Universo da obra
Universo da obra
Mas, vejamos agora quem era Colombo e o que fez elle, não para
descobrir, mas para chegar á America e de uma parte della tomar
posse official para a corôa de Hespanha.
Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em Genova em 1450, veio ao
mundo dois annos depois daquelle (1448) em que André Bianco registou no
seu mappa a existencia do Brazil a 1.500 milhas das ilhas de Cabo Verde,
tres annos depois que um navio portuguez foi á Groenlandia, e apenas
dois annos antes daquelle em que o navegante portuguez Diogo de Teive
chegou á latitude da Terra do Lavrador, terra americana que João
Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda descobriram e della
tomaram posse em 1492, mezes antes de Colombo chegar pela primeira vez
ás Antilhas.
Filho de uma familia de operarios, era Colombo um tecelão, que apenas
apprendera a ler e a escrever e que, até aos 23 annos de edade, se
conservara sem fazer estudos universitarios, sem seguir a carreira
maritima, sem nada saber de cosmographia nem de pilotagem. Indo para
Savone, em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se conservou durante
dois annos. Não lhe sorrindo a fortuna como taverneiro, foi, em 1473,
para Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu uma casa de
pasto, e onde casou com uma rapariga portugueza, filha de um tal
Bartholomeu Perestrello, mareante, já então fallecido. Na Madeira
nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira começou elle a apprender
nautica nos documentos, instrumentos e mappas de Perestrello, que a
sogra lhe forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situação das
Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches[1], que as descobriu, que em
sua casa de pasto se hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda existe
na Madeira essa casa que Colombo habitou. É Bartholomeu de las Casas, o
amigo e companheiro de Colombo numa das suas viagens, quem, na sua
Historia das Indias, nos dá conta desse episodio da vida do genovez em
Portugal. Referindo-se aos objectos de Perestrello, que a sogra dera a
Colombo, diz: «eram instrumentos e escriptos e pinturas (cartas e
mappas), convenientes á navegação, os quaes deu a sogra ao dito Colombo,
que com a vista delles muito se alegrou.» E accrescenta: «com estes se
crê haver sido instigada a sua natural inclinação.»
[Nota de rodapé 1: Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473 a
1484.]
Quando Colombo chegou a Portugal já ahi eram conhecidas as cartas
hydrographicas planas inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante
a sua permanencia no reino que o portuguez Fernando construiu a primeira
bussola completa com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos do
rei aperfeiçou o astrolabio, assim como as taboas astronomicas
applicadas á navegação.
Vivendo no meio de uma grande familia de navegadores, sabios, como o
testemunhou mais tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor das
viagens e descobertas dos portuguezes, é natural que Colombo, instigado
pela mulher e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos que
recebeu e por outros que manuseou e consultou depois, estimulado pelas
audacias felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar fortuna pelo mar e
procurasse obter a pratica da navegação que de todo lhe faltava. Para
isso conseguir, embarcou em navios portuguezes e com pilotos
portuguezes apprendeu a navegar.
É ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando diz, na sua já citada
Historia das Indias: «resolveu ter por experiencia o que então do
mundo pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar e assim navegou
algumas vezes aquelle caminho em companhia de portuguezes, como pessoa
já residente e quasi natural de Portugal.»
Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu a navegar e foi ainda
em Portugal que teve conhecimento exacto de terras ao occidente, terras
que, obcecado pelas theorias de Toscanelli, Marco Polo e outros
geographos e cosmographos antigos, elle suppoz sempre que fossem
asiaticas.
Foi então, depois de adquirida esta instrucção theorica e pratica,
ministrada pelos portuguezes, que o genovez affagou a idéa de descobrir
o caminho da India pelo occidente, indo á terra onde já havia chegado
Affonso Sanches.
Para conseguir os seus fins, procurou desde logo fazer relações com d.
João II, rei de Portugal, o qual, longe de esconder delle as provas que
possuia da existencia de terras ao occidente e ao sul, lh'as mostrou,
como o proprio Colombo confessa, indicando-lhe nos mappas a situação da
Terra Nova ou de João Vaz e a do Brazil ou Terra dos Papagaios.
Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que um dia, «soprando fortes
ventos do poente, o mar trouxe ás costas das ilhas do Fayal e da
Graciosa alguns troncos de pinheiros e ás da ilha das Flores dois
cadaveres de caras mui largas e de feições differentes das dos
christãos.»
Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento, como ainda informa Las
Casas, da viagem do navio portuense que em 1447 tinha ido á Groelandia,
da ida de Diogo de Teive em 1452 á latitude da Terra do Lavrador, das
viagens de Vicente Dias, de Antonio Teive e de Affonso Sanches, de 1473
a 1484, da concessão a Fernão Domingues do Arco, em 1484, e das viagens
de João Vaz Côrte Real e seus filhos, começadas em 1472, resolveu
Colombo, certo da existencia de terras ao occidente, procurar um
principe christão que o ajudasse e protegesse na empresa do
descobrimento da India pelo poente.
Foi então a Castella offerecer os seus serviços á corôa hespanhola.
