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Miragem

Capítulo 1 · Miragem

Primeira parte I

Primeira parte

Maio, em flor, findara entre lagrimas, A casa do Madruga, silenciosa e fechada, parecia entregue ao tempo e ás hervas que começavam a cobrir as muros. O jardim murchava á falta de rega e de trato e cabras errantes, atravessando a cerca de espinhos, andavam pelos canteiros, devastadoramente, roendo os brotos das roseiras, arrancando as mudas tenras. Porcos fossavam a terra descobrindo as raízes e os pequenos, de parceria com os animaes, assaltavam O' pomar devastando as arvores como uma praga.

A familia emigrara para o Paty, onde a viuva fora esconder a sua tristeza e o seu luto, não podendo supportar a saudade do marido ali, entre as arvores que elle plantara, esbarrando com os IO MIRAGEM objectos de que elle se servira. No dia seguinte ao do enterro, á luz bruxoleante da manhan brumosa, sahiu o pequeno grupo num carrejão coberto de palha e, desoladamente, com o agudo chiar das grandes rodas, ao passo grave dos bois, lá se foram os três — a viuva e os dois filhos :

Thadeu e Luiza.

Thadeu, homem feito, mas enfermiço' e fraco, sem vigor para o trabalho dos campos, vivia como caixeiro em uma venda no alto do Rio Bonito.

Luiza, sadia e graciosa, já púbere, de carnes exuberantes, collo rijo, lindas cores, amadurecia agarrada á mãi, bordando letras em lençarias, fazendo pannos de crochet 0'U correndo as terras de casa, descalça, os cabelos soltos, á cata de frutos silvestres.

O morto, bello typo de homem, nascido para mourejar, plethorico, de constituição formidável e primitiva de colosso, soberbos músculos, saúde de ferro, vivera em luta constante pela vida.

Corria a tudo, de tudo entendia. Ás vezes viamno passar carreando, vara ao hombro, descalço, amplo chapéu de palha á cabeça, o casaco pendurado num fueiro do carro. Diziam-lhe graças, respondia, sempre de bom humor: «Cá se vai!»

E gritava, afalava á junta em voz cheia e reboante. Outras vezes apparecia tangendo tropas de muares, vendia-os, trocava-os, sempre alegre e á boca pequena dizia-se que elle comprava clandestinamente o c afé que os negros roubavam ás tuMIRAGEM I I lhas das fazendas. Se lhe falavam nisso, dava de hombros, arregalando os olhos:

— Homem, olhem que é negocio! Achasse-o eu ... !

E escancellava a boca em cachinada estrorir dosa. E os outros riam com elle.

Era um solido másculo, de alma ingénua e meiga. Português, do Ribatejo, criado na lezíria, amava o campo. A sua mesa era abundante. Havia sempre um quinto^ ao torno e a dispensa regorgitava como um celleiro, porque para elle a vida «era o que se comia e bebia.» A familia, se não ostentava, apparecia sem miséria em toda a parte. As festas da Rosário e da Conceição, Luizia concorria com a sua prenda e, uma ou outra vez. alumiaram os altares cirios oblativos da familia Fogaça, que o homem era de muita crença e valia-se dos santos para todos os fins : para que os milhos crescessem, para que não lhe viesse o miai do fígado, pela saúde da mulher, pela asthma do filho, pelo' noivado da filha de que já se falava, coiTendo que certO: Manoel do Carmo, de Ferreiros, andava a corresponder-se com ella, mysteriosa mente, pelo Vassourense.

O filho era o sentimento do velho : sempre doentio e magro. Vinham-lhe, ás vezes, accessos de febre, anciãs, e ficava de cama semanas e semanas. Sempre que falava delle contrahia-se-lhe o rosto e, sacudindo a cabeça, cheio de desesperança e d e magua, resmungava:

— Não vai long-e ! E tinha por elle misericórdias de a ffecto, fechava os olhos a muita coisa. Pobre rapaz! É um coitado! Que se ha de fazer? deixal-o. Ha de ser o que Deus quizer.

