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Condenados a Voar

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Condenados a Voar

Capítulo 4 · Condenados a Voar

Capítulo 02: Corações em descompasso

4 de 8 ≈ 11 min de leitura

— E aí Fen… como foi a noite de ontem? — Verbena acenou assim que alcançou o rapaz, os olhos amendoados brilhando de curiosidade. — Muitos corações partidos?

Ela pigarreou na tentativa de tirá-lo do transe de pensamentos em que sempre se perdia. Com os braços cruzados, aguardou a resposta, o queixo erguido para encontrar o olhar do amigo, algo que a irritava profundamente. 

Sentia-se pequena, quase acuada na presença dele. Não fora assim na infância… chegou até a superá-lo em altura por alguns anos. Pensando bem, de certa forma, era natural que Fendrel crescesse mais que ela.

Só que... precisava ser tanto assim?

Longe de exigir algo da Deusa, mas seu escolhido poderia, no máximo, ter a mesma altura que a dela.

A atenção desceu até os lábios do rapaz, que começavam a se abrir para respondê-la. Constatou, logo, que era difícil beijar alguém assim: precisaria estar na ponta dos pés ou com ele curvado. Pelo menos, as vezes que ficou com homens mais altos não a agradaram nem um pouco.

— Minha fama é essa, então? — Fendrel pousou as mãos no coração, performando uma decepção fingida. — Desculpe, Vêr, mas eu não estava sendo disputado no meio da praça minutos atrás, sabe…

Verbena inflou as bochechas, formando um biquinho infantil antes de soltar um resmungo baixo, dizendo:

— Felizmente, as mulheres são bem mais sensatas do que vocês.

O trovador riu, a voz ecoando em ondas mansas como um instrumento graciosamente afinado. Um arrepio subiu, traiçoeiro, pelas costas de Verbena até fazer cócegas na nuca, o tipo de reação que ela jamais admitiria em voz alta. Fingindo desinteresse, baixou o olhar para a pulseira de jasmim lunar, com brotos cuidadosamente unidos por fios de prata pura.

Sendo honesta, gostava até demais do som daquela risada.

Fendrel era capaz de roubar a atenção de qualquer um, a atração principal de todas as festas. 

E não seria diferente hoje. 

Sua magia era tão sedutora quanto o canto de uma sereia. Talvez ele mesmo pudesse enfeitiçar aquelas pilantras com rabo de peixe. Infelizmente, Fen nunca comprou essa ideia, embora Verbena tivesse insistido muitas vezes em tentarem só por diversão.

E ela?

Estava mais para uma gralha que não sabia cantar nem canções de ninar, uma vergonha imensa aos deuses das artes. Mesmo assim, seu amigo insistia que ela acompanhasse suas canções quando tocava.

Vai entender…

Mais uma movimentação se formava entre os jovens naquele dia. Desta vez, todos olharam para cima enquanto uma fada atravessava os corredores voando apressada, por pouco não trombando com as parentes. Repetia desculpas uma após a outra, forçando caminho na contramão do fluxo, determinada a chegar ao seu destino.

Ela freou de repente, as asas levantando um redemoinho de ar que espalhou folhas e galhos secos pelo chão. Encarou seu objetivo, respirando fundo.

Aquele evento, todo aquele estresse… um dia ainda a mataria, com toda a certeza.

— Fendrel, quinze minutos!

O rapaz acenou com a cabeça. Ele e Verbena automaticamente iniciaram a caminhada na direção da Praça das Asas, quinze minutos antes de conhecer as pessoas com quem passariam a eternidade.

Mal sabiam esses pobres coitados o que a Deusa reservava para eles...

O trajeto não era longo, mas suficiente para que Fen percebesse os sinais característicos da ansiedade da amiga: as botas pisando com firmeza exagerada na terra, castigando a grama dengosa que nenhuma culpa tinha pelos anseios da moça; as mãos delicadas deslizando uma sobre a outra, procurando calor ou consolo; e os lábios sendo umedecidos a cada segundo, ressecados pela tensão.