Diz Las Casas que, guiado pelas informações que possuia, «Colombo tinha
a certeza que havia de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas
pessoalmente tivesse estado.»
E foi isso, provavelmente, o que Colombo, munido de copias dos mappas
que viu em Portugal, e conhecedor das viagens e das doações alli feitas,
affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes, não que ia achar ou
descobrir, mas tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente
descobertas pelos portuguezes, dessas Antilhas que Affonso Sanches
descobrira, cuja situação os seus mappas e papeis lhe revelaram.
Tal offerta elle não podia fazel-a ao rei de Portugal, porque tinha a
certeza de que seria recusada. Que poderia elle offerecer á corôa
portugueza, que esta já não conhecesse?
Accresce que, achando-se individado e sendo perseguido pelos credores,
elle sentia necessidade urgente de sahir de Portugal e procurar no
estrangeiro os meios de solver os seus compromissos.
Eis ahi as razões pelas quaes deixou Portugal e foi á Hespanha, não no
nobre intuito de descobrir terras e de praticar feitos que lhe dessem
renome, mas no de ganhar dinheiro.
Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo foi, por inveja, maltratado
em Portugal e, por isso, de lá sahiu, fugindo, faltam á verdade.
Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos, que descobertas havia
elle feito, quando deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender,
para que delle alli tivessem inveja? Inveja poderia elle ter, e
certamente tinha, daquelles que, arriscando a vida e a fortuna, já
haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha feito até então.
Mas, é elle proprio quem desmente os que affirmam que foi a inveja que o
fez sahir de Portugal, quando, em uma carta ao rei de Castella, diz:
«fui aportar a Portugal cujo rei entendia de descobrimentos mais do que
nenhum outro.» E, em outra carta, accrescenta: «o grande coração dos
principes de Portugal que ha tanto tempo proseguem na empresa de Guiné e
tambem na de Africa onde gastaram metade da gente do reino...»
Não teria elle feito taes elogios aos reis portuguezes se, por inveja,
tivesse sido maltratado em Portugal. Que a causa principal da sua
precipitada sahida de Portugal foram as dividas, deprehende-se
claramente dos seguintes trechos da amistosa e protectora carta que d.
João II, em 1488, lhe dirigiu: «E porque por ventura tereis algum receio
das nossas justiças por razão de algumas cousas a que sejaes obrigado,
nós por esta carta vos asseguramos pela vinda, estada e tornada, que não
sejaes preso, retido, accusado, citado nem demandado por nenhuma cousa
ou seja civil ou criminal de qualquer penalidade. E por ella mesmo
mandamos as nossas justiças que a cumpram assim.»
Eis ahi como cáe por terra a invencionice da inveja e como fica patente
que as dividas foram a causa principal da fuga do genovez.
Munido dessa generosa carta de D. João II, que é um salvo conducto,
Colombo volta a Portugal e vae então offerecer ao rei os seus serviços
na empresa dos descobrimentos e o rei os acceita, não para aproveitar-se
delles, mas para reter Colombo junto a si, evitando que, por meio delle,
Castella se apropriasse de terras que a Portugal já pertenciam.
Mas, o astuto genovez, nem pelo facto de ficar ao serviço do rei de
Portugal, deixa de conservar-se ao serviço da Hespanha de cujo thesouro
havia recebido 14.000 maravedis[2] em 1487, mais 3.000 pouco depois e
ainda 3.000 em junho de 1488, isto é, mezes depois de receber a carta de
d. João II que lhe dava o salvo conducto para voltar ao reino!!...
[Nota de rodapé 2: O maravedi valia cerca de 25 réis fortes.]
Eis ahi patente a dualidade ambiciosa de Colombo, que fica ao serviço de
Portugal e ao da Hespanha, simultaneamente, explorando a ambos sem
escrupulos!...
Essa dualidade elle a revelou ainda no proprio nome, pois assignava-se
Colon na Hespanha e Colombo na Italia e em Portugal!!!...
Ao fim de quatro annos dessa dupla exploração, consegue Colombo assignar
um tratado com a corôa de Hespanha, obtendo della as tres caravelas de
que carecia para ir á India pelo occidente e achar terras que já
tinham sido achadas pelos navegantes portuguezes. Por esse tratado, elle
obteve as seguintes vantagens: «o grau de cavalleiro da espada dourada,
os cargos de almirante mór do mar oceano, de vice-rei e governador
perpetuo das terras que descobrisse, a decima de todas as rendas, e o
direito de poder concorrer com o oitavo das despesas de todas as
frotas, recebendo o oitavo dos lucros.»
Que contraste resalta do procedimento deste aventureiro com o dos
navegantes portuguezes que, antes delle, haviam ido á America,--como os
Corte Reaes, Fernão Dulmo e Lavrador--que armavam as caravelas á sua
custa, que, nisso consumiam as suas fortunas e se individavam, vindo, ao
depois, offerecer ao seu rei e ao seu paiz as terras achadas, sem pedir
favor nem retribuição alguma!
