Universo da obra
Universo da obra
🪽 Notas da Lady 🪽
Oie... eu não costumo falar no meio das minhas histórias, mas nesse caso acho que vale a pena.
Esse capítulo, na verdade, o enredo inteiro, foi inspirado em uma música chamada Roll with the Wind, do Alexander Rybak. Porque, por mais que nossos corações gritem e nos enlouqueça, o mundo continua girando.
Complicado esse moço, viu? Já é a segunda história minha que nasce das músicas dele hahaha.
Enfim, a música que o Fendrel canta neste capítulo é justamente essa. Então, se quiser entrar no clima, deixo aqui o link e um trechinho da letra:
I would never blame you for the heartache
(Eu nunca iria te culpar pela dor em meu coração)
I would never blame you for the tears
(Eu nunca iria te culpar pelas lágrimas)
I blame my stubborn heart, soul, body
(Eu culpo meu coração teimoso, minha alma, meu corpo)
Every single thing around me stays the same
(Tudo ao meu redor continua o mesmo)
No matter what
(Não importa o que aconteça)
https://open.spotify.com/intl-pt/track/01DMYNJJh0sVdTHdAegMDv?si=c59ef7e4ac974dfb
No futuro, quero criar uma playlist com as músicas que, na minha cabeça, Fendrel cantaria.
PS. Sim galera, tenho um tombo por bardos, e esta tudo bem ...eu acho...hahahah
Boa leitura! :)
🪽🪽
Verbena se misturou à multidão, deixando que o vai e vem das pessoas a engolisse por alguns instantes. O ambiente estava abarrotado de vozes — algumas conhecidas, outras que nunca ouvira na vida — e o aroma morno de pão de abóbora recém assado emanava das mesas fartas.
Enquanto ela buscava um lugar para sentar, Fendrel se despediu com um aceno, para se dirigir até palco, onde os trovadores e dançarinos se agrupavam. As penas de alguns chapéus tremulavam ao vento, junto aos tecidos coloridos das capas de seda.
Verbena, enfim, se acomodou ao lado de uma moça baixinha, de cabelos verde-musgo que lembravam algas recém-colhidas do mar, ainda úmidas e brilhantes. Ainda mais sob a luz das velas que descansavam sobre uma toalha de mesa delicada, cada renda bordada à mão com fios de ouro e cetim.
Seu nome? Mareen.
E ela não demorou a notar a presença da amiga.
— Ansiosa, Vêr? — perguntou, erguendo com dificuldade uma enorme caneca de madeira, onde repousava um líquido púrpura-rosado que exalava um cheiro açucarado e calmante. — Algum preferido?
Verbena sorriu de canto e, sem pressa, pegou alguns biscoitos amanteigados de uma bandeja próxima, o calor ainda escapando para os dedos.
— Talvez… — Apontou para um rapaz logo à frente. Os cabelos azuis eram curtos e emaranhados como trilhas de cipós nas raízes da cabeça. — Kollin é um bom partido… não é grudento e faz um bom trabalho, se é que me entende.
Ela se inclinou levemente para o lado e, com um manear discreto da cabeça, indicou outra figura: uma mulher cercada de homens nervosos, que se derretiam apenas ao ouvir a risada descontraída dela.
— Leya não é trovadora, mas tem uma voz suave e a paciência de uma mãe. Faz bolos de hortelã ótimos e tem várias histórias pra contar…tem também...
Verbena interrompeu o discurso. Tinha uma lista interminável de pretendentes que já haviam passado por sua vida. Alguns melhores do que outros, mas nenhum conseguiu despertar nela o que imaginava ser esse amor tão idolatrado.
Deu de ombros, levou o doce à boca e completou, ainda mastigando:
— Bem… não que isso mude alguma coisa.
— Verdade, melhor não criar expectativas. Não cabe a nós decidir.
O comentário caiu como uma pedra no estômago de Verbena. Mais uma vez, a realidade irrefutável cochichada por todos os malditos cantos daquela vila, desceu amarga pela sua garganta. E nem o hidromel mais doce seria capaz de limpar aquele gosto incômodo.
Desejar alguém era fácil… agora, amar?
