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La vorágine

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Capítulo 6 · La vorágine

Terceira parte II, epílogo e vocabulário

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”E quando saíram, perguntei ao meu augusto chefe:

—Quem são os antepassados desses senhorões, cuja prosápia lhe arrancou elogio tão espontâneo?

—Elogio? Sei lá! Minha reverência foi de simples lógica: se um é Cómbita e o outro é Zárraga, seus respectivos pais levarão esses sobrenomes! Nada mais!”.

Para que Ramiro não percebesse que seu talento provocava minha admiração, aparentei displicência diante de suas palavras. Quis tratá-lo como pupilo, desconhecendo-o como mentor, para demonstrar-lhe que os trabalhos e as decepções me deram mais ciência que os preceptores de filosofismo, e que as asperezas de meu caráter eram mais próprias para a luta que a prudência débil, a mansidão utópica e a bondade inane. Ali estavam os resultados de tão grande axioma: entre ele e eu, o vencido era ele. Atrasado das paixões, fracassado em seu ideal, sentiria o desejo de ser combativo, para vingar-se, para impor-se, para redimir-se, para ser homem contra os homens e rebelde contra seu destino. Vendo-o inerme, inepto, desventurado, esbocei-lhe com certa insolência minha situação, para deslumbrá-lo com minha audácia:

—Olá, não me perguntas que ventos me empurram por estas selvas?

—A energia sobrante, a busca do El Dorado, o atavismo de algum avô conquistador...

—Roubei uma mulher e a roubaram de mim! Venho matar quem a tiver!

—Mal te assenta o penacho vermelho de Lúcifer.

—Mas acaso não crês em minha decisão?

—E tal mulher vale a pena? Se é como a madona Zoraida Ayram...

—Sabes alguma coisa?

—Pareceu-me que entravas em seu caney...

—Então teus olhos não estão perdidos?

—Ainda não. Foi uma incúria minha, enquanto fumigava um bolão de goma. Pus fogo, e, ao tapá-lo com o funil que serve de chaminé, um galho rebelde que chiava queimando lançou-me no rosto um jorro de fumaça.

—Que horror! Como se fosse uma vingança contra teus olhos!

—Em castigo do que viram!

* * *

Essa frase foi para mim uma revelação; Ramiro era o homem que, segundo dom Clemente Silva, presenciou as tragédias de San Fernando del Atabapo e costumava relatar que Funes enterrava gente viva. Ele vira coisas extraordinárias no saque e na crueldade, e eu ardia por conhecer detalhes dessa crônica pavorosa.

Até por esse aspecto Ramiro Estévanez se tornava interessantíssimo; e como, ao que parecia, reagia contra o divórcio de nossa fraterna intimidade, foi-se amainando em meu coração o ressentimento e começamos a trocar nossas desditas, referindo-as em largos traços. Naquele dia não trocamos palavra sobre a tirania do coronel Funes, porque Ramiro não cessava de fazer-me o inventário de suas mágoas, como urgido de proteção. O que mais me doeu em tudo quanto contava foram as inauditas humilhações a que se pôs a submetê-lo um capataz a quem chamavam o Argentino, por dizer-se oriundo daquele país. Esse homem, odioso, intrigante e adulador, impôs aos seringueiros o tormento da fome, estabelecendo a prática insustentável de pagar com mañoco o leite da borracha, à razão de um punhado por litro. Chegara aos barracões do Guaracú com uns prófugos do rio Vestuario e, querendo vendê-los ao Cayeno, converteu-se em explorador de seus próprios amigos, forçando-os com o chicote a trabalhos acabrunhantes, para demonstrar a pujança física dos coitados e exigir por eles ótimo preço. Gerenciava também o jirau das mulheres, premiando com seus corpos envelhecidos a abjeção de certos peões e, à força de má índole, ganhou o ânimo do Cayeno, até preterir o próprio Váquiro, que o odiava e desafiava.

No preciso instante em que Ramiro Estévanez relatava tão torpes abusos, começou a chegar aos tambos a desolada fila de caucheiros, com as latas de goma líquida e os ramos verdes da árvore “maçaranduba”, que preferem para fumigar porque produz fumaça densa. Enquanto uns penduravam seus chinchorros para se estenderem a suar a febre ou a lamentar o beribéri que os inchava, outros acendiam fogo, e as mulheres amamentavam suas criaturas, que não lhes davam tempo para tirar da cabeça as talhas transbordantes de suco.

Chegou com eles e com o Váquiro um indivíduo que usava casaco impermeável e brandia nos dedos um chicotinho de balatá. Mandou limpar uma grande vasilha e pôs-se a medir com uma cuia o leite que cada seringueiro apresentava, atordoando-os com insultos, ameaças e reclamações, e minguando-lhes o mañoco a que tinham direito para a ceia.

—Olha —exclamou Ramiro, tremendo—. Meu homem é aquele sujeito do impermeável!

—Como! Esse que me observa por baixo da aba do chapéu? Não há tal argentino. Esse é o famoso “Petardo Lesmes”, popularíssimo em Bogotá!

Ao sentir-se objeto de minha atenção, multiplicava as reprimendas e se agitava daqui para ali, como para que eu ficasse pasmo diante de suas portentosas atividades de homem de empresa e me desse conta de quão difícil me seria contentar o futuro patrão. Fazendo-se de afanoso e ocupadíssimo, marchou até mim, fingindo escrever, enquanto caminhava, numa caderneta, para ter pretexto de atropelar-me.

—Amigo, seu nome? Os informes de sua quadrilha?

Picado pela insolência do fantoche, voltei o rosto para os caucheiros e respondi para inflamá-lo:

—Sou da quadrilha dos “pepitos”. Os invejosos que me conheceram em Bogotá me apelidaram de “Petardo Lesmes”, embora faça tempo que não lhes peço nada, apesar dos desembolsos que a sociedade ocasiona. Preferiria empenhar minha aliança de compromisso em cubículos e fundos de loja, ainda que sob o risco de que minha prometida o soubesse, contanto que fosse munificente, como requer minha posição social. Ocupei minhas horas de estudo em dirigir anônimos a minhas primas contra seus pretendentes que não eram ricos ou que não eram “chiques”. Alegrei rodas de esquina apontando com dedo cínico as mulheres que desfilavam, caluniando-as de mil formas, para acreditar meu cartaz de perdoador de virgens. Fui caixa da Junta de Crédito Distrital, por chamamento unânime de seus membros. Os cem mil dólares do desfalque não saíram todos em minha mala: deram-me apenas quinze por cento. Aceitei a designação com prévio acordo de assinar recibo por um caudal que já não existia. Palavra dada, palavra sagrada. No princípio tive vagos escrúpulos de inexperiente, mas a Junta me decidiu. Recordou-me o exemplo de tanto “pisco” que saqueia impunemente adiantamentos, bancos, pagadorias, sem menoscabar sua boa reputação. Fulano de tal falsificou cheques; Sicrano adulterou contas e depósitos; Beltrano pôs pela direita um salário adequado à sua categoria de noivo elegante, no que procedeu muito bem, pois não é justo nem humano labutar com sacas e maços de notões, padecendo necessidades, com o suplício de Tântalo dia após dia, e ser como o asno que marcha faminto levando a cevada sobre o lombo. Vim por aqui enquanto esquecem o desfalque; tornarei em breve, dizendo que andava por Nova York, e chegarei vestido à moda, com casaco de peles e sapatos de cano branco, a frequentar minhas relações, minhas amizades, e a obter outro emprego frutuoso. Estes são os informes de minha quadrilha!

Assim terminei, relanceando os olhos a Estévanez e feliz de haver encontrado ocasião de exibir minha mordacidade. O Petardo Lesmes, sem se perturbar, argumentou:

—Minhas tias e minhas irmãs pagarão tudo!

—Com quê, com quê? Vocês são pobres, filhos de ricos. Dividida a herança, igualamo-nos.

—Arturo Cova igualar-se a mim? Como, de que maneira?

—Desta! —E, arrebatando-lhe o chicote, cruzei-lhe o rosto.

O Petardo saiu correndo, entre o ruído do impermeável, gritando que lhe emprestassem uma carabina. E não me matou!

O Váquiro, a madona e meus companheiros acorreram a conter-me. Então um caucheiro corpulentíssimo sorriu, pondo-se em posição:

—Isso, sim, não seria comigo. Se ocê tivesse me tocado a cara, um dos dois tava no chão!

Vários da roda que nos cercava lhe replicaram:

—Não se meta de valentão, lembre-se do Chispita, que no Putumayo lhe metia relho!

—Sim, mas onde eu o vir, corto-lhe as mãos!

* * *

—Franco, que te diz Ramiro Estévanez, que se murmura nos barracões?

—Ramiro se entusiasma com tua ardência e se apequena diante de tua imprudência. Os seringueiros aplaudem a humilhação do Petardo Lesmes, mas em todos vejo certa inquietação, o pressentimento de alguma coisa sensacional. Eu mesmo começo a sentir uma desconfiança preocupante. Ajudado pelo Catire, procurei cumprir tuas ordens a respeito da insurreição; mas ninguém quer meter-se em sublevações, desconfiam de nossos planos e de ti mesmo. Supõem que queres chefiá-los para escravizá-los quando passar o golpe ou vendê-los depois. Temo haver falado aos delatores. O Petardo Lesmes partiu esta manhã em exploração e queria levar Clemente Silva como rumbero. Felizmente o Váquiro não concordou que este marchasse.

—Que disseste! É imperioso que a canoa saia esta mesma noite para Manaus!

—O lamentável é que seja tão pequena. Se pudéssemos caber todos...

—Mas não compreendes teu desvario? Aqui devemos permanecer. Nossa residência no Guaracú é a garantia dos viajantes. Se os atalhassem, se os prendessem, quem velaria por seu destino? É preciso dar-lhes tempo de descerem ao Isana. Depois faremos o que pudermos para escapar. Enquanto isso, nosso cônsul estará em viagem e o avistaremos no Rio Negro. Dois meses de espera, porque a madona lhes empresta sua lancha aos emissários e a tomarão desde San Felipe.

—Ouve-me: o velho Silva diz que não quer deixar-te só, que não pode admitir favores que provenham dessa mulher, que o teve escravo depois de haver sido concubina de Lucianito.

—Mas isso ficou combinado desde ontem! Irá dom Clemente com o mulato e mais dois remadores! Já lhes tenho os passaportes assinados. Os víveres prontos. Só me falta escrever a correspondência!

Alarmado por esse informe, corri logo a procurar o ancião Silva e lhe roguei com acento premente, provocando suas lágrimas:

—Não se detenha por meus perigos! Vá-se embora, por Deus, com os ossos de seu pequeno! Pense que, se ficar, descobrem tudo e jamais sairemos daqui! Guarde esse pranto para abrandar a alma de nosso cônsul e fazer que ele venha imediatamente devolver-nos a liberdade! Regresse com ele e viajem de dia e de noite, na segurança de nos encontrar logo, porque então estaremos no Guainía. Procure-nos no Yaguanarí, no barracão de Manuel Cardoso; e se lhe disserem que nos internamos na montanha, tome nossa pista, que muito em breve nos encontrará. Desde agora lhe repito as mesmas súplicas de Coutinho e de Souza Machado, quando, perdidos na floresta, lhe beijavam os pés: “Apiede-se de nós. Se o senhor nos abandonar, morreremos de fome”.

Depois, estreitando contra meu peito o mulato Antonio Correa:

—Vai, mas não esqueças que merecemos a redenção! Não nos deixem jogados nestes matos! Nós também queremos regressar às nossas planícies, também temos mãe a quem adorar! Pensa que, se morrermos nestas selvas, seremos mais desgraçados que o infeliz Luciano Silva, pois não haverá quem repatrie nossos despojos!