Havia no tratado entre Colombo e os reis de Castella uma clausula pela
qual fora estipulado que 10.000 maravedis seriam dados pela corôa e de
alviçaras ao marinheiro da frota columbina que primeiro avistasse e
annunciasse terra ao commandante. Esse marinheiro foi Rodrigo de Triana.
Mas quando elle, do cesto da gavea, enthusiasmado apontou para o
horizonte onde apparecia o relevo da terra desejada e, alegremente, a
annunciou a Colombo, este declarou logo que, na noite anterior, já havia
visto uma luz e, estabelecendo com essa luz a prioridade, apossou-se
da gratificação que ao seu subordinado competia!
Os que pela rama estudaram a vida deste aventureiro audaz exaltam a sua
caridade christã, esquecendo: que, na sua primeira viagem ás Antilhas,
nem padre elle levou na frota para chamar o gentio ao gremio da egreja;
que, ao chegar ao golfo de Samaná, fez logo correr sangue, atacando os
indigenas nús e quasi desarmados; que, não podendo enviar aos reis de
Castella as promettidas e almejadas riquezas em especiarias, pedras e
metaes preciosos, mandou navios carregados de escravos para serem
vendidos e com o preço obtido pagar-se a despesa da viagem; que, de 1493
a 1496, governando a Hespaniola, que é o Haiti de hoje, exterminou
barbaramente a terça parte da população; que, quando mandou Pedro
Margarite reconhecer a ilha de Cuba, deu-lhe ordem para mutilar os
indigenas que lá encontrasse; que, finalmente, quando ordenou a Hojeda
(um dos pretensos descobridores do Brazil) que fosse prender o cacique
Cahonaboa, deu-lhe instrucções para que o fizesse á traição,
attrahindo-o com presentes, illudindo-o com fingida amizade e
apoderando-se delle em seguida!!...
Eis ahi o quilate da caridade christã de Colombo.
Parece que a cavalheiresca Hespanha, a despeito de Colombo a ter
enriquecido, sempre suspeitou desse descobridor, que a seu soldo
trazia, pois, logo após a sua segunda viagem á America, perseguiu-o
tenazmente, submettendo-o a um tribunal e, quando elle regressou da
terceira, após dois mezes de prisão em calabouço, mandou que viesse a
bordo preso a uma grilheta, como se fosse um bandido!
Morto em 1506, ignorando sempre que a terra que alcançara para a
Hespanha era a America, pois viveu sempre convicto de que era a Asia,
nem depois de morto conseguiu descansar, pois os seus ossos andaram em
viagens continuas de Valladolid, onde primeiro foi sepultado, para
Sevilha, depois para o Haiti, depois para Cuba e, finalmente, de Cuba,
de novo, para a Hespanha, onde actualmente param.
E sendo genovez, a Italia, que aliás lhe ergueu uma estatua, não
reclamou jamais as suas atormentadas cinzas, talvez por desconfiar da
authenticidade desse pretenso filho cuja nacionalidade é ainda hoje
discutida.[3]
[Nota de rodapé 3: Vide Nota A no fim da conferencia.]
Eis ahi senhores, quem foi Colombo, e como foi que elle deu á Hespanha
terras dessa America que os portuguezes haviam descoberto.
Conhecidos os factos que venho de narrar, posso dizer agora, sem receio
de contestação séria, que Colombo não descobriu a America, porque, 15
annos, pelo menos, antes delle nascer, já a America havia sido
descoberta pelos navegantes lusos do primeiro terço do seculo XV.
Como nota elucidativa e de importancia historica, cumpre-me accrescentar
que, quando Colombo regressou da sua primeira viagem ás Antilhas e
communicou a sua descoberta ao rei de Portugal, d. João II, logo este
monarcha protestou energicamente, dizendo-lhe: «Que aquella conquista
lhe pertencia e que suas eram as terras aonde elle chegára.»
A este protesto do rei portuguez, respondeu Colombo hypocritamente, «que
o não sabia e que os reis de Castella apenas lhe haviam ordenado que não
fosse á Guiné nem á Mina.»
Ao que retrucou d. João II: «Que tinha a certeza que nisso não haveria
mistér de terceiros».
Este dialogo, extrahido do diario da primeira viagem de Colombo, por
elle proprio escripto, mostra que o usurpador da gloria alheia
esquivava-se á responsabilidade directa do delicto por elle commettido,
sciente e conscientemente, e que atirava essa responsabilidade para os
hombros dos reis de Castella, como se fossem estes que tivessem ido ás
Antilhas ou que o tivessem induzido a ir até lá!...
Mas, deixemos Colombo e vejamos agora como foi descoberta esta parte do
continente americano que se chama o Brazil.
Desde o começo desta conferencia, vos disse que não foi Pedro Alvares
Cabral quem descobriu o Brazil, pois o Brazil já estava designado e
marcado nos mappas que a corôa portugueza possuia desde 1436, fixando
André Bianco, desde 1448, a sua distancia das ilhas de Cabo Verde em
1500 milhas.
