Universo da obra
Universo da obra
Ato I Cena I Jeppe, sozinho, com uma carta na mão.
É uma pena que o mestre-escola não esteja na aldeia, pois há tanto latim na carta de meu filho que eu não entendo. Muitas vezes as lágrimas me vêm aos olhos quando penso que o filho de um pobre camponês se tornou tão erudito, sobretudo porque não somos camponeses de gente muito instruída. Ouvi dizer de pessoas que entendem de saber que ele é capaz de disputar com qualquer padre que seja. Ah, se eu e minha mulher tivéssemos a alegria de ouvi-lo pregar aqui no Monte antes de morrermos, não lamentaríamos nenhum dos vinténs que gastamos com ele.
Bem percebo que Per Degn não gosta muito da ideia de meu filho voltar para cá. Parece-me até que ele tem medo de Rasmus Berg. É uma coisa terrível com essa gente instruída: guardam tamanha inveja uns dos outros que nenhum suporta ver o outro também ser erudito. O bom homem faz belos sermões aqui na aldeia e sabe falar da inveja de tal maneira que os olhos da gente se enchem de lágrimas; mas me parece que ele próprio não está inteiramente livre desse defeito.
Não consigo entender de onde vem uma coisa dessas. Se alguém dissesse que meu vizinho entende de lavoura melhor do que eu, deveria eu levar isso a mal? Deveria odiar meu vizinho por causa disso? Não, por certo, Jeppe Berg não faria uma coisa dessas. Mas, pela minha fé, lá vem Per Degn.
Cena II Jeppe. Per Degn, o mestre-escola.
JEPPE: Bem-vindo de volta, Per!
PER: Obrigado, Jeppe Berg!
JEPPE: Ah, meu caro Per! Tomara que o senhor possa me explicar um pouco do latim que está na última carta de meu filho.
PER: Que conversa é essa? Acha que não entendo latim tão bem quanto seu filho? Eu sou um velho academicus, Jeppe Berg!
JEPPE: Isso eu sei muito bem; mas estava pensando se o senhor entende o latim novo, pois essa língua também deve mudar, assim como o falar da Zelândia. Na minha juventude, não se falava aqui no Monte como se fala agora. Aquilo que hoje se chama lacaio, naquela época se chamava criado; aquilo que hoje se chama amante, naquela época se chamava concubina; uma senhorita era então chamada donzela de posição; um músico, tocador; e um secretário, escrevente. Por isso penso que o latim também pode ter mudado desde o tempo em que o senhor esteve em Copenhague. Poderia fazer a gentileza de me explicar isto? Consigo ler as letras, mas não compreendo o sentido.
PER: Seu filho escreve que agora está estudando sua Logicam, sua Rhetoricam e sua Metaphysicam.
JEPPE: O que quer dizer Logicam?
PER: É o púlpito dele.
JEPPE: Fico contente com isso. Tomara que ele possa tornar-se padre.
PER: Mas primeiro mestre-escola.
JEPPE: E qual é o segundo item?
PER: Chama-se Rhetorica, que em dinamarquês quer dizer o Ritual; mas o terceiro item deve estar escrito errado ou então deve ser francês, pois, se fosse latim, eu certamente entenderia. Sou capaz, Jeppe Berg, de recitar a Aurora inteira: Ala é uma asa; Ancilla, uma moça; Brabra, uma barba; Coena, um penico; Cerevisia, cerveja; Campana, um sino; Cella, uma adega; Lagena, uma garrafa; Lana, um lobo; Ancilla, uma moça; Janua, uma porta; Cerevisia, manteiga.
JEPPE: O senhor deve ter uma memória dos diabos, Per!
PER: Sim, eu não imaginava que permaneceria por tanto tempo num pobre cargo de mestre-escola. Há muito eu poderia ter sido outra coisa, se tivesse querido me prender a uma moça; mas prefiro me virar como puder a deixar que digam que consegui meu ganha-pão por meio de uma esposa.
JEPPE: Mas, caro Per, ainda há aqui outra coisa em latim que não entendo. Veja esta linha.
PER: Die Veneris Hafnia domum profecturus sum.[1] Isso é um pouco empolado. Ainda assim, compreendo perfeitamente, embora pudesse quebrar a cabeça de outro. Em dinamarquês quer dizer: “Chegou, profecto[2], uma multidão de russos a Copenhague.”
JEPPE: O que será que os russos querem fazer por aqui outra vez?
PER: Não são moscovitas, Jeppe Berg! São estudantes novos, aos quais se dá o nome de russos.
JEPPE: Ah, agora sei. Deve haver uma grande algazarra nesses dias, quando recebem sal e pão e se tornam estudantes.