E embora o Váquiro, bêbado, e a madona concupiscente me esperassem para jantar, encerrei-me no escritório do patrão e, em companhia de dom Ramiro Estévanez, redigi para nosso cônsul o maço que dom Clemente Silva devia levar, uma tremenda requisitória, de estilo borbulhante e apressado como a água das torrentes.

* * *

Naquela noite, o Váquiro, detendo-se no umbral, interrompia nosso trabalho com impertinências:

—Peça cachaça, peça tabaco e tiros de Winchester!

Por sua vez, o Catire Mesa, munido de uma tocha, apresentava-se a repetir:

—A canoa está pronta, mas não há quem entregue o quintal de borracha que devem levar como dinheiro para cobrir os custos da viagem.

E a madona, com fastidiosa desfaçatez, entrava no quartucho mal iluminado, interrogava-me familiarmente, servia-me xícaras de café preto, que ela mesma adoçava, aos goles, dando-me por guardanapo a ponta de seu avental.

Na presença do casto Ramiro, apoiou a face em meu ombro, vendo correr a pena sobre as páginas, à resinosa luz do candeeiro, admirada de minha destreza em traçar signos que ela não entendia, tão diferentes do alfabeto árabe.

—Quem soubesse escrever tua língua! Meu anjo, que pões aí?

—Estou dizendo à casa Rosas que tens uma borracha maravilhosa.

Ramiro, indignado, retirou-se.

—Amor, não lhe digas isso, porque me pedirá que eu a dê em pagamento.

—Acaso lhe deves?

—A dívida não é minha, mas... queria que me ajudasses!...

—Obrigaste-te como fiadora?

—Sim.

—Mas o devedor te dava lotes de borracha.

—Eram para mim, não para a dívida.

—E uma árvore o matou! Não é verdade que uma árvore o matou, a da ciência do bem e do mal?

—Oh! Tu sabes? Tu sabes?

—Lembra-te de que vivi no Vaupés!

A madona, desconcertada, recuava, mas eu, segurando-a pelos braços, obriguei-a a falar.

—Não te aflijas, não te desesperes! É tua a culpa de que o rapaz se matasse? Não me negues que se suicidou!

—Sim, matou-se! Mas não contes a teus amigos! Tinha tantas dívidas! Queria que eu ficasse nos seringais vivendo com ele! Impossível! Ou que nos casássemos em Manaus! Um absurdo. E na última viagem, quando pernoitamos no raudal, desenganei-o, exigi que me deixasse, que voltasse! Começou a chorar. Ele sabia que eu carregava o revólver entre o corpete! Inclinou-se sobre minha rede, como me cheirando, como me apalpando. De repente, um disparo! E banhou-me os seios em sangue!

A madona, sacudida pelo relato, foi ganhando a porta, com as mãos sobre a blusa, como se quisesse tapar a mancha quente. E fiquei só!

Então senti subir palavras de pranto, juramentos, imprecações, que saíam do caney próximo. Dom Clemente Silva e meus camaradas me rodearam enfurecidos:

—Jogaram-nos fora! Ah, miseráveis! Jogaram-nos fora!

—Como! Será possível!

—Os ossos de meu filho, de meu filho desventurado, atiraram-nos ao rio, porque a madona, essa cadela cínica, tinha escrúpulos deles! Agora sim, faca nessas feras! Mate-os todos!

Momentos depois, sobre a canoa desatracada, vi erguer-se na sombra o perfil colérico do ancião. Entrei na água para abraçá-lo uma e outra vez, e ouvi suas derradeiras admoestações:

—Mate-os, que eu volto! Mas perdoe a pobre Alicia! Faça-o por mim! Como se fosse María Gertrudis.

E a canoa se foi, e compreendíamos que os viajantes agitavam os braços para nós na lobreguez do leito sinistro. Chorando, repetimos as palavras de Lucianito: “Adeus, adeus!”.

Acima, o céu sem limites, a noite constelada do trópico.

E as estrelas infundiam medo!

* * *

Vai para seis semanas que, por insinuação de Ramiro Estévanez, distraio a ociosidade escrevendo as notas de minha odisseia no livro-caixa que o Cayeno tinha sobre sua escrivaninha como adorno inútil e poeirento. Peripécias extravagantes, detalhes pueris, páginas truculentas formam a rede precária de minha narração, e a vou expondo com pesar, ao ver que minha vida não conquistou o transcendental e nela tudo resulta insignificante e perecível.

Erraria quem imaginasse que meu lápis se move com desejos de notoriedade, ao correr pressuroso no papel atrás das palavras para fixá-las sobre as linhas. Não ambiciono outro fim que o de emocionar Ramiro Estévanez com o breviário de minhas aventuras, confessando-lhe por escrito o curso de minhas paixões e defeitos, para ver se aprende a apreciar em mim o que nele regateou o destino, e logra estimular-se para a ação, pois sempre foi disciplina proveitosíssima para o pusilânime fazer confrontações com o arrojado.

Tudo nos dissemos e já não temos de que conversar. Sua vida de comerciante em Ciudad Bolívar, de mineiro em não sei que afluente do Carona, de curandeiro em San Fernando del Atabapo, carece de relevo e de fascinação; nem um episódio característico, nem um gesto pessoal, nem um fato sobressalente sobre o comum. Em compensação, eu sim posso mostrar-lhe minhas pegadas no caminho, porque, se são efêmeras, ao menos não se confundem com as demais. E depois de mostrá-las quero descrevê-las, com jactância ou com amargura, segundo a reação que produzem em minhas lembranças, agora que as evoco sob os barracões do Guaracú.

Se o Váquiro soletrasse as apreciações que me suscita, se vingaria soltando-me, livre de roupas, na ilha do purgatório, para que as pragas dessem cabo das sátiras e do satírico. Mas o general é mais ignorante que a madona. Apenas aprendeu a desenhar sua assinatura, sem distinguir as letras que a compõem, e está convencido de que a rubrica é elevado emblema de seus títulos militares.

Às vezes escuto o bater dos calcanhares de suas alpercatas e ele penetra no escritório para prosear comigo.

—Calculo que a curiara vai mais abaixo do raudal de Yuruparí.

—E não terão tido dificuldades?... O Petardo Lesmes...

—Fique tranquilo! Anda pelo Inírida, e nesta semana deve regressar.

—Senhor general, ele cumpre certas ordens suas?

—Mandei-o perseguir os índios do caño Pendare, pra aumentar os trabalhadores. E vosmecê, jovem Cova, que é que tanto escreve?

—Exercito a letra, meu general. Em vez de me aborrecer matando pernilongos.

—Isso tá bem feito. Por não ter praticado, esqueci o pouco que sei. Felizmente, tenho um irmão que é um belitre em coisas de pena. Dizem que era ruim de ortografia, mas quando vim embora eu o vi “puxar” até meio fólio sem dicionário.

—Seu irmão também esteve em San Fernando del Atabapo?

—Não, não! Nem pra quê.

—Meu conterrâneo Esteban Ramírez era seu amigo?

—Quantas vezes lhe repeti que sim e que sim! Juntos fugimos do índio Funes, porque vosmecê saberá que o Tomás é índio. Se nos pega, nos despescouça. E como eu conhecia o Cayeno, resolvemos vir procurá-lo. Subimos o rio Guainía, desde Maroa, e pelo arrastadouro dos caños Mica e Rayao passamos ao Inírida. E aqui nos vê, estabelecidos no Isana.

—General, meu conterrâneo agradece tanto...

—A ele consta que, se vim embora, não foi por medo, mas para não me “emporcalhar” matando o Funes. Vosmecê sabe que esse bandido deve mais de seiscentas mortes. Puros racionais, porque aos índios não se leva a conta. Diga a meu conterrâneo que lhe conte as matanças.

—Já me contou. Já as anotei.

* * *

No povoadinho de San Fernando, que conta apenas sessenta casas, dão-se encontro três grandes rios que o enriquecem: à esquerda, o Atabapo, de águas avermelhadas e areias brancas; à frente, o Guaviare, flavo; à direita, o Orinoco, de onda imperial. Ao redor, a selva, a selva!

Todos aqueles rios presenciaram a morte dos seringueiros que Funes matou em 8 de maio de 1913.

Foi a seringa terrível —o ídolo negro— que provocou a feroz matança. Trata-se apenas de uma trifulca entre empresários de seringais. Até o governador negociava em borracha.

E não penses que, ao dizer “Funes”, nomeei uma pessoa única. Funes é um sistema, um estado de alma, é a sede de ouro, é a inveja sórdida. Muitos são Funes, embora um só leve o nome fatídico.

O costume de perseguir riquezas ilusórias à custa dos índios e das árvores; o acúmulo paralisado de bugigangas para peões, destinadas a render até mil por cento; a concorrência do armazém do governador, que não pagava direito algum, e ao vender com mão oficial recolhia com ambas as mãos; a influência da selva, que perverte como o álcool, chegaram a criar em alguns homens de San Fernando um impulso e uma consciência que os moveu a valer-se de um assassino para que iniciasse aquilo que todos queriam fazer e que ajudaram a realizar.

Nem creias que delinquisse o governador ao encostar a boca à fonte dos impostos, com um pé em seu gabinete e o outro na loja. Tão contrária atitude lhe impunham as circunstâncias, porque aquele território é como uma herdade cujas despesas paga o favorito que a desfruta, inclusive seu próprio salário. O governador dessa comarca é um empresário cujos subalternos vivem dele; sendo seus empregados particulares, têm uma função constitucional. Um se chama juiz, outro chefe civil, outro registrador. Ele lhes dá ordens promíscuas, fixa-lhes salários e os remove à vontade. Os tempos do pretor, que distribuía justiça nas praças públicas, revivem em San Fernando sob outra forma: um funcionário plenipotente legisla, governa e julga por intermédio de parciais assalariados.

E não é raro ver na povoação indivíduos que, chegados de terras longínquas, se detêm diante de uma vendola e dizem ao vendeiro, com voz urgida: “Senhor juiz, quando se desocupar de pesar borracha, faça-me o favor de abrir o escritório para apresentar nossas demandas”, e recebem como resposta: “Hoje não os atendo. Nesta semana não haverá justiça: o governador me tem atarefado em despachar mañoco para seus barranqueiros do Beripamoni”.

Isso ali é legal, correto e humano. Qualquer um tem direito de preocupar-se com as entradas do patrão: as rendas são o termômetro dos salários. Bolso frouxo, pagamento mesquinho.

O governador, Roberto Pulido, concorrente comercial de seus governados, não estabelecera impostos estúpidos; contudo, forjava-se a conjura para suprimi-lo. Sua má estrela o aconselhou a ditar um decreto no qual dispunha que os direitos de exportar borracha se pagassem em San Fernando, com ouro ou com prata, e não com notas promissórias giradas contra o comércio de Ciudad Bolívar. Quem tinha dinheiro pronto? Os guardadores. Mas estes não o poupavam para emprestá-lo: compravam goma barata a quem tivesse necessidade de pagar tarifas de exportação. No princípio, os próprios conspiradores entraram em concorrência nesse negócio; depois tiraram dali o pretexto para explodir: dizer que Pulido ditou seu decreto, aproveitando a carência de numerário, para fazer venderem-lhe a goma a preço irrisório, por intermédio de comparsas confabulados. E o mataram, o saquearam e o arrastaram, e numa só noite desapareceram setenta homens!

* * *

—Desde dias antes —refere-me Ramiro Estévanez— adverti os preparativos do ominoso acontecimento. Já se dizia, à boca pequena, que vários sujeitos haviam conseguido infundir em Funes a crença de que era apto para apoderar-se da região e até para ser presidente da república quando quisesse. Não resultaram falsos profetas os daquele augúrio: porque jamais, em nenhum país, se viu tirano com tanto domínio sobre vidas e fortunas como o que atormenta a incomensurável zona caucheira cujas duas saídas estão fechadas: no Orinoco, pelos chorros de Atures e de Maipures; e no Guainía, pela aduana de Amanadona.