Nesse mappa de 1448, que André Bianco traçou em Londres, depois de
haver passado por Portugal, estava o Brazil representado ao sul das
ilhas dos Hermanos do archipelago de Cabo Verde, ilhas que têm hoje a
denominação de Brava e do Fogo. Na parte referente ao Brazil e
correspondente ao Cabo de S. Roque, havia no mappa esta legenda: Ixola
otincticha xe longa a ponente 1500 mia, cuja traducção é esta: «Ilha
authentica (ou Antilia) 1500 milhas ao poente.»
Ora, o cabo de S. Roque, como todos sabem, dista exactamente 1520 milhas
das ilhas de Cabo Verde.
Estes dois documentos bastam para deixar patente que, quando, em 1500,
Pedro Alvares Cabral aportou a Porto Seguro da costa brazileira, fazia,
no minimo, 65 annos que essa parte da America tinha sido descoberta.
Foram ainda navegantes portuguezes que a descobriram e até o testamento
de João Ramalho, escripto nas notas do tabellião Lourenço Vaz, na villa
de S. Paulo, em 3 de maio de 1580, segundo o testemunho do frei Gaspar
da Madre de Deus, que delle teve uma copia, o prova, pois, ahi, Ramalho,
na presença do dito tabellião, do juiz ordinario Pedro Dias e de quatro
testemunhas, declarou que estava no Brazil ha 90 annos, isto é, desde
1490, dois annos antes da ida de Colombo ás Antilhas e dez annos antes
da chegada de Cabral a Porto Seguro.
Prova-o ainda o tratado de Tordesillas, assignado em 1494 entre Portugal
e a Hespanha, o qual, marcando para limites entre os dois reinos uma
linha divisoria, do polo artico ao antarctico, distante 370 leguas das
ilhas de Cabo Verde, abrangia na parte portugueza o Brazil, cujos
limites foram traçados por esse meridiano.
O mappa de Cantino, de 1502, regista essa linha divisoria e inclue, de
accordo com o tratado, na parte portugueza, não só o Brazil como a Terra
Nova ou de João Vaz e a Groelandia, assignalando tudo o que ficava á
direita da linha divisoria com a bandeira portugueza e a parte á
esquerda com a de Castella, com a seguinte legenda:--«Este é o marco
dantre Castella e Portugal.»
O açoriano Fructuoso, tratando de João Vaz Côrte Real, diz que elle
«descobriu algumas partes do Poente e do Brazil», devendo, portanto,
esta ultima descoberta ser anterior a 1500, pois João Vaz falleceu em
1496.
Por um manuscripto de frei Diogo das Chagas, citado por Drumond nos seus
Annaes da Ilha Terceira, sabe-se que, antes de 1496, tambem o
navegante João Coelho veio ao Brazil.
Em 1514, Estevam Fróes confirma este asserto, numa carta ao rei de
Portugal, na qual lhe diz: «alegravamos que vossa alteza possuia esta
terra ha vinte annos e mais (portanto, desde antes de 1494), e que já
João Coelho... viera ter por onde nós outros vinhamos a descobrir e que
vossa alteza estava em posse destas terras por muitos tempos.»
O proprio Vasco da Gama, na sua primeira viagem á India, em 1497, passou
proximo do Brazil, tendo signaes de terra em 22 de agosto, isto é, 19
dias depois que sahiu de Cabo Verde, como se verifica no Roteiro dessa
sua viagem.
No seu Esmeraldo de situ orbis refere Duarte Pacheco, o celebre
cosmographo, que em 1498 estivera no Brazil, provavelmente, como
suppõe plausivelmente o sr. Faustino da Fonseca, no intuito de
verificar, por ordem da corôa portugueza, os limites determinados pela
linha divisoria do tratado de Tordesillas.
Mestre João, physico mór de d. Manoel, e cosmographo da frota de Cabral,
que na sua interessante carta ao rei, escripta de Porto Seguro, regista
o Cruzeiro do Sul e marca para o Brazil a latitude de 17 graus, diz,
entre outras cousas interessantes, referindo-se á terra brazileira, que
a terra onde chegara, já se achava traçada no mappa-mundi de Pedro Vaz
da Cunha Bisagudo, affirmando-o categoricamente na seguinte passagem da
carta: «quanto, senhor, ao sitio desta terra, mande vossa alteza trazer
um mappa-mundi, que tem Pedro Vaz Bisagudo, e por ahi poderá ver vossa
alteza o sitio desta terra, ainda que aquelle mappa-mundi não certifica
si esta terra é habitada ou não: é mappa-mundi antigo e ahi achará vossa
alteza escripta tambem a Mina...»
Portanto, o proprio cosmographo da frota de Cabral sabia, desde antes
da viagem de 1500, que havia terra nesse rumo de sudoeste que a frota
cabralina seguiu, como o sabia tambem Duarte Pacheco, o qual já nessa
terra tinha estado em 1498.
