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O Desertor

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O Desertor

Capítulo 6 · O Desertor

Canto V

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CANTO V Alto concelho aqui se faz, aonde, Infeliz Dorothea, o teu destino Cruel e dúbio d'um só voto pende. Dos três heróes discordão as sentenças. Um deseja, que fique em liberdade E do pai ultrajado exposta ás iras : Inexorável outro pensa e julga Que a sua morte deve dar exemplo, Que encha d'horror as pérfidas amantes. Gonçalo, que era o único offendido, Consulta o coração e se enternece. Mas o ardente ciúme, que se alegra De pintar como crimes horrorosos Innocentes acções, então lhe mostra A feia ingratidão e o torpe engano. A vingança cruel e o vil desprezo Ainda mais terrível que a vingança, Ganhão do coração ambas as portas. Mimosa Dorothea, e como ficas Co as mãos ligadas a um pinheiro bronco Sem outra companhia que os teus males! É este o prêmio, filhas namoradas, Este o prêmio de amor, quando imprudente Os termos passa que a razão prescreve. De quando em quando um ai do peito arranca, Que ao longe os tristes, magoados ecos Desperta e faz sentir os duros troncos; E espera sem defeza, sorte ingrata 1 Que a devorem os lobos carniceiros. Assim ligada aos ásperos rochedos A filha de Cephêo (54) ao mar lançava A temerosa vista, e lhe. parece A cada instante ver surgir,das ondas A verde espalda do marinho monstro. « Sem esposo, sem pai, sem liberdade, Misera Dorothea, chora e geme. Ai Marcella cruel, que m'enganaste Com teus bellos, fantásticos agouros, Queira o céo que outras lagrimas sem fructo Mil vezes tresdobradas te consumão Os encovados olhos! Que inda a morte A^s tuas vozes surda corrertdeixe Peiorando em seu curso vagaroso Os momentos de dôr e de amargura? » Assim fallava : a leve phantazia Com as cores mais vivas lhe apresenta D'escarpados rochedos no alto cume 0 palácio da cartdida innocencia Cercado de funestos precipícios. O' morada feliz, onde não torna Quem uma vez rodou entre as ruínas! Girão no plano do elevado monte Cruas dores, remorsos devorantes, As três irmãs a peste, a fome, a guerra, 0 pallido receio, o crime, a morte, As fúrias e as harpias que s'involvem No turbilhão dos míseros cuidados. Então de tantas lagrimas movida A mãi soberba do propicio acaso, A mudavel fortuna, e já cançada De ouvir as tristes queixas de Rufino, t Taes palavras ao filho dirigia: « Esse amanfe infeliz, que em vão suspira, Ache a dita uma vez e enxugue o pranto. » Acaba de fallar, e ao mesmo tempo Rufino para o bosque s'encaminha, E o acaso o conduz por entre as sombras Da pavorosa noite, que já desce. A' rouca voz da mísera donzella Palpita o coração : o amor e o susto Chimericas imagens lhe afigurão; Mas elle chega : o próprio crime e o pejo Cobrem de roxas nuvens o semblante De Dorothea ao ver-se ainda amada Por aquelle que foi ha poucas horas Alvo de seus insultos e desprezo. A molle vista, as lagrimas em fio, Que aos corações indomitos abrandão, Que farião n'um peito namorado? Tu lhe ensinas c'o fraco rendimento Os meios de vencer. O' sete vezes Venturoso Rufino, s' ella um dia Não quizer renovar os seus triunfos, E medir a fraqueza da teu peito Pelo grande poder das suas armas! Depois de longa e trabalhosa marcha Cançado de soffrer em fim respira O desertor, e mostra aos companheiros Os conhecidos montes. Fuma ao longe A fértil Mioselha, e pouco a pouco Os outeiros e as casas apparecem. Tíburcio, que uma antiga e voraz fome Soffreo n'estes asperrimos trabalhos, Com gosto espera de affoga-la em vinho, E já se appressa alegre e transportado. Qual o novilho que perdeo nos bosques A doce vista do rebanho amigo; E depois de vagar á noite e o dia Por valles sem caminho, a mãi conhece, Alegre salta, berra e por momentos Espera humedecèr entre caricias Co leite represado a boca ardente. Mas Cosme, que conserva na memória As passadas injurias, por vingar-se, Ao tio de Gonçalo narra as causas Da funesta derrota. Determina Gaspar que os fatigados companheiros Achem na própria casa um doce abrigo. De os ver a mãi s'afflige; mas espera, Que obrigados da fome se retirem. Leve foi o jantar, mais leve a cêa, E Tiburcio com pena assim chorava Os dias, em que fora thesoureiro D' uma rica e devota confraria. O' sancta occupação, tu nunca viste A magra mão da pallida miséria, Que os fracos membros do mendigo apalpa Sem trabalho em teus providos celeiros A ditosa abundância se recolhe. Se torno a possuir-te, quantas vezes Dos cuidados tenazes e importunos Levarás a minha alma nas perennes > Purpureas fontes do espremido cacho! Mostra Gaspar vaidoso a livraria, Donde o tio doutor sermões tirava. Máo gosto, que á razão não dás ouvidos, Vem numerar as obras que dictaste; Seja a ultima vez, e eu te asseguro Que não vejas fumar nos teus altares Do gênio portuguez já mais o incenso. Geme infeliz a carúnchosa estante Co' pezo de indulgentes Casuistas (55), dianas, Bonacinas, Tamburinos, Moias, Sanches, Molinas e Larragas. Criminosa moral, que em surdo ataque Fez nos muros da igreja horrível brecha; Moral que tudo encerra e tudo inspira Menos o puro amor que a Deos se deve. Apparecei, famosa Academia de humildes e ignorantes, Eva e Ave, Baculo