Universo da obra
Universo da obra
Aquele rumor de cachoeira no silêncio da madrugada, seguido de um demorado ranger de monjolo e do baque da mão, socando… Esses sons repassavam o ambiente de um bucolismo de fazenda, acalentando a modorra de Licínio em quem despertavam recordações do passado. Reconhecia a vilazinha das Três Barras, sua terra natal, onde vivera tão pouco. Os estudos prendiam-no em São Paulo, e raras as férias que ia passar com a mãe. Instado por ela, fora aquele ano. Um tanto pela necessidade de poupar três meses de pensão, porque aos poucos a vida se lhe tornava difícil: fazendo-se moço, a vaidade trazia novas exigências, de modo que a exígua mesada que a viúva podia remeter mal lhe chegava para o passadio. E a ela bem que custava amealhá-la, com os rendimentos das costuras. Os sons da madrugada embalavam-lhe suavemente a modorra do despertar: o catadupejar remoto, cantos de galos… E o tempo passava; Licínio deixava-se ficar na cama, gozando a enxerga fofa de palha nova, bocejando antecipadamente de mais um longo dia vazio que tinha de tolerar. Com o amanhecer a vila ia-se animando. Já lhe vinha um ruído de bater roupa, passos e vozes de transeuntes. Pelo cantar da caneca raspando o barro do pote, conheceu que sua mãe estava de pé. Ouviu-lhe na casa os passos que ela fazia leves, para não o despertar. Certo momento pareceu-lhe que ela conversava com alguém. Chegado na véspera, Licínio estranhara a mãe, achara-a velhusca, decaída. Estranhara-lhe também a voz, tantos anos não a ouvia! Notava-lhe a inflexão um tanto fanhosa, um som anacrônico, que
lembrava a voz subjetiva das recordações. Dizia as frases de um modo ligeiramente arrastado. Achava-a velhusca, mais ainda do que a casa, que se fizera com o tempo um pardieiro inabitável. Habituado ao conforto das casas de pensão, Licínio sentia-se desajeitado naquele lar que era o seu. No meio da pobreza em que a mãe vivia, julgava-se deprimido, descido do seu nível de valia, como que degradado. Boa mãe! Como ele correspondia mal ao prazer que ela sentia de tê-lo junto de si! Adorava-o. Por ele era que D. Ismênia varava o dia a trabalhar em costuras, interrompendo-se apenas para o tráfego doméstico. Costureira de pobres, obrigada a esse gênero de vida pela viuvez necessitada, custosamente reunia o dinheiro da mesada de Licínio. Vivia só, e como se afanava no correr do dia! Cozinhava, lavava e cultivava numa nesga de horta canteiros de hortaliças. Licínio maravilhava-se dessa atividade multiforme que atendia a tudo com oportunidade e diligência. Às vezes pedia-lhe que se poupasse, preguiçando um pouco para que a saúde não se ressentisse. — Não posso, meu filho, senão como poderia você estudar? Além disso, sou forte, e esta labuta faz-me bem. — Ah! E Licínio concordava, achando soberana lógica na explicação. Sabia que era ele a única razão da vida da viúva, que para favorecer seus estudos ela empregava o melhor de sua atividade; e há tantos anos já durava essa situação, que ele a aceitava como fato natural. Bem que não tivesse mau interior, nunca lhe ocorrera a ideia de trabalhar, por si e pela mãe, para repousar a velhice desta, de tal arte se habituara à dependência. Não que contasse recompensá-la no futuro, quando obtivesse seu pergaminho de bacharel, pois não se esmerava em obter promoções na carreira escolhida, e a prova fora sua reprovação recente, nos exames do segundo ano acadêmico, reprovação que o enchia de cansado tédio pelos estudos. Já a manhã se adiantava quando Licínio abriu, estremunhado, a porta do quarto. D. Ismênia veio da cozinha encontrá-lo na sala de jantar, e perguntou:
— Dormiu bem, meu filho? — Bem, obrigado. Ele sentou-se no banco comprido, de espaldar alto, que ladeava a mesa, únicos móveis existentes naquele cômodo. Na esteira do forro, negra de fuligem, nos portais, também negros, nas tábuas largas do assoalho desnivelado pela pressão das paredes que abatiam, havia o mesmo ar de velhice decadente que se notava na pessoa de D. Ismênia. Quanta simplicidade arcaica, e quanta miséria em tudo! Até no velho pote, posto a um canto sobre um caixão, tampado por um prato desbeiçado. Malgrado os anos de ausência, tudo aquilo lhe era ainda familiar. Reconhecia na casa cada lasca de madeira, cada pedra da calçada, via nela os mesmos ornatos: flores de papel nos ângulos, velhíssimas, encardidas, e as duas estampas