Tudo isto vem provar que, se Cabral não descobriu o Brazil, tambem o não
descobriram os pretensos descobridores Vicente Yanez Pinzon, Diogo de
Lepe e Alonso Hojeda, aventureiros, que só chegaram á costa americana em
1499, não podendo tomar posse da terra brazileira porque o tratado de
Tordesillas de 1494 não consentia em tal. As proprias instrucções que o
rei de Castella lhes deu em 1499, determinavam «que não tocassem nas
terras de Portugal».
Elles estiveram, de facto, em terras do Brazil, antes de Cabral, mas a
descoberta dessas terras não lhes pertence.
Não foram, pois, Cabral, nem Pinzon, nem Lepe, nem Hojeda, os
descobridores do Brazil, podendo-se, porém, assegurar que essa gloria
cabe incontestavelmente a navegantes portuguezes do seculo XV, embora
seja difficil determinar qual foi desses intrepidos argonautas o
primeiro que pisou o solo brazileiro.
Á vista das cartas e portulanos de André Bianco, de 1436 e de 1448,
pode-se affirmar que essa descoberta foi feita, como já disse, em 1435,
ou antes.
Vejamos, agora, como Cabral aportou a esta terra e della tomou posse
official para a corôa de Portugal.
O fim ostensivo, o fim apparente da expedição de Cabral era ir á India.
O fim real, o fim verdadeiro era ir, primeiro, ao Brazil, delle tomar
posse official, e, em seguida, fazer rumo para o Cabo da Boa Esperança,
em demanda da India.
Como já referi, a corôa portugueza, anteriormente á viagem de Cabral,
havia enviado ao Brazil Duarte Pacheco, eminente cosmographo, que tambem
veio na frota cabralina. O autor do Esmeraldo de situ orbis aqui
estivera, pois, em 1498, para verificar os limites da linha divisoria do
tratado de Tordesillas, que, na parte portugueza, abrangia as terras dos
Corte Reaes, a Groelandia e o Brazil, mas deste não havia tomado posse
official.
Tornava-se, pois, indispensavel a Portugal reconhecer e tomar posse, sem
demora, dessa terra e, assim, guiando-se pelas informações de Duarte
Pacheco e do proprio Vasco da Gama, bem como pelas de outros seus
navegantes, que haviam aportado á Terra dos Papagaios, aproveitava a
expedição á India para, de passagem, tomar posse official do Brazil. O
Brasil era, portanto, um ponto de escala da viagem de Cabral á India,
mas um ponto de escala forçado e já conhecido, pois sabia tambem a
corôa portugueza, pelos mappas e portulanos de Bianco, que essa «Ilha
authentica ou Antilia» ficava a 1500 milhas de distancia das ilhas Brava
e do Fogo, do archipelago de Cabo Verde.
Era a frota de Cabral composta de 13 naus, uma das quaes com
mantimentos, e nellas embarcaram 1.200 homens, entre os quaes o
capitão-mór Pedro Alvares Cabral, que commandava a nau capitanea, os
capitães das outras naus Sancho de Toar, Simão de Miranda de Azevedo,
Ayres Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Bartholomeu Dias (o descobridor do
Cabo da Boa Esperança), Diogo Dias, Gaspar de Lemos, Luiz Pires, Simão
de Pina, Pedro de Atayde Inferno, Vasco de Atayde e Nuno Leitão da
Cunha.
Iam tambem na frota: Duarte Pacheco, autor do Esmeraldo de situ orbis,
Mestre João, physico mór do rei, que ia como cosmographo, o escrivão
Pero Vaz Caminha, diversos frades, entre os quaes frei Henrique de
Coimbra, os pilotos Affonso Lopes, Pedro Escolar e outros que Vasco da
Gama trouxera da India, diversos indios, um grumete negro da Guiné,
alguns interpretes e varios degredados.
Iam os navios de Cabral apparelhados e munidos do necessario para anno e
meio de viagem, bem providos de artilheria, de munições de bocca, de
armas brancas, como espadas e lanças, e, em cada nau, havia uma botica.
Para o commercio, levavam as caravelas, velludos, setins, damascos,
pannos de lã, coral, cobre, vermelhão, mercurio e ambar. Além disso,
levavam os padres comsigo um orgão e alfaias de prata.
Era, evidentemente, a maior, a melhor apparelhada e a mais garrida frota
que partia da Europa.
Em 15 de fevereiro de 1500 recebeu Cabral a carta de capitão mór e dos
poderes de que ia revestido. Com essa carta foi-lhe dado o regimento
pelo qual se devia guiar na viagem e, nesse regimento, que, na parte
relativa ao rumo, fôra organizado por Vasco da Gama, estava traçada a
rota que devia seguir.
Nesse documento minucioso, recommendava-se ao capitão mór que «se
afastasse da costa da Africa para encurtar a via e que, ao partir da
ilha de Santiago em Cabo Verde, deviam os navios fazer o seu caminho
pelo sul, bordejando pelas bandas do sudoeste... e, depois, na volta
do mar, até metterem o Cabo da Boa Esperança, em leste franco.»
