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O Desertor

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O Desertor

Capítulo 2 · O Desertor

Canto I

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CANTO I Musas, cantai o desertor das lettras, Que, depois dos estragos da ignorância (1), Por longos e duríssimos trabalhos Conduzio sempre firme os companheiros Desde o loiro Mondego, aos pátrios montes: Em vão se oppoem as luzes da verdade Ao fim, que já na idéa tem proposto : E em vão do tio as iras o ameação. E tu, que á sombra d'uma mão benigna, Gênio da Lusitânia, no teu seio De novo alentas as amáveis artes; Se ao surgir do lethargo vergonhoso Não recèas pisar da gloria a estrada, Dirige o meu batei, que as velas solta, O porto deixa, e rompe os vastos mares De perigosas Syrtes povoados. Quaes serião as causas, quaes os meios Porque Gonçalo renuncia os livros? Os conselhos e industrias da ignorância O fizerão curvar ao peso enorme De tão difficil e arriscada empreza. E tanto pôde a rústica progenie! (2) A vós, por quem a pátria altiva enlaça Entre as pennas vermelhas e amarellas Honrosas palmas e sagrados louros, Firme columna, escudo impenetrável Aos assaltos do abuso e da ignorância, A vós pertence o proteger meus versos. Consenti que elles voem sem receio Vaidosos de levar o vosso nome Aos aparados climas, onde chegão Os ecos immortaes dá lusa gloria. Já o invicto marquez (3) com regia pompa Da risonha cidade avista os muros. Já toca a larga ponte em áureo cocho. Alli junta a brilhante infantaria; Ao rouco som de musica guerreira Troveja por espaços : a justiça Fecunda mãi da paz e da abundância Vem a seu lado : as filhas da memória Digna immortal Coroa lhe offerecem, Prêmio de seus trabalhos : as sciencias Tornão com elle aos ares do Mondego; E a verdade entre júbilos o aclama Restaurador do seu império antigo. Brilhante luz, paterna liberdade, Vós, que fostes n'um dia sepultadas Co' o bravo rei (4) nos campos de Marrocos, Quando traidoras, impias maõs o armarão Victima illustre de ambição alhêa, Tomae/tornae a nós. Da regia stirpc Renasce o vingador da antiga affronta (5). Assim o novo Scipião crescia (6) Para terror da barbara Cartlíago. Possão meus olhos ver o ismaelita (7) Nadar em sangue, e pállido de susto Fugir da morte e mendigar cadêas ; E amontoando luas sobre alfanges Formar degráos ao throno lusitano. Dissiparão-se as trevas horrorosas, Que os bellos horizontes assombravão, E a suspirada luz nos apparece. Tal depois que raivoso e sibillante Sobre o carro da noite o euro açoita (8) Os tardios cavalas de Boótes (9), E insulta as terras e revolve os mares, Raia a manhã serena entre douradas x E brancas nuvens : ri-se ó céo e a terra ; 0 vento dorme e as horas vigilantes Abrem ao claro sol a azul campanha. A soberba ignorância em tanto observa, E se confunde ao ver o próprio throno Abalar-se e cahir : o seu ruido Redobra os ecos nos oppostos valles E o Mondego feliz ao mar undoso Leva alegre a noticia, porque chegue Das suas praias aos confins da terra. Eila abatida e só não acha abrigo, E d'esta sorte em seu temor suspira : « Verei eu sepultar-se entre ruinas O meu reino, o meu nome e a minha gloria, Depois de ser temida e respeitada"? Pobre resto de míseros vassallos Não ha mais que esperar. Já fui rainha : Já fostes venturosos : não sofframos As injurias, que o vulgo nos prepara : Injurias mais cruéis do que a desgraça. Deixemos para sempre estes terríveis Climas de mágoa, susto, horror e estrago. Mostrai-me algum lugar desconhecido, Onde occulta repouse, até que possa Tomar de quem me offende alta vingança. Mas onde, se um prelado formidável (10) Esse Argos (11), que me assusta, vigilante Ao lugar mais remoto estende a vista? Monstros do cego abysmo, em meu soccorro Empenhae o poder do vosso braço; Que se entre os homens me faltar asylo, Ao triste, vão dos ásperos rochedos, Onde o Tenaro (12) escuro e cavernoso Da morada sombria as portas abre, Irei chorar meus dias sem ventura : Irei,.. » Assim fallando misturava Gemidos e soluços, que suffocão Dentro do peito a voz, e humedecia Co' pranto amargo a face descorada. Mas logo, serenando o rosto afflicto, Corre por entre sustos e esperanças Ao caro abrigo do fiel Gonçalo. A sonolenta, a pigra ociosidade Por esta vez deixou de acompanha-la : E a languida preguiça forcejando Pôde apenas segui-la com