“Um dia acudi à casa do coronel, no momento em que este ajustava a porta do pátio. Embora tentasse fechá-la rapidamente, alcancei a ver que no interior havia considerável número de caucheiros sentados nos parapeitos e nos bancos da cozinha, limpando suas armas. Esses homens foram trazidos dos barracões do Pasimoni, como depois se disse, e chegaram à meia-noite à povoação, em companhia de outros barranqueiros pertencentes ao pessoal de distintos patrões, que os ocultaram com cautela.

”Funes alarmou-se ao notar que eu havia observado os seringueiros e, buscando meu ouvido, segredou com patibular amabilidade:

”—Não os deixo sair porque se embebedam! São dos nossos! Que deseja?

”—Devo mil bolívares a Espinosa e ele me funde com cobranças. Se o senhor quisesse emprestar-mos...

”—Eu nasci para os amigos! Espinosa nunca mais voltará a cobrá-lo. O senhor, com suas próprias mãos, terá ocasião de saldar essa dívida. Esperemos que chegue o governador.

”E Pulido chegou ao entardecer, de regresso do Casiquiare, numa lancha a petróleo chamada “Yasaná”. Em companhia de vários empregados, recolheu-se cedo porque vinha enfermo de febre. Enquanto isso, seus inimigos, que haviam limpado a costa de embarcações para evitar fugas possíveis, tiraram o leme da lancha e o esconderam nos fundos da loja do coronel, cujos muros dão sobre o Atabapo.

”Veio pouco depois a noite, uma noite medrosa e relampejante. Da casa de Funes saíram grupos armados de Winchesters, embuçados em cobertores de baeta para que ninguém os conhecesse, cambaleantes pelo influxo do rum que lhes inflamava a amabilidade. Pelas três ruelas solitárias distribuíram-se para o assalto, recordando os nomes das pessoas que deviam sacrificar. Alguns, mentalmente, incluíram nessa lista quantos indivíduos lhes inspiravam antipatias ou ressentimentos: seus credores, seus rivais, seus patrões. Marchavam recostados às paredes, tropeçando nos porcos que dormiam na calçada: ‘Porco maldito, me faz cair!’.

”—Psiu! Silêncio! Silêncio!

”Na venda de Cappecci, gente indefesa jogava cartas, montada no balcão. Cinco homens, entre eles Funes, ficaram à espreita no escuro, para quando se abrisse fogo na esquina próxima. Lá, no quarto do sentenciado, ardia uma lâmpada que lançava contra a chuva lívidas claridades. O grupo de López, felonamente, aproximou-se da janela aberta. Lá dentro, Pulido, abrigado em seu chinchorro, sorvia a porção preparada pelos enfermeiros. De repente, voltando os olhos para a noite, conseguiu sentar-se. ‘Quem está aí?’ E as bocas de vinte rifles lhe responderam, enchendo a estância de fumaça e sangue!

”Este foi o sinal terrível, o começo da hecatombe. Nas lojas, nas ruas, nos quintais rebentavam os tiros. Confusão, clarões, lamentações, sombras correndo na escuridão! A tal ponto se espalhava a matança que até os assassinos se assassinaram. Às vezes, em direção ao rio, uma procissão consternava o pasmo das trevas, arrastando cadáveres que pendiam dos membros e das roupas, atropelando-se sobre eles, como formigas quando transportam provisões pesadas. Por onde escapar, aonde acudir? Mulheres e crianças, desorbitadas em busca de refúgio, davam com a quadrilha que as baleava antes de chegarem: ‘Viva o Coronel Funes! Abaixo os impostos! Viva o comércio livre!’.

”Como uma seta, como uma rajada, começou a correr uma voz: ‘À casa do Coronel! À casa do Coronel!’ Enquanto isso, no porto lôbrego, matraqueava o motor da Yasaná. ‘A deixar o povoado! A embarcar! À casa do Coronel!’.

”Cessaram os tiros. Em sua sala, em sua loja, Funes transitava, recebendo as gentes incautas, separando com sorrisinho os que em breve seriam assassinados no quintal. ‘O senhor, para a lancha! O senhor, comigo!’ Em breves minutos, encheu-se o pátio de rostos pavorosos. Atrás da porta do muro que dá sobre o rio situou-se González com o facão. ‘A bordo, rapazes!’ E quem ia saindo rolava decapitado entre os buracos que deram terra para levantar a edificação.

”Nem um grito, nem uma queixa!

”A noite, o motor, a tempestade!”.

* * *

“Assomando à janela do corredor, onde tremeluzia uma lamparina, vi remoinhar na escuridão o rebanho de detidos, receosos de desfilar pela horrenda porta, arrepiados pela intuição do perigo cruento, eriçados como touros que percebem sobre a erva cheiro de sangue.

”—A bordo, rapazes!” —repetia a voz cavernosa, do outro lado do quício feral. Ninguém saía. Então a voz pronunciava nomes.

”Os de dentro tentaram uma tímida resistência: ‘Saia primeiro!’ ‘Quem chamam é o senhor!’ ‘Mas por que me acossam a mim?’ E eles mesmos se empurravam para a morte!

”Na peça onde eu estava começaram a descarregar fardos e mais fardos: borracha, mercadorias, baús, mañocos, o botim dos mortos, a causa material de seu sacrifício. Uns morreram porque a cobiça de seus rivais clamava pelo despojo; outros foram sacrificados por serem peões na quadrilha de algum patrão a quem convinha diminuir-lhe a gente, para pôr freio à concorrência; contra estes foi executado o fatal desígnio, pois deviam fortes adiantamentos, e matando-os se assegurava a ruína de seus empresários; aqueles caíram, estrangulado o grito agônico, porque eram do trem governamental, empregados, amigos ou familiares do aborrecido governador. Os demais, por ciúmes, rancores, inimizades.

”—Como é possível que o encontre sem carabina? —perguntou-me Funes—. O senhor não quis nos ajudar em nada. E isso que já cobri sua dívida! Neste facão se lê o recibo!

”E mostrava contra o lampião a lâmina sanguinolenta e dentada.

”—Não se exponha —acrescentou— a que o povo o considere inimigo de seus direitos e de sua liberdade. É preciso adquirir credenciais: uma cabeça, um braço, o que se puder. Tome este Winchester e “rebusque-se”! Quem dera topasse com Dellipiani ou com Baldomero!

”E, pegando-me pelo ombro, muito amavelmente, pôs-me na rua.

”Por um lado do porto, em direção à laje de Maracoa, agruparam-se umas lanternas e desceram ao longo da margem, iluminando as águas e o areal. Eram umas mulheres que choramingavam através dos xales, procurando os cadáveres de seus parentes.

”—Ai! Aqui lhe arrancaram os intestinos! Devem tê-lo jogado na ressaca, mas há de flutuar ao amanhecer!

”Enquanto isso, nos quintais, tipos mascarados moviam suas velas, com afã de esconder entre os buracos cheios de lixo os corpos das vítimas e a responsabilidade dos matadores.

”—Joguem-nos no rio! Não os deixem neste pátio, que não tardam em feder.

”Assim clamava uma velhota, e, vendo-se desobedecida, amontoou cinza quente nas sepulturas improvisadas.

”Às vezes perambulava pelas esquinas alguma ronda de homens perversos, que se espreitavam com desconfiança recíproca, disfarçando suas estaturas e seus movimentos para tornar impossível a identidade. Alguns se aproximavam para apalpar a manga da camisa, que devia estar arregaçada no braço esquerdo, mas ninguém soube ao certo com quem andava nem a quem perseguia seu acompanhante, e se separavam sem se interrogar nem se reconhecer. Passou a chuva, desapareceram os cadáveres insepultos e, contudo, a alvorada indolente se atrasava em pôr fim a tão nefanda noite de pesadelo. Quando o pelotão ia dispersar-se, um homem inclinou o rosto sobre o vizinho, iluminando-o com a brasa do tabaco.

”—Vácares?

”—Sim!

”E, ao ouvir a voz fanhosa, inferiu-lhe profunda facada no largo pômulo.

”Hoje me assegura o Váquiro que o próprio Funes foi quem lhe andou pela face querendo talhar-lhe a jugular. Só que em San Fernando não se atrevia a revelar o nome de seu agressor, por medo das reincidências do Coronel, diante de quem dava pasto à lenda de que sua ferida fora ocasionada em ousado duelo, ao abater na escuridão dez contendores apandilhados.

”E terias visto a que extremos tão deploráveis se rebaixaram os fernandinos para salvar sua débil pele, fazendo-se gratos ao déspota e a seus áulicos. Que adesões, que aplausos, que intimidades! A delação foi planta parasita que enredava vivos e mortos, e a fofoca e a calúnia progrediram como peste. Os que sobreviveram à catástrofe perderam o direito de lamentar-se e comentar, sob risco de que para sempre os silenciassem. Cada qual tornou-se espião, e atrás de fechaduras e frestas há olhos e ouvidos. Ninguém pode sair do povoado, nem averiguar pelo parente desaparecido, nem inquirir pelo paradeiro do conterrâneo, sem expor-se a ser denunciado como traidor e enterrado vivo até o mamilo na escavação que, forçosamente, o obrigam a fazer num areal, onde o calor o vá assando e os zamuros lhe piquem os olhos.

”Mas não só aos arredores do casario se circunscrevem essas tropelias: por selvas, rios e estradas vai crescendo a onda do sobressalto, da conquista, do extermínio. Cada qual mata por conta própria, enquanto morre, e ampara seus crimes sob supostas ordens do tirano, que lhes dá sua aprovação tácita, para desfazer-se dos autores, que deixa entregues à mútua ferocidade.

”A versão de que Pulido prosperava adquirindo borracha é farsa iníqua. Bem sabem os seringueiros que o ouro vegetal não enriquece ninguém. Os potentados da floresta não têm mais que créditos nos livros, contra peões que nunca pagam, senão com a vida, contra indígenas que se minguam, contra bongueiros que roubam o que transportam. A servidão nestas comarcas se faz vitalícia para escravo e dono... um e outro devem morrer aqui. Um sino de fracasso e maldição persegue quantos exploram a mina verde. A selva os aniquila, a selva os retém, a selva os chama para tragá-los. Os que escapam, ainda que se refugiem nas cidades, levam já o malefício no corpo e na alma. Murchos, envelhecidos, decepcionados, não têm mais que uma aspiração: voltar, voltar, sabendo que, se voltarem, perecerão. E os que ficam, os que desouvem o chamamento da montanha, sempre declinam na miséria, vítimas de doenças desconhecidas, sendo carne palúdica de hospital, entregando-se à lâmina que lhes recorta o fígado em pedaços, como pena de algo sacrílego que cometeram contra os índios, contra as árvores.

”Qual poderá ser a sorte dos caucheiros de San Fernando? Causa pavor considerá-la. Passado o primeiro ato da tragédia, empalideceram; mas o caudilho que improvisaram já tinha força, já tinha nome. Deram-lhe sangue a provar e ainda tem sede. Venha cá o Governo! Ele matou como comerciante, como seringueiro, apenas para suprimir a concorrência; mas, como lhe restam competidores em seringais e barracões, resolveu exterminá-los com igual fim e por isso vai assassinando seus próprios cúmplices.

”—A lógica triunfa!

”—Que viva a lógica!”.

* * *

Calamidades físicas e morais se aliaram contra minha existência no torpor destes dias viciosos. Meu abatimento e meu ceticismo têm por causa o cansaço lúbrico, a astenia do vigor físico, sugado pelos beijos da madona. Como se esgota uma vela invertida sobre sua chama, acabou cedo com minha ardência essa loba insaciável, que oxida com seu hálito minha virilidade.