O regimento não fala claramente em aportar á Terra dos Papagaios, mas
estipula que, ao deixar Cabo Verde, «fáça a frota caminho pelo sul,
bordejando pelas bandas de sudoeste» e sendo a missão secreta de Cabral
tomar posse official dessa terra e devendo elle de ter necessidade de
arribar a uma terra qualquer, antes da chegada ao Cabo ou á India, para
abastecer a frota de agua e lenha e dar descanso á marinhagem, a terra
do Brazil estava naturalmente indicada para tal fim. Accresce que, na
frota, ia Duarte Pacheco que, tendo já estado no Brazil, saberia guiar
Cabral com segurança a esse ponto de escala forçada da gran viagem, de
antemão indicada pelo Gama.
A rota traçada nas linhas e entrelinhas do regimento era, pois: seguir a
frota de Lisboa á ilha de Santiago, de Cabo Verde, dahi seguir pelo sul,
bordejando pelo sudoeste, até alcançar a costa da Terra dos Papagaios,
dahi zarpar para o Cabo, dobral-o e seguir para a India.
Esse rumo inda é o mesmo que hoje seguem os navios que vêm de Lisboa ao
Brazil. Prompta a frota de Cabral, partiu ella do Tejo aos 9 de março de
1500, acompanhando-a o rei d. Manuel até fora da barra. Cinco dias
depois, a 14 de março, passa a frota pelas Canarias onde encontra
calmaria e onde permanece um dia; a 22, chega a Cabo Verde e,
exactamente um mez depois, a 22 de abril, avista a terra brazileira,
gastando, de Lisboa a Porto Seguro, 43 dias.[4]
[Nota de rodapé 4: Vide Nota C no fim da Conferencia]
Dos historiadores que consultei, e não poucos foram, sobre a viagem de
Cabral ao Brazil, attribuem uns ao acaso esse feito, dizem outros que
a frota fôra impellida para a nossa costa por um forte temporal, que a
apanhou.
Nenhum delles porém, explica em que altura a frota foi apanhada pelo
temporal nem quanto tempo este durou.
Ora, contra esse forte temporal protestam energicamente os dois
melhores documentos que possuimos da viagem de Cabral: as cartas que
Mestre João, o cosmographo da frota, e Vaz Caminha, o escrivão, enviaram
ao rei d. Manuel, de Porto Seguro, pela nau que dahi partiu a 1.º de
maio, de regresso a Lisboa, para dar conta do feito ao monarcha.
Nem o cosmographo nem Caminha falam de tal temporal, pelo contrario, o
que dizem é que, durante a viagem, houve calmaria e que por causa della
perdeu a frota um dia em frente ás Canarias. Temporal soffreu a frota,
mas depois que deixou o Brazil e se fez vella para o Cabo, onde falleceu
o seu descobridor Bartholomeu Dias.
Não houve, pois, temporal na travessia até ao Brazil, nem o acaso
interveio na chegada da frota cabralina a esta terra. O rumo a seguir
tinha-lhe sido traçado; além disso, já nessa época tinham os portuguezes
perfeito conhecimento das correntes maritimas e dos ventos geraes e
sabiam aproveital-os de accôrdo com as rotas a seguir. O duplo fim de
Cabral, tomando o rumo seguido e aportando ao Brazil, éra, como já o
disse, abastecer-se de lenha e agua, dando descanso á marinhagem e tomar
posse official da Terra dos Papagaios para a corôa portugueza.
O acaso e o temporal têm, portanto, de ser banidos dos livros que
se occupam do descobrimento da terra de Vera Cruz.
O primeiro e grande historiador que o Brazil teve, ainda hoje o mais
sincero e veridico, é Pero Vaz Caminha, o modesto escrivão, que narrou
ao rei d. Manoel, numa commovente e encantadora carta, onde a minucia
corre parelhas com a simplicidade, a historia da travessia, da chegada e
da permanencia de Cabral na terra brazileira.
Nessa longa missiva, escripta de Porto Seguro e datada de 1.º de maio de
1500, o consciencioso historiador dá conta ao seu rei e senhor de todas
as peripecias da viagem, desde a partida de Lisboa até ao Brazil e ainda
de tudo o que se passou durante os 12 dias em que a frota ficou ancorada
em frente á costa brazileira. Persuadido de que o que mais interessaria
a D. Manuel era o conhecimento exacto da terra reconhecida, da gente que
a habitava, dos seus costumes e indole, das riquezas que possuia e da
facilidade que poderia offerecer á colonização, não poupou minucias para
pôr o rei ao corrente do que vira e do que lhe poderia ser proveitoso.
É assim que elle descreveu com enthusiasmo e cores vivas o esplendor da
natureza brazileira, a frescura, abundancia e potabilidade das nossas
aguas, a brandura do clima, a belleza do nosso céo, onde rutilava o
cruzeiro, referindo-se com interesse e insistencia á indole pacifica
dos nossos indigenas, aos seus habitos e costumes, á belleza das suas
formas, á sua completa innocencia, deprehendida da sua completa nudez, e
á facilidade com que acceitavam a cathechese, parecendo-lhe empresa de
pequeno esforço fazel-os christãos, chamando-os ao gremio da egreja.
