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RAFAEL ARAUJO

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ESTRADA

LITERÁRIA

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14/0323:02
POESIA DE UM CHOCOLATE

Eu já fiz um poema sobre chocolate, mas não era um chocolate comum que derrete na boca e sujam os lábios carnudos de quem adora se lambuzar.

Era sobre um chocolate amargo que nem a vitrine ousava lhe expor, pois seu aroma forte e concentrado espantavam aqueles que buscavam por um pouco de doçura na vida.

Certo dia, ele recebeu a companhia de chocolate diferente daqueles que eram expostos na lojinha do chocolateiro. Esse chocolate tinha um cheiro levemente doce e envolvente, quase como se tivesse sido banhado ao leite. Então, o chamou de chocolate ao leite porque era esse o aroma que mais chamava a sua atenção.

Ao reparar a tristeza do novo amigo, o chocolate ao leite tentou puxar assunto e quebrar aquele gelo todo, porém foi ignorado pelo amargo. Só que isso não o desanimou e ele tentou mais uma vez, mas não foi correspondido. Então, depois de tanto pensar, teve a ideia das grandes ideias: arrancou um pedaço de si e ofereceu ao chocolate amargo.

O amargo, por sua vez, não aceitou de primeira e estranhou a oferta do outro. Então, o ao leite ofereceu novamente e dessa vez não hesitou em aceitar. Pegou o pequeno pedaço e comeu sem pressa. Quando terminou de comer, sentiu-se diferente como se seu corpo renovasse.

Essa mudança trouxe um novo sentido para sua triste vida, e ele estava gostando de se sentir tão bem. De repente, um pensamento estranho surgiu, e essa seria a ideia: pensou que para deixar de ser amargo, só precisava comer algo mais doce do que ele. Sem hesitar ou deixar as vozes lhe impedir, devorou o colega chocolate ao leite, como se fosse um animal sedento por comida.

A mudança que tanto queria, chegou mais rápido do que ele imaginava. Finalmente, exalava um aroma mais doce do que aqueles que ficavam exposto na vitrine do chocolateiro. Foi nesse exato momento que sua loucura floresceu: pensou consigo mesmo, em devorar mais chocolates da lojinha, talvez, assim, o chocolateiro o colocaria à mostra na vitrine.

Então, ele foi comendo os outros chocolates da vitrine - um por um - até que não aguentou mais e teve que parar para descansar na bancada de vidro. O chocolate, que já não era mais amargo, adormeceu sobre a bancada.

Enquanto isso, aqueles que conseguiram fugir do doce esgulepado estavam assustados e derretendo de medo. Por isso, preferiram ficar escondidos debaixo da prateleira próximo a vitrine e atentos.

Na manhã seguinte, o chocolateiro ficou espantado por ver sua loja quase vazia e toda bagunçada. Seus olhos marejavam com tamanha destruição, mas o que incomodou foi sentir um aroma estranhamente doce e enjoativo. Olho para a bancada de vidro, e percebeu que o cheiro estava vindo daquele estranho chocolate sobre a bancada.

O chocolateiro não estava conseguindo suportar aquele cheiro enjoativo, pois era uma mistura doce com amargo e amargo sem nenhum doce. Ele até pensou em derreter e tentar consertá-lo, mas aquela mistura era ineloquente demais para harmonizar novamente. Sem ter muita alternativa, pegou o chocolate e jogou na lixeira que ficava algumas esquinas de sua loja.

Escrito por Rafael Araújo
Conto
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21/0222:37
O Soneto das Máscaras

Eis que eles ainda estão aqui presos em indagações que se julgam no direito de proferir: ― Para quê? Por quê?

Essas questões são abstratas e servem como um refúgio, onde eles esperam encontrar a salvação de um abismo criado por sua imaginação voraz.

Todos esses adúlteros inconformados não fazem ideia de que a roda sempre existiu e permanecerá igual mesmo que a mudança aconteça. Esta naturalidade que tanto buscam já não é mais natural.

Seria mais fácil se eles seguissem o roteiro planejado para não perder tanto tempo de sua simples e humilde realidade. Afinal, a única certeza que existe é que tudo já está definido e ninguém pode fugir do seu destino.

― Para todo efeito, eles são o que nós queremos que sejam.

No entanto, nem todos são iguais, pois existem aqueles que transcendem em um sentido mais amplo da realeza e esses pertencem à aristocracia da majestade. Eles são bem diferentes dos seres inferiores que só buscam questionar a ordem natural do sistema.

Esses, por sua vez, até tentam incorporar sua revolta em gritos ecoantes, mas sempre vão escutar a mesma resposta: ― Porque sempre foi assim e pronto!

Afinal, não precisa lutar contra aquilo que se mostra verdadeiro, tampouco desejar algo tão irreal quanto os sonhos, pois tudo ficará mais evidente quando finalmente compreenderem o nosso papel: — Sou o espelho que preenche o vazio do rosto de quem deseja ser mais do que um simples plebeu nem um bobo da corte.

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14/0221:59
O Soneto de um Plebeu

Paralisado, quase em pranto, envolto pela poeira, na aurora de mais um dia, enquanto o sol ainda hesitava em nascer, eu ficava para trás, apesar da promessa de nunca abandonar aqueles que um dia jurei não deixar sozinhos.
Não era algo eterno, embora meu comprometimento parecesse ser para sempre; eu me consolava sabendo que, ao entardecer, enquanto o sol punha-se lentamente, retornaria para enxugar as lágrimas do pequeno.
No meio do nada — que para mim era nada, mas para os grandões coroados com aço e ouro era muito — eu cavava a terra com ferramentas de ferro, alimentando a esperança de que, ao menos, houvesse pão na mesa todos os dias.

― Por que será que tantos têm tão pouco?

As palavras da velha mais sábia da vila indicavam que, por vezes, era do pouco que mais se podia ter. No entanto, todos anseiam por mais do que lhes é dado.
Suor, dor, fome e fraqueza... esses eram os ingredientes que sustentavam a vida de um plebeu.

― Minha obrigação, não é mesmo? Pelo menos era isso que o arauto sempre dizia. E os cobradores de impostos eram a confirmação.

Afinal, nasci e cresci para isso. Se fosse diferente, a vida seria como saborear as pétalas de uma rosa amarela, suave e fresca, e beber o sumo dos lírios brancos.

― Sou apenas um plebeu, alimentando-me das marmitas de ferro, com pão duro e, com sorte, água. Caso contrário, apenas água para sustentar o dia cansativo de tanto caminhar.

Às vezes, sob o sol escaldante, viajo entre os muitos pensamentos, que é a única coisa que não podem nos cobrar. Nessas reflexões sobre o tempo e sobre o que poderia ter sido diferente, vêm-me à mente lembranças que ainda pairam como devaneios que nunca se concretizaram.
Longe dos ouvidos afiados do grande e respeitado arauto, posso afirmar que, como plebeu, sou a peça fundamental desse moinho.

― Contudo, não sou o juiz!

No fim da tarde, com o dia quase coberto pela escuridão, as notas de silêncio ecoam alto sobre as balanças repletas de coroas e tesouros escondidos que um dia ajudei a encontrar. Desse silêncio, compreendo que minha vida, tal como é, é minha. Por mais dura que ela possa ser, tento ser feliz e me alegrar, mesmo carregando no calcanhar as marcas dolorosas de um dia cansativo.

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