PER: Quando espera que ele volte para casa?
[1] Na sexta-feira partirei de Copenhague para casa.
[2] Na verdade.
Cena III Jeppe. Per.
JEPPE: Hoje ou amanhã. Caro Per, fique aqui um pouco. Vou correr lá dentro para chamar Nille; ela nos trará uma caneca de cerveja.
PER: Eu preferiria um copo de aguardente, pois ainda é cedo demais para beber cerveja.
Cena IV Per, sozinho.
Para dizer a verdade, não gosto muito da ideia de Rasmus Berg voltar para casa. Não porque eu tenha medo de sua erudição, pois eu já era um estudante veterano quando ele ainda frequentava a escola e, com sua licença, levava palmadas no traseiro.
Na minha época, eram outros os sujeitos que ingressavam na universidade, não os de hoje. Eu vim da Escola de Slagelse com Per Monsen, Rasmus Jespersen, Christen Klim, Mads Hansen — a quem chamávamos na escola de Mads Panqueca — e Poul Iversen, a quem chamávamos de Poul Finkeljokom. Todos sujeitos com osso na testa e barba no queixo, capazes de disputar sobre qualquer matéria que fosse.
Eu me tornei apenas mestre-escola, mas estou satisfeito quando tenho meu pão de cada dia e compreendo meu ofício. Aumentei bastante os rendimentos do cargo e consegui coisas que nenhum de meus predecessores possuía, de maneira que meus sucessores não terão motivo para me amaldiçoar no túmulo.
As pessoas pensam que não há nenhuma sutileza em ser mestre-escola. Pois há, sim! Pela minha fé, o cargo de mestre-escola é um ofício difícil, quando se pretende administrá-lo de tal maneira que consiga alimentar seu ocupante.
Antes de minha época, as pessoas desta aldeia consideravam todos os cânticos fúnebres igualmente bons; mas organizei as coisas de modo que posso dizer a um camponês:
“Qual salmo você quer? Este custa tanto; aquele custa tanto.”
Do mesmo modo, quando se deve lançar terra sobre o morto:
“Quer areia fina ou terra pura e simples?”
Há também várias outras sutilezas das quais meu predecessor, mestre Christoffer, nada sabia; mas ele não tinha estudado. Não consigo compreender como aquele sujeito se tornou mestre-escola; mas também exercia o cargo de acordo com sua capacidade.
O latim ajuda muito uma pessoa em todos os negócios. Eu não abriria mão do latim que sei nem por cem rixdólares, pois ele já me rendeu em meu ofício mais de cem rixdólares — sim, outros cem além desses.
Cena V Nille. Jeppe. Per.
NILLE: Saúde, Per!
PER: Obrigado, mãezinha! Eu normalmente não bebo aguardente, a não ser quando estou com dor de barriga; mas geralmente estou com a barriga ruim.
NILLE: O senhor sabe, Per, que meu filho volta para casa hoje ou amanhã? Finalmente terá um homem com quem poderá conversar, pois, pelo que ouvi dizer, aquele rapaz não foi mal contemplado no que diz respeito à língua.
PER: Sim, acredito que ele seja capaz de falar uma porção de latim de convento.
NILLE: Latim de convento? Mas esse não é o melhor latim, assim como o tecido de convento é o melhor tecido?
PER: Ha, ha, ha, ha!
JEPPE: Do que está rindo, Per?
PER: De nada, Jeppe Berg! Saúde outra vez! À sua saúde, mãezinha! Ha, ha, ha! É verdade o que a senhora diz: tecido de convento é um bom tecido, mas...
NILLE: Esse tecido não é feito no convento? Por que, então, é chamado tecido de convento?
PER: Sim, está certo, ha, ha, ha! Mas não poderia me dar alguma coisa para beliscar com a aguardente?
NILLE: Há aqui um pedaço de pão e queijo já cortado, caso o senhor não despreze.
PER: Obrigado, mãezinha! Sabe como se diz pão em latim?
NILLE: Não, por minha vida, não sei.
Per come e fala ao mesmo tempo.
PER: Diz-se Panis, genetivus Pani, dativus Pano, vocativus Panus, ablativus Pano.
JEPPE: Santo Deus, Per! Essa língua é comprida. Como se diz pão preto?
PER: Diz-se Panis gravis[1]; e pão branco, Panis finis.[2]
JEPPE: Mas isso é meio dinamarquês.
PER: Sim, com toda a certeza. Há inúmeras palavras latinas que têm sua origem no dinamarquês. Pois vou lhes contar uma coisa: havia um antigo reitor da Escola de Copenhague chamado Saxo Grammatica, que aperfeiçoou o latim neste país e escreveu uma gramática latina, razão pela qual recebeu o nome de Saxo Grammatica.
