Avatar

Mari Adriano

@ mariadriano

Nível
2
Essência
🔥 Fogo
Ritual
0 Dias

Patrimônio

0.0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

Updates

14/0813:28

Nascente

NASCENTE

Era o primeiro sábado do outono, e o sol nasceu às seis e quinze. Eu lembro porque vi o céu se abrindo pela janelinha do banheiro, enquanto tomava um banho bem quente, como me orientaram a fazer. Bom, duvido que tenham falado em “bem” quente, talvez tenham usado a palavra “morno”. Nunca fui adepta ao morno, quando se trata de água do banho, de café, ou de vida.
O banho ajudou, de fato. Acalmou-me e lembrou-me de que estava pronta. Eu já vinha me preparando há meses, ou há uma vida inteira. Mas quem sabe quando começa a vida e quando começa a preparação?
Eu só não sabia o dia exato em que partiria.
Fui avisada um pouco antes das seis. Acordei assustada, ao saber que enfim havia chegado o dia. A grande viagem estava prestes a começar. Eu já tinha aceitado que seria só partida. Que eu não voltaria para casa, para a vida de antes.
Eu deveria me aprontar com calma. Se a jornada seria longa, não havia porque me apressar. Tomei o banho quente e longo, vi o sol nascente. As malas estavam feitas há semanas, mas conferi mais uma vez. Tudo certo na minha e na dele.
Caminhei um pouco, no corredor de casa, sentindo tudo: a dor, o medo, a emoção.
Deitei de novo. Ainda havia tempo. Ponderei se deveria avisar meus pais e os amigos mais próximos. Não avisei ainda. Haveria espaço para inseri-los em outro momento.
Liguei a televisão do quarto. Não que eu fosse conseguir assistir a qualquer coisa naquela situação, mas precisava abafar o silêncio incômodo do amanhecer.
O marido insistiu que eu comesse, mas meu ventre, agitado, avisava que não seria boa ideia colocar mais nada para dentro. Agradeci pelos ovos cozidos que ele me trouxe na cama, mas prometi levá-los na viagem. Esqueci na mesa de cabeceira.
Era meio-dia quando entendemos que era hora. Despedi-me da minha casa, da antiga realidade, inalando o cheio forte do café que não consegui tomar. O marido carregou as malas e eu carreguei a vida até a garagem.
O trajeto de carro não foi longo, mas demorou uma eternidade. Foi desconfortável, quase impossível. Cada curva aumentava meu sufocamento.
Depois, o desconforto deu lugar à maior dor do mundo. Entre as dores, lágrimas. Entre as lágrimas, sorrisos. Um sonho estava ganhando corpo.
Horas se passaram, uma tarde inteira.
Às dezoito e trinta, o sol se pôs. Eu vi, pela janela, as cores alaranjadas no céu, no momento em que eu entregava minha última energia, minha última força. Enquanto anoitecia lá fora, ali dentro a luz nascente da vida vibrava. Vi aqueles dois olhinhos arregalados me olhando pela primeira vez.
E entendi que já não era a mesma que parti. Outra eu retornaria à casa, com uma nova vida no colo.
🔒 Conteúdo Exclusivo