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O Desertor

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O Desertor

Capítulo 5 · O Desertor

Canto IV

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CANTO IV Tibürcio, que nas guerras daestálagem Soube abrandar os inimigos peitos, Pondo-se como em extasi profundo Com os olhos no céo e as mãos no peito, Vem a empenhar a força das intrigas. Que não farás, intrépida ignorância, Por libertar os tristes prisioneiros! Tem o cuidado das ferradas portas Amaro vigilante, inexorável; Mas crédulo e medroso; e tem ouvido Não sem horror pela calada imite Grasnar nos ares e mugir nos campos Feias bruxas e vagos lubisomes. Com elle o antiquario se acredita Por um devoto e santo anachoreta, Que passa os breves dias d'este mundo Entre os rigores d'uma austera vida. Amaro, que se fia de apparencias, Para nutrir o frágil penitente Vai degolando os patos eás gallinhas. Em tanto, quem dissera! apropria filha Innocente era o movei d'este enredo. Seu nome é Dorothea, e no semblante Gênio se lhe descobre inquieto e leve. E como estes momentos preciosos Não se devem perder, depois que a fome Affugentou do estômago vasio, Com branda voz em tom de profecia Humildade affectando assim começa : « Pois tanta caridade usais comigo, 0 Senhor, que reparte os seus thesouros, Vos encherá de mil prosperidades. A vossa filha... mas convém que eu cale Os segredos que o céo me communica : Inda vereis nascer entre riqueza Os venturosos netos, doce arrimo Aos fracos dias da caducajdade. » O velho então co' as lagrimas nos olhos Assim faliou: « O' filho abençoado, Que pela débil voz já me pareces .> Habitador do céo, quanto consolas As peccadoras cãs que te estão vendo! Assim talvez seria o meu Leandro, Se as bexigas em flor o não roubassem! Dez annos tinha, quando a morte avara Cortou co' a dura mão seus tenros dias! » Então suspira e segue passo a passo A longa enfermidade; e em quanto narra Apparece Marcella, conhecida Entre todasas velhas por mais sabia Em penetrar olhando para os dedos (36) Tudo quanto já d'antes lhe contarão. Sobre pequeno páo, a que se encosta,' Ella vem debruçada pouco a pouco, 0 semblante enrugado, os olhos fundo», Contra o nariz oppôsta a barba aguda : Os dous últimos dentes balanceão Co pes,tifero alento que respira. Em segredo lhe mostra Dorothea A esquerda mão*porque ella decifrasse As confusas palavras de Tiburcio. Ella observa e depois de mil tregeitos Franzindo a testa, arcando as sobrancelhas^ Com voz tremula e fraca assim dizia : « O' que grande ventura o céo te guarda! Por esposo terás um cavalheiro Que te ama e te deseja. Mas ai triste! Em vão chora infeliz o terno amante N'essa escura prizão desconhecido Por casos de fortuna. Criai filhos, O' desgraçadas mais, para que um dia Longe de vós padeção mil trabalhos! » Aqui suspira a boa velha e chora. Duas vezes começa, e depois falia : «O seu nome é Gonçalo : é rico e nobre, Emancebo gentil, robusto e louro. » • Estas e outras palavras lhe dizia, * E Dorothea já se sente amante, Excogitando os mais seguros meios De abrir a porta e dar-lhe a liberdade. Na molesta prizão o novo engano, De imperceptível arte pronto effeito, Sabe o"heróe, e assim comsigo falia : « O' amigo tão raro como a fenix, Que podendo deixar-me entre estes ferros, Vens encher-me de alívios e esperanças! » Valentes expressões em crespa frase, Que ao Alivio de Tristes (37) rouba a gloria, Pensando felizmente resuscita Aquellas hyperbolicas finezas, Que em seus escritos