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O Desertor

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O Desertor

Capítulo 3 · O Desertor

Canto II

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CANTO II Com largo passo longe do Mondego Alegre a forte gente caminhava. Gonçalo excede a todos na estatura, Na força, no valor e na destreza. Sobre um magro jumento se escarrancha Tiburcio, e já d'um ramo de salgueiro Desata ao norte fresco, que assobia, Por vistoso estandarte um lenço pardo. Cosme infeliz e sempre namorado Sem ser correspondido, vai^audoso; Ama e não sabe a quem : vive penando, E se consola só porque imagina Que tem de conseguir melhor ventura. Rodrigo, que de todos desconfia, E de indole grosseira e gênio bruto, Não conhece os perigos, nem os teme : Melancólico sempre, vai por gosto Viver na choça, aonde foi creado. Qual o tatu, que o destro Americano,(18) Vivo prendeo e em vão depois se cança Por faze-lo doméstico, que sempre Temeroso nas conchas se recolhe E parece fugir á luz do dia. Também vinha Bertoldo, e traz comsigo Carunchosos papeis por onde affirma Vir do septimo rei dos Longobardos (19). Grita contra as riquezas ; a fortuna, Segundo o que elle diz, não muda o sangue : Piza com força o chão, e empavezado De acções, que elle não pôde chamar suas, Aos outros trata com feroz desprezo. Iracundo Gaspar, que te enfureces No jogo e quando perdes não duvidas Metter a mão á ferrugenta espada, Tu não ficaste : as noites sobre os livros Não queres supportar, porque não temes Da já viuva mãi as froxas iras. Nem tu Alberto alegre, e desejado Nas vistosas funções das romarias, Que és vivo, prompto e ágil, e nos bailes Tens fama de engraçado, e gargantêas Co'a a viola na mão trocando as pernas. Os que aprendem o nome dos auctores, Os que lêm só o prólogo dos livros, E aquelles, cujo somno não perturba O concavo metal, que as horas conta, Seguirão as bandeiras da ignorância Nos incríveis trabalhos d'esta empreza. 0 so.1 já sobre os campos de Amphitrite Inclina o carro, e as nuvens carregadas Importunos chuveiros ameação; Quando a velha estalagem os recebe. Meza de tosco pinho se povoa De negras azeitonas, e salgado Queijo que estima a gente que mais bebe. D'um lado e d'outro lado se levantão Picheis e copos, em que o vinho abunda. Corriâo para aqui desafiados Rodrigo o triste, e o glotão Tiburcio. Este instante fatal é que decide Da dúbia soíte dos heróes cobrindo Um de eterna vergonha, outro de gloria. A feia noite, que aborrece as luzes, Dosce dos altos montes com mais pressa Por ver este combate, e affugentada Pela sombria luz d'uma candêa De longe observa o novo desafio. Um e outro occupando as mãos e a boca Avidamente a devorar começa. Assim esse animal grosseiro e pingue, Que de alpestres bolótas se sustenta, A' pressa come, e tendo uma nos dentes, Noutra tem o desejo e n; outra a vista. Rodrigo quasi certo da victoria Co' as mãos ambas levanta um grande copo, Copo digno de Alcides, e á saúde De todos os famosos desertores De uma vez o esgotou: então Tiburcio Cheio de nobre ardor, fechando os olhos Toma um largo pichei e assim lhe falia : « Vasilha da minha alma, tu que guardas A alegria dos homens no teu seio, E tu filho da cepa generoso, Se estimas e recebes os meus votos, 2. Derrama sobre mim os teus encantos! » Já linha dito muito : e em quanto.bebe Voa a cega discórdia, que se nutre De sangue e de vingança, e sobre os copos Três vezes sacodio as negras azas. Vião-se já nos lividos semblantes A raiva sanguinosa, a má tristeza. A noite, a quem o acaso favorece, Estende a fusca mão e a luz abafa. Veloz passa o furor de peito em peito, Perturba os corações e inspira o ódio. Só tu Gonçalo descrever podéras Os terríveis estragos d'esta noite, Tu, que posto debaixo d'uma banca, Por não manchar as mãos no sangue amigo, Sentiste pela casa e pelos ares Rolar os pratos e tinir os copos. Range os dentes Gaspar, e pelo escuro Não acerta co' a espada, nem co' a porta : Quando Ambrosio, que tinha envelhecido Da estalagem na misera officina Co' a candêa na mão assim fallava: « E crivei, que entre vós já mais se encontre Um gênio dócil, serio e moderado? Isto deveis ás letras? respondei-me, Ou insultai também os meus cabellos Da triste e longa idade embranquecidos. Julgais acaso, que o saber se infunde Deixando o vosso nome assignalado Pelos muros e portas da estai agem? O' néscia mocidade! E