Universo da obra
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NO SILENCIO DA FLORESTA
UM DRAMA VERDE
A Raymundo Moraes
Bem na curva de um rio, ao alto de um barranco,
em recanto risonho, ao resplendor do sol,
de uma sumaumeira a fronde, em vigoroso arranco
ergue da selva immensa o magestoso altar.
Quando em noites de lua, as pérolas da lua cheia
e o sereno, envolviam-na toda
em mantos de setim:
projectava uma sombra — sombra triste na areia
E cantava! E gemia!...
E embalava nos braços,
soltos, pendidos, tremulos no espaço,
cem ninhos de japiins
E, e tarde, o vento amigo e o clima bom e ameno
as cantigas e lendas orchestravam
nas cordas das lianas — lyras verdes suspensas
nas frondes rendilhadas da sumaumeira.
Uma folha, porém, sobre um galho de bronze,
ao nó de uma forquilha, a chlorophylla, um dia,
na árvore gigante, em esmeralda abriu.
Passado o tempo — mezes de sol, mezes de chuva
e da folha um cipo brotou finissimo
Tenue e fragil cordel! Das altas torres das folhagens
desceu sobre o alcantil, criou raiz, fez-se arbusto
e em tentaculos mil as ramas distendeu.
e cahiu
Subiu e ennovelou-se em volta á sumaumeira,
espartilhou-lhe o cerne, a copa e as sapopemas,
enredou-a em cipos, envolveu-a em lianas,
jungiu e encouraçou-a em malhetada algema,
num abraço feroz de polvo vegetal!...
E a árvore frondosa, a mãe boa dos ninhos,
debalde, longo tempo ainda, angustiada e em prantos,
— pranto das folhas mortas desgarradas —
debalde supplicou:
"Oh! deixa-me, por Deus viver!
Da-me um pouco de ar, uma restea de sol, uma gotta de luz!
Quasi não posso mais sentir o encantamento e a volupia
do afago que tanto amei nas caricias do vento....
E os meus braços que eram sonoros como um alaude
do passaredo o amor e a glória da saude
não mais podem vibrar.
Ja não vejo do rio o luminoso espelho
diante o qual, vaidosa, tanta vez, sorrindo em flores,
compuz a minha mocidade!
Oh! deixa-me viver! viver um pouco!
Todo o meu rijo ser se amargura e definha...
Ah! eu que fui a mais bella!
“Ah! eu que fui a rainha!
“— O meu crime, talvez!
Porque prendes-me assim?
Que injusto captiveiro!
Oh! deixa-me viver! — Sólta-me Apuhyseiro!"
Algum tempo, mais tarde, enluctando a paisagem,
toda em crepes vestida, amortalhada,
a sumaumeira ainda em derradeiro arranco
ergue mirrada fronde, pallida, incolor.
Morreu!
E em tenebrosa noite um vendaval mais forte
no risonho recanto em furias se soltou:
e a árvore maior que desdenhou do raio —
exangue, num extertor, do alto do barranco,
com o polvo vegetal
dentro do rio tombou!
Desfeito o vendaval,
quando de novo a lua cheia
abriu a noite em camandulas de jasmins —
só restavam boiando, ao sabor das correntes — indifferentes
os velhos ninhos dos japiins.
Leia gratuitamente Calendário: Poemas e ilustrações, de C. Paula Barros, obra poética brasileira em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir da fonte BLPL/UFSC, com preservação de versos, seções e características históricas do livro.
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