Seus olhos buscaram Fendrel, sentado com amigos perto do palco. Invejava a capacidade dele de se enturmar, ou melhor, de se importar. Bardos têm uma empatia sem precedentes; precisam ter. Quanto mais sentem, sofrem e amam, mais poderosas se tornam suas músicas.
Quando Fen cantava, Verbena sempre ouvia muito além da história que a melodia propunha. Era como se cada nota fosse capaz de encontrar as frestas mais escondidas dentro dela, abrindo-as sem pedir permissão, cavando fundo na alma indiferente que se recusava a sentir.
E aquilo a assustava verdadeiramente.
Levou o último pedaço do biscoito à boca, mas o sabor não agradou nem um pouco.
Talvez devesse pedir conselhos a ele…
O pensamento mal se formou e as luzes se apagaram. O ambiente mergulhou em um silêncio reverente. Todos se voltaram para o palco, olhos fixos no espaço vazio, ansiosos por saberem quem finalmente apareceria.
Pois, a deusa sempre preparava entradas triunfais para seus súditos.
Uma brisa suave varreu a praça, crescendo aos poucos, até se tornar um vento calculado, guiando o cenário ao seu bel prazer. Das copas floridas, pétalas começaram a cair, primeiro tímidas, depois em cascata, girando no ar. Beijavam a grama por um instante antes de se erguerem novamente, atraídas por uma força que as conduzia até o trono.
O perfume floral se adensou, invadindo cada respiração. Ninguém ousava interromper, muito menos comentar, encantados demais e completamente entregues ao poder dela.
Menos Verbena, claro, que sem pensar inspirou pesadamente para receber, logo depois, as consequências nas narinas que arderam inquietas. Ela tossiu, cobrindo a boca com as mãos para abafar o quase engasgo.
Doce demais.
Então no centro da espiral cintilante, um clarão.
A Deusa Freya surgiu como se tivesse sido moldada pela própria luz, a pele de porcelana — onde repousavam algumas pétalas sortudas — , o vestido branco ondulando como maré mansa em volta da silhueta. Caminhava sem pressa, e seus passos marcavam um compasso invisível que prendia a multidão no mesmo ritmo.
Verbena sentiu a boca se abrir levemente, sem conseguir evitar. Disfarçou no mesmo instante, não queria dar esse sabor a deusa. Mas seria impossível não notar que aquela mulher era mais que bela, era estupidamente perigosa.
O ouro dos cabelos caía solto, livre de adornos, quem sabe o próprio sol tivesse decidido se deitar sobre seus ombros. Os traços finos, as bochechas suavemente coradas e os lábios tentadores eram suficientes para fazer qualquer promessa tornar-se frágil.
As histórias contam que muitas fadas já haviam se perdido por ela, recusando o par escolhido pela Deusa durante anos. Todas essas histórias terminavam do mesmo jeito: um dia, o desejo travestido de amor se dissolvia diante da certeza cruel da impossibilidade de ser correspondido.
— Boa noite, meus filhos amados…
Num instante, a voz de Fendrel deixou de ser a mais melodiosa da noite. O timbre de Freya guardava um poder assombroso, que fazia o coração vacilar. Verbena sentiu os músculos se enrijecerem; uma certeza invadiu a consciência de que caso a deusa ordenasse que ela se lançasse no abismo, assim o faria, sem questionar.
— Hoje celebramos o amor… — continuou a divindade, a entonação grave feito trovões distantes. — Um sentimento tão caótico quanto as tempestades de inverno. Nossas asas são o testemunho de que ousamos vivê-lo em toda a sua intensidade e, ainda que seja turbulento, damos a ele o significado que escolhemos carregar.
Com um estalar de dedos, uma cascata azulada desabrochou em suas costas, moldando-se nas asas mais belas que Verbena já vira. Elas ondulavam semelhante a véus vivos, controlando a brisa com destreza e aprisionando olhares feito feitiço.
— E quem melhor para dar voz aos nossos corações do que os trovadores?
Freya abriu espaço diante do trono, os olhos claros pousando perigosamente em Fendrel. Aquela cena borbulhou dentro do peito de Verbena na forma de uma alfinetada dolorida.
