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Cilene Resende

@ Cilene

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LITERÁRIA

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03/1010:34
Gol Contra

Comecei cedo a faxina
decidida a pôr ordem em tudo:
no armário, nos papéis, nas fotografias, na poeira dos cantos,
no chão do quarto.
Uma mancha vermelha escorria do assoalho em um pulso próprio.

Fiquei do joelhos e contra-atacamos - éramos um time: eu e o balde, água e sabão.
Esfreguei até os nós dos dedos arderem.
O líquido pegajoso sumia, mas logo voltava - mais vivo, mais escuro.
Substituí os jogadores. Tentamos desinfetante, vinagre, álcool de posto que usava para limpar os espelhos.
A cada produto, um breve alívio: o horizonte de uma superfície inócua.
Porém, bastava levantar os joelhos e o líquido retornava, insistente, zombando de mim.

Exausta, chorei sobre aquele chão.
Minhas lágrimas mal se misturaram ao vermelho plasmático.
A mancha não desistia.
Meu time sucumbiu.
Eu, ali, ajoelhada em prece há horas e a mancha cuspia de volta o que eu tentava apagar.

Deixei-a. Deitei naquele chão, quem sabe se ignorar, ela vai embora.
O vermelho, no entanto, escorreu-se rapidamente para todos os cômodos.
A mancha estava vencendo, ela me afogaria contente, ali, sem memória de minha posição fetal.

Um jogador que assistia do banco, me ativou uma ideia - completamente desesperada, alucinada, uma última tentativa: um acendedor de velas quebrado na minha cômoda. Convoquei novamente o álcool - definitivamente não era uma partida normal, dava pra substituir as tentativas quantas vezes eu aguentasse.
Molhamos a cortina, os lençóis da cama, o abajur, o pufe de crochê feito pela minha bisavó… eu e meu jogador que, esgotado, pediu pra sair.
Ah! Mas tinha ainda meia garrafa de Vodka, que não dei conta na noite passada. Substituição! Absolutamente para a sala. Taquei, também, o Gim na cozinha.
Obrigada meninos, vocês jogaram muito bem!

A torcida na minha cabeça gritava o nome dele. Era chegada sua hora. Já estava fora da gaveta, no aquecimento, sobre a pia. Acompanhei-o até a porta, na beira do campo. Enquanto ele alongava a cabeça, orientei: “vai com tudo, artilheiro”. Risquei o fósforo.

O fogo subiu em espirais, queimando madeira, paredes, cortinas, lembranças — queimando também a esperança.

Do lado de fora, os vizinhos viam apenas uma casa em chamas. Por dentro, era o meu coração que ardia, e, infelizmente, ainda escorria em meus seios, incapaz de se limpar, condenado a sangrar para sempre. Perdi outra vez.
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Cilene Resende
@seria.uma.sereia
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27/0611:33
À Distância de um Olhar

Ela tocou a taça no queixo porque precisava do toque. O vinho tingia o cristal como um presságio. Os olhos dele, mesmo do outro lado da tela, tiravam suas roupas com mais precisão do que mãos ousadas.
“Você sempre me põe alguma vontade”, ele dissera.
“Qual a de hoje?”, ela provocara, já imaginando que leria uma boa resposta no calor que subia pelas coxas.

A mensagem chegou como um sussurro que atravessava o vidro:
“Começa com mergulhar os dedos na tua taça, depois na tua boca, te olhando os olhos de muito perto.”

Ela sentiu a boca se entreabrir, não pela surpresa, mas pela antecipação. O dedo úmido do vinho poderia ter sido dele, roçando seu lábio inferior, empurrando devagar para dentro, como quem oferece um segredo para ser guardado entre dentes e saliva.

“Essa carinha de reação é bem como pensei a sua boca mesmo”, ele completou.

Ela respondeu com um “hmmmm”, mas seu corpo inteiro falava outras línguas, outras urgências.