Tratando dos productos naturaes, descreveu a fauna e a flora que
encontrou, accentuando que os incolas, haviam dado demonstrações
evidentes aos da frota de que em terra havia ouro, prata e papagaios.
Descrevendo o que fizeram os indigenas, que acudiram á praia, quando das
naus partiram as primeiras almadias para o transporte de agua, diz que
«os indios logo trouxeram cabaças e tomavam alguns barris que nós
levavamos, enchiam-os de agua e traziam-os aos bateis».
Este trecho da carta de Caminha prova que a frota cabralina começou logo
por fazer aguada e prova tambem que os indigenas vinham offerecer agua
aos homens brancos, como se já estivessem habituados a praticar esse
serviço, repetindo actos praticados anteriormente; o que demonstra que
não era a primeira vez que viam homens brancos e naus.
A facilidade com que alguns dos naturaes se deixaram capturar e levar a
bordo da nau capitanea, alli permanecendo e dormindo tranquilamente
durante uma noite, como narra Caminha, prova ainda que os nossos
indigenas já estavam familiarizados com os europeus, que já os
conheciam, que conheciam os seus habitos e costumes, que delles não
tinham receio.
E isso é ainda uma prova indirecta de que os portuguezes já haviam
estado no Brazil antes de Cabral aqui chegar. E, de facto, cá estiveram,
porque já aqui estava João Ramalho, que havia chegado 10 annos antes e
que tanto facilitou a missão de Martim Affonso, quando este aportou á
antiga capitania de S. Vicente.
Ao primeiro monte que avistou deu Cabral o nome de Monte Paschoal, á
terra o nome de Vera Cruz, porque no céo rutilava o cruzeiro, e ao
porto, onde definitivamente fundeou, o de Porto Seguro. Chegou o domingo
de paschoela, e, narra Caminha, que o capitão mór deliberou ouvir missa
e sermão em um ilhéo de Porto Seguro. Logo alli se armou o altar e frei
Henrique de Coimbra officiou, cercado de todos os padres da frota. Foi
essa a primeira missa, de que temos noticia exacta e circumstanciada,
dita no Brazil, que forneceu assumpto para um dos mais bellos e
suggestivos quadros de Victor Meirelles. Terminada a missa, frei
Henrique subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de pulpito e dahi
prégou, fazendo a historia do Evangelho, descrevendo a travessia e pondo
a terra reconhecida por Cabral sob a protecção da Cruz. Á missa e ao
sermão assistiram os naturaes que ao ilhéo acudiram e que ao depois,
folgaram, fraternizando com os tripulantes da frota. Na nau capitanea
discutiu-se depois se conviria tomar dois indigenas para envial-os ao
reino, ou se seria preferivel deixar entre elles alguns degredados,
sendo por grande maioria, adoptado de preferencia este ultimo alvitre,
pois os degredados, ficando alli, apprenderiam a lingua dos naturaes e
poderiam servir de interpretes, quando o rei mandasse nova frota ao
Brazil para o colonizar; accresce que era do plano de Cabral, como foi
mais tarde do de Martim Affonso, não hostilizar os indigenas, não lhes
incutir desconfiança alguma, tratando-os com carinho e brandura, sem os
violentar jámais, para assim não sahir dos preceitos da caridade christã
e tel-os sempre como alliados. Para os ir habituando á vida com os
brancos, que deviam ficar definitivamente com elles, foram logo enviados
á praia e ahi deixados dois degredados, que deviam passar a noite com os
naturaes; mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar ás naus.
Quando os da frota ergueram num ponto elevado da costa, dominando o mar,
a primeira cruz, que ficou em terra brazileira e que confirmou o nome de
Vera Cruz, que Cabral lhe havia dado, os indigenas auxiliaram depois á
abastecer as naus de lenha e de agua. E quando a maruja beijou a cruz
erguida, os indios tambem a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que
levaram Caminha a affirmar «que era gente de tal innocencia que, se os
intendessemos e elles a nós, seriam logo christãos, porque, segundo
parece, não têm nenhuma crença». E accrescenta, logo depois, na sua
luminosa carta ao rei: «se os degredados, que hão de ficar, aprenderem
bem a sua fala, não duvido, segundo a santa tenção de vossa alteza,
fazerem-se christãos e crerem a nossa santa fé á qual praza Nosso Senhor
que os traga, porque decerto esta gente é boa e imprimir-se-á
ligeiramente nelles qualquer cunho que lhe quizerem dar... e, portanto
v. alteza, pois tanto deseja accrescentar na santa fé catholica, deve
entender na sua salvação, e prazerá a Deus que com pouco trabalho será
assim.»
Prova este trecho de carta do escrivão da frota que elle conhecia a
tenção do rei, que sabia que o seu intento era chamar os naturaes das
terras, por onde passasse a frota, ao gremio da egreja e que, ao
contrario do que fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros, era do
seu programma assegurar a posse da terra reconhecida, conquistando os
naturaes pela brandura e carinho, incutindo-lhes a fé christã.
