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O Desertor

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O Desertor

Capítulo 4 · O Desertor

Canto III

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CANTO III A fama sobre o carro transparente, Que arrastão ao travez do espaço immenso 0 sonoro aquilon e o veloz austro (25), Cantava o caro nome, a immortal gloria Do augusto pai do povo. Entre milhares De acções dignas d'um rei, Europa admira 0 soberbo edifício levantado, Que o saudoso Mondego abraça e adora: Edifício, que o tempo devorante Vê de longe, rodêa, teme e foge : Que sustenta em firmissimas columnas Dasciencia immortal o regi o throno. Se longe da feroz barbaridade Os olhos abre a forte Lusitânia, Grande rei, esta acção é toda vossa. Em tanto a fama heróica vão seguindo As velozes e incógnitas noticias, Que trazem e que levão os successos De paiz em paiz, de clima em clima. Elias voão em turba, enchendo os ares Dos eccos dissonantes, a que attendem Crédulas velhas e homens ociosos. Qual no fértil certão da Ajuruóca (26) Vaga nuvem de verdes papagaios, Que encobre a luz do sol e que em seus gritos E semelhante a um povo amotinado : Assim vão as. noticias, e estas vozes Pelo campo entre os rústicos semeão : « Gente inexperta, alegre e sem cuidados, Fero esquadrão, que os vossos campos tala, Vem destruindo as terras e os lugares! » 0 povo indócil, cego e receoso, li. J Que as funestas palavras acredita; Toma os caminhos e os outeiros cobre. Por onde irás, intrépido Gonçalo, Que escapes ao furor da plebe armada? Mas já os desgraçados companheiros. Descião por incógnitas varedas Para o fundo d'um valle cavernoso, Que o Zêzere (27) veloz lavando insulta Co' as turvas águas do gelado inverno. Ha um lugar nunca dos homens visto, Na raiz de dous montes sobranceiros. Suão as frias e musgosas pedras, Que dos altos cabeços penduradas Ameação ruina ha tempo immenso. Já mais do cão (28) feroz o ardor maligno Desfez a neve eterna destas grutas. Arvores, que se firmão Sobre a rocha, Famintas de sustento á terra envião As tortas e longuissimas raizes. Pendentes caracóes co' a fragil concha Adornão as abobadas sombrias. ' N'este lugar sè esconde temerosa A noite envolta em longo e negro manlo Ao ver do sol os lúcidos cavallos : Fünèbre, eterno abrigo aos tristes mochos, A's velhas, ás fatídicas corujas, Que com medonha voz gemendo augmentào O rouco som do rio alcantiladô. Rufino por seu mal sempre extremoso, E sempre escarnecido, suspirando Aqui se entrega ao pallido ciúme, D'um puro amor ingrata recompensa. Contão, que n'estas horridas cavernas De míseras angustias rodeado, Vinha exhalar os últimos suspiros Queixando-se de amor e da fortuna. Entre os braços do somno repousava Este infeliz já de chorar cançado ; Quando a inquieta ignorância, que se afflige, De ver nestas montanhas escabrosas Os tímidos amigos, em que funda De novo império a única esperança : Porque Rufino os acompanhe, e guie A* pingue e suspirada Mioselha, Que é de tantos heróes pátria famosa, Finge o rosto da bella Dorothea, Dorothea a mais nova, a mais humana De quantas filhas teve o velho Amaro; Ella a roca na cinta, as mãos no fuso Em sonhos lhe apparece, e mais coráda^ Que a rosa na manha da primavera; A fallar principia: « Se até agora Ingrata me mostrei a teus amores, Se inconstante e perjura me chamaste, Da-me nomes mais doces, e ouve attento D'uma alma amante a confissão sincera. Sempre te amei, e espero ver unidos Os nossos corações em fortes laços Do casto amor, que o céo não desaprova. Mas eu sem nada mais que a lã, que fio, Tu rico só de affectos e palavras, Onde iremos que a sórdida miséria Não seja em nossos males companheira? Vai-te e longe de mim segue a ventura, Que firme te hei de ser em toda a idade. Do velho Affonso o triste e pobre filho, Pela dura madrasta affugentado, Também deixou a suspirada pátria, E veio em poucos annos o maisrico Dos bens immensos que o Brasil encerra. Vês tu quanto cresceo, que não cabendo No paterno cazal, ergue as paredes Até chegar ao céo, que testemunha A ditosa união com que elle paga O firme amor da venturosa Ulina? Vai pois, Rufino meu, que muitas vezes Muda-se a terra e muda-se a fortuna.'» Assim fallando os braços lhe offerece. O' que instante feliz, se amor perverso,' Dos últimos favores sempre avaro, Não firmasse esta sombra de ventura Sobre as azas de um sonho lisonjeiro! Desperta o triste edesgostoso amante, E não duvida que a presaga imagem N'outro lugar thesouros lhe promette. Futuros bens na idéa se apresentão', E elle crê possuil-os. O' dos homens Continuo delirar sem fundamento! Que bella