, desertores dos bordéis, que se casam por vaidade ou por interesse, até por adquirir fêmea de linhagem com o beneplácito da sociedade. Mas logo a depravam e a relegam, ou no santuário do lar a convertem em meretriz, pois seu ardor marital já não prospera senão revivendo práticas de prostíbulo.

— E que importa isso? Contanto que leve sobrenome ilustre, cotado no grande mundo...

— Bendito seja Deus, porque ainda existe a candura!

Essa frase me fez a impressão de uma alfinetada em minha epiderme de homem corrido. E pus-me a espreitar o momento de provar a Estévanez que eu também entendia de mordacidade; mas a ocasião não se apresentava, e ele expôs:

— A propósito de sobrenomes, recordo certa anedota de um ministro, de quem fui escrevente. Que ministro tão popular! Que gabinete tão visitado! Logo me dei conta de um fenômeno paradoxal: os aspirantes saíam sem sinecuras, mas transbordavam de orgulho prócer. Certa vez entraram no escritório dois cavalheiros de fino trato, elegantes de ofício, professores de simpatia em garitos e salões. O ministro, ao estender-lhes a mão, prestou atenção a seus sobrenomes.

“— Eu sou Zárraga — disse um.

»— Eu sou Cómbita — murmurou o outro.

»— Ah, sim! Ah, sim! Quanta honra, quanto gosto! Os senhores são descendentes dos Zárragas e dos Cómbitas!

La vorágine

Sinopse

Clássico colombiano e latino-americano, La vorágine acompanha Arturo Cova na travessia dos llanos e da selva, expondo a violência da exploração do caucho e a força devoradora da natureza. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.

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