os olhos. Toma a fôrma d'um célebre antiquario Sebastianista áccerrimo, incançavel, Libertino com capa de devoto. Tem macilento o rosto, os olhos vivos, Pesado o ventre, o passo vagaroso : Nunca trajou á moda : uma casaca Da côr da noite o veste!, e traz pendentes Largos canhões do tempo dos Affonsos. Dizem que o tempo da mais bella idade Consagrou ás questões do Peripáto. Já vio passar dez lustros e experiente Sabe enredos urdir e por-se em salvo. Entra por toda a parte, e em toda a parte E conhecido o nome de Tiburcio. Gonçalo, que foi sempre desejoso Da mais bella instrucção, lia e relia Ora os longos acasos de Rozaura (13), Ora as tristes desgraças de Florinda, E sempre se detinha com mais gosto Na cova Tristifea, e na passagem Da perigosa ponte de Mantible. Repetia de cór de Albano as queixas Chamando a Damiana injusta, ingrata; Quando Tiburcio apaixonado e triste Ralhando entrou : « — Que esperas tu dos livros? Crês que ainda appareçào grandes homens Por estas invenções, com que se apartão Da profunda sciencia dos antigos? Morrerão as postulas e os cadernos; Cahio de todo a ponte (14), e se acabarão As distincções, que tudo defendião, E o ergo, que fará saudade a muitos? N'outro tempo dos sábios era a lingua Fôrma e mais fôrma : tudo em fim se acaba, Ou se muda em peor. Que alegres dias Não forão os de maio, quando a estrada Se enchia de arrieiros e estudantes! O' tempo alegre e bemaventurado! Que fácil era então o azul capello Adornado de franjas e alamares, 0 rico anel e fluctuante borla, Honra e fortuna, que chegava a todos! Hoje é grande a carreira, e serão raros Os que se atrevão a tocar a meta : A' Gonçalo! Gonçalo! que mais vale, Tirar co'a própria mão no fértil Souto Molles castanhas.do espinhoso ouriço! Quanto é doce ao voltar da primavera O' saboroso mel no louro favo! O' alegre e famosa Mioselha Fértil em queijos, fértil em tramoços! Só lá de romaria em romaria Podes viver feliz e descançado : Quem te obriga a levar sobre os teus hombros 0 desmedido pezo, que te espera? Não tenhas do bom tio algum receio : Comigo irás : bem sabes quanto posso. Se te envergonhas de ser só, descança; Fiel parente, amigo inseparável Eu farei que abraçando o mesmo exemplo Muitos se apressem a seguir teus passos. » Assim fallava : quando um ar de riso Appareçeo no rosto de Gonçalo. Tudo o que se deseja se acredita: Nem ha quem o seu gosto desaprove. Elle porque já traz no pensamento Poupar-se dos estudos á fadiga Não vacilla na escolha e se aproveita Da feliz occasião, que lhe assegura 0 meditado fim de seus desejos. Convocão-se os heróes, e deliberão Em pleno consistorio, onde Gonçalo Silencio pede e assim a todos falia : « —Heróes, a quem uma alma livre anima, Que desprezando as artes e assciencias, Ides buscar da pátria no regaço Longe de sugeição e da fadiga Doce descanço, amável liberdade : Se algum de vós, o que eu não creio, ainda Tem n'alma o vão desejo dos estudos, Levante o dedo ao alto. » Uns para os outros Olharão de repente, e de repente Ilouco e brando sussurro ao árse espalha : Qual nos bosques de Tempe (15), ou nas frondos 3!argens, que banha o plácido Mondego, Costuma ouvir:se o zefiro suave, Quando menêa os alamos sombrios. Nemum alçou a mão, e a ignorância Pareceo consolar-se, imaginando Sonhadas glorias de futuro império. Dispoem-se a companhia, e se aparelha Para partir antes que o sol desate Sobre a terra orvalhada as trancas d'ouro. Tiburcio tudo aprompta. Mas janeiro, Loquaz, traidor, doméstico inimigo, Vôa de casa em casa publicando» Da forte esquadra aproxima partida. Guiomar, velha que ha muito que insensivel A's delicias do amor, afferrolhando Emmagrece nos míseros cuidados Da faminta ambição, e é na cidade Umaiave de rapina, que entre as unhas Leva tudo o que encontra aos ermos cumes Da escalvada montanha, onde a festejão Co' a boca aberta os ávidos filhinhos : Triste agora e infeliz ouve e se assusta Das noticias cruéis, que o moço espalha : « O' ama desgraçada! O' dia infausto! • Agora que esperava mais socego Principião de novo os meus trabalhos! « Estas e outras palavras arrancava Do peito descontente, em quanto a filha Amorosa e sagaz estuda os meios, Com que possa deter o ingrato amante : Faz ajuntar de partes mil á pressa Cordões e anéis e a pedra reluzente, Que os olhos desafia; os seus cabellos, Que desconhecem o toucado, empasta Co' a cheirosa