Esse mesmo Saxo remendou bastante a língua latina com palavras dinamarquesas, pois, antes de seu tempo, o latim era tão pobre que não se podia escrever um pensamento correto que as pessoas fossem capazes de compreender.
JEPPE: Mas o que quer dizer a palavra Grammatica?
PER: É a mesma coisa que Donato. Quando o livro é encadernado à maneira turca, chama-se Donato; mas, quando é encadernado em pergaminho branco, chama-se Grammatica e declina-se como ala.
NILLE: Ah, nunca entenderei como tudo isso pode caber na cabeça das pessoas! Minha cabeça fica tonta só de ouvir falar nessas coisas.
JEPPE: É por isso que as pessoas instruídas geralmente também não são muito certas da cabeça.
NILLE: Ora, que conversa! Então você acha que nosso filho Rasmus Berg não é certo da cabeça?
JEPPE: Só me parece um pouco estranho, mãezinha, que ele escreva cartas em latim para mim.
PER: Nisso, pela minha fé, Jeppe tem razão, pois é uma coisa meio tola. Seria como se eu falasse grego com o feitor, apenas para mostrar que conheço aquela língua.
JEPPE: O senhor também entende grego, Per?
PER: Ah, há vinte anos eu era capaz de ficar sobre uma perna só e recitar toda a ladainha em grego. Ainda consigo me lembrar de que a última palavra se chama Amém.
JEPPE: Ah, Per! Será divertido quando meu filho voltar e pudermos colocar vocês dois juntos.
PER: Caso ele queira disputar comigo, encontrará alguém à sua altura; e, caso queira competir comigo no canto, sairá perdendo. Já competi com dez mestres-escolas, e todos tiveram de se declarar vencidos, pois tirei a fé de todos os dez.
Há dez anos me ofereceram o cargo de cantor da Escola de Nossa Senhora, mas não quis aceitá-lo. Pois por que deveria fazer isso, Jeppe? Por que deveria abandonar minha congregação, que me ama e me honra, e que eu, por minha vez, amo e honro?
Vivo num lugar onde tenho meu pão de cada dia e onde sou respeitado por todos. Sempre que o administrador do distrito vem até aqui, mandam imediatamente me buscar para entretê-lo e cantar para ele.
No ano passado, por esta época, ele me deu dois marcos porque cantei ut, re, mi, fa, sol. Jurou que sentira mais prazer com aquilo do que com a maior música vocal que já ouvira em Copenhague.
Caso me dê outro copo de aguardente, Jeppe, cantarei a mesma coisa para vocês.
JEPPE: Com prazer. Sirva mais um copo de aguardente, Nille!
PER: Não canto para qualquer um; mas você é meu bom amigo, Jeppe, a quem sirvo com prazer.
Começa a berrar, primeiro lentamente.
Ut, re, mi, fa, sol, la, si, ut.
Agora de volta:
Ut, si, fa, sol, fa, mi, re, ut.
Agora ouvirão de outra maneira, para verem até onde consigo subir:
Ut, re, mi, fa, sol, fa, si, ut, re, mi, fa, sol, fa, si, ut, re.
JEPPE: Santo Deus, essa última parte foi aguda! Nossos porquinhos não conseguem subir mais alto com a voz.
PER: Agora cantarei depressa:
Ut, re, mi, re...
Não, não foi direito.
Ut, re, mi, do, re, mi, ut...
Não, isso também saiu errado. É diabolicamente difícil, Jeppe, cantar tão depressa. Mas lá vem Monsieur Jeronimus.
[1] Gravis: pesado.
[2] Finis: fim, limite.
Cena VI Jeronimus. Magdelone. Lisbed. Per Degn. Jeppe. Nille.
JERONIMUS: Bom dia, cunhado! Tem alguma notícia de seu filho?
JEPPE: Sim, creio que ele chega hoje ou amanhã.
LISBED: Ah, é possível? Então meu sonho se realizou.
JERONIMUS: E o que você sonhou?
LISBED: Sonhei que passei a noite deitada com ele.
MAGDELONE: Há alguma coisa nos sonhos. Os sonhos não devem ser desprezados.
JERONIMUS: Isso é verdade; mas, se vocês, boas moças, não pensassem tanto nos homens durante o dia, não sonhariam com eles tantas vezes durante a noite. Você também sonhava muito comigo nos dias em que estávamos noivos, não é, Magdelone?
