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Condenados a Voar

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Condenados a Voar

Capítulo 7 · Condenados a Voar

Capítulo 05: A muralha de travesseiros

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— E a Deusa falou o quê pra você naquela hora?

Verbena perguntou enquanto encarava o teto do quarto, as mechas azuladas afundadas em um grande e fofo travesseiro branco. Os pensamentos pesando cada vez mais sobre o enchimento de penas.

Como a resposta não veio, ela se apoiou nos cotovelos e fitou o amigo — quer dizer, marido — do outro lado da cama, protegido por uma montanha de almofadas que dividia o colchão exatamente ao meio.

— Fen? Alô?

O trovador tamborilava os dedos no tecido de seda, talvez testando uma nova melodia, talvez resolvendo mentalmente os dilemas do mundo… ou os dele mesmo. Só despertou do transe quando algo macio atingiu seu rosto.

— Ai! Ei! Esse é o meu lado!

 — Me responda!

 — Responder o quê?

 — A Deusa, Fendrel! O que ela disse pra você?

O rapaz mordeu a bochecha, ganhando tempo para inventar uma mentira convincente. O problema era que, depois de tantos anos de amizade, seria impossível esconder qualquer coisa dela. Então, teve uma ideia. Ensaiou um discurso, respirou fundo e iniciou o teatro mais puro de um bardo dramático:

— Foi bem sério o que ela me disse… — ergueu-se e ficou de joelhos, virando-se para ela. Abaixou a voz e levou um dedo aos lábios, pedindo sigilo. Verbena se inclinou, atenta. — Se eu não fizesse alguma coisa, ela disse que você ia se casar com a sua samambaia.

Ele apontou para um conjunto de galhos atrás dela, que se ancoravam na ampla janela redonda, onde cortinas bege esvoaçavam com a brisa atrevida que escapava pela fresta. A planta se mexeu, reagindo ao grunhido da moça, que cruzou os braços com um semblante entre irritação e incredulidade.

— Sério mesmo? Piada de planta? Agora?

 — Nem vem — ele deu de ombros, com um sorriso brincalhão. — A samambaia me achou hilário.

Os cipós se estenderam até a cama, e uma das pontas se enrolou para alcançar Fendrel. Ele ergueu o pulso, performando um high five cúmplice.

— Traidora! — Verbena vociferou.

Depois de longos segundos, contando a paciência como quem conta carneirinhos, a moça se jogou de volta no lençol, fazendo as molas da cama ondularem com toda a sua indignação.

— Então… o que faremos?

 — Sobre seu casamento com a samambaia? Me disseram uma vez que lírios brancos ficam lindos em buquês…

Desta vez, ela riu.

Aquele som soou bem demais aos ouvidos de Fendrel, pois, enfim, conseguiu fazê-la se acalmar. Bem...pelo menos um pouco.

O ataque de nervos que sua nova esposa havia decidido apresentar naquela noite fora uma provação. Cada palavra incrédula, cada gesto desconfortável eram farpas alfinetando cruelmente sua sanidade… e seu coração.

E pensar que a escolha da Deusa até fizera seu peito se encher de esperança. Porém, os resmungos de Verbena logo o puxaram de volta à dura realidade: o amor dele havia prendido a melhor amiga em um casamento arranjado. 

Até poderia existir sentimento ali, mas a moça nunca deixaria que emergisse. Fendrel sempre soube disso. As tentativas frustradas durante a adolescência apenas confirmaram seu ceticismo ano após ano.

— Você não vai falar, não é?

 — Não posso, Vêr…

 — Entendo… — ela deu soquinhos no colchão, no compasso da respiração. — Então é isso? Vamos fingir?

Mais um silêncio. Neste caso, nada confortável, sem a cumplicidade familiar entre os amigos, apenas um vazio carregado de dúvidas. Foi o suspiro pesado do trovador que abriu a continuação da conversa:

— Por enquanto é o que temos…

 — Fendrel…  — ela o interrompeu  — desculpe por essa confusão.

— Como é?