na parede, enroscadas de teias de aranha, uma representando a morte do justo, entre anjos, outra a do pecador, no leito, rodeado de demônios horrendos, que assombraram a meninice de Licínio. — Muitas pessoas já vieram procurar você hoje — disse D. Ismênia. — Veja o que trouxeram. Isto foi a Quina, que te pajeou. Coitada! Gosto de agradar… Mas é tão pobre! Mostrou-lhe uma cesta de pepinos pousados em alcatifa de cambuquira. — A Joana, sabendo que você veio, mandou uma franga. Pedro Carpinteiro, este jacazinho de jabuticabas. Estão fresquinhas… Licínio recebeu-o das mãos da mãe, que retirava as folhagens ainda orvalhadas que protegiam as frutas. Estava atestado de bolas pretas, cada qual com um reflexo de luz no negro luzidio e molhado da superfície. — Não sei como pôde apanhá-las! Anda atarefado, porque a mulher deu à luz ontem… Mandou também esta carta, deve ser participação de nascimento. Licínio rompeu-lhe a sobrecarta sobrescritada com grande esbanjamento de tinta e de cuidados. A carta era longa, duas laudas de garranchos. O moço leu-as apiedado do trabalho que Pedro se
dera para juntar aquelas frases, onde se derramava a sua bondade de criatura simples, rude e sincera. Para ser agradável “ao doutor, filho da comadre”, quantas horas não levara rascunhando, errando, a praguejar contra a pena perra, a remexer impaciente o bojo do tinteiro meio seco, esquecido da mulher enferma! Era, de fato, participação. Linguagem amistosa, cordial, mas num estilo confuso, de tal modo embrulhado, que no fim não se sabia ao certo quem havia dado à luz, se a mulher ou se ele. Esquecida a carta de um lado, Licínio começou a comer as jabuticabas, instando com a mãe para que o imitasse. E, no silêncio que se seguiu, apenas se ouvia o estalo surdo das frutas nos dentes. Nos olhos de D. Ismênia, que observava Licínio, brilhava a alegria de vê-lo cercado da consideração e amizade das pessoas suas conhecidas. O estado mental do filho, porém, era diverso. Aquelas provas de carinhoso acolhimento não lhe davam prazer. Humilhavam-no. “Tudo gentinha”, pensava. “Minha mãe não tem outras relações! A escória de Três Barras, jornaleiros, miseráveis… No entanto, no tempo de papai vivo, gozávamos a consideração de todos. Por que mamãe não continuou a cultivar as antigas amizades? Sinto-me deslocado, só. Detesto, por isso, Três Barras.” Aquela decadência, aquele meio de melancólica humildade, coava-lhe o arrepio pávido que provoca o contato de um morto. Ali ele tocava o cadáver de uma existência já vivida. A casa, morta; a mãe dos antigos tempos, morta; morto o antigo lar também. O coração confrangeu-se-lhe ao pensá-lo. Sentiu então saudades de sua vida descuidosa de estudante, e arrependia-se de ter vindo à vila. — Em que está pensando, meu filho? — perguntou a mãe, vendo-o cismativo. — Em nada… — Julgava que fossem saudades de São Paulo. Fez-se uma pausa. Quebrou-a a viúva, dizendo entre risonha e séria, a ameaçá-lo com o dedo:
— Olhe, você não tem licença de esquecer-me! Não faça como os outros. É o último filho que me resta. O último, sim. E ela enumerou os demais, os ingratos: o Álvaro, deputado, que casara rico e havia dez anos não lhe escrevia, nem para responder aos pedidos de emprego para o Licínio; o Ubaldo, absorvido pela mulherzinha tirânica, ciosa de tudo, e que desde o casamento buscara isolá-lo da família; a Ester, já maior, educada por americanos, com quem ficara morando, e de tal modo americanizada, que raro escrevia à mãe lacônicos postais em inglês que eram lidos por ela quando se lhe deparava um intérprete casual. Eram como mortos… Que motivaria essa indiferença? Pois não os criara com carinho, sempre não se desvelara por eles com os extremos de boa mãe? Por que tal ingratidão? A pergunta erguera entre a mãe e Licínio um doloroso ponto de interrogação, que os amarrou em novo intervalo de silêncio; mas D. Ismênia apressou-se ela própria a explicar: — Contrariedades, decerto, cuidados… Porque meus filhos nunca tiveram mau interior. Não me vêm ver, não me escrevem, mas estou certa de que cada dia me dão ao menos um de seus pensamentos, e basta. E basta! Não! não bastava. Leu-o Licínio no olhar sofredoramente perquiridor que a mãe lhe entranhou até o íntimo da alma, e que, cheio de angústia, parecia dizer-lhe: — Você, você também me esquecerá um dia…
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