Sem rodeios, perguntou:

— Você está bem?

— Por que não estaria?

— Fácil. Normalmente você não sabe quando parar de falar e…

— …e fico nervosa quando não estou no controle? — ela batucava os dedos na perna direita. — Pode ser. Mas quem disse que estou nervosa?

— Seus pés estão batendo no chão como se estivesse indo pra guerra

O olhar da moça pendeu para baixo e, ao perceber o gesto inconsciente, suavizou a marcha, rendendo-se à constatação do amigo.

— Está bem… tem razão.

Fen sorriu, satisfeito, enquanto Verbena encarava aquele semblante vitorioso e sabichão.

— Sabe, eu acredito na Deusa, mas… como amar alguém que talvez eu nem conheça?

— Como sabe que vai ser alguém que não conhece? — o trovador levou o indicador ao queixo. — Aliás… tem algum jovem na vila que ainda não visitou sua cama?

A repreenda veio ágil na forma de um soco bem dado no ombro do rapaz, o impacto reverberando até na madeira de nogueira do alaúde preso às costas.

— Engraçado, fala como se fosse um santo.

— Nunca disse isso — negou veementemente com a cabeça. — Foi pura curiosidade.

— É mesmo? — ela arqueou a sobrancelha em desafio. — E o que vai fazer se Freya não unir você e Seryin?

— Nada… A palavra da Deusa é lei.

Aquela resposta veio mais rápida do que ela gostaria. Então, Verbena, por alguns instantes, preferiu o silêncio, uma atitude que Fen respeitou por completo. Entre eles, aqueles momentos mudos valiam mais que qualquer conversa. 

Nem sempre precisavam de palavras para se entenderem; possuíam uma intimidade forjada por anos de amizade, brigas infantis, cabelos puxados e alguns beliscões carinhosos que normalmente terminavam em choro teimoso de fundo. Uma época mais simples, antes de toda essa porcaria de amor e alma predestinada ser uma preocupação.

E conforme cresciam, as brigas se transformaram em confidências, até desabafos. Não por coincidência, conheciam um ao outro como ninguém mais poderia conhecer.

Ou era o que eles achavam...

Por mais que tentasse, a moça não conseguia aceitar ter seu destino selado por outra pessoa. Mas, considerando a própria experiência, talvez nunca escolhesse ninguém se dependesse apenas dos trastes desinteressantes que amanheciam com ela e disputavam para ver quem soltava mais testosterona na floresta.

— É… quem sabe seja melhor assim…

O murmúrio que custou a escapar, se perdeu facilmente em meio ao burburinho crescente ao redor. A cada passo, o som de alaúdes, violinos, harpas e tambores se tornava mais forte. O ar carregava o aroma doce das flores e o calor das tochas espalhadas pela rua. 

A Praça das Asas se erguia à frente, uma grande fonte em homenagem à Deusa cuspia água de um lado para o outro, com peixes coloridos acompanhando a dança alegre. Ao redor, havia várias mesas dispostas para os jovens se sentarem durante a cerimônia. E, por fim, mas não menos importante, um palco um pouco mais alto que o chão — iluminado pelo brilho dourado dos vaga-lumes treinados— com um trono adornado por ametistas bem no centro.

Em poucos minutos, a Deusa Freya desceria para unir destinos.


Condenados a Voar

Sinopse

Na vila encantada de Alféria, o destino de seus moradores é selado pela escolha da deusa: apenas aqueles que encontrarem o amor verdadeiro ganharão asas e a liberdade de voar. Quando o decreto divino recai sobre Fendrel e Verbena, unindo-os como um par, ambos temem que esse destino coloque em risco a amizade que construíram e os obrigue a enfrentar um futuro incerto. Agora, precisarão decidir entre aceitar a vontade da deusa ou renunciar para sempre ao sonho de alçar voo.

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ISBN
LITEBN-574758822283817253594056
LITEBN
LITEBN-574758822283817253594056
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