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Condenados a Voar

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Condenados a Voar

Capítulo 3 · Condenados a Voar

Capitulo 01: A tradição

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Um pouco mais cedo, naquele mesmo dia, as chaminés das casinhas miúdas — abraçadas às árvores como cúmplices de tempos antigos — fumegavam alegres. Delas saíam jovens fadas que, risonhas, se penduravam nos galhos e deslizavam até a relva macia da vila. As asas, ainda frágeis ou inexistentes, tremiam na expectativa.

Os adultos voavam apressados pelos corredores naturais entre as copas, asas zunindo em completa afobação, enquanto preparavam grinaldas para as futuras noivas e noivos, coordenavam vagalumes em fila indiana para o espetáculo da noite e transportavam grandes jarros de hidromel e bandejas de guloseimas brilhantes.

O ar estava impregnado de murmúrios juvenis e ansiosos.

Em Alféria, a tradição era sagrada. Freya, deusa da fertilidade e do amor, a cada quatro anos descia do céu estrelado para determinar os casais que deveriam se unir. Não havia problema se os jovens quisessem se conhecer antes disso; pelo contrário, a descoberta era incentivada. Dominar as artes da paixão era bem-vindo para surpreender a alma predestinada. Ainda assim, sempre havia questionamentos e protestos, pois alguns ansiosos, cegos pelo desejo, juravam amor a quem não deviam. A palavra de Freya, no entanto, era lei, e ninguém ousava contrariá-la.

Pois, no fim, ela sempre estava certa.

Em meio ao caos organizado do Festival das Asas, nosso conhecido Fendrel caminhava distraído pela rua principal, um assovio manso acariciando-lhe os lábios. O alaúde pendia preso à alça no ombro, e seus dedos dedilhavam, quase sem pensar, as notas que apresentaria mais tarde.

— Bom dia, Fen.

A voz delicada, melodiosa como a de uma sereia, fez com que ele erguesse o olhar. A dona dela tinha longos cabelos prateados presos numa trança adornada com folhas secas, que balançavam a cada passo calculado. As roupas de seda anã moldavam-lhe, com maestria, a cintura fina e o busto insinuante.

— Bom dia, Seryin — Fendrel abriu um sorriso amplo e gentil, quase ocultando o brilho carmesim dos olhos. — Fiquei preocupado, achei que tinha fugido da minha casa. Sou tão assustador assim?

— De forma alguma, querido… — ela piscou, pousando um dedo nos lábios rosados com uma graciosidade tentadora. — Quero ser aquela que vai passar todas as noites cantando com você.

E Seryin realmente cantarolava músicas de paixão como ninguém, na cama ou no palco. Uma esposa incrível, se a deusa assim determinasse.

— Quem sabe? — ele fez uma reverência exagerada, afastando-se com passos leves. — Infelizmente, não sou eu quem decide.

Na verdade… ainda bem que não.

Ao se virar, o sorriso de Fen se diluiu. Um questionamento breve e insistente atravessou-lhe a mente como um verso maldito, uma nota em descompasso que, por mais que tentasse, era difícil esquecer.

Com quem será que Verbena se casaria?

O alaúde emitiu um som estridente; a corda, tensionada em excesso, quase estourou. Fendrel fechou os olhos, a irritação crescendo conforme o erro reverberava em seus ouvidos sensíveis de trovador. 

Quantas vezes já rezara para que a grandiosa Freya o ajudasse a esquecê-la?

Seus pensamentos foram logo cortados por gritos acalorados que preencheram rapidamente o ambiente. Alguns jovens próximos já formavam um círculo ao redor da suposta briga. Fendrel guardou o instrumento nas costas e se aproximou.

Poucos passos bastaram para entender a situação: dois homens disputavam a atenção de uma mulher. Mas não qualquer mulher.

Verbena…

Ela resmungava, sendo completamente ignorada, posta num pedestal mudo de um prêmio a ser disputado.

As mãos se escondiam nos bolsos da calça de alfaiataria, que ela sempre preferira aos vestidos insinuantes. Seu estilo se completava com camisas de seda largas, acinturadas com uma fita acima dos quadris, e mechas presas num rabo de cavalo alto, de onde sempre escapavam fios rebeldes para acariciar aquelas maçãs do rosto que, para Fen, pareciam almofadas tingidas de um rosado encantador.

Ele beliscou a própria coxa, tentando retornar à realidade.

Pare já de pensar nisso, Fendrel Azvir!

Os conquistadores se aproximaram um do outro, proferindo ameaças a cada passo. Nenhum recuava, mas também não tinham coragem de atacar.

Fendrel coçou a cabeça, cansado, mas longe de estar surpreso.

Esses caras eram emocionados demais…

Então Verbena cruzou os olhos com o amigo, que sorriu, quase zombando da situação. Ele fez menção de apertar o passo para ajudá-la, mas ela ergueu a mão, interrompendo-o.

A moça bateu uma das botas de camurça preta no chão. Entre os rapazes, brotou uma flor delicada que rapidamente se transformou em caule, depois em tronco. Em segundos, o vegetal se alongou e se ramificou, separando os briguentos com maestria. Os dois recuaram, engolindo a raiva diante da força que a magia dela exalava.

— Chega! — ela gritou, aproveitando a atenção recém-adquirida. — O que importa quem é melhor aqui? A deusa é quem vai decidir!

Com rosnados insatisfeitos, os arruaceiros caminharam em direções opostas, claramente indignados com a atitude e a rejeição velada da mulher que desejavam. Verbena deu um longo suspiro de alívio e se virou para Fendrel, começando uma caminhada despreocupada até o amigo que, no momento, se perdia novamente em pensamentos, observando a árvore imposta na relva.

Era assim que ela sempre resolvia tudo: crescendo entre os problemas, forte e inabalável.

E ele?

Bom… ele apenas cantava sobre coisas que nunca teve coragem de fazer.

Condenados a Voar

Sinopse

Na vila encantada de Alféria, o destino de seus moradores é selado pela escolha da deusa: apenas aqueles que encontrarem o amor verdadeiro ganharão asas e a liberdade de voar. Quando o decreto divino recai sobre Fendrel e Verbena, unindo-os como um par, ambos temem que esse destino coloque em risco a amizade que construíram e os obrigue a enfrentar um futuro incerto. Agora, precisarão decidir entre aceitar a vontade da deusa ou renunciar para sempre ao sonho de alçar voo.

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ISBN
LITEBN-574758822283817253594056
LITEBN
LITEBN-574758822283817253594056
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