E a odeio e a detesto por calorosa, por mercenária, por incitante, por suas polpas tiranas, por seus seios trágicos. Hoje, como nunca, sinto nostalgia da mulher ideal e pura, cujos braços rendem serenidade para a inquietação, frescor para o ardor, esquecimento para os vícios e as paixões. Hoje, como nunca, anseio pelo que perdi em tantas donzelas iludidas, que me olharam com simpatia e que, no segredo de seu pudor, acariciaram a ideia de fazer-me feliz.

A própria Alicia, com todos os caprichos da inexperiência, jamais traiu sua índole senhoril e sabia ser digna até nas maiores intimidades. Meu rancor irascível, meu ressentimento perene, a ira que sinto ao recordá-la, não chegam a deslustrar essa honestidade que, por força, devo reconhecer-lhe e abonar-lhe, embora hoje a repudie por degradada e pérfida. Quanta diferença entre ela e a turca, a quem vence em tudo, em graça como em juventude! Porque esta madurona indecorosa alcança os limites da murchidão e da obesidade. Assim notei desde que a vi. Embora passe dos quarenta, não se lhe descobre nem um “fio branco”, por milagre de seus cosméticos: mas eu os adivinho!

Oh, fadiga da presença que desgosta! Oh, asco dos beijos que não se pedem! Eu estava obrigado a dissimular, em proveito de nossos planos, essa repulsão que a madona me produz, e a não ter descanso em meu dissabor, pois nenhum de meus amigos pôde substituir-me no vil ofício de mantê-la propícia. Ela os repele porque sabe que o do saldo na casa Rosas sou apenas eu. Ensaiei, para libertar-me, o gesto cansado, a frase dura, o desprezo que levanta bolha. Por fim rompi com ela violentamente. E hoje não sei o que fazer para reconquistá-la.

Sucede que nestas noites os seringueiros invadiram o jirau das mulheres, para gozá-las como prêmio de sua semana, segundo velho costume. Fedendo a fumaça e a sujeira, mal acabam de fumigar, apresentam-se ao sentinela e com gesto lascivo encomendam o turno. Os menos rijosos trocam seu direito com os impacientes por tabacos, por goma ou por pílulas de quinina. Ontem à noite, duas meninas montubias choravam aos gritos no alto da escada, porque todos os homens as preferiam e lhes era impossível resistir mais. O Váquiro, ameaçando-as com o chicote, insultou-as. Uma delas, desesperada, atirou-se ao chão e estilhaçou um braço. Acudimos com luzes a recolhê-la e a abriguei em meu chinchorro.

—Infames, infames! Basta de abusos com estas mulheres, desgraçados! A que não tiver homem que a defenda, aqui me tem!

Silêncio. Alguns indígenas se aproximaram de mim. No outro caney sorriram uns brutamontes que estimulavam sua sensualidade com piadas obscenas. E, olhando-me, continuaram sua ocupação, acesos na trêmula labareda dos fogões, sobre cuja fumaça faziam girar —como um assador— o pau em que se coagulava o bolão de goma, banhando-o em leite a cada instante com a “tigelina” ou com a colher.

—Ouça —disse-me um—, se tanto lhe dói o sucedido, façamos uma troca: empreste-nos a madona pra prová-la.

E a madona enfureceu-se porque eu não castiguei o atrevido.

—Ficas de braços cruzados diante do que ouviste? Para mim, então, não haverá respeito? Queres dizer que não tenho homem? Alá!

—Tu os tens todos!

—Pois então me paga o que me deve!

—Nada te devo!

E esta manhã, quando por conselho de meus amigos fui dar-lhe satisfações e reconhecer-me devedor, encontrei-a ataviada, energúmena, lacrimosa.

—Ingrato, dizer-me que não cumpre seus compromissos!

Tomei-lhe a face, sem saber onde beijá-la, quando, de repente, recuei descorado de emoção e ganhei a porta.

—Franco, Franco, por Deus! A madona com os brincos de tua mulher! Com as esmeraldas da niña Griselda!

* * *

Como pintar a impressão penosa que foi ensombrecendo o rosto de Franco ao escutar minhas exclamações? Sentado na barbacoa, em companhia de Ramiro Estévanez, olhava o Catire Mesa tecer mapires de palma, enquanto este lhes explicava o modo simples de urdir a trama. Com denodo instintivo, mal pronunciou o nome de sua mulher, cerrou os punhos como se se preparasse para defendê-la; mas logo inclinou a fronte, acesa pelo rubor da honra agravada.

—Que me importa a sorte dessa senhora? —afirmou raivoso.

E, destecendo a cestinha, aparentava tranquilidade.

De repente disse em tom brusco, como uma facada em nosso silêncio:

—Quero ver os brincos, quero convencer-me! Onde está a turca ladra?

—Cala-te, que nos perdes —suplicamos-lhe— porque Zoraida vinha em nossa direção, trazendo na boca um cigarro apagado. Franco, dissimulado, ofereceu-lhe fósforos, e quando a madona se inclinou para a chama, vi-o dominar o impulso de agarrá-la pelas orelhas.

—São esses, são esses! —repetia ao voltar. E jogou-se de bruços no chinchorro, sem dizer mais.

Definitivamente, desde esse momento, abandonou-me a paz de espírito. Matar um homem! Eis meu programa, minha obrigação!

Sinto em meu rosto o hálito frio, anúncio das tempestades. A mau tempo chega a hora tão calculada, tão perseguida. O que pedi ao futuro é já presente. Enquanto avancei sobre a vingança, o conflito final me parecia pequeno, pela distância; mas hoje, ao ver de perto o desenlace, acho desmesurada esta aventura, quando estou sem saúde e sem energias para erguer-me e arremeter.

Mas não me verão buscar a curva do perigo. Irei de frente, contrariando a reflexão, surdo ao obscuro aviso que se eleva do fundo de minha consciência: morrer, morrer!

O que mais agrava meu aturdimento é a opinião unânime de meus amigos sobre o modo de rematar a situação:

—Se Barrera está por aqui, qual é meu dever?

—Matá-lo, matá-lo!

E tu mesmo, Ramiro Estévanez, sustentas o conselho fatal, ao tempo em que eu, talvez por covardia, esperava de tua cordura fórmulas piedosas. Serei inexorável, pois assim o quereis. Graças a vós, virá a tragédia!

Que conste!

* * *

A niña Griselda, a niña Griselda!

Franco e Helí a viram ontem à noite, sobre a ponte de um batelão que deu de vir ao remanso próximo embarcar a seringa roubada. Iluminava com uma lâmpada a faina contrabandista, e se não distinguiu meus companheiros, ao menos já sabe que a procuramos, porque Martel e Dólar se lançaram a festejá-la, e ela, ao partir o barco, levou os cães.

Foi Ramiro Estévanez quem primeiro soube que os índios transpunham a goma dos depósitos, carregando-a, entre as trevas, para embarcadouros insuspeitos. Deu-lhe a denúncia minha protegida, certa noite em que lhe enfaixava o braço enfermo; e, inteirados da ocorrência, a índia nos postou num esconderijo para que víssemos suceder-se a linha de fardos por entre a mata encobridora. Dez, quinze, vinte nativos dos que só entendem a língua geral, passavam com suas cargas, pisando no silêncio como num tapete. Para maior surpresa, fechava o desfile a madona Zoraida Ayram.

“Pegá-la! Sequestrá-la! Impedir a viagem!”. Assim cochichávamos, vendo-a fundir-se na escuridão. Sem tempo de lançar mão das carabinas, ocultas desde nossa chegada, corremos ao tambo da mulher. A lamparina de encandear morcegos batia como uma víscera. A bagagem, intacta. A rede, ainda morna, estava repleta de mantas e almofadas, para simular sob o mosquiteiro um corpo adormecido; aqui as chinelas de pele de tigre; ali a guimba do último cigarro, fumegando ainda no canto. Esses detalhes nos permitiam respirar com sossego. A madona não havia saído para escapar. Mas devíamos vigiar.

Na noite seguinte demos começo a nossos planos: Franco e Helí, com tangas e fardos ao ombro, entraram nus na fila dos carregadores, para conhecer a rota do incógnito porto e espreitar as manobras dos aborígenes. Enquanto isso, Ramiro entreteve o Váquiro em seu caney e eu passei a noite com Zoraida. Sobreveio uma imprevisão adversa ou propícia: os cães, vendo-se sós, tomaram o rastro de meus companheiros e encontraram sua antiga dona, que, ardilosamente, levou-os consigo, sem dizer palavra.

—Se não fosse pelos cachorros —declarava-me Franco ao amanhecer— eu não a teria reconhecido. Tão espectral, tão anêmica, tão consumida! Grave erro cometemos ao desertar dos indígenas quando divisamos as luzes do barco. Afastados da fila, na escuridão, observamos a curta distância o que se passava. Mas, se tivessem descoberto nossa presença, nos teriam assassinado. A pobre mulher, erguendo uma luz, olhava angustiosa para todos os lados; e logo desatracaram e se foram.

—Que desgraça! Corremos o perigo de que já não volte!

Então o Catire afirmou:

—Desenterradas nossas carabinas e a pretexto de sair a cauchar, rondaremos estas lagoas desde hoje. Coisa fácil é achar o covil do bongo. Se a niña Griselda está com os cães, bastará assobiá-los.

Faz cinco dias que se acham ausentes, e a incerteza me enlouquece!

* * *

A madona está cavilosa. Seu disfarce é incompatível com minha paciência. Às vezes quis reduzi-la com ameaças, falar-lhe de Barrera e dos enganchados, obrigá-la a revelar tudo. Outras vezes, desligado da esperança, tento resignar-me aos caprichos do destino, à fatalidade dos acontecimentos sobrevivos, dando-lhes as costas, para senti-los chegar sem empalidecer.

Em quem esperar? No ancião Silva? Deus saberá se tal curiara terá perecido! Decerto, se baixam até Manaus, nosso cônsul, ao ler minha carta, replicará que seu valimento e jurisdição não alcançam estas latitudes, ou, o que é o mesmo, que não é colombiano senão para contados lugares do país. Talvez, ao escutar o relato de dom Clemente, estenda sobre a mesa aquele mapa custoso, aparatoso, mentiroso e deficientíssimo que traçou a Oficina de Longitudes de Bogotá, e lhe responda, depois de prolixa indagação: “Aqui não figuram rios com esses nomes! Talvez pertençam à Venezuela. Dirija-se o senhor a Ciudad Bolívar”.

E, muito campante, continuará entrincheirado em sua estupidez, porque esta pobre pátria não a conhecem seus próprios filhos, nem sequer seus geógrafos.

Diante da madona, enquanto isso, é preciso viver alerta. Odiei sua idiossincrasia necessitada, que tem duas antenas, como os caranguejos: torpeza no amor e astúcia no lucro. Hoje, mais que isso, desassossega-me sua hipocrisia, apenas inferior à minha sagacidade. Mas seu habilidoso fingimento data de poucos dias.

Acaso, como pensa Ramiro, chegou-lhe algum aviso contra mim? Que será de Barrera, que do Petardo Lesmes e do Cayeno?

—Zoraida, quem dissesse que mudaste comigo teria razão.

—Alá! Como tu preferes as índias...

—Convencida demais deves estar do contrário... Teu desvio tem por causa aquele arrebatamento... E até me censuraste por não te pagar! Que testemunho posso aduzir como garantia de minha honradez? Só um homem, com quem tive negócios em épocas passadas e que reside neste deserto, poderia dar-te informes de minha retidão. Quando regressar a curiara que desceu a Manaus, irei procurá-lo em Yaguanarí, porque lhe devo vários contos. Chama-se Ba–rre–ra!

A madona mudou de postura no catrezinho e pestanejava abrindo os lábios.

—Narciso? Teu compatriota?

