O Rádio no Deserto
Era uma manhã quente e sem promessas de alívio quando o avião caiu. Um grupo militar em missão secreta foi forçado a fazer um pouso de emergência no deserto imenso após uma pane na aeronave. A situação era desesperadora. No entanto, havia algo que os mantinha vivos: a limitada carga do avião. Comida, água, medicamentos... aquilo era tudo o que tinham. Mas sabiam que não duraria muito. Mesmo com a morte do comandante e do piloto, o grupo ainda era composto por cinco pessoas, e os recursos estavam cada vez mais escassos.
No primeiro dia, o subcomandante assumiu a liderança e ordenou que, em duplas, fizessem patrulhas pelos arredores. A ideia era aumentar as chances de serem encontrados ou, quem sabe, encontrar algum pedaço do avião, que logo seria coberto pela areia. A rotina era exaustiva. As patrulhas se sucediam a cada hora, sempre com a esperança de que, de alguma forma, algo poderia mudar: um sinal de resgate ou, talvez, algum objeto que pudesse ajudá-los.
Foi então que, em uma dessas patrulhas, encontraram algo que parecia um milagre: o rádio portátil do comandante. Ele havia morrido na queda, mas o rádio... ah, o rádio parecia ser a chave para a salvação. Era o único meio de comunicação, o último vestígio de esperança de contato com o mundo exterior.
Os rádios militares funcionam em pares, mantendo uma frequência única que só se conecta entre si. O rádio do comandante estava sintonizado com o rádio de outro grupo, que não havia caído com o avião. No entanto, o problema era que eles estavam fora de área, em um deserto vasto e isolado. O que restava era a procura por algum lugar que conseguisse manter o contato, o que parecia uma missão impossível. O clima estava tenso. Cada um com suas estratégias e formas de lidar com a solidão e o medo, mas sempre fiéis ao subcomandante, que era o único a manter algum senso de ordem.
Durante uma patrulha noturna, o soldado comentou com o cabo que o acompanhava:
– "Um rádio caríssimo, tecnologia de ponta, à prova d'água e inútil. Que decepção."
Após uma breve reflexão, o cabo respondeu:
– "Não é à prova d'água."
A patrulha deles já estava terminando, mas o tempo foi o suficiente para que se estressassem ao ponto de uma discussão acalorada. Gritos e xingamentos se espalharam pelo deserto, reflexo do calor, da desidratação e da falta de qualquer perspectiva de resgate. Quando chegaram ao acampamento, o soldado, ainda em seu ímpeto de provar que o rádio era, sim, à prova d'água, fez o impensável: mergulhou o rádio no último cantil de 5 litros de água. O cantil já estava pela metade, e era a única água que restava. Ao mergulhar o rádio, um pouco da água foi espalhada, deixando quase nada no fundo do recipiente.
Quando percebeu o erro, a lucidez finalmente o atingiu.
Ele retirou o rádio da água, mas foi em vão: as luzes do rádio começaram a apagar lentamente, e a frustração tomou conta do grupo. Todos estavam incrédulos com a atitude. Alguns, tomados pela raiva, cogitaram punições severas, talvez até a morte. Contudo, após uma longa madrugada de discussões, todos seguiram as ordens do subcomandante.
– "Alguém morrer agora será sem necessidade, se todos já estivermos destinados a isso. Não sabíamos se o rádio de fato funcionaria. E, apesar da falha fatal, este asno permanecerá trabalhando conosco. E, se formos resgatados, ele responderá ao setor jurídico da instituição."
Na manhã seguinte, após horas de caminhada, algo apareceu no horizonte. Em meio ao nada, um brilho se destacou na areia. Era uma lâmpada. A patrulha, exausta e cética, levou o objeto de volta ao acampamento. O subcomandante, ao observar a lâmpada, teve uma ideia. Talvez fosse uma chance. Talvez fosse um sinal. Talvez fosse magia.
Sem hesitar, ele esfregou a lâmpada. Como em um conto de fadas, um gênio apareceu diante deles. Era imponente, envolto em fumaça, e sua voz grave e autoritária ecoava no ar. O desespero misturava-se à expectativa. O gênio ofereceu um único desejo ao grupo.
Todos, então, refletiram. Um filme com todas as probabilidades passou diante de seus olhos. O desejo de salvarem-se tomou conta deles. Mas logo perceberam que pedir dinheiro, joias ou até mesmo comida não resolveria. Estavam ali, no deserto, para sobreviver. Precisavam de algo mais criativo.
Foi então que o homem que havia destruído o rádio, tomado pela culpa e agora com os olhos brilhando, adiantou-se. Ele estava convencido de que algo tão simples poderia ser a solução. Olhou para o gênio e, com voz firme:
– "Quero um rádio…"
Todos ficaram catatônicos, incrédulos, e o bonachão ainda decretou:
—… à prova dágua!
O gênio o encarou, surpreso — pernas amoleceram-se ao seu redor — mas fez um gesto com a mão. Instantaneamente, o rádio apareceu entre os dedos do homem. Todos ficaram em silêncio, observando o objeto, encarando a própria morte. O gênio, prestes a desaparecer em fumaça, olhou para ele e, com um sorriso sarcástico, fez a pergunta:
– "Mas vai falar com quem?"