Universo da obra
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ALMA DOS PAMPAS
Os Gauchos
Ao Leovigildo Paiva
Noite de frio!
A serenada baixa
sobre a quincha dos ranchos, branca e fria!...
O vento gurne, cia e rodopia,
toldam-se os céus, alvejam-se as macegas...
e tudo aos poucos se enregela.
Esfria !...
Que frio!...
Tarde, em horas mortas,
correm na cancha os pingos parelheiros,
fogem as tropilhas e os baguaes se assustam...
"Lá fora
anda o Negrinho no seu pastoreio...
Quem lhe accende uma vela no caminho
para leval-a a sua Nossa Senhora?"
A noite sobe
e desce o frio!...
Na estrada sopra o minuano algissimo, inclemente.
E os Gauchos sentados junto ao fogo
churrasqueiam, cantando ao som da acordeona,
tomam o "amargo" e num pellego amigo,
pitam e descançam, sossegadamente.
Cedo, quando a orvalhada —
aos prestigios do sol em neblina de argento —
toda se pulveriza em ouro e águas marinhas,
ao rosicler da humida alvorada,
alegram-se as querencias e as mangueiras.
A invernada clareia. E em pérolas de orvalho
rorejam as sangas e o potreiro e os prados
amanhecem na festa e na alleluia
da vida e do trabalho.
E em pleno dia,
no azulado matiz das cochilhas longinquas,
pelo ondear dos campos e dos cerros,
em carreiras, tropéis,
vibrando as açoiteiras,
guascas em corropio, sovéos e boleadeiras,
passam ostentando o reluzente apeiro,
Os Gauchos mui guapos,
nos seus ligeiros fletes luzidios!...
Eu os vejo através da distancia!...
E que importa
si o ideal commum da Pátria os aproxima!
Quanto mais longe mais devotamento!...
Terra Bendita!
Terra que é minha e não conheço e adoro!...
Vendo-a — mesmo de longe — o meu olhar se estrella.
E ao meu amor, a distancia que importa
si a bemdizel-a eu morreria por ella?...
Que a minha voz de collina em collina,
de quebrada em quebrada,
de ranchinho em ranchinho,
desde os meus pagos — Paraíso Verde —
em orações de fé,
através das distancias do caminho,
chegue até vós — Gauchos da minha Terra —
porque sois para mim,
polvilhados de sol,
pelos pampas perdidos,
ou no encanto das noites constelladas,
— Sentinellas — heroicas e avançadas,
no mais Extremo Posto — bem no extremo
do Coração que é toda a Nossa Terra.
Leia gratuitamente Calendário: Poemas e ilustrações, de C. Paula Barros, obra poética brasileira em domínio público. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir da fonte BLPL/UFSC, com preservação de versos, seções e características históricas do livro.
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