Universo da obra
Universo da obra
OS BANDEIRANTES
A Santos Dumont
A selva era o terror!
Era tetrica e hirsuta.
A natureza bruta, em volta aos horizontes
das montanhas cyclopicas,
tinha fauces de megatherios
e de mastodontes,
vomitando através dos rudes socavões
as febres e as terças,
Os miasmas e as pestes,
no assomo destruidor
das tetanias e das convulsoes!
A floresta era o chaos!
Era a treva, o marasmo,
a colera e ao tropel dos indios indomaveis,
ao ribombar da voz dos trocanos de guerra,
dos membys e bores
soprando ao vento
odios de gerações a gerações!...
Os cocares passavam celeres nas mattas,
ao fragor da peleja,
ao estilhaçar dos cranios,
sob o ranger das rijas tangapemas,
das vingativas flechas sibilantes!...
Havia nas clareiras,
quando o urutau cantava,
e a noite, em cruzeiros e soes,
toda se estrellejava,
sarcasticas risadas de caveiras,
sacys em festa
em capengadas danças,
e o gemido soturno dos duendes,
sob as ramadas verdes e os silvedos,
a excommungar!...
E os silvos dos reptis,
e o coaxar dos batrachios
enchiam as selvas de malsinações!...
O mar ainda mais rude!...
Rasgavam e estilhaçavam os céus,
as faiscas e os raios.
Reboava o trovão,
a tormenta zunia.
O mar
era o abysmo, o pélago, iracundo,
o tormentoso vortice do mundo,
nas implacaveis furias dos cyclones,
braços de espuma contra as naus erguidos.
a praguejar!...
No entanto,
de vez em vez,
como um albatroz,
as desnastradas velas se enfunavam
nos altos mastareus das caravélas,
e singravam bailando, graciosas,
as bujarronas apontando
as Terras Luminosas...
de Encanto,
e de Pavor!...
E em pouco
abria-se na selva a esperança —
o Caminho!
A picada surgia
serpeando o paul e colleando as serras...
E o sol,
em radiosos sulcos,
de ouro e pedraria,
sobre os velhos madeiros, seculares,
e as avencas e os lichenes,
luzia!...
Arredavam-se as feras,
o jaguar fugia,
a serpente nas furnas se constrangia;
voava a jurity
e o gaviao voava —
e o indio, vingador,
lançando envenenadas flechas pelo espaço
com o jaguar feroz
e o gavião real,
em blasphemias rugindo a imprecação e as pragas,
pelos invios mundeus
das mattas se embrenhava!...
E os Peões,
de um em um!...
E sempre! E sempre mais,
de palmo em palmo sobre a terra rude,
das cristas do maciço aos fundos da palude;
no rorejar dos campos e das grotas,
através das caudaes,
galgando as cataratas,
abrindo os chapadoes, nos seus sonhos de ouro,
a golpes de machado
e a tiros de arcabuz —
desvirginavam a Terra —
num espasmo de morte !
Numa benção de luz!
E quando, sangrando os pes,
esqualido e sedento
algum
crivado o peito em flechas, e ao relento;
abandonado,
a sós dentro da noite, ao sorrir dos phantasmas
e ao agoureiro gemer das corujas, morria —
logo, de prompto, um outro mais audaz
mais forte o succedia.
Foi assim pela ronda dos tempos,
Esgotaram-se os seculos!...
— —
E o Bandeirante
volta e renasce,
e, homem de bronze, luta!...
E de victoria em victoria,
vem, passa,
galga a collina,
ascende aos altos cimos das montanhas,
irrompe na floresta entre as sebes e os troncos,
transpõe mares e rios, amplia os horizontes!
rega em suor os campos e as ravinas,
e do sangue que esparge ao chao em largas sementeiras,
brotam a seara e a flor —
doirando as terras,
e engrinaldando as geiras!...
Em que floresta erma e sombria,
oh! primitivos Bandeirantes! —
Em que floresta, erma e sombria,
em que caminho umbroso e ignorado,
na quietude do somno,
escondidos, dormis?...
Levantae-vos das tumbas cinerarias,
que os sonhos de ouro, em glórias multifarias,
vossos sonhos de argento e de esmeraldas,
se concretizam e tornam em realidade.
A estrada de outr'ora,
a viella e a picada
reflorescem em jardins
no esplendor das cidades!
O machado se fez locomotiva,
a enxada em charrua.
O tronco e o pelourinho ergueram-se na Escola!
E a Escola é o livro, o amor, o lar e a officina
em que se amplia o olhar e a alma se illumina.
O que foi tapery
é hoje o arranha céu,
e a fabrica a rodar.
Caravella é o navio
que as procellas jungiu,
serenou o Oceano!...
E o genio do Bandeirante audaz
achando a terra estreita —
do gaviao real tomando as asas brancas —
as conquistas do azul
alçou-se no Aeroplano!
E' a Pátria que caminha!
E' a Raça das Bandeiras
que se refunde ao cadinho do tempo,
no renascer das gerações!
E' a Pátria que caminha
e que acena ao Universo
com os seus Pendoes de Ouro e de Esmeraldas,
em lampejos de céus — Hymno de Liberdade —
para as glórias do Amor, da Paz e do Trabalho
na confraternidade das Nações!
E' a Pátria que se eleva aos paramos do mundo
para as glórias do Genio e os surtos da Sciencia
na conquista triumphal das civilizações
Leia gratuitamente Calendário: Poemas e ilustrações, de C. Paula Barros, obra poética brasileira em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir da fonte BLPL/UFSC, com preservação de versos, seções e características históricas do livro.
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