MAGDELONE: Pela minha fé, é verdade; mas, pela minha fé, já faz alguns anos que não sonho com você.
JERONIMUS: Isso acontece porque o amor já não é tão quente agora como era antigamente.
LISBED: Mas é possível que Rasmus Berg volte para casa amanhã?
JERONIMUS: Ora, minha filha! Você não deveria deixar transparecer que está tão apaixonada.
LISBED: Ah, é certo que ele chega amanhã?
JERONIMUS: Sim, sim, você acaba de ouvir que ele chega nessa ocasião.
LISBED: Quanto tempo falta para amanhã, querido pai?
JERONIMUS: Que conversa dos diabos! Essa gente apaixonada parece louca.
LISBED: Sim, pela minha fé, conto cada hora.
JERONIMUS: Você só falta perguntar quanto dura uma hora, para que pensem que enlouqueceu de vez. Acabe com essa tagarelice e deixe que nós, os pais, conversemos.
Escute, meu caro Jeppe Berg: considera aconselhável que esses dois jovens se unam antes que ele consiga um ganha-pão?
JEPPE: Será como o senhor achar melhor. Eu poderia sustentá-los, mas seria melhor que ele primeiro conseguisse seu próprio sustento.
JERONIMUS: Considero inteiramente desaconselhável que se unam antes disso.
Lisbed chora e soluça.
JERONIMUS: Ora, que vergonha! Que desgraça! É vergonhoso uma moça comportar-se dessa maneira.
LISBED, chorando: Ele conseguirá logo um ganha-pão?
JEPPE: Não há dúvida de que conseguirá logo seu sustento, pois, pelo que ouvi dizer, ele é tão erudito que consegue ler qualquer livro que seja. Recentemente, escreveu-me uma carta em latim.
NILLE: E estava muito bem escrita, isso o mestre-escola sabe.
LISBED: Estava tão bem escrita assim?
PER: Sim, suficientemente bem para uma pessoa tão jovem. Ele ainda poderá tornar-se bom, Mameselle. Mas é preciso muito para chegar lá. Eu também pensava que era erudito quando tinha a idade dele, mas...
JEPPE: Sim, vocês, pessoas instruídas, nunca elogiam umas às outras.
PER: Ora, que conversa! Por que eu teria inveja dele? Quando ele ainda nem havia nascido, eu já passara três vezes pelo julgamento da escola; e, quando ele estava na quarta classe, eu já era mestre-escola havia oito anos.
JEPPE: Uma pessoa pode ter uma cabeça melhor do que outra. Uma pode aprender num ano tanto quanto outras aprendem em dez.
PER: Pois Per Degn está disposto a apostar a própria cabeça contra quem quer que seja.
JERONIMUS: Sim, sim, cada um pode ser bom à sua maneira. Vamos agora para casa, crianças! Adeus, Jeppe! Eu estava passando por aqui e quis conversar com você no caminho.
LISBED: Ah, mande me avisar assim que ele chegar.
Cena VII Jeppe. Nille. Per. Jacob.
JEPPE: O que você quer, Jacob?
JACOB: Pai, sabe da novidade? Rasmus Berg chegou em casa.
JEPPE: Santo Deus, é possível? Que aparência ele tem?
JACOB: Ah, ele tem uma aparência muito erudita. Rasmus Nielsen, que conduz a carroça para ele, jura que, durante todo o caminho, ele não fez outra coisa senão disputar consigo mesmo em grego e elamita. E, às vezes, fazia isso com tamanho fervor que acertava Rasmus Nielsen três ou quatro vezes na nuca com os punhos cerrados, gritando sempre:
Probe Majoren, Probe Majoren.[1]
Imagino que tenha tido uma disputa com algum major antes de partir.
De vez em quando, ficava sentado em silêncio, olhando fixamente para a Lua e para as estrelas, com uma expressão tão profunda que caiu três vezes da carroça e quase quebrou o pescoço de tanta erudição.
Rasmus Nielsen riu daquilo e disse consigo mesmo:
“Rasmus Berg pode ser um homem sábio no céu, mas é um tolo na Terra.”
JEPPE: Ah, venha! Vamos sair para recebê-lo. Caro Per, venha conosco. Pode acontecer que ele tenha esquecido o dinamarquês e já não saiba falar outra coisa senão latim; nesse caso, o senhor poderá servir de intérprete.
PER: Nem morto! Tenho outras coisas para fazer.
[1] Probe Majoren, isto é, proba majorem: prove a premissa maior.
ERASMO MONTANO
Tradução brasileira de Erasmo Montano, a comédia satírica de Ludvig Holberg sobre pedantismo, linguagem e vida aldeã. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Traduções.
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