A mãi, mais rispida, revoltava-se :

— É um preguiçoso, um mollenga, um vadio !

E, se Manoel Fogaça acenava-lhe que deixasse, agourava rezinguenta :

— Que elle havia de da:r o pago, o marmanjo.

Metade do que elle dizia era manha. Fosse-lhe atraz das lamurias e havia de vêr...

Uma tarde achava-se o velho no jardim, de camisa de meia e tamancos, regando os canteiros, quando o filho appareceu á cancella, sacudido por uma tosse rouca. Fogaça voltoií-se e logo, alarmado, exclamou :

— Que é isso ? ! Já ahi vens deitando a alma I>ela boca. Thadeu encolheu os hombros e entrou devagar, cançado, dizendo o que, até então, tentara occultar: «Noites em claro, com o peito ardendo em fogo e aquella tosse horrivel que lhe rebentava os poilmÕes em sangue. De manhan estava que nem podia e tinha de ir para o balcão, de servir aos freguezes carreg'ando pesos.»

Fogaça ouviu-o calado, por vezes caramunhando, d'olhos húmidos. Por fim tomou-lhe o pulso e, enca/rado nelle, disse baixinho : — Estás quente, rapaz. Estás com febre. Entra. Vai dçitar-te. Não fi<jues aqui ao relento. Vendo, porém, que O' filho hesitava, com olhares á casa, já alumiada:

— Medo da velJia, hein? e sorriu. Deixa-a lá.

Estás doente, que diabo!... Quem sabe se has de ir para a Misericórdia se tens a casa de teus pais. Era o que faltava... Trata-te e depois...

Maria Augusta ao \^cr o filho, estacou de mãos nas cadeiras, clhos carregados, balançando ameaçadoramente bo usto :

— Deixa-o, mulher. Não augmentes a afflicção ao afflicto. Está a arder em febre. Basta vêr-lhe a cara. E lá o foi conduzindo, enxugando-lhe a testa com o seu grande lenço vermelho.

E interrogava-o : N ão tens fome ? Pois é preciso comer e ter cuidado comtigo — nada de humidade: É d eitar a horas, acordar cedo, apanhar sol nesse corpo e deixar andar o barco. Has de tomar geito. És moçO', que diabo!... Na tua idade a natureza ajuda. Com uns chás, boas sopas e regimen isso vai-se embora e ficas ahi um turuna, has de vêr.

Com a filha era impertinente, rispido. Não raro. bradava em rebentinas :

— Que não queria derretimentos. Visse bem !

Desancava a páu o primeiro patife que lhe rondasse a porta! Desancava-o e a ella também.

Luiza refugiava-se, chorando, junto de Maria Augusta. , S obrevinham rusgas :

— Que a pobresinha era quem pagava as favas, só p orque era mulher. O outro, o^ maricas, lá estava repimpado na cama, comendo e bebendo á tripa forra. Esse podia fazer o que quizesse.

Era só chegar com a manha e encontrava carinho e d esvelo. Para a coitada eram só palavrões c maus modos. Isso não. Tão filhO' era um como outro.

Manuel Fogaça, quando via a mulher abespinhada, lo'nge de lhe dar troco, punha-se a rir es-, trondosamente, com o que mais a enfurecia. /

— Ai, a ira ! Não te damnes, filha. Olha que; assim nascem-te os cabellinhos brancos e vaose-te os dentes antes do^ tem.po.

E sahia para o jardim on estirava-se no sofá, de perna alçada, tamborilando na palha do encosto, a t rautear cm tom de mofa, piscando o olho ].r€£c'rO'. A filha intervinha então, fingindo amuos: <Qre era ass"m mesmo. Papai é todo dengues para Désinho, e para mim é o que se vê: má cara e pitos a toda a hora».