—Sim, que tem negócios com um tal Pezil. Sem me conhecer, fez-me a honra de enviar-me dinheiro ao alto Vaupés para que eu lhe enganchasse índios e peões. Mais tarde, recebi ordem de suspender aquela gestão porque ele mesmo pensava contratá-los em Casanare. Homem raro e empreendedor, de ideias audazes! Oferecia-me, à última hora, ceder-me a baixo preço quantos seringueiros lhe sobrassem. Sem reparar que eu já lhe devia as somas que me confiou! Irei vê-lo, devolvê-las e fazer um bom negócio, porque hoje se ganha muito com os caucheiros no Vaupés. Se pudesse, eu não negociaria em goma, mas em seringueiros.

Ao ouvir isso, a madona, pondo-me as palmas das mãos nos joelhos, fez a emocionante revelação:

—Os peões de Barrera não valem nada! Todos com fome, todos com peste! Ao longo do rio Guainía desembarcavam nas casas dos “caboclos”, a roubar quanto encontravam, a engolir o que podiam: galinhas, porcos, farinha crua, cascas de bananas. Tossindo como demônios, devorando como gafanhotos. Em alguns lugares era indispensável disparar tiros para obrigá-los a embarcar. Pezil subiu ao encontro deles até sua fundação em San Marcelino. Ali estavam enfermas várias colombianas e ele me deu uma a preço de custo.

—Como se chama?

—Não sei! Importa-te sabê-lo?

—Sim... Não... Se tivesse vindo falaria com ela, primeiro para pedir-lhe dados dessa gente, e, segundo, para encarecer-lhe absoluta reserva e circunspecção.

—Em que assunto? Por quê?

—Não darei minha confiança a quem me tira a sua.

—Dize-me! Dize-me! Quando tive segredos para ti?

Então abordei o problema de cheio:

—Zoraida, quero ser generoso com a mulher que me fez erótica dádiva de seu corpo. Mas em caso nenhum tolerarei que se comprometa, imprudentemente, confiada em mim. Zoraida, aqui todos sabem que de noite transportas a borracha dos depósitos de Cayeno para teu batelão.

—Mentira! Mentira de teus amigos, que não me querem!

—E que uma mulher chamada Griselda escreveu cartas a meus companheiros.

—Mentira! Mentira!

—E que avisaram ao Cayeno o que está acontecendo.

—Teus amigos! Nisso andam! Tu permitiste!

—E que alguns seringueiros encontraram o esconderijo de teu barco pirata!

—Alá! Que faço? Roubam-me tudo!

Então eu, esquivo à mão que me implorava, saí do tambo repetindo com sardônica displicência:

—Mentira! Mentira!

* * *

Acabo de ver o Váquiro, estendido em sua rede do caney, onde o consome uma febre alcoólica. Ao redor, denunciando o suborno da turca, há garrafaria desocupada, cujos cestos ainda despedem o cheiro de breu, peculiar dos barcos recém-chegados. Ramiro Estévanez, que deve à condescendência do capataz seu atual descanso, suspeitou das repentinas intimidades do casal, que se encerrava a sós no depósito a trocar palavras de mel: “Minha senhora!”, “Meu general!”. Por ordem deste veio chamar-me, advertido do desgosto com que todos veem o desaparecimento de meus companheiros. O Váquiro, baboso e sonolento, parecia cochilar com soluço anelante, sem admitir outro remédio que a cachaça.

—Não o deixes beber —disse a Ramiro— porque arrebenta.

E o enfermo, cravando em mim seus olhinhos idiotizados, respondeu-me:

—Nada lhe importa! Basta de abusos! Basta de abusos!

—Meu general, respeitosamente peço permissão para explicar-lhe...

—Entregue-se preso! Ou me apresenta seus companheiros, ou fica preso!

Então Zoraida confessou a Estévanez que o Petardo Lesmes chegaria com o Cayeno em hora imprevista, e que pesavam sobre nós não sei que suspeitas.

—Como quais? —respondi com repouso fingido—. É que o Petardo me calunia por minha adesão ao general Vácares? Pois se assim for, venham sobre mim as calamidades, porque tenho a coragem de reconhecer o mérito alheio e seguirei proclamando que o homem de espada está sempre acima dos demais. Aqui e onde quer que seja!

O Váquiro disse, levantando-se do chinchorro:

—Isso sim é verdade!

—Sim é —acrescentei—, porque se meus amigos comunicaram minhas ideias a vários peões e estes induzem que conspiro contra o Cayeno, a culpa não está no que bem se diz, mas no que mal se entende. Se é porque despachei meus camaradas a trabalhar na quadrilha que escolhessem, pelo pudor de vê-los ociosos, pelo desejo de corresponder de alguma forma à proteção generosa de quem me hospeda, por compensar com algum esforço o descanso que o general concedeu a Ramiro Estévanez, castigue-se em mim a omissão de não haver pedido licença prévia a quem a concede, se alguma vez a delicadeza precisou de autorização para manifestar-se.

—Isso sim é verdade!

—Se é porque tu, Zoraida, andas repetindo que jamais estive em Manaus, segundo deduziste de minhas respostas a tuas perguntas sobre edifícios, praças, bancos e ruas, enredas-te em tua desconfiança, porque nunca disse que conheci essa capital. Para ser cliente da Casa Rosas não é indispensável passar o umbral de seus armazéns; ao menos eu não precisei de tal requisito. Devo ao cônsul de meu país a honra de ser afiliado a tão rica firma. Ao cônsul, ouves? Ao cônsul, que nesta data sulca o Rio Negro e vem corrigir com sua autoridade não sei que desmandos, como me anuncia na última carta que recebi.

A madona e o Váquiro repetiram em dueto:

—O cônsul! O cônsul!

—Sim, o cônsul, amigo meu, que ao saber de minha viagem a San Fernando del Atabapo me recomendou tomar, com sigilo, informes dos abusos e assassinatos que em terras colombianas cometeu Funes!

Assim disse, e quando saí fazendo campearem meu falso orgulho de homem influente, o Váquiro e a madona não cessavam de balbuciar:

—O cônsul! E são amigos!

* * *

—Poderia dizer-me vosmecê —rogava-me o Váquiro— se nestas coisas do índio Funes haverá de resultar-me alguma complicação?

—Mas acaso meu general tomou parte ativa na noite aziaga?...

—Obrigado! Obrigado!

E a madona nos interrompia:

—O senhor cônsul poderia ajudar-me a cobrar meus créditos? Já vês, o Cayeno nega a dívida e foi-se do tambo para não me pagar. Descreve-me em teu livro de contas.

—Acaso a borracha que tiraste dos depósitos...

—É um “sernambí” de péssima classe. Por fora, o bolão duro e polido; por dentro, areias, trapo e lixo. Perdi o transporte dessa goma porque não resistiu à prova: ao pô-la na água, afundava. Se o cônsul escutasse minhas queixas...

—Haveria que ir onde ele está.

—E se ele não veio...

—Vem, vem, e chegou a Yaguanarí. Essa mulher chamada Griselda diz em suas cartas não sei quantas coisas. É preciso interrogá-la.

—Tenho receios dela. É de maus fígados. Entre ela e a “outra” cortaram a cara do pobre Barrera.

—Do pobre Barrera!

—Por isso não lhe permito andar comigo.

—Convém interrogá-la imediatamente.

—Tu te atreverias?

—Sim!

E a niña Griselda veio.

* * *

Jamais na vida voltarei a sentir tão asfixiante expectativa como a que embargou meu ânimo naquela tarde, ao escurecer, quando a madona Zoraida Ayram pendurou sua lanterna na porta do quarto que domina o rio. Era o sinal. Sobre a linfa trêmula do Isana corriam os reflexos, ordenando a chegada do batelão, em cuja proa se aprontariam os tripulantes para a meia-noite.

Com certeza não posso dizer em que momento convenci a madona de que devíamos fugir juntos. Meu cérebro ardia mais que a lâmpada do dintel, fulgia como o farol que convida as naves a entrar no porto. Uma frase, uma só frase zumbia frenética em meus ouvidos, projetando em meus olhos imagens lúcidas. “Entre ela e a outra cortaram a cara do pobre Barrera.” A outra, a outra, quem podia ser? E por que motivo? Por ciúmes, por vingança, para escapar? Alicia, era Alicia? Qual das duas se antecipara com mão débil a marcar o traço mortífero que meu rancor másculo devia alargar? E enquanto a agitação me acabrunhava, dançava diante de minhas retinas a careta de um rosto ferido, que não era rosto nem era careta, mas a mandíbula de Millán, partida pelo golpe da chifrada, que ria injuriosamente, com riso enigmático e doloroso como o de Barrera, como o de Barrera!

Bebi, bebi, bebi e não me embriaguei! Meus nervos resistiam à ação maléfica do álcool. Arrebatava a taça ao Váquiro e, ao esgotá-la, via que o lampião emprestava ao vidro tonalidades lívidas de punhal. Impaciente pela demora do bongo, ia do tambo ao rio e espreitava no céu claro a hora da meia-noite, vendo viajar a estrela tardia, calculando sua chegada ao zênite. Seguia-me por toda parte o Váquiro cambaleante, acossando-me com mexericos e perguntas:

Entregou à madona a borracha dos depósitos por saber que eu responderia por seu valor.

—“Muito bem, muito bem!”.

Ela instigara Petardo Lesmes a montar resguardo no rápido de Santa Bárbara para que detivesse a embarcação de Clemente Silva: mas a curiara passou!

—“Verdade, verdade?”.

Se o Cayeno notasse as faltas na borracha do armazém, indicaria Zoraida como ladra.

—“Muito bem, muito bem!”.

Eu havia suspeitado que a madona tentava fugir? Pois poria guarnições para fechar o rio, a menos que o cônsul pensasse subir até o Guaracú e eu garantisse que ele não tentaria...

“Fique tranquilo, que só vem recolher informes para estrangular o tirano Funes.”

Por que o Petardo Lesmes lhes avisava que exibiria testemunhos de que não éramos seringueiros, mas bandidos?

“Calúnias, calúnias! Somos amigos do senhor cônsul, e isso basta!”.

—Zoraida, Zoraida —dizia-lhe eu, afastando-me do bêbado—, quando meus camaradas regressarem, abandonaremos este presídio!

E ela insistia:

—Mas de verdade não os mandaste indispor-me com o Cayeno? Tu me queres, me queres?

—Sim, sim!

E, pegando-a pelos braços, apertava-a nervoso, até fazê-la gritar, e a olhava com olhos alucinados, e a figura da mulher se apagava de minha presença, restando apenas um pano sangrento sobre o busto lascivo que a têmpora de Luciano Silva empapou de cálida púrpura.

A noite era azul e os barracões estavam desertos. Ramiro Estévanez, que não se apartava da margem, veio avisar que pelo rio desciam ramos. O batelão devia achar-se acima, no atracadouro desconhecido, enviando sinais.

Ao ouvir esta nova, operou-se em mim um fenômeno orgânico: minhas plantas esfriavam, minhas pulsações se moderaram e comecei a sentir um vago repouso que me enchia de indolência, apesar da febre súbita que emprestava à minha pele ardores de brasa. Emocionar-me eu porque uma aventureira chegava ao tambo? Já não tinha interesse em vê-la, nem em saber de ninguém! Se queria proteção, que me procurasse! E embucei-me num desdém irônico!

—Não me convides ao porto, Zoraida, porque não vou! Se ainda insistes em que eu interrogue tua serva, há de ser a sós e nesse caney!

Minutos mais tarde, quando adverti que as duas mulheres chegavam, quis mover-me para velar a chama do lampião. Dei alguns passos, e o pé direito me resistia: um leve formigamento, uma espécie de paralisia cócega me estremeceu. Lentamente avancei, sem sentir o chão, como se pisasse algodões. A niña Griselda correu a abraçar-me! Rechaçando-a com o gesto, disse-lhe secamente diante da madona:

—Saúde!