Não gostou nada disso.
— Fendrel, não é? — a deusa apontou — Suas músicas… vêm mesmo do coração?
Curvando-se, ele respondeu, firme, sem pestanejar:
— Minhas canções são parte de mim, minha senhora.
— Como deve ser.
Com um aceno de autorização, Fendrel tomou o centro da praça. Ao seu redor, cantores e dançarinos se alinharam, enquanto Seryin se posicionava bem próxima a ele.
— São um casal perfeito, não acha? — cochichou Mareen.
Verbena foi incapaz de conter um sopro impaciente que escapou de suas narinas.
Claro que Seryin seria escolhida para Fen.
O que a irritava era a sensação de que, se dependesse daquela mulher, nunca mais trocaria uma palavra com ele. Talvez nem os filhos dela conversariam com os dele.
Os pensamentos da moça junto aos murmúrios soltos da multidão, foram logo silenciados por um assobio agudo. Fendrel ergueu o alaúde, atirando-o ao ar. No trajeto, o instrumento se dissolveu em poeira cintilante e se recompôs em um violino.
Então as primeiras notas ecoaram. A melodia tomou a praça em ondas que arrepiavam a pele, a magia dos bardos moldando cada partícula da atmosfera feito matéria. Ele bateu o pé; tambores o seguiram. Sua voz deslizou pelo espaço na forma de um carinho gentil, e os corpos imploraram por acompanhá-la.
Verbena nunca se cansaria de assistir. Bardos eram capazes de mover montanhas, criar ilusões e enganar exércitos inteiros.
E ela sabia : Fendrel tinha poder para tudo isso e muito mais.
O trovador desceu do palco. Atrás dele, o violino flutuava sozinho, conduzindo as notas, praticamente uma extensão da alma do mestre.
Casais se formaram em meio à praça, rodopiando ao som da melodia. Freya, com o semblante radiante, ergueu a palma e, num gesto leve, fez todos os pares flutuarem acima da relva.
Quando Fendrel chegou diante de Verbena, hesitou por um instante antes de estender-lhe a mão. Ela respondeu com um sorriso gentil, mas negou o convite. Os braços unindo-se atrás das costas.
Não sabia dançar…
Em vez disso, deixou brotar de sua pulseira uma rosa de dragão — pétalas em chamas, vermelho intenso igual aos olhos dele — e a ofereceu ao amigo.
No segundo seguinte, surgindo do absoluto nada, Seryin já o puxava para si.
De longe, Verbena assistiu ao casal que dançava como se fosse apenas um corpo, os passos tocando a grama num ritmo perfeito. Eram coordenados, belos, definitivamente feitos para estarem juntos.
Que Fendrel fosse feliz…
A música terminou com uma última nota grave e o instrumento devoto retornou às mãos do dono na sua forma original de alaúde. Aplausos encheram a Praça das Asas, vibrando a terra batida debaixo das botas de couro.
Observando cada gesto do Mestre dos Bardos, Freya avançou com a leveza de quem flutua. Aproximou-se além do que a cortesia permitia, sua luz engolindo o trovador numa ardilosa armadilha. Num movimento despretensioso, inclinou-se até que os lábios chegasse perto de tocar o ouvido do rapaz para soprar um segredo que ninguém mais poderia ouvir.
E aquela foi a primeira vez que Verbena viu o amigo vacilar.
Fendrel piscou, atordoado, e em seguida se apressou para deixar o palco junto dos outros. Caminhava com passos duros, o queixo enterrado na mão, sem ousar encarar ninguém, perdido em pensamentos que a deusa havia acabado de acorrentar dentro dele.
O que ela teria dito?
Na vila encantada de Alféria, o destino de seus moradores é selado pela escolha da deusa: apenas aqueles que encontrarem o amor verdadeiro ganharão asas e a liberdade de voar. Quando o decreto divino recai sobre Fendrel e Verbena, unindo-os como um par, ambos temem que esse destino coloque em risco a amizade que construíram e os obrigue a enfrentar um futuro incerto. Agora, precisarão decidir entre aceitar a vontade da deusa ou renunciar para sempre ao sonho de alçar voo.
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