e, faciLse nos pinta a posse D'um incógnito bem que desejamos! Já se ajuntava o esquadrão famoso Pela mesma igqorancia conduzido, E Gonçalo primeiro assim fallando, Os mais- em roda todos escutavão : « Benigno habitador de incultas brenhas, Se um desgraçado errante e peregrino Dentro em tua alma a compaixão desperta, Os meus passos dirige, antes que a fome ' Com impia mão nos deixe frio pasto A's bravas feras, ás famintas aves. » Fallava ainda : alguns estremecerão, Outros amargo pranto derramarão. Da boca de Rufino todos pendem : Elle õs languidos olhos levantando Já do longo chorar enfraquecidos, Estas vozes soltou do rouco peito : « Que fortuna cruel, maligna, incerta Vos trouxe a penetrar o intacto abrigo D'estes lugares ermos e escabrosos? Vós em mim achareis amigo e guia : Que pôde dar alguma vez soccorro Um desgraçado a outro desgraçado. Duros casos de amor me conduzirão A acabar n'esta gruta os tristes dias; Mas hoje volto por feliz presagio A tentar n'outra parte a desventura.» Acaba de fallar movendo os passos Pelo torcido vão das nuas pedras. Todos os seguem com trabalho immenso. Depois que largo tempo caminharão Por ásperas montanhas, apparecem Aò longe a estrada e o lugar visinho. Qual a náo soffredora das tormentas, Que, depois de tocar o porto amigo, Sente fugir-lhe as arenosas praias, E dos horridos ventos açoitada Volta a luctar c'o pelago profundo : Assim Gonçalo, quando ver espera Tranquillo fim de míseros trabalhos, O povo cerca e dos confusos gritos As montanhas ao longe retumbarão. Vós ó musas, dizei como a discórdia Com o negro tição que accende os peitos, Mostra o rosto de sangue e pó coberto, Seguindo os passos do homicida Marte. Aqui não apparecem refulgentes Escudos d'aço e bronze triplicado : Não assombrão a testa dos guerreiros Fluctuantes penachos, que ameação, Como tu viste, ó Troya, ante os teus muros; Mas'o valor intrépido apparece A peito descoberto. 0 povo armado De choupas, longos páòs e curvas fouces, É semelhante a um bosque de' pinheiros, Que o fogo devorou, deixando nuas As elevadas pontas. Animoso Dispõem Gonçalo a forma de batalha Posto nafrente : á sua voz a um tempo Todos avanção, todos se aproveitão Das perigosas e terríveis armas, Que o terreno offerece em larga copia. Vôa a cega desordem e apparece No meio do combate. Por um lado Gaspar se oppoem arremeçando pedras Com força tal que atroão os ouvidos. Gonçalo d'outra parte invicto e forte Abre co' ferro agudo amplo caminho». Já pendia a balança da victoria Contra a tímida gente que se espalha; Quando chega atrevido Braz o forte. Gigante Ferrabraz lhe chama o povo Pela enorme estatura e força incrível. Ergue a pezada maça sem trabalho, Qual nos montes de Lerne (29) o fero Alcides Gonçalo evita a morte com destreza : Elle renova os formidáveis golpes; Mas o irado mancebo.ao desviar-se Tropeça'e cahe. Neste arriscado instante Serias morto, intrépido Gonçalo, < Se Gaspar c' um rochedo áspero e rombo Não atalhasse do inimigo a fúria, . Quebrando-lhe com golpe repentino Ambas as canas do direito braço. Rangem os ossos, e a terrível maça r Cahindo sobre a terra ao longe sôa. Torna a ajuntar-se a fugitiva plebe, E o prudente Gonçalo, que deseja Mostrar o seu valor n'outros perigos, Finge-se morto; a turba irada o pisa, Mas elle não se move. Contra todos Então Gaspar em cólera se accende : Ameaça, derriba, ataca e fere; Até que já sem forças, rodeado Vê de seus companheiros os opprobrios. Sôa nas costas dos heróes valentes 0 duro azambujeiro, e são levados Ao som terrível de insultantes gritos Para a escura prizão, que os esperava. Gonçalo, o bom Gonçalo as mãos atadas, Os olhos para o chão, porque era terno, Não refreou o compassivo pranto. A par delle Bertoldo em vão lamenta A falta de respeito, que devia Rústica plebe ao neto de Alarico (30). Com vagaroso passo todos marchão, Como as ovelhas por caminho estreito. Tal depois da ruina de um quilombo (31) 3. Vera a indomita plebe da Ethiopia, Quando rico dos louros da victoria > "0 velho Chagas (32), sempre valeroso, Cobre o fuzil da pelle da- guariba (33), E forra o largo peito c'os despojos Da malhada panthéra (34), e do escamoso Jacaré nadador (35), que infesta as águas.
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Sinopse

Leia gratuitamente O Desertor, de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, poema herói-cômico do arcadismo brasileiro em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com discurso, cinco cantos e notas da edição histórica, fonte validada, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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