prodigou Gerardo (38). N'um pequeno papel como convinha A triste e desgraçado prisioneiro, Vio Dorothea as letras amorosas, Que os ditos confirmarão de Marcella, E dous grandes presuntos que jazião Intactos na despensa do bom velho, Vão levar a reposta accompanhados Do roxo nectar que dissipa os males. Mensageira fiel então affirma, Que virá Dorothea abrir-lhe as portas Nas horas, em que o plácido socego Dos cançados mortaes os olhos cerra. Gonçalo espera tímido, e confuso Vem-lhe á memória o seu antigo affecto; Qual leve sombra : escuta, arde e deseja Sentir no coração novas cadeias. Já com a fria mão a noite escura Entre o miúda orvalho derramava Papoilas soporiferas, que inspirão 0 brando somno e o doce esquecimento. Reina o vago silencio que accompanha De amor furtivo os trágicos transportes; Gonçalo então, cançada a fantasia Sobre os meios e os fins de seus projectos, Pouco a pouco se esquece, e pouco a pouco Cerra os olhos, boceja, dorme e sonha. Quando vôa do leito, onde deixava Nos braços do descanço ao pai da pátria A brilhante verdade, e lhe apparece N'uma nuvem azul bordada d'ouro. A deosa occupa ao meio, um lado e outro A severa justiça, a paz ditosa. Benignos céos, enchei meus puros votos: Fazei que esta celeste companhia, Como do terno avô (39) rodea o throno, De seu neto (40) immortal orne a coroa! Gonçalo vio, e pondo as mãos nos olhos Recea e teme de encarar as luzes. « Abre os olhos, mortal, assim lhe falia Do claro céo a preciosa íilha, Abre os olhos, verás como se eleva Do meu nascente império (41) a nova groria. Esses muros, que a pérfida ignorância Infamou temerária com seus erros, Cobertos hão de ser em poucos dias Com eternos signaeç de meus triunfos. Eu sou quem de intricados labyrinthos (42) Poz em salvo a razão illesa e pura? Eu abri aos mortaes os meus thesouros (43) Fiz chegar aos seus olhos quanto esconde Nó seio immenso.a fértil natureza (44). Pôde uma destra mão por mim guiada Descrever o caminho dos planetas : O mar descobre as causas do seu fluxo : A terra... mas que digo? Que sciencia Não fiz tornar ás margens do Mondego, Ou d'entre os braços da latina gente (45), Ou dos bellos paizes, cujas praias O mar azul por toda a parte lava! Se são firmes por mim o estado, a igreja, Se é no seio da paz feliz o povo, Dizei-o vós, ó ninfas do Parnaso. Illustres, immortaes, vós que dictastes As poderosas leis a ve& primeira, Vós, que ouvistes da lyra de Mercúrio Os úteis meios de alongar a vida. Eu vejo renascer um povo illustre Nas armas e nas letras respeitado., O seu nome vai já de boca em boca A tocar os limites do universo. 0 pacifico rei lhe traz os dias Dignos de Manoel, dignos de Augusto (46). E tu em quanto a pátria se levanta Sacodinlo os vestidos empoados Co' a cinza vil de um, ócio entorpecido : Em quanto corr,e a mocidade alegre A colher louros ávida de gloria, Serás o froxo, o estúpido, o insensível? Sacrificas o nome, a honra, a pátria Aos molles dia de uma vida escura? Cego-errado mortal, vê que te enganas! » Disse : e cerrada a nuvem luminosa, Estremece Gonçalo : foge o somno : Por toda a-parte lança incerto a vista, Busca assustado, mas já nada encontra. As mesmas impressões em seus sentidos Vivas imagens pintão, e não sabe Se então dormia ou se inda agora sonha. Sente a suave força da verdade; Mas recusa abraça-la. Triste sorte Dalma infeliz que ao erro se acostuma! Em tanto sem receio o velho dorme, E a filha vem as sombras apalpando Com as chaves na mão : e quantas vezes Segue, vacilla, pára e lhe parece Ouvir