Cilene
@CileneMeu avô sempre dizia que o ano começa no primeiro surdo. Foi ele quem me ensinou a amar o carnaval e suas ruas abarrotadas de risos.
Durante anos, dancei com uma flor presa no peito, que tinha nome e perfume. Era a porta-bandeira do meu exagero.
Este ano eu fui de abelha sem flor.
O luto perpassado de amarelo berrante, asas de plástico, ferrão improvisado com cartolina, zumbindo pelas esquinas,
cantando marchinha:
“Ô jardineiro, prepara o canteiro,
que o meu amor anda sumido no meio do cheiro!”
Nos primeiros dias eu procurava a flor.
Entre serpentinas e confetes grudados no suor, imaginava que ela podia brotar
de trás de qualquer máscara.
Beijei uma Dália elétrica,
toda pintada de glitter azul,
que falava alto e ria com a cabeça jogada para trás.
Passei a madrugada com uma Orquídea
delicada só na aparência,
que sabia o nome das próprias pétalas
e não tinha medo de desabrochar na cama improvisada do hotel barato.
Teve também uma Margarida distraída,
que me ensinou que arrancar pétalas
é um jeito antigo demais de decidir.
Mas as flores me pareciam tão murchas.
Talvez por excesso de sol,
talvez por excesso de mim.
E, ainda assim,
em algum momento entre um bloco e outro, percebi que estava feliz porque o meu corpo, finalmente,
parava de perguntar onde estava a flor
e começava a perguntar onde eu estava.
O carnaval acabou.
Saí sem asas.
Foi estranho como o silêncio depois do último tambor.
Se fosse marchinha, seria assim:
“Abelha sem colmeia
Voando em torno de mim
quem perde a primavera
descobre que também é jardim.”
——————————————
Cilene Resende
@seria.uma.sereia
Durante anos, dancei com uma flor presa no peito, que tinha nome e perfume. Era a porta-bandeira do meu exagero.
Este ano eu fui de abelha sem flor.
O luto perpassado de amarelo berrante, asas de plástico, ferrão improvisado com cartolina, zumbindo pelas esquinas,
cantando marchinha:
“Ô jardineiro, prepara o canteiro,
que o meu amor anda sumido no meio do cheiro!”
Nos primeiros dias eu procurava a flor.
Entre serpentinas e confetes grudados no suor, imaginava que ela podia brotar
de trás de qualquer máscara.
Beijei uma Dália elétrica,
toda pintada de glitter azul,
que falava alto e ria com a cabeça jogada para trás.
Passei a madrugada com uma Orquídea
delicada só na aparência,
que sabia o nome das próprias pétalas
e não tinha medo de desabrochar na cama improvisada do hotel barato.
Teve também uma Margarida distraída,
que me ensinou que arrancar pétalas
é um jeito antigo demais de decidir.
Mas as flores me pareciam tão murchas.
Talvez por excesso de sol,
talvez por excesso de mim.
E, ainda assim,
em algum momento entre um bloco e outro, percebi que estava feliz porque o meu corpo, finalmente,
parava de perguntar onde estava a flor
e começava a perguntar onde eu estava.
O carnaval acabou.
Saí sem asas.
Foi estranho como o silêncio depois do último tambor.
Se fosse marchinha, seria assim:
“Abelha sem colmeia
Voando em torno de mim
quem perde a primavera
descobre que também é jardim.”
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Cilene Resende
@seria.uma.sereia
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