— É c'.:e fazes por isso, dizia placidamente.

Vê lá se me liT.zem queixas delle? Já alguém o viu debruçado a cercas conversando com raparigas? Quem se gaba de lhe ter visto os dentes?

Ninguém! Gente de bem quer-se assim... E moças então! Ollia que não é por trazer o rosto muito descoberto que se ganha fama de virtude.

Quem se recata não se queima ao sol, já diziam os meus.

Luiza avançava colérica:

— E que é que dizem de mim? que namoro?

É essa sucia de nãO' sei que... Cambada de aduladores! De s orte que a gente não pôde chegar á porta para vêr quem passa que não digam logo que está namorando?

E impetuosa, fechando o punho, esmurrando D ar : Pois namoro ! Não é da conta de ninguém. >íamóro mesmo, ora ahi está!

Chorava, murmurando, por entre soluçois, cont-a os intrigantes:

— Que olhassem para as suas casas, não fariam pouco. Ella não era a única moça d' ali; outras havia que até passeiavam de braço com os rapazes e na igreja, ao domingo, ajoelhavam-se junto delles para conversar. Dessas ninguém falava. O m acaco não olha para o seu rabo. Sucia !

As lutas domesticas rematavam-se quasi sempre em frente do baralho — á bisca de quatro :

Fogaça e a filha, Thadeu e Maria Augusta. E novas discussões travavam-se entre os parceiros

— porque um não fizera signal do az ou do rei e, quando succedia ser ralada a sete era uma algazarra que se ouvia á distancia: ria um par, outro bramava em fúria. Se era Fogaça quem ralava tremiam os moveis, taes eram os saltos que dava pela sala para fazer gana á mulher, bailava com as duas cartas na mão, esfregando-a§. «Cá tstá, raladinha da silva!»

Maria Augusta revoltava-se contra o filho:

Que nem para aquillo prestava... Pois se já estava a c ochilar, o pamonha. l6 MIRAGEM

— Qual cochilo, senhora, tornava Fogaça ; é que aqui joga-se ! Queixa-te ao bispo ! E ria com ambas as mãos no ventre. Maria Augusta repellia as cartas: «Que não queria mais saber de jogo» e levantava-se resmungando. Instada, porém, tornava á mesa com avisos ao filho :

— Que se estava disposto muita que bem, se-| não, que se fosse deitar, porque ninguém o que-/ ria ali para vêr-lhe o céu da boca.

E recomeçavam.

Aos domingos sabiam cedo para a missa. Fo^ gaça vestia a andaina de panno, calçava sapatos e atava uma gravata. Maria Augusta, em grandes saias, carregada de ouro antigo, e Luiza, vestida singelamente, o ar recolhido de commungante, o livrinho entre as mãos cruzadas sobre o collo farto de mulher precoce.

Na igreja. Fogaça deixava a familia e ficava no adro conversando; só entrava quando^ tocavam a «Sanctus». Ajoelhava-se a um canto, benzia-se e inclinava a cabeça sobre o largo peito onde a camisa fofa espocava, com um grande botão de ouro no papo.

A porta, finda a cerimonia, apartavam-se — as mulheres recolhiam-se á casa, elle subia ao Rio Bonito para abençoar o filho. Encostava-se ao balcãO', bebia um trago e conversavam. Despedia-se por fim e descia, com ligeiras paradas aqui, ali, indagando de uns, mandando lembranças a outros, cumprimento aqui, graçola adiante; e tomava o caminho de casa vagarosamente. Almoçava, dormia um somno e o resto do dia dedicava ao jardim e ao poleiro, onde vários gallos terríveis preparavam-se para as rinhas, no sitio do Correia, para as bandas de Massambará.

Miragem

Sinopse

Leia gratuitamente Miragem, de Coelho Neto, romance brasileiro em domínio público publicado em 1921, organizado para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/Internet Archive, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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