a voz do pai: escuta e treme; Move os passos, tropeça, e ao ruido Acorda Amaro e grita. Ella se appressa, E torna a tropeçar. Aqui Tiburcio Em casos repentinos"prompto e destro Em um lançol se embrulha, e corre ao leito, Onde jazia o velho espavorido, Que cuida que vê bruxas e fantasmas : Então lhe diz em tom medonho : « O' filho, Ingrato filho, que de um pai te esqueces : Que mal, que mal cumpriste os meus legados? Hoje comigo irás...» Ao velho o medo Corre as medullas dos cançados ossos ; A voz lhe falta, eriça-se o cabello. Em tanto as portas Dorothea abrindo, Amor a fez intrépida, abraçava O promettido esposo : elle se apressa, Acorda os miserandos companheiros, Que se alegrão deixando solitárias As vagas sombras da prizão funesta. Passa o resto da noite entre temores Amaro, quanto pôde o prejuízo! Apenas matizava a branca aurora Da tyria côr o veo açafroado, Quando o velho ao travez da luz escassa Vio abertas as portas. « Dorothea, Dorothea, onde estás? » Assim clamava, E entregue á sua dôr consulta os olhos Do profeta, que prompto a por-se em marcha Com rosto de candura e de innocencia Brandamente o consola : " «0 céo, amigo, Tudo faz por melhor, e muitas vezes Com trabalhos cruéis aos bons afflige. » Disse e deixando ao pai desconsolado, Caminha na esperança de encontrar-se Co o valente esquadrão dos fugitivos-. O sol já com seus raios luminosos Tinha roubado ás folhas dos arbustos 0 frio gelo do nocturno orvalho. Eis á sombra de fúnebre arvoredo , Rufino o melancólico chorando : « Quem és, que em tua mágoa inconsolavel Pareces abalar estas montanhas? » Compassivo pergunta o antiquario, E depois de chorar por largo tempo, Estas vozes o triste lhe tornava. « Eu sou aquelle amante sem ventura, Sempre estremoso e sempre escarnecido, Soffredor das ingratas esquivanças, Que vi, ai dura vista! face a face Do tardo desengano o feio rosto. A' Dorothea, um sonho lisonjeiro Meus dias dilatou para que agora Te visse em outros braços, insultando 0 meu fiel amor? O' noite infausta, Noite terriveVnoite acerba e dura! Quanto eu fora feliz, se a tua sombra Eternamente os olhos me cobrisse! Tiburcio, que já tudo penetrava, Do caminho se informa e dos lugares, Por onde fora a incerta companhia, Que .em tanto risco o seu conselho espera. Não distante se eleva antigo bosque Horroroso por fama .já nos tempos, Em que torrente barbara sahindo (47) Do, seio da Meotis inundava As províncias d'»Europa, aqui se via Arruinado templo. Osvividoiros Cyprestes se levantão sobre os pinhos : Heras e madresilvas enlaçadas Alli fazem curvar a crespa rama Dos velhos e infructifeiW carrascos. Três fontes misturando as puras águas Mansamente se envolvem e offérecem A' vista cubiçosa- os alvos seixos, E bs verdes limos que nó fundo nascem: Os amigos fieis aqui se encontrão. Qual em noite funesta e pavorosa Perdido caminha nte, que recêa Achar em cada passo um precipício, Se acaso a dúbia luz divisa ao longe, A esperança renasce, e de alegria Sente pular o coração no peito; Assim o desertor constante e forte, Ao ver o companheiro que prudente Sabe evitar e prevenir os males. Elles se reconhecem e derramão De alegria e ternura o doce pranto. O' vínculos do sangue e da amizade! Menos unidos vio o Lacio antigo Aos dous Troyanos, que uma cega noite (48), Espalhando o terror no campo adverso, Levou ás turvas margens de Achronte. Gonçalo se retira pelo bosque; Com elle vai Tiburcio, e mil projectos Formavão sobre o fim da grande empreza; E â muito fácil e infelia donzella Do seu profeta o