Universo da obra
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Os conhecimentos geographicos dos antigos eram limitadissimos, não
conhecendo os europeus mais do que duas terças partes do seu continente,
o norte da Africa e o sudoeste da Asia, acreditando Ptolomeu que a
Africa se estendia até ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano
Indico a um simples lago ou pequeno mar interior. Nessa época, o que se
chama India comprehendia a Indo-China, o Indostão, as ilhas e regiões do
extremo Oriente. Era a India considerada como um paiz de fabulosas
riquezas e nella dizia-se que habitava o Prestes João, soberano
Christão, que reunia o poder temporal ao espiritual e era o summo
pontifice do Oriente.
O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso e considerado
innavegavel, povoado por monstros, coalhado de escolhos, coberto de
nevoa densa. Era um mar onde, para uns, reinava a eterna calmaria podre,
para outros, era constantemente açoutado por violentos tufões, de sorte
que era uma barreira á communicação entre os dois hemispherios.
Não contentes de limitar a tão pouco os seus conhecimentos geographicos,
os antigos inventavam lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias, de
estatuas e de columnas, que impediam os navegantes de marchar.
As columnas de Hercules fechavam o caminho do Atlantico, outras duas
columnas erguiam-se num estreito, impedindo a entrada do mar da India. A
phantasia não tinha diques e os mappas, principalmente o de Marco Polo,
marcavam milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava o paraiso,
o purgatorio e o inferno! Na ilha de Salomão, onde se dizia estar o
cadaver desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio, tres estatuas
faziam retroceder o navegante sob pena de morte. O cabo Bojador era um
ninho de serpentes e na ilha de Ceylão estava o tumulo de Adão!
Ainda em 1375 a costa africana só era conhecida de Ceuta até ao Cabo
Bojador, e ainda em 1436, já em pleno seculo XV, o mappa de André
Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo, reproduz as lendas e
figuras da edade média, collocando Jerusalém no centro do mundo e
determinando o local do paraiso terrestre!... Toda a terra conhecida
resumia-se num unico continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes
estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter chegado em 1492, quando
aportou ás Antilhas.
Lendas de origem portugueza só havia duas--a do gigante Adamastor, no
Cabo das Tormentas, que o grande épico dos Lusiadas tão lindamente
narrou em verso sonoroso, e a do cavalleiro de pedra, na ilha do
Corvo--mas este, ao contrario dos outros que intimavam o navegante a
retroceder, mandava-o avançar, apontava-lhe o caminho a seguir,
demandando novas regiões.
Taes eram os conhecimentos geographicos até ao primeiro terço do seculo
XV.
Foi então que appareceu o famoso projecto do infante d. Henrique,
projecto que revolucionou o systema do mundo.
Até ahi só se conheciam dois caminhos para chegar ao Oriente, ambos por
terra, ambos partindo do Mediterraneo. Conhecida a India como um paiz de
riquezas fabulosas e tendo cessado para os portuguezes, com a tomada de
Ceuta, o trafico dos generos do sertão pelo Mediterraneo, cogitou o
infante d. Henrique em chegar á India por um outro caminho--a via
maritima, pelo occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o Mar
Tenebroso, esse oceano inçado de escolhos e de monstros, impenetravel e
mysterioso. Como o seu intuito era explorar as riquezas indianas e levar
a fé aos musulmanos, com os quaes esperava combater, elle sentiu a
necessidade de um alliado e o alliado natural era o Prestes João, o
summo pontifice da christianidade indiana.
Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo pela via maritima.
«Provêm desta origem, diz o sr. Faustino da Fonseca na sua obra
admiravel, as explorações para o sul e para o occidente; as grandes
viagens do occidente e do oriente; o encontro de duas passagens a leste
e a oéste,--o Cabo da Boa Esperança e o estreito de Magalhães; as
descobertas da costa da Africa e das ilhas do Atlantico, da America do
Norte e do Brazil.»
«Obedece tudo a este proposito, subordina-se tudo a este projecto, são
tudo soluções ao problema: os conselhos de Toscanelli e de Monetario, o
erro de Colombo, a audacia de Magalhães.»
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