* * *

Hoje escrevo estas páginas no Rio Negro, rio sugestivo que os naturais chamam Guainía. Desde há três semanas, no batelão da turca, fugimos dos barracões do Guaracú. Sobre a crista destas ondas retintas que nos vão acercando de Yaguanarí, diante destas margens, que viram descer meus compatriotas escravizados, sobre estes redemoinhos que venceu a curiara de Clemente Silva, faço memória dos acontecimentos aterradores que antecederam a fuga, inconformado com meu destino, que me obrigou a deixar um rastro de sangue.

Aqui vai a niña Griselda, de saborosa palavra e espírito enérgico, cujo rosto desgastado pela dor aprendeu a sorrir entre lágrimas. Carinho e coragem infunde-me ao mesmo tempo esta desgraçada, que não se imuta diante do perigo e soube desarmar minha cólera estúpida na noite em que nos encontramos, frente a frente, sós no caney da madona.

—Saúde! —repeti— fazendo menção de sair do quarto.

—Espera, desconhecido. Aqui me trouxeram pra prosear contigo!

—Comigo? De quê? Vem a senhora contar-me como lhe foi?

—O mesmo que a ti. Danadinha, mas contente!

—E seu negócio? Como vai a assistência das peonadas? A quanto tem massa fresca?

—Pra ti não tenho, porque não fio. Mas como te vejo a necessidade, vem e acertamos.

Comovido ao vê-la tapar o rosto com o lenço, perguntei-lhe:

—Ensinou-te a chorar o “menino” Barrera?

—Chorar? E por quê? É que desde o dia em que me deram um pescoção fiquei com mania de ficar me limpando.

Reprovando-me dessa sorte a brutal cena de La Maporita, tentou rir, mas, de repente, convulsionada pelos soluços, caiu a meus pés:

—Deixa de zombarias, olha que somos tão desgraçados!

Quase maquinalmente inclinei-me para levantá-la, com secreta satisfação de vê-la rendida. Sentia-me aniquilado diante daquela dor, mas meu orgulho ergueu-se como uma esfinge, e emudeci: perguntar por Alicia, averiguar seu paradeiro, demonstrar interesse em saber dela? Jamais! Contudo, creio que inconscientemente balbuciei alguma pergunta, porque Griselda, sorrindo entre o pranto, replicou:

—A qual delas te referes, à tua Clarita?

—Sim!

—Pois recebe meu pêsame mais sentido, porque agora a tem dom Funes. Barrera a deu em pagamento da licença pra transitar pelo Orinoco e pelo Casiquiare. De ver sua sorte, chorava a pobre, e nós também chorávamos, mas, metida numa canoa, sem lhe entregar nem a roupinha, nem o baulzinho, levaram-na pra San Fernando del Atabapo, com uma carta e alguns presentes.

—E a outra, a outra, qual foi a do corte?...

—Ah, descarrilado! Então afinal perguntas por ela! Confessa-me primeiro que a Clarita foi tua concubina quando estavas em Hato Grande. Pois nós soubemos de tudo!

—Nunca! Mas dize-me, aquele miserável...

—Pessoalmente nos levou essa história, e todas as noites mandava Mauco afligir a niña Alicia: que tu passavas enredado em rede com tal mulher, que a levavas pra Venezuela e não sei que mais! Diz, pois, se a outra teve razão em desesperar-se. Por isso veio! Por isso a trouxe comigo, porque eu também ficava ao vento! Fidel queria desenjugar-se! Tratava-me mal!...

—Advirto-te que não me importam essas fábulas! Cada qual merece seu destino! O que não aceito é que compliques Barrera nessa intriga, querendo fazer-te de inocente! E os passeios na curiara? E as entrevistas à meia-noite?

—Mas não eram pra nada mau! Tens razão em julgar-me assim, por eu ter brincado contigo! Esse foi meu pecado, mas a penitência foi mais grave! Eu precisava de alguma ajuda, e como a niña Alicia queria voltar pra sua casa de Bogotá com dom Rafael, sobreveio-me a tentação! Mas muito me pesa! Jamais, jamais faltei a Franco!

—Ah, se falasse o espectro do capitão!...

—Não me recordes dele! Pagou caro por atrevido! Pergunta a Fidel, se queres detalhes, mas não me recordes! Sofri tanto! Imagina o que foi pra mim estendê-lo arquejando ao pé de minha honra! E deixar que Fidel se jogasse em cima dele pra me salvar, pra me defender! E depois, o suplício de ver meu homem triste, desamorado, arrependido, deixando-me só em La Maporita dias e semanas pra não me olhar, pra não ter que me dar a mão, repetindo-me que desejava ir embora para longe, para outros países, onde ninguém soubesse o acontecido e não tivesse que estar de peão jogando a vida com as touradas. Nisso o tal Barrera se apresentou, e Franco me dava rédea ao entusiasmo, como querendo sair de mim, dizendo-me umas vezes que vínhamos, outras que ele ficava; até que Barrera, pra me obrigar a tomar outro caminho, cobrou-me os presentes que me havia dado, e eu não tinha com que pagar, e me ameaçava demandar o pobre Fidel! Essas eram as entrevistas! Isso é o que tu supões de mau!

—E quiseste saldar essa conta entregando a “niña” Alicia?

—Põe consciência no que dizes! Como vais me fazer essa acusação? Eu dei ao Barrera quanto era meu, anéis, brincos, e até quis vender minha máquina pra pagar-lhe! Depois de tudo, voltou a dizer-me que tu eras rico, que te pedisse dinheiro emprestado. A niña Alicia, que me ouvia chorar de noite, ofereceu-se para me ajudar falando com ele, pra conseguir que me abatesse ao menos o saldo. Nisso, tu me bateste e querias nos matar, e te foste para onde estava Clarita, e Barrera me foi advertir que não esperasse Franco, porque tu ias meter-lhe não sei quantos mexericos e ele podia me moer de pancada. E fugindo, ela de ti e eu de Fidel, viemos sozinhas para onde pudemos: buscar a vida no Vichada!

—O carinho e o vento sopram de qualquer lado.

—Fiz mal em te dizer isso. Como tu me agradavas e a niña Alicia queria regressar... Mas já vês que vento tão desumano, tão espantoso: caiu sobre todos e nos dispersou como lixo, longe de nossa terra e de nosso carinho.

A infeliz mulher começou a chorar e uma ternura transbordante inundou meu peito:

—Griselda, Griselda! Onde está Alicia?

—Depois da briga com Barrera, separaram-me dela e me venderam. Deve estar em Yaguanarí! Felizmente eu a ensinei a amarrar as saias, a saber portar-se. Não a desamparava em todo o caminho: se saíamos do bongo, saíamos juntas; se dormíamos na praia, uma contra a outra, bem tapadas com a coberta. Barrera estava chocado, mas sem atrever-se a ser abusivo. Uma noite, no bongo, destapou garrafa pra nos embebedar. Como nada recebíamos dele, mandou aos bogas que me tirassem aos empurrões, e lançou-se a forçar a niña Alicia; mas esta quebrou o fundo da garrafa contra a borda, e fez ao canalha, de um golpe, oito talhos em plena cara!

Quando a mulher acabou de falar, eu havia partido minhas unhas contra a mesa, acreditando que meus dedos eram punhais. Foi então que notei que minha mão direita estava insensível. Oito talhos! E com olhos flamejantes buscava o infame no quarto, para ultimá-lo, para mordê-lo, para mastigá-lo!

A niña Griselda me suplicava:

—Acalma-te, acalma-te! Vamos por ela a Yaguanarí. Essa é uma mulher honrada! Juro-te que não a compraram, porque não serve para os trabalhos, porque está prenha!

Ao ouvir isso, já não soube de mim. Como eco longínquo chegava a meus ouvidos a voz da patroa, que dizia:

—Vamos, vamos! Fidel e o Catire me encontraram esta manhã e estão no bongo! Todos reconciliados!

Indubitavelmente, dei gemidos alarmantes, porque apareceram no umbral Ramiro Estévanez e a madona.

—Que se passa? Que se passa?

E a niña Griselda, vendo-me afônico, repetia-lhes:

—Vamos embora! Vamos embora! Os bogas disseram que o Cayeno pode chegar!

Afanosa, Zoraida começou a arrumar os trastes, abrumando sua serva com ordens peremptórias de ama ranzinza. Ramiro, desconcertado, aproximou-se para tomar-me o pulso. As mulheres transitavam fazendo embrulhos, e logo a madona, sob seu grande chapéu, perguntou-me:

—Tens alguma coisa para levar?

Apontando dificilmente o livro aberto sobre a mesa, o livro desta história fútil e montesina, sobre cujos fólios treme minha mão, acertei a dizer:

—Isso! Isso!

E a niña Griselda o levou.

—Dize-me, conseguiste pôr em claro a conta que te pedi? Detalhaste bem para mostrá-la ao senhor cônsul? Já vês que Barrera ainda me deve, pois me enganou dando-me joias ordinárias. Entrega-me as somas que tens dele. Podias assinar-me uma obrigação! Que te disse a mulherzinha? Vamos, tenho medo!

E Ramiro advertiu, fazendo um sinal:

—O Váquiro está acordado no corredor!

Não acerto a descrever o que fui sentindo nesses instantes: parecia-me que estava morto e que estava vivo. Evidentemente, só a zona do coração e grande parte do lado esquerdo davam sinais de perfeita vitalidade; o demais não era meu, nem a perna, nem o braço, nem o pulso; era algo postiço, horrível, estorvoso, ao mesmo tempo ausente e presente, que me produzia um fastio único, como o que pode sentir a árvore que vê grudado em sua parte viva um ramo seco. Contudo, o cérebro cumpria admiravelmente suas faculdades. Refleti. Era alguma alucinação? Impossível! Os sintomas de outro sonho de catalepsia? Tampouco. Falava, falava, ouvia minha voz e era ouvido, mas me sentia semeado no chão, e por minha perna inchada, fofa e deformada, como as raízes de certas palmeiras, subia uma seiva quente, petrificante. Quis mover-me e a terra não me soltava. Um grito de espanto! Vacilei! Caí!

Ramiro exclamou, inclinando-se pressuroso:

—Deixa-te sangrar!

—Hemiplegia! Hemiplegia! —repetia-lhe desesperado.

—Não! O primeiro ataque de beribéri!

* * *

Toda a madrugada estive chorando, sem mais companhia que a de Ramiro, que, sentado à minha direita no chinchorro, não proferia palavra. O hálito fresquíssimo da aurora me restaurava o corpo e pela feridinha que a lanceta fez em meu braço escapou a febre. Provei caminhar e a perna torpe se atrasava, desnivelando-me, pois, em realidade volumosa, era em aparência menos pesada que uma pena. Agora sim compreendia por que alguns seringueiros, ao sofrerem os sintomas do beribéri, lutam enlouquecidos para amputar de um golpe de machadinha o tornozelo insensível, e correm, dessangrando-se, para o barracão, onde morrem comidos pela gangrena.

—Não permito que ninguém saia daqui —recalcava o Váquiro no caney próximo, onde altercava com a madona—. Embora esteja bêbado, dou-me conta do que se passa. Vosmecê me conhece!

—Ouves? —dizia Ramiro—. É aventurado pensar em fugas. Ao menos eu não o tentarei!

—Como! Pensas ficar aqui, onde a timidez te rebitou correntes?

—A timidez e a reflexão, isto é, o que tu não tens. E podes acrescentar estas outras causas: o fracasso, a decepção.

—Mas não te entusiasma a liberdade?