— Você e Seryin… era pra estarem juntos, sabe? Vocês cantam e dançam tão bem, seus filhos seriam trovadores incríveis… Eu não sei o que a Deusa pensou, eu…

A risada que lembrava uma canção, vibrou até o mogno das paredes. Tão generosa e verdadeira que fez Verbena se mexer desconfortável nos lençóis, franzindo o cenho, completamente confusa.

— Qual a graça?

— A Deusa forma casais, não bandas, Vêr…

 — Então você não…

Fendrel pigarreou e virou o rosto, sufocando as palavras da moça antes que existissem. A resposta era óbvia, mas ele não suportaria ouvi-la em voz alta. No íntimo, só pedia que Seriyn o perdoasse, porque, apesar de tudo, ele havia tentado. Só agora entendia: forçar seu coração a amar outra pessoa fora o mais cruel dos egoísmos.

— Vem cá, precisa mesmo dessa porcaria? — falou rápido demais, num esforço desesperado de ressuscitar a conversa e nublar o caos de seus pensamentos. — Você acha o quê? Que eu vou pular em cima de você à noite e uma muralha fofinha vai me impedir?

Verbena enrubesceu no mesmo instante. Aceitou que ele dormisse ali, pois seria um infortúnio enorme negar publicamente a decisão da Deusa. Mas algo na possibilidade de aproximação, o perigo de rolar sobre ele durante a noite, despertava sensações que subiam nervosas e arrepiavam sua pele na forma de pistas difíceis de decifrar.

— Não perguntei sua opinião… e ela — apontou para a samambaia — também vai me ajudar a vigiar.

Ouviu os grunhidos e o ranger grosseiro das molas. Sabia bem o que Fendrel estava fazendo: uma birra, coberto pelo tecido, como se estivesse extremamente ofendido com a situação.

Muito adulto da parte dele....

Ficava cada vez mais complicado. Tudo o que ela via ali era seu amigo de infância, companheiro de traquinagens, brincadeiras no lago, pique-esconde nas árvores do bosque. Aquele que na adolescência ouviu e ajudou com suas "paixonites". Não um marido, muito menos um amante.

O que diabos a Deusa estava pensando, afinal?

Como se amava uma pessoa? Quais eram os sinais? Era tudo confuso demais naquele momento. E, se dependesse dela, uma anta emocional, Fendrel ficaria sem asas graças àquela maldita decisão.

—Vêr…

— Sim?

 — Durma… Nós vamos dar um jeito.

Verbena murmurou uma afirmativa pouco confiável, cobrindo-se com sua própria manta e se entregando à incapacidade de resolver aquele problema em uma só noite. Lógico que, isso não significava que sua cabeça se desligaria facilmente.

— Fendrel…

 — Diga…

— Você pode cantar? Talvez ajude a dormir.

— Considerando que quase morri de frio lá fora e agora estou sendo ameaçado por uma samambaia, só posso oferecer um assovio.

 — É justo.

A música então nasceu suave: apenas o ar que saía dos lábios dele já desenhava notas perfeitas para uma canção calma e tranquilizadora. Os galhos da samambaia lunar se recolheram, aceitando o descanso antes mesmo de sua dona. Verbena ainda ficou alguns minutos permitindo que a melodia a preenchesse, completando mentalmente a letra que já conhecia.

Antes de adormecer, pensou que ao menos poderia ouvir as canções dele todas as noites… sem amor, sem asas, mas com uma ótima trilha sonora.


Condenados a Voar

Sinopse

Na vila encantada de Alféria, o destino de seus moradores é selado pela escolha da deusa: apenas aqueles que encontrarem o amor verdadeiro ganharão asas e a liberdade de voar. Quando o decreto divino recai sobre Fendrel e Verbena, unindo-os como um par, ambos temem que esse destino coloque em risco a amizade que construíram e os obrigue a enfrentar um futuro incerto. Agora, precisarão decidir entre aceitar a vontade da deusa ou renunciar para sempre ao sonho de alçar voo.

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ISBN
LITEBN-574758822283817253594056
LITEBN
LITEBN-574758822283817253594056
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