pastoral, e Fios sanctorum, E vos ó Theoremas predicaveis (56), Não tomeis o lugar, que é bem devido AoKees, ao Bom Ferreira, ao Baldo, ao Pegas Grão mestre de forenses subterfúgios. >;< Aqui Tiburcio vê o amado Aranha, O Reis, o bom Suppico, e os dous Suaves (57): D' um lado o Sol nascido no occidente, E a Mystica cidade, d'outro lado Cedem ao pó e á roedora traça. Por cima o Lavatorio da consciência, Peregrino da America, os Segredos Da natureza, a Fenix renascida, Lenitivos da dôr e os Olhos de água (58): Por baixo está de Sam Patrício a cova : A Imperatriz Porcina, e quantos Autos A miséria escreveo do Limoeiro (59) Para entreter os cegos e os rapazes. Rudes montões de gothica escritura Quanto cheirais aos séculos de barro! Falta ainda uma estante; mas Amaro Seguindo os passos da roubada filha Caminha afflicto e de encontrar receia 0 valente esquadrão que procurava. Tanto a fama das bellicas proezas O seu nome fazia respeitado! Que novas desventuras se preparão! O povo cerca da viuva as portas; Quando a triste ignorância, que deseja Arrancar d'entre os ásperos perigos Aos seus heróes, por boca de Gonçalo Começou a fallar! « Se tantas vezes Mais que heróico valor tendes mostrado, É este o campo, ide a cortar os louros Para cingir a vencedora frente. Não se diga que fostes opprimidos Por fraca e rude plebe : este combate Não se pôde evitar ; só dous caminhos Em tanto aperto aos olhos se offerecem.- Escolhei ou a índia ou a victoria !•» Disse, e depois abrindo uma janella, Arroja de improviso sobre o povo De informe barro uma espantosa talha. Secco trovão que faz gemer os pólos Quando, vomitão as pesadas nuvens Do occulto seio a negra tempestade, Não causa mais pavor : ao golpe horrendo Muitos feridos, muitos assombrados Manchão do negro pó as mãos e o rosto. Amaro anima aos seus, e em quanto voão Contra a janella mil pesados seixos, Que novo estratagema? O antiquario Finge da capa um vulto, que apparece De quando em quando, com que attrahe as armas, Que hão de servir depois para a defeza. Novo furor os corações accende. Qual a grossa saraiva ao sopro horrível Do Boreas turbulento embravecido As searas derrota, os troncos despe, ' E o triste lavrador contempla e chora A perdida esperança de seus fructos. Assim de pedras vaga, e densa nuvem Sahe da janella a devastar o campo : As que arroja o heróe já se distinguem Pelo som entre as mais, já pelo estrago. A confusão e o susto ao mesmo instante Pelo povo s' espalha : então Gonçalo Valeroso sahio por um postigo : Depois Gaspar; o intrépido Tiburcio Mettendo o braço e a cabeça clama; Que o não deixem ficar n'aquelle estado O heróe as mãos firmando nas orelhas Ainda mais o aperta, e- deixa exposto Da plebe ao riso, á cólera de Amaro. Quantas vezes, Tiburcio, desejaste Não ser de grosso peito e largo ventre! O desertor em fim cançado chega A' presença do tio formidável; E a teimosa ignorância, que se afferra, E que affirma, somente porque àffirma, O coração de novo lhe endurece. A soffrer o trabalho dos estudos O tio o anima, roga e ameaça; Mas o heróe inflexivel só responde, Que não ha de mudar do seu projecto. Não é mais firme a carrancuda rocca, Com que Cintra (60) soberba enfreia os mares: Nem tu, ó Pão de Assucar (61), namorado Da formosa cidade, velho e forte, Que dás repouso ás nuvens e te avanças Por defende-la do furor das ondas. Então fallando, o tio em torpes crimes, E em furtadas donzellas, ergue irado Co' a mão inda robusta o páo grosseiro, E a "paixão desabafa : a longa idade Prohibe-lhe o correr; mas não prohibe Que o páo com força ao longe o accompanhe. Ai Gonçalo infeliz, que dura estrella Maligna scintillou quando nasceste! Depois de mil trabalhos insoffriveis, Onde o gosto esperavas e o socego, Viste nascer estragos e ruinas. Assim depois dos últimos combates, Que as margens do Scamandro ensangüentarão, O rei potente d'Argos e Mycenas (62) Esperando abraçar saudoso os lares, Abraça o ferro de uma mão traidora. Fechadas tem o experto tiò as portas : Volta Gonçalo, encontra novos golpes, E jaz em lim por terra. Ferve o sangue Da boca e dos ouvidos : sem acordo; Apenas se conhece que inda vive; Mas tem a gloria de trazer comsigo A derrotada estúpida ignorância. Ella reina em seu peito, e se contenta De ter roubado aos muros de Minerva De fracos cidadãos o preço inútil. Goza, monstro orgulhoso, o antigo império Sobre espíritos baixos que te adorão; Em quanto á vista de um prelado illustre, Prudente, pio, sábio, justo e firme Defensor das sciencias, que renascem, Puras as agoas crystallinas correm A fecundar os aprazíveis campos. Brotão as flores e apparecem fructos, Que hão de encurvar co' próprio pezo os ramos Nos bellos dias da estação dourada. Possa a robusta mão, que o sceptro empunha, Lançar-te n'um lugar tão desabrido, Que te sejão amáveis os rochedos Onde os coriscos (63) de continuo chovem.
O Desertor

Sinopse

Leia gratuitamente O Desertor, de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, poema herói-cômico do arcadismo brasileiro em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com discurso, cinco cantos e notas da edição histórica, fonte validada, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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