—Ela não me bastou para ser feliz. Voltar eu às cidades, alquebrado, pobre e enfermo? Quem deixou seus lares para conquistar a fortuna não deve tornar pedindo esmola. Por aqui ao menos ninguém conhece minhas vicissitudes, e a miséria toma aspectos de obrigatória renúncia. Vai, a vida nos amassou com substâncias dessemelhantes. Não podemos seguir o mesmo caminho. Se algum dia vires meus pais, cuida de lhes dizer onde estou. Caia o esquecimento sobre aquele que nunca pode esquecer!

Essas frases com que Ramiro se despedia da ilusão e da juventude nos fizeram chorar outra vez. Tudo pelo amor daquela Marina, cujo doce nome lhe escreveu o destino entre duas palavras: Sempre! Jamais!

* * *

—Por que discutem? —perguntei a Ramiro quando voltava ao amanhecer.

—Pela borracha dos depósitos. O Váquiro sustenta que faltam mais de cento e cinquenta arrobas, e afirma que lhe foram roubadas, porque as embarcaram sem sua vênia. A madona promete que tu responderás.

—Que faço, Ramiro?

—É uma terrível complicação.

—Aconselhemos a madona que a devolva e fugiremos. Ou então prendamos o Váquiro! Chama Fidel e Helí, que estão no bongo! Dize-lhes que tragam as carabinas!

—O bongo está encostado na margem oposta. Os que chegaram vieram em canoa.

—Que faço, Ramiro?

—Esperemos que o Váquiro durma a sesta.

—Mas irás comigo, não é? A seguir minha sorte! A nos encontrarmos no Brasil! Trabalharemos como peões, onde não nos conheçam nem persigam! Com Alicia e nossos amigos! Essa varona é boa e eu a perdi! Eu a salvarei! Não me censures este propósito, este anelo, esta decisão! Não tomes a mal que seja minha querida; hoje é apenas uma mãe à espera de seu próprio milagre. Tantos no mundo se resignam a conviver com uma mulher que não é a sonhada e, contudo, é a consentida, porque a maternidade a santificou! Pensa que Alicia não delinquiu; e que eu, despeitado, a denegri! Vem, sobre o cadáver de meu rival haverás de nos ver reconciliados! Vamos procurá-la em Yaguanarí. Ninguém a compra porque está grávida. Desde o ventre materno meu filho a ampara!

De repente, Ramiro, transtornado, exclamou, afastando-se:

—O Cayeno! O Cayeno!

* * *

Ainda me estremeço diante da visão daquele homem atarracado e louro, de calva rubicunda e bigodes flácidos, que, agarrando o General Vácares pelo pescoço, o derrubou sobre a poeira, urgindo que o pendurassem pelos pés e lhe pusessem fumaça sob o rosto.

—Rediabos! —repetia, marcando os erres—. Rediabos! Não mandei que montasses guarnições no raudal? Quem despachou canoa para o Brasil?

E enquanto os verdugos executavam o suplício, rugiu arrebatando da madona seu chapéu fresco:

—Cocote! Não te descobres? Que fazes aqui? Não te provei que nada te devo? Onde tens a borracha que me roubaste?

E como a madona me apontava, o gabacho aleivoso marchou contra mim:

—Bandido! Continuas me alvoroçando os seringueiros? Põe-te de pé! Onde se acham teus dois amigos?

Tentei levantar-me e resistir-lhe, mas a perna inchada me impediu. Então o homem, a pontapés e chicotadas, caiu sobre mim, chamando-me ladrão, chamando-me aliado do índio Funes, até deixar-me exânime no chão.

Quando me endireitei, coberto de sangue, senti que o Cayeno andava nos depósitos. Na ocasião, a antiga peonada invadiu o pátio, onde havia uma patrulha de índios prisioneiros, com os punhos verminados sob as cordas. Por entre eles zanzava o Petardo Lesmes, apressando os capatazes, que examinavam o rebanho recém-capturado para distribuí-lo entre suas quadrilhas. Surda algazarra enchia o âmbito, quando vi tirar do monte de homens, com as mãos atadas, o Pipa, o Pipa que vinha identificar-me de acordo com instruções do Petardo. Aproximou-se de mim e, firmando sobre meu peito seu pé imundo, gritou:

—Este é o espião de San Fernando!

—E tu, animal —replicou-lhe o caucheiro corpulentíssimo que o seguia—, és o Chispita de La Chorrera, aquele que tantas vezes me metia relho! Empresta-me as unhas pra examiná-las!

E, puxando-o com a correia, levava-o de rastro, entre as vaias dos seringueiros, até que, furibundo, decepou-lhe os braços com o facão, de um só golpe, e boleou no ar, qual cacho lívido e sanguinoso, o par de mãos arroxeadas. O Pipa, aturdido, levantou-se da poeira como se as procurasse, e agitava à altura da cabeça os cotos, que choviam sangue sobre o restolho, como pequenos repuxos de algum jardim bárbaro.

Apenas o Cayeno reapareceu, os barracões do Guaracú ficaram em silêncio.

—Colombiano! A me dizer onde está o bongo! A devolver-me a borracha escondida! A entregar-me teus companheiros!

E quando me meteram na canoa e cruzávamos o rio em direção ao batelão, vi pela última vez Ramiro Estévanez e a madona Zoraida Ayram, sobre a barranca do portinho, chorosos, trêmulos, espantados.

* * *

A niña Griselda, ao me ver contundido, adivinhou o que havia acontecido e saiu a receber-nos na borda. O Cayeno, apagando o cachimbo contra a sola do sapato, pareceu vacilar diante de repentina suspeita, porque ordenou aos bogas da curiara que costeassem o bongo. Os cães, iracundos, defendiam a ponte com grandes latidos.

—Mulher —irrompi—, acorrenta teus animais, que o senhor vem revistar essa embarcação.

—Explica ao amo que aqui não temos mais que a mercadoria. Toda a goma ficou tapada nos remansos. Se o amo quiser, vamos lá!

O Cayeno, de um salto, instalou-se na proa e mandou que desatracassem, mal consegui subir eu.

—Quanta gente têm aqui? Onde estão os outros velhacos?

—Meu amo, eu estou sozinha com os três índios: dois para os canaletes e o do leme.

O tirano gritou aos marinheiros da canoa:

—Upa! Voltem aos barracões para trazer carregadores!

Enquanto isso, o bongo seguia rio abaixo e a niña Griselda veio colocar-se diante do Cayeno, baralhando contritas explicações, para impedi-lo de reparar nos fardos de mercadoria. Ali estavam ocultos meus companheiros, mal tapados com um saco, sob cujas extremidades lhes saíam os pés. Pelo meu rosto corria um suor de morte. O Cayeno os viu e, armando o revólver, baixou até eles.

—Senhor! —balbuciei—. São dois rapazes que estão com febres!

O déspota inclinou-se para descobri-los e, súbito, Fidel lhe agarrou a arma com ambas as mãos, enquanto o Catire o segurava pela cintura. Saltei como pude para juntar-me a eles, mas o ex-presidiário, liso como um peixe, escapou-nos repentinamente, lançando-se ao rio. A niña Griselda ainda lhe alcançou dar na cabeça uma pancada de canalete. Sobre as bolhas que o fugitivo provocou na água caíram os cães. O Cayeno submergiu. Prontas, nas bordas, as carabinas espreitavam. “Aqui está, aqui está, preso ao leme!” Um, dois, dez disparos! O homem pôs-se a flutuar, fazendo-se de morto, enquanto se afastava dos fuzis, e depois os cachorros não podiam alcançá-lo. “Ali, ali, não o deixem tomar fôlego!” Remávamos no bongo furiosamente, e a cabeça desaparecia, rápida como pato mergulhador, para emergir em ponto impensado, e Martel e Dólar seguiam a rota na onda carmínea, uivando pressurosos atrás da presa, até que presenciamos sobre a costa o quadro crispante: um dos cães rebocava o cadáver pelo remanso, na ponta do intestino, que se desenrolava como uma fita longa e sinistra!

Assim morreu aquele estrangeiro, aquele invasor, que nos limites pátrios talou as selvas, matou os índios, escravizou meus compatriotas!

* * *

No domingo tocamos o vilarejo de San Joaquín, diante da boca do Vaupés, e nos permitiram desembarcar. Creem-nos empestados, veem-nos famintos, temem que lhes roubemos víveres e galinhas. Misturando o castelhano ao português, ordenou-nos o alcaide sair do porto, enquanto a gente agrupada na areia, velhos, mulheres, crianças, nos ameaçava brandindo espingardas, vassouras e paus.

—Colombianos não, colombianos não!

E lançavam maldições sobre Barrera, que lhes levou ao Rio Negro tão daninha praga.

E em San Gabriel, povoado edificado sobre a garganta por onde o rio gigante se precipita, tivemos de abandonar o bongo para não nos arriscar no raudal. O Prefeito Apostólico, Monsenhor Massa, acolheu-nos benevolamente e nos ofereceu a gasolina da Missão para seguir a Umarituba. Ele me deu a notícia que nos encheu de júbilo: dom Clemente baixou há tempos, e o cônsul da Colômbia subirá, no fim da semana, no vapor “Inca”, que faz o percurso entre Manaus e Santa Isabel.

* * *

Umarituba! Umarituba! João Castanheira Fontes, não contente em nos presentear com roupas, mosquiteiros e provisões, está equipando-nos uma canoa para a viagem a Yaguanarí. Na terça seguiremos pelo Rio Negro, radiantes de esperança, trêmulos de ansiedade. O beribéri deixou-me a perna adormecida, insensível, como de borracha. Mas a alma rebrilha em meus olhos, poderosos como uma chama. Eu não sei o que vai acontecer!

Hoje, água abaixo! Aqui está o solene morro cuja base lambe o rio Curí–Curiarí, o rio que Clemente Silva e os seringueiros procuraram quando andavam perdidos na floresta.

* * *

—Santa Isabel! Na agência dos vapores deixei uma carta para o cônsul. Nela invoco seus sentimentos humanitários em alívio de meus compatriotas, vítimas do saque e da escravidão, que gemem na selva, longe de lar e pátria, misturando ao suco da borracha seu próprio sangue. Nela me despeço do que fui, do que anelei, do que em outro ambiente pude haver sido. Tenho o pressentimento de que minha senda toca seu fim... e, como surdo zumbido de ramagens na tormenta, percebo a ameaça da voragem!

* * *

—Ânimo! Ânimo! Hoje chegaremos a Yaguanarí e remamos com todo músculo porque soubemos que meu rival sai para Barcelos. É possível que leve Alicia consigo.

Aqui o rio se divide em imensos braços, para estreitar melhor as ilhas incultas. Nessa península do lado direito, vê-se o caney dos empestados, detidos em quarentena. Por trás desemboca o Yurubaxi.

—Catire, algum capataz pode reconhecer-te. Toma meu revólver! Guarda-o na cintura.

Vamos chegar!

* * *

Isto escrevo aqui no barracão de Manuel Cardoso, onde virá procurar-nos dom Clemente Silva. Já livrei minha pátria do filho infame. Já não existe o enganchador. Matei-o! Matei-o!

Ainda me vejo saltando da curiara sobre o escueto pátio que precede o caney de Yaguanarí. Circundados por fogueiras medicinais, tossiam os empestados entre a fumaça, sem me dar razão de meu inimigo, por quem eu perguntava ansioso, antes que ele me visse. Naquele momento eu me havia esquecido de procurar Alicia. A niña Griselda a tinha abraçada ao pescoço. Eu me detive sem saudá-la: só queria olhar-lhe o ventre!

Não sei quem me disse que Barrera estava no banho, e corri inerme entre o capim até o rio Yurubaxi. Achava-se nu sobre uma tábua junto à margem, desprendendo as bandagens das feridas, diante de um espelho. Ao ver-me, arremessou-se sobre a roupa, para pegar a arma. Eu me interpus. E começou entre nós a luta tremenda, muda, titânica.