pomada : a mãi se lembra Da própria mocidade, e lhe vai pondo Com a tremula mão vermelhas fitas. Simples noiva daaldêa, que ao mover-se Teme perder o desusado adorno, Nunca formou mais vagarosa os passos. Narciza chega entre raivosa e triste, E fingindo esquecer-se da mantilha Para mostrar-se irada, d'esta sorte Em alta voz lhe falia. « Será certo Que pertendes fugir, e que me deixas Infeliz, enganada e descontente? * Assim faltas cruel, pérfido, ingrato D'um longo amor aos ternos juramentos? Não disseste mil vezes... mas que importa Que os meus males recorde? em fim perjuro As tuas vãas promessas me enganarão. Justiça pedirei ao céo e ao mundo : O mundo tem prizões o céo tem raios. » Fallava; e o heróe que arrasta ainda D'um incommodo amor os duros ferros Parece vacillar; quando Tiburcio Dá conselhos a um, a outro ameaça Pondo irados os olhos em Narciza. Diz-lhe que em vão suspira, que em vão chora E que sempre tiverão as mulheres Para enganar aos mjseros amantes As lagrimas no rosto, o riso na alma. Gonçalo então, que o seu dever conhece, Dá provas de valor e de prudência. « Ouve, Narciza bella, lhe dizia, Serena a tua dôr, e os teus queixumes : 0 teu pranto me move, injusto pranto, Que o meu constante amor de ingrato accusa! Socega : a nova herança d'um morgado É quem me chama, a ausência será breve. Tempo depois virá, que em doces laços Eterno amor as nossas almas prenda, E então farás tibornas (16) e magustos (17), Nem sempre cobre o mar a longa praia : Nem sempre o vento com furor raivoso Do robusto pinheiro o tronco açoita. » Acaba de fallar, e lhe offerece A leve bolsa, que Narciza acceita Como penhor sincero de amizade, Bolsa, que deve ser na dura ausência Breve consolação de tristes mágoas. O experto amigo, que se mostra em tudo Companheiro fiel, com os olhos tristes, Pondera os longos e ásperos caminhos : Lembra funestas noites de estalagem, E adverte em vão, que ao menos por cautella Deve fazer-lhe a bolsa companhia. Deixando em fim inúteis argumentos Remette a decisão ao próprio braço. Não se esquecem das unhas, nem dos dentes Armas, que a todos deo a natureza. Ouvem-se pela casa em som confuso As troncadas injurias e os queixumes. Assim dois cães, se o hospede imprudente Lança da meza os ossos èsburgados, Promptos avanção; d'uma e d'outra parte Se vê firme o valor : mordém-se e rosnào; Mas não cessa a contenda. Amigo e amante Que farias Gonçalo em tanto aperto? Concorre a plebe e o fervido tumulto Vai pelas negras fúrias conduzido Despertando nos peitos a desordem. Ninguém sabe porque, mas todos gritão. Já voão as cadeiras pelos ares : Pedras e páos de longe se arremeção. E se a cândida paz com rosto alegre Serenou as desgraças d'este Sia, Os teus dentes, intrepidp Gonçalo, Viste voar em negro sangue envoltos. Torna alegre Narciza, e cinco vezes Abrio a bolsa, e numerou a prata \ Fez diversas porções, que n'um momento Tornou a confundir : não d'outra sorte 0 menino impaciente e cubiçoso, Quando alcança o que ha muito lhe negavão, Repara, volta, move, ajunta, espalha, E n'este giro o seu prazer sustenta. * Em tanto a mãi, que já por experiência Os enganos conhece mais occultos, Busca novos pretextos de vingança Fingindo torpes e horrorosos crimes, E espera- ouvir gemer em poucas horas 0 mancebo infeliz em prizão dura. Mas Rodrigo, que ouvio o rumor vago A' pressa chega e d'esta sorte falia. « — Que desgraça te esperão! foge, foge, Gonçalo em quanto ha tempo : gente armada Vem logo contra ti. Guiomar convoca Todo o poder do mundo! Um só momento Não percas, caro amigo; os companheiros Com alvoroço esperão. Ah deixemos, Deixemos d'uma vez estas paredes, Onde co' próprio sangue escripta deixas De teu trágico amor a breve historia. É já outro o Mondego : a liberdade D'estes campos fugio, e só ficarão A dura sugeição e o triste estudo. « Em fim hei de apartar-me d'esta sorte? O' sempre tristes, sempre amargos sejão Os teus últimos dias, velha infame. Gonçalo assim chorando, monta e parte. » li.
O Desertor

Sinopse

Leia gratuitamente O Desertor, de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, poema herói-cômico do arcadismo brasileiro em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com discurso, cinco cantos e notas da edição histórica, fonte validada, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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