E então ele afundou mais fundo nas palavras:
“Se viesse um gemidinho assim, iriam também outros dois dedos na tua boceta, sem tirar os da tua boca e ainda te olhando os olhos de muito perto.”

A cena se desenhava perfeita em sua mente — os olhos fixos, os dedos orquestrando uma dança entre lábios e carne pulsante. Ela respondeu com um arrepio e uma confissão:
“que cena perfeita.”

E ele seguiu, sabendo que já não havia como parar e nem queria recuar:
“Os dedos todos e os olhos todos continuariam, até você gozar. Sem outro toque, sem mais proximidade do que estar perto, te olhando e tocando a boca e a boceta por dentro.”

Ela adorou a maldade dessa ideia, mas desafiou:
“Será que consegue? Ficar longe?”

“Consigo”, ele disse.
“A visão do teu corpo a essa curta distância e os teus movimentos… Eu seria capaz de te olhar assim muito tempo. Mas nem acho que seria preciso tanto tempo até você gozar.”

“Não, não seria”, ela admitiu mais rapidamente do que deveria.

E ele concluiu como quem sela um feitiço:
“O movimento do teu quadril, bicando nos meus dedos. Aqui, só a construção da cena me põe vontade de um gozo. Imaginar também o teu corpo ao ler, aumenta minha vontade.”

Ela fechou os olhos, imaginou o tamanho e a dureza da vontade, sendo empurrada para dentro de si.

E isso arruinou qualquer chance de um minuto a mais. Gozou com força e vazio. Sem vergonha e sem pele. Ali mesmo, entre letras, vinho e desejo teleguiado.
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19/0618:48
Isso Aqui Meu Senhor é uma Carta ao Amor

Na dobra de um lençol revirado;
3h23 da manhã

Querido Amor,

te escrevo com as mãos frias
e o coração - que te dei - em minhas mãos
(ainda batendo)

às vezes acho que é por você
às vezes acho que é apesar de você

te nomeio querido, porque não sei como se saúda o Amor
e, como se presenteia o Amor?
com flores?
com um olhar em silêncio no ponto do ônibus?
seria com o susto de reconhecer a si mesma em outro corpo?
em outra risada?
em outro abandono?

oi, amor
oi
seria isso?
um aceno?
uma vertigem?
um poema escrito errado?

o seu corpo, Amor
é morno e confuso
é a cama quando ainda tem o cheiro dele
é o braço que aperta quando você diz que vai embora
é o eco de uma risada no caminho do teatro
no dia que você esqueceu de trancar a tristeza do lado de fora

e quando você falta
é como se todo o oxigênio do mundo tivesse voltado pra estrela que pariu isso tudo
a gente ofega, ofende, reza
a gente jura que não vai mais
e vai
e volta
e sangra

sei pouco sobre você
sei que
“um dia” é a sentença da esperança
uma quimera cruel e fria disfarçada de motricidade
e quem diria que “um dia” eu ainda iria a este amor
e que, sem expectativas, um sorriso me atravessaria, surpreendendo meus lábios já tão secos de utopia
agora, tão desprovidos de dignidade

você me quebrou, Amor
me reescreveu sem avisar que ia mudar o enredo
me ensinou que
ninguém ama impunemente,
que o peito é casa mas também é escombro

mesmo assim
mesmo assim
mesmo assim
e talvez só por isso

não sei viver sem você
e essa é a mais triste das verdades
a mais bonita também

sem você eu como
mas não me alimento
respiro
mas não suspiro
ando
mas não chego

você Amor, é incêndio e nascente
é ausência e altar

e eu… sou
essa mulher com olhos cheios de água
pedindo outra vez
para ser acolhida nos seus braços
mesmo sabendo que
você às vezes também não sabe abraçar

nesse dia dos namorados,
te escrevo com tudo que restou
e tudo que falta

Sua sempre,

Sereia
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01/0215:31
Conto inspirado em um dos contos de Delta de Vênus
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