necessário Muito tempo soffrer, gastando a vista Na continua lição e sobre os livros Passar do frio inverno as longas noites'. E quando já tivesseis conseguido De tão bella carreira os dignos prêmios; Muito pouco sabeis, se inda vos falta Essa grande arte de viver no mundo; Essa, que em todo o estado nos ensina A ter moderação, honra e prudência. Eu também já na flor da mocidade Varri co' a minha capa o pó da salla : Eu também fui do rancho da carqueja (20), Digno de fama e digno de castigo, Era então como vós. Já mais os livros Me deverão cuidado, e me alegrava Das nocturnas emprezas, dos distúrbios : Os dias se passavão quasi inteiros Nos jogos, nos passeios, nas intrigas, Que fomentão os ódios e as vinganças. Por isso estou no seio da miséria : Por isso arrasto uma infeliz velhice Sem honra, sem proveito, sem abrigo. Tempo feliz da alegre mocidade! Hoje encurvado sobre a sepultura Eu choro em vão de vos haver perdido! » Assim suspira, geme e continua : « Conservai sempre firme na memória D'um velho desgraçado o triste exemplo, E apprendei a ser bons, que a vossa idade As indignas acções,não justifica. Mas se vós desprezais os meus conselhos, Nunca gozeis o prêmio dos estudos : Afflicções e trabalhos vos opprimão, Em quanto o mar das índias vos espera. » Então Gaspar tomando o caso em brio Acceso de ira com valor responde, Traça o capote, e tira pela espada. 0 velho grita e foge : ás suas vozes De rústicos um povo se enfurece, E toma as armas e bradando avança. Qual nos irrtmensos e profundos mares O voraz tubarão entre o cardume De argentadas sardinhas : ellas fogem, Deixão o campo e nada lhe resiste: Assim Gonçalo, a quem já todos temem, Faz espalhar a turba, que o rodêa, » E só deixa a quem foge de encontrallo. Gaspar, que o rosto nunca vio ao medo, A todos desafia, e não perdoa D'uma oliveira-ao carcomido tronco, Que elle julga broquel impenetrável, Vendo estalar da sua espada a folha. Da noite a densa nevoa os favorece. Receosos de nova tempestade Salvão as vidas os heróes fugindo Por entre o mato espesso. Ouvem ao longe Da vingativa plebe a voz irada. A' clara luz das pinhas (21) rezinosas Apparecem as foices, e apparecem Chuços, cacheiras, trancas e machados. Levanta-se o clamor; e a crua guerra, Que o sangue dos mortaes derrama e bebe, Gira por toda a parte, e move as armas. Em tanto a valerosa companhia Amparada da sombra feia e triste Voa-por longo espaço sobre as azas Do pallido terror. Não d'outra sorte Rasos chavécos de piratas mouros, Quando os ecos do bronze fulminante Vem tremolar as vencedoras quinas Sobre a possante náo, que opprime os mares, Fogem avela e remo, e não descanção Sem ter beijado as argelinas praias. Ouvem-se então diversos sentimentos. Chora Gaspar de se não ter vingado, E ainda aqui colérico assevera Que a não faltar-lhe a espada não fugira. Espada, que ao romper as linhas d'Elvas (22), Se dos velhos avós não mente a historia, Abrio de meio a meio um castelhano. Teme Bertoldo, que o encontre o povo, E no meio d'aquella escuridade Chega-se aos mais com pânico receio. Cosme quasi insensível aos perigos, E aos amargos momentos d'esta noite, Approveita o silencio, o sitio, a hora Para chorar saudades sem motivo. Só Gonçalo pensava cuidadoso Em salvar os afflictos companheiros. Assim o astuto assolador de Troya (23), Quando os gregos heróes ouvio cerdosòs Grunhir nos bosques da encantada Circe, Ou quando vio a detestável meza (24) Na vasta cova do Cyclope horrendo. « Onde estarás, fiel e caro amigo! Dizia o conductor da stulta gente, Se tu me faltas como irei metter-me Nas mãos d'um tio rústico, inflexível? Voltarei? mas ó céos! quem me assegura Que essa velha cruel, nefanda harpia Não tenha urdido algum funesto engano? E se o povo indignado e dffendido Nos vem seguindo e ao surgir da aurora N'este inculto deserto... Céo piedoso Longe, longe de nós tão graves damnos. » Gonçalo assim fallava, e vigilante Trjstes horas passou, até que o dia Appareceo entre rosadas nuvens Sobre as altas montanhas do horizonte.
O Desertor

Sinopse

Leia gratuitamente O Desertor, de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, poema herói-cômico do arcadismo brasileiro em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com discurso, cinco cantos e notas da edição histórica, fonte validada, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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