Aquele homem era forte e, embora minha estatura o avantajasse, derrubou-me. Esperneando, convulsos, arávamos a macega e o areal em nó apertado, trocando o alento de boca a boca, ele embaixo às vezes, outras por cima. Trançávamos os corpos como serpentes, nossos pés chapinhavam a margem, e voltávamos sobre a roupa, e rolávamos outra vez, até que eu, quase desmaiado, em supremo ímpeto, aumentei-lhe com meus dentes os talhos, ensanguentei-o e, raivosamente, mergulhei-o sob a linfa para asfixiá-lo como a um pinto.

Então, desconjuntado pela fadiga, presenciei o espetáculo mais terrível, mais pavoroso, mais detestável: milhões de caribes acudiram sobre o ferido, entre um tremor de barbatanas e cintilações, e embora ele bracejasse e se defendesse, descarnaram-no em um segundo, arrancando a polpa a cada mordida com a celeridade de ninhada faminta que tira grãos de uma espiga. Borbulhava a onda com fervor dantesco, sanguinosa, turva, trágica; e, tal como se vê sobre o negativo a armação do corpo radiografado, foi emergindo na móvel lâmina o esqueleto limpo, esbranquiçado, semiafundado por uma extremidade ao peso do crânio, e tremia contra os juncos da ribeira como num estertor de misericórdia!

Ali ficou, ali estava quando corri a buscar Alicia e, erguendo-a em meus braços, mostrei-lho!

Lívida, exânime, deitamo-la no fundo da curiara, com os sintomas do aborto.

* * *

Anteontem à noite, entre a miséria, a escuridão e o desamparo, nasceu o pequenino sietemesino. Sua primeira queixa, seu primeiro grito, seu primeiro pranto foram para as selvas inumanas. Viverá! Levá-lo-ei numa canoa por estes rios, em direção à minha terra, longe da dor e da escravidão, como o caucheiro do Putumayo, como Julio Sánchez!

* * *

Ontem aconteceu o que prevíamos: a lancha de Naranjal veio tirotear-nos, submeter-nos. Mas opusemos força à força. Amanhã voltará. Se viesse também a do cônsul!

Franco e Helí vigiam sobre a penha para impedir que encostem as “montarías” dos empestados. Lá escuto tossir a flotilha mendiga, que me clama ajuda, pretendendo alojar-se aqui. Impossível! Em outra circunstância eu me sacrificaria para aliviar meus conterrâneos. Hoje não! Perigaria a saúde de Alicia! Podem contagiar meu filho!

* * *

É impossível convencer estes importunos, que me apelidam de seu “redentor”. Falei com eles, expondo-me ao contágio, e estão resistentes a regressar. Já lhes repeti que não tenho víveres. Se me acossam, nos obrigariam a tomar o mato. Por que não vão ao caney de Yaguanarí à espera do vapor “Inca”? De hoje para amanhã arribará.

* * *

Sim, é melhor deixar este rancho e abrigar-nos na selva, dando tempo para que chegue o velho Silva. Improvisaremos algum refúgio a curta distância daqui, onde seja fácil a nosso amigo encontrar-nos e se consiga leite de seje para o menino.

Que preparem a padiola onde vá deitada a jovem mãe! Franco e Helí a levarão em peso. A niña Griselda portará a escassa ração. Eu marcharei à frente, com meu primogênito sob a ruana.

E Martel e Dólar, atrás!

* * *

Dom Clemente: Sentimos não esperá-lo no barracão de Manuel Cardoso, porque os empestados desembarcam. Aqui, desdobrado na barbacoa, deixo-lhe este livro, para que nele se inteire de nossa rota por meio do croqui, imaginado, que desenhei. Cuide muito desses manuscritos e ponha-os nas mãos do cônsul. São a nossa história, a desolada história dos caucheiros. Quanta página em branco, quanta coisa que não se disse!

* * *

Velho Silva: Situar-nos-emos a meia hora deste barracão, buscando a direção do caño Marié, pela trilha antiga. Caso encontremos dificuldades imprevistas, deixaremos em nosso rumo grandes fogueiras. Não tarde! Só temos víveres para seis dias! Lembre-se de Coutinho e de Souza Machado! Vamos, pois!

* * *

Em nome de Deus!

Epilogo

Epílogo

O último telegrama de nosso cônsul, dirigido ao senhor ministro e relacionado com a sorte de Arturo Cova e seus companheiros, diz textualmente:

Há cinco meses Clemente Silva os procura em vão.

Nem rastros deles.

A selva os devorou!

Vocabulario

Vocabulário

* Acochinar, acovardar.

* Afilar, engolir a isca.

* Alebrestado, mulherengo.

* Alertado, alertar.

* Astênico, débil, enfermiço.

* Arrimado, amante.

* Atajo, conjunto de animais.

* Atravesado, belicoso, furioso.

* Atravesarse, interpor-se.

* Bagre, certo peixe de água doce.

* Balatá, tipo de borracha.

* Banco, extensão plana de terreno.

* Belduque, pequeno punhal.

* Bongo, lanchão de madeira.

* Bongo, lanchão de madeira.

* Botalón, poste para domar animais.

* Botalón, poste para domar animais.

* Bufeo, golfinho de água doce.

* Bunde, certo baile sapateado.

* Burriar, abundar.

* Caboclo, colono.

* Cachaca, elegante.

* Cachiblanco, faca pequena.

* Cachicamo, tatu.

* Cacho, chifre.

* Cachones, touros adultos.

* Cambur, banana pequena muito doce.

* Canaguay, de plumagem dourada e esverdeada.

* Candongas, brincos, matagal.

* Caney, grande cobertizo.

* Caramero, paliçada.

* Caribe, certo peixe muito voraz.

* Caricari, espécie de falcão.

* Catire, louro.

* Cazabe, torta de farelo de mandioca brava.

* Caño, arroio, rio menor.

* Chanchira, farrapo.

* Chigüire, carpincho, capivara.

* Chinchorro, rede de cabuyas.

* Chingue, camisão de banho.

* Chirinola, confusão, arruaça.

* Chiros, andrajos.

* Chuchero, mascate.

* Chucherías, bugigangas.

* Chucho, mascatearia.

* Chuscal, vegetação de chusques.

* Chusque, espécie de bambu delgado.

* Chuzo (de), de embusteiro.

* Colear, derrubar a rês pela cauda.

* Conga, formiga venenosa.

* Consumir, submergir.

* Conuco, roça.

* Coquis, rapaz cozinheiro.

* Coroto, traste, bugiganga.

* Corrido, poema llanero.

* Coscojero, cavalo que morde o freio.

* Coyabra, vasilha de cabaça.

* Cumare, espécie de palma.

* Curare, veneno vegetal muito forte.

* Curiara, canoa.

* Embarbascado, extraviado.

* Embejucar, desorientar.

* Empajar, repreender.

* Empelotar, desnudar.

* Enramada, cobertizo.

* Ensoropado, muro de folhas de palma.

* Envainar, sucumbir.

* Espadilla, leme.

* Estero, terreno baixo e alagadiço.

* Fabrico, fábrica.

* Falca, grande canoa coberta.

* Fregancia, incômodo.

* Gabela, vantagem na aposta.

* Glosario.

* Guadua, espécie de bambu grosso.

* Guajibera, tribo de guahibos.

* Guando, padiola.

* Guapo, valente.

* Guaral, corda do anzol, cordel.

* Guaricha, mulherzuela.

* Guaricha, mulherzuela.

* Guate, homem do interior.

* Guayuco, tanga.

* Guina, malefício.

* Güío, enorme serpente aquática.

* Igarapé, riacho.

* Iraca, palmicha.

* Jagüey, buraco cheio de água.

* Jebe, borracha.

* Jedentina, fedentina.

* Jején, mosquito minúsculo.

* Joropo, baile llanero.

* Juerga, farra.

* Juerguear, farrear.

* Kerosén, petróleo.

* Lambón, mexeriqueiro.

* Lapa, paca, roedor.

* Llorado, canção llanera.

* Macetear, golpear com uma faca de pau.

* Macundales, trastes.

* Madrina, gado manso que guia o bravío.

* Manaca, palmito.

* Mapire, cesto de palma.

* Maraca, cabacinha cheia de pedras pequenas.

* Marma, marmita.

* Mata, ilhota de bosque na planície.

* Mañoco, farelo de mandioca torrado.

* Mañosear, tornar arisco, criar manha.

* Mecate, corda de fibra.

* Menestar, necessitar.

* Mirití, espécie de palma.

* Montaría, piroga.

* Morichal, lugar povoado de moriches.

* Moriche, espécie de palmeira.

* Morocha, espingarda de dois canos.

* Morrocota, moeda de ouro de vinte dólares.

* Motoso, de abundantes cachos.

* Mucharejo, rapaz.

* Mueco, pescoção.

* Mulengue, mula desprezível.

* Orejano, sem marca, que não tem as orelhas assinaladas.

* Otoba, certa árvore medicinal.

* Pajonal, vegetação de capim bravo.

* Palmicha, palma para cobrir e para tecer chapéus.

* Palmito, certa palma comestível.

* Palo a pique, cerca de troncos fincados.

* Parada, aposta.

* Paro (en), de uma vez.

* Patojo, pernicurto, manco.

* Pechugona, indelicada.

* Pelado, nu.

* Pensare, certa pasta resinosa.

* Pepito, gomoso.

* Peramán, espécie de resina.

* Percha, trapézio para pendurar coisas.

* Perraje, matilha.

* Petaca, certo baú de couro.

* Petriva, mulher, em dialeto guahibo.

* Piapoco, tucano.

* Pica, trilha.

* Picure, prófugo.

* Picurearse, fugir.

* Pirarucú, certo peixe.

* Pisco, indivíduo.

* Pollona, índia jovem.

* Puestear, espreitar.

* Punta, grupo de animais.

* Puntero, aquele que abre o desfile.

* Ramada, cobertizo.

* Rancho, casucha, choça.

* Rango, rocim.

* Rasgado, generoso.

* Rasgarse, morrer.

* Rastrillar, acender o fósforo.

* Raya, certo peixe.

* Rebuscarse, tentar fazer algo.

* Reinoso, homem do interior.

* Rejo, corda de couro torcido, chicote.

* Relance (de), à vista.

* Requemado, de cor vermelho-escura.

* Rodeo, rebanho.

* Rumbero, aquele que sabe orientar-se.

* Saca, mobilização de gados.

* Saquero, aquele que compra e mobiliza gados.

* Seje, certa palma.

* Sernambí, borracha de má qualidade.

* Siringa, certa borracha fina.

* Siringo, árvore de siringa.

* Soche, espécie de veado.

* Tabarí, certa árvore.

* Talanquera, cerca de guaduas horizontais.

* Tambo, espécie de caney.

* Tapara, cabaça.

* Terecay, espécie de tartaruga.

* Terronera, pavor.

* Tigelina, tigelinha metálica.

* Tiple, espécie de pequena guitarra.

* Tolima, Departamento da Colômbia.

* Topochera, bananal de topochos.

* Topocho, certo tipo de banana.

* Trambucar, naufragar.

* Trambuque, naufrágio.

* Tranquero, porta de trancas.

* Vacaje, conjunto de vacas.

* Vaina, incômodo, desgraça.

* Vaquía, destreza.

* Velorio, velório.

* Volada, façanha.

* Váquiro, porco-do-mato.

* Yopo, pó vegetal que embriaga alucinando.

* Yucuta, espécie de beberagem.

* Zambaje, conjunto de zambos.

* Zamuro, urubu.

* Zural, rede de valas naturais.

La vorágine

Sinopse

Clássico colombiano e latino-americano, La vorágine acompanha Arturo Cova na travessia dos llanos e da selva, expondo a violência da exploração do caucho e a força devoradora da natureza. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.

La vorágine

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