rosto e a voz conhece, K pensa e teme de se achar culpada: Então o amor, que na sonora aljava Esconde settas dèmbrtal veneno^ E settas d'outro ardor mais grato e puro, Fazia escolha das terríveis armas, Para vingar-se da cruel Marfiza : Marfiza ingrata, pérfida, inconstante, Peito de bronze, a quem a natureza Não formou para ternos sentimentos. E por ver se os seus tiros correspondem Sempre fieis á mão e ao desejo, Faz no teu peito, ó .Dorothea, o alvo, As forças prova e a destreza ensaia. , Encurva o arco eburneo, solta e vôa Sequiosa de sangue a ponta aguda Tincta no Averno. Ao golpe inevitável Tremeo o coração, e um vivo lume Nos olhos apparece : do seu braço Admira a força amor. Vai outra setta Ao brando peito incauto e descoberto Do mancebo infeliz. A vez primeira Soube de amor o namorado Cosme. Que violenta paixão pôde encobrir-se! Os olhos fallão : següem-se as palavras; E depois o delírio. O tempo é surdo Aos votos dos amantes. Elles vião Crescer ditoso em rápidos momentos De uma nova esperança o bello fructo; Mas Gonçalo a favor dos arvoredos Occulto chega, pára e ceva as iras. Tal pôde ver se o rápido Jaguára (49) Do fértil Ingâhy (50) nos vastos campos, Se tem defronte o cervo temeroso; Encolhe-se torcendo a hirsuta cauda, Tenta, vigia, espera e lambe os beiços Formando o salto sobre a incauta preza. Cegos amantes, aprendei agora Os perigos da nimia confiança. O zeloso Gonçalo enveste : açodem Os companheiros d'uma e d'outra parte. Triste ruido I pedras contra pedras Alli se despedação : ao seu lado Acha Cosme a Rodrigo, acha Bertoldo. Em quanto dura o fervido combate, Dorothea que vê sem uso a espada, De que o heróe em fúria se não lembra, Que não farás, Amor, tu que transformas Uma donzella n'um feroz guerreiro! Desembainha : a morte insaeiavel Lhe afia o gume, e o furor sangüíneo Ergue e dirige o ferro : já pendente Sobre Gonçalo o golpe, salta e chega O amigo a tempo de salvar-lhe a vida. Pelos braços o aperta, e nelles grava Roxos signaes dos dedos. Em derrota í Correm os três e o campo desamparão. 0 misero, infeliz e novo amante As negras fúrias levão, que despertão No afflicto coração desesperado Ciúme, raiva, amor, ódio e vingança» Assim o invicto domador dos monstros (51), Quando por mão da crédula consorte Recebeo o vestido envenenado No sangue infausto do biforrae Nesso Os rochedos e os montes abalava : Soarão os seus fúnebres gemidos Por longo tempo nas ismarias grutas (52). Valentes e indiscretos vencedores, Tarde conhecereis, e muito tarde, Que um amigo ultrajado é perigoso. Pará- soltar os opprimidos braços Dorothea se empenha; mas Tiburcio Lançando a esquerda mão á ruiva trança A fez voltai, torcendo-lhe o pescoço, Ao claro céo a vista ameaçante. Gaspar o ferro d'entre as mãos lhe arranca: Este um braço sustenta $ outro Gonçalo, E ella presa e sem forças grita e geme. Não d'outra sorte a touro da Chamusca (53) •, Quando tres cães o cercão atrevidos Dois pendem das orelhas e um da cauda; A cornigera testa em vão sacode; Contra a terra se arroja a um lado e outro; E depois que não pôde defender-se, Mugindo exhala a indomita fereza.
O Desertor

Sinopse

Leia gratuitamente O Desertor, de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, poema herói-cômico do arcadismo brasileiro em domínio público. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com discurso, cinco cantos e notas da edição histórica, fonte validada, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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