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Capítulo 29 · Calendário

Os bandeirantes

29 de 31 ≈ 6 min de leitura

OS BANDEIRANTES

A Santos Dumont

A selva era o terror!

Era tetrica e hirsuta.

A natureza bruta, em volta aos horizontes

das montanhas cyclopicas,

tinha fauces de megatherios

e de mastodontes,

vomitando através dos rudes socavões

as febres e as terças,

Os miasmas e as pestes,

no assomo destruidor

das tetanias e das convulsoes!

A floresta era o chaos!

Era a treva, o marasmo,

a colera e ao tropel dos indios indomaveis,

ao ribombar da voz dos trocanos de guerra,

dos membys e bores

soprando ao vento

odios de gerações a gerações!...

Os cocares passavam celeres nas mattas,

ao fragor da peleja,

ao estilhaçar dos cranios,

sob o ranger das rijas tangapemas,

das vingativas flechas sibilantes!...

Havia nas clareiras,

quando o urutau cantava,

e a noite, em cruzeiros e soes,

toda se estrellejava,

sarcasticas risadas de caveiras,

sacys em festa

em capengadas danças,

e o gemido soturno dos duendes,

sob as ramadas verdes e os silvedos,

a excommungar!...

E os silvos dos reptis,

e o coaxar dos batrachios

enchiam as selvas de malsinações!...

O mar ainda mais rude!...

Rasgavam e estilhaçavam os céus,

as faiscas e os raios.

Reboava o trovão,

a tormenta zunia.

O mar

era o abysmo, o pélago, iracundo,

o tormentoso vortice do mundo,

nas implacaveis furias dos cyclones,

braços de espuma contra as naus erguidos.

a praguejar!...

No entanto,

de vez em vez,

como um albatroz,

as desnastradas velas se enfunavam

nos altos mastareus das caravélas,

e singravam bailando, graciosas,

as bujarronas apontando

as Terras Luminosas...

de Encanto,

e de Pavor!...

E em pouco

abria-se na selva a esperança —

o Caminho!

A picada surgia

serpeando o paul e colleando as serras...

E o sol,

em radiosos sulcos,

de ouro e pedraria,

sobre os velhos madeiros, seculares,

e as avencas e os lichenes,

luzia!...

Arredavam-se as feras,

o jaguar fugia,

a serpente nas furnas se constrangia;

voava a jurity

e o gaviao voava —

e o indio, vingador,

lançando envenenadas flechas pelo espaço

com o jaguar feroz

e o gavião real,

em blasphemias rugindo a imprecação e as pragas,

pelos invios mundeus

das mattas se embrenhava!...

E os Peões,

de um em um!...

E sempre! E sempre mais,

de palmo em palmo sobre a terra rude,

das cristas do maciço aos fundos da palude;

no rorejar dos campos e das grotas,

através das caudaes,

galgando as cataratas,

abrindo os chapadoes, nos seus sonhos de ouro,

a golpes de machado

e a tiros de arcabuz —

desvirginavam a Terra —

num espasmo de morte !

Numa benção de luz!

E quando, sangrando os pes,

esqualido e sedento

algum

crivado o peito em flechas, e ao relento;

abandonado,

a sós dentro da noite, ao sorrir dos phantasmas

e ao agoureiro gemer das corujas, morria —

logo, de prompto, um outro mais audaz

mais forte o succedia.

Foi assim pela ronda dos tempos,

Esgotaram-se os seculos!...

— —

E o Bandeirante

volta e renasce,

e, homem de bronze, luta!...

E de victoria em victoria,

vem, passa,

galga a collina,

ascende aos altos cimos das montanhas,

irrompe na floresta entre as sebes e os troncos,

transpõe mares e rios, amplia os horizontes!

rega em suor os campos e as ravinas,

e do sangue que esparge ao chao em largas sementeiras,

brotam a seara e a flor —

doirando as terras,

e engrinaldando as geiras!...

Em que floresta erma e sombria,

oh! primitivos Bandeirantes! —

Em que floresta, erma e sombria,

em que caminho umbroso e ignorado,

na quietude do somno,

escondidos, dormis?...

Levantae-vos das tumbas cinerarias,

que os sonhos de ouro, em glórias multifarias,

vossos sonhos de argento e de esmeraldas,

se concretizam e tornam em realidade.

A estrada de outr'ora,

a viella e a picada

reflorescem em jardins

no esplendor das cidades!

O machado se fez locomotiva,

a enxada em charrua.

O tronco e o pelourinho ergueram-se na Escola!

E a Escola é o livro, o amor, o lar e a officina

em que se amplia o olhar e a alma se illumina.

O que foi tapery

é hoje o arranha céu,

e a fabrica a rodar.

Caravella é o navio

que as procellas jungiu,

serenou o Oceano!...

E o genio do Bandeirante audaz

achando a terra estreita —

do gaviao real tomando as asas brancas —

as conquistas do azul

alçou-se no Aeroplano!

E' a Pátria que caminha!

E' a Raça das Bandeiras

que se refunde ao cadinho do tempo,

no renascer das gerações!

E' a Pátria que caminha

e que acena ao Universo

com os seus Pendoes de Ouro e de Esmeraldas,

em lampejos de céus — Hymno de Liberdade —

para as glórias do Amor, da Paz e do Trabalho

na confraternidade das Nações!

E' a Pátria que se eleva aos paramos do mundo

para as glórias do Genio e os surtos da Sciencia

na conquista triumphal das civilizações

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Sinopse

Leia gratuitamente Calendário: Poemas e ilustrações, de C. Paula Barros, obra poética brasileira em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir da fonte BLPL/UFSC, com preservação de versos, seções e características históricas do livro.

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