No dia primeiro de maio de 1500, vespera da partida de Cabral para o
Cabo, nova missa foi dita por frei Henrique de Coimbra, não mais no
ilhéu em que disséra a primeira, mas junto á cruz erguida em terra e á
qual foi pregado o escudo das armas de Portugal.
Ainda a essa missa assistiram os indigenas, imitando todos os gestos que
viram fazer aos portuguezes e, depois do sermão, frei Henrique lançou ao
pescoço de todos os que alli estavam, pequenos crucifixos de metal, que
elles beijaram com satisfação e receberam com visivel empenho.
Em seguida, foram-se os mareantes para as naus, deixando em terra dois
degredados e no dia immediato, 2 de maio, a frota fez-se de véla para o
Cabo da Boa Esperança, tendo regressado ao reino uma das caravelas,
capitaneada por Gaspar de Lemos, para levar ao rei a noticia do
reconhecimento officialmente feito da terra do Brazil e da sua posse
para a corôa portugueza.
A essa terra, que era conhecida pelo nome de Terra dos Papagaios e que
Cabral denominou Vera Cruz, poz d. Manoel, em 1502, o nome de Santa
Cruz, que foi posteriormente substituido pelo de Brazil, devido ao
grande commercio do pau brazil que ella produzia.
Dando conta, em carta, ao rei da Hespanha do reconhecimento do Brazil
feito por Cabral, disse d. Manoel: «o capitão deixou alli dois
degredados á mercê de Deus.» Um dos pilotos da frota explicou depois que
esses degredados puzeram-se a chorar e que logo os naturaes os animaram,
mostrando ter piedade delles.
Vaz Caminha, na sua deliciosa carta, revela, que, além desses dois
degredados, que foram abandonados em terra, dois grumetes da frota para
ella fugiram e nella ficaram por sua livre vontade, o que significa que
a gente que a habitava era pacifica e hospitaleira.
Vem talvez dahi a herança dessa proverbial hospitalidade brazileira, que
tanto surprehende e encanta os estrangeiros que visitam o nosso paiz.
Eis, senhores, como foi descoberto o Brazil e como Cabral, 65 annos
depois do seu descobrimento, o reconheceu e delle officialmente tomou
posse para a corôa de Portugal, á qual aliás já pertencia pelo tratado
de Tordesillas.
Não coube, pois, a Cabral a grande gloria de descobrir o Brazil, mas
coube-lhe a não pequena gloria de fazer o seu reconhecimento e delle
tomar posse para o paiz que o descobrira, realizando o memoravel feito
sem hostilizar os filhos dessas regiões incultas, sem inflingir um
ligeiro castigo, sem despertar nelles o odio que Colombo e os
hespanhoes, que depois vieram á conquista da America, accenderam entre
os indigenas, dizimando-os, submettendo-os a ferro e fogo, caçando-os
barbara e deshumanamente com cães amestrados na caça do homem, como
quem caça hyenas e lobos!
Essa imperecivel gloria coube a Cabral e basta ella para que se
justifique o preito de admiração que lhe rendemos, sem olvidar os
serviços inestimaveis dos seus maiores na busca e descobrimento desta
terra abençoada.
Bastava a sua caridade christã para com os filhos deste paiz para que
lhe devessemos o monumento que no Rio de Janeiro se acha erguido em
frente ao mar glauco e luminoso, perpetuando a sua memoria immaculada e
a do seu feito incruento.
Com o reconhecimento do Brazil em 1500, fechou Portugal com élo de ouro
o ciclo grandioso das suas descobertas no seculo XV com as quaes dilatou
o mundo e fez avançar a civilização.
Nesse seculo de estupenda actividade maritima, em que os lusos
mareantes, guiados e instigados pela voz prophetica do infante d.
Henrique, avançaram sem pavor pelo mar immenso e tenebroso, que devia
estar cheio de escolhos, de bruma negra e povoado de monstros
assustadores, descobriram elles, caminhando para o desconhecido, a ilha
da Madeira, as Formigas, todas as ilhas do archipelago dos Açores, todas
as de Cabo Verde, o mar de Sargaços, uma grande parte do Brazil, uma
parte da America Central e da America do Norte e, caminhando de ousadia
em ousadia, dobraram o Cabo das Tormentas, descobriram e atravessaram o
estreito de Magalhães, fizeram a primeira viagem em redor do mundo,
apoderaram-se de uma parte da Asia e de uma parte da Africa, enchendo o
mappa com conquistas suas!...
E tudo isto foi feito do decurso de menos de um seculo por um punhado
de homens que partiram, affrontando a morte, de uma insignificante nesga
de terra erguida á beira mar, no occidente da vasta Europa!...
Olhae para o mappa que vos apresento e nelle vereis, em côr vermelha,
traçada a epopéa desses grandiosos feitos.
Podeis dizer agora commigo, senhores, sem hesitação e com
ufania:--Gloria aos portuguezes, mestres de Colombo, precursores de
Colombo, incontestaveis e unicos descobridores do Novo Mundo![5]
[Nota de rodapé 5: Vide Nota B no fim da conferencia.]
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