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Capítulo 1 · O Poema de Antar

I. A morada abandonada e a lembrança de Abla

A morada abandonada e a lembrança de Abla

Versos 1-19

O poema se abre com uma pergunta sobre a própria poesia: ainda resta algo a cantar depois dos poetas antigos? A resposta nasce do amor. Antar detém sua montaria diante da antiga morada de Abla e transforma ruínas, paisagem e memória em matéria poética. A ausência da amada domina o início da ode.

Eixo de leitura: amor, memória, ruína, saudade, nascimento do canto.

1. Deixaram os poetas que vieram antes de mim algum tema ainda sem canto?

Que assunto, então, poderá sustentar minha voz?

Só o amor deve alimentar meu poema.

Lembras, depois de tanto pensar, a morada de tua amada?

2. Ó abrigo de Abla, no vale de Jiwaa,

dá-me notícias do meu amor.

Ó abrigo de Abla, que a manhã se levante sobre ti

com prosperidade e paz.

3. Ali fiz parar meu camelo, grande como uma torre.

A angústia da paixão deteve por instantes

a marcha do meu ousado intento.

4. Abla habitava Jiwaa,

enquanto nossa tribo estava em Hazn,

Samaan e Mutathallam.

5. Salve, ruínas queridas,

com cujos moradores fiz antigos pactos.

Mais sombrias e desertas vos tornastes

depois que partiu minha amada, Umm al-Haytham.

6. Ela mora na terra dos meus inimigos,

fortes como leões rugidores.

Como foi dolorosa minha busca por ti,

ó bela filha de Makhrem.

7. Prendi-me a ela desde o primeiro encontro,

embora eu houvesse ferido seu povo em batalha.

Juro, pela vida de teu pai,

que não há dúvida em meu amor.

8. Tomaste posse do meu coração.

Fixaste nele tua morada.

Não imagines que te engano:

ali estás, amada, como hóspede querida e senhora da casa.

9. Mas como visitar minha bela

se sua família ergueu morada de primavera em Oneizatain

e a minha permanece em Ghailem?

10. Decidiste, com firmeza, partir de mim,

pois os camelos de tua gente já estavam selados

mesmo na escuridão da noite.

11. Nada me alarma mais, como sinal de tua partida,

do que ver os camelos de carga de tua tribo

pastando bagas de khimkhim

no meio das tendas.

12. Entre eles há quarenta e duas camelas leiteiras,

escuras como as penas

de um corvo negro como carvão.

13. Então, ó Antar, ela te feriu o coração

com dentes finos e alvos,

cujo beijo é delícia

e cujo sabor é doçura arrebatadora.

14. Da boca dessa jovem formosa,

quando se beijam seus lábios,

vem perfume de almíscar,

como de um vaso de perfumista.

15. Ou como o aroma de um jardim em flor,

cujas plantas as chuvas suaves mantiveram verdes,

jardim sem mancha, sem impureza,

sem pegadas de passagem.

16. Toda nuvem matinal, livre de granizo,

derramou ali sua chuva abundante

e deixou cada pequena cavidade da terra

redonda e clara como moeda de prata.

17. A água desce generosa e copiosa;

e, toda tarde, a corrente sem obstáculo

corre por ele com ímpeto.

18. As moscas ali permanecem

em zumbido incessante,

e seu murmúrio parece a canção

de um homem alegre de vinho.

19. O som que fazem, roçando as pernas delicadas umas nas outras,

é como o som da pederneira,

quando faíscas são arrancadas

por um homem concentrado em seu ofício.

O Poema de Antar

Sinopse

# O Poema de Antar ## Uma ode arabe antiga de amor, guerra e honra

## Sinopse Um dos grandes cantos da antiga poesia árabe, **O Poema de Antar** une amor, memória, orgulho guerreiro e destino. Antar canta Abla, sua amada distante, enquanto recorda ruínas, viagens pelo deserto, combates, cavalos feridos, honra tribal e a própria fama. É um poema de paixão e guerra, onde ternura e brutalidade caminham lado a lado.

## Descricao de catalogo Antes dos romances de cavalaria europeus, antes das grandes lendas medievais de cavaleiros errantes, a tradição árabe já cantava seus heróis. **Antar ibn Shaddad**, poeta e guerreiro, tornou-se uma das figuras mais célebres desse imaginário: amante de Abla, combatente temido, homem dividido entre desejo, orgulho, exclusão e glória.

Nesta ode antiga, atribuída a Antar, o poeta começa diante da lembrança da amada e das ruínas de sua morada. A paisagem vazia desperta o canto; o amor leva à memória; a memória conduz à guerra. O poema avança como uma travessia: do acampamento abandonado ao dorso do camelo, do leito de Abla ao campo de batalha, da doçura do beijo ao sangue dos combates.

Esta edição apresenta uma tradução literária em português brasileiro, preparada para leitura fluida, preservando a força imagética, o tom elevado e a cadência épica do texto antigo.

## Nota desta edicao **O Poema de Antar** pertence à antiga tradição poética árabe pré-islâmica e é atribuído a Antar ibn Shaddad, também grafado como Antara. Guerreiro, poeta e figura lendária, Antar atravessou os séculos como símbolo de coragem, honra, paixão e afirmação pessoal diante da exclusão.

A presente edição Literunico foi preparada a partir de uma tradução inglesa histórica em domínio público, com tratamento literário em português brasileiro. Não se trata de tradução filológica direta do árabe, mas de uma versão editorial de leitura, voltada à fluidez, à força poética e à preservação do movimento dramático da ode.

O poema reúne temas centrais da poesia árabe antiga: a parada diante das ruínas da morada amada, a evocação da mulher distante, a travessia pelo deserto, a descrição dos animais de viagem, o orgulho guerreiro, o cavalo ferido, a fama, a generosidade e a ameaça constante da morte.

Nesta versão, optou-se por manter uma linguagem elevada, mas clara, aproximando o leitor contemporâneo da energia original do canto. Os nomes próprios foram simplificados quando necessário, favorecendo a leitura em português. A amada do poeta aparece como Abla; o poeta, como Antar.

Mais do que uma peça arqueológica da literatura, **O Poema de Antar** permanece como um canto vivo: um poema em que o amor não enfraquece o guerreiro, e a guerra não apaga a ternura do amante.

## Quarta capa Antes dos romances de cavalaria, antes dos heróis medievais, a poesia árabe antiga já cantava seus guerreiros, seus amores impossíveis e suas paisagens de ruína e deserto.

Atribuído a Antar ibn Shaddad, poeta e combatente lendário, **O Poema de Antar** é uma ode de intensidade rara. O canto começa diante da morada abandonada de Abla, a mulher amada, e avança por lembranças, viagens, cavalos, lanças, sangue, orgulho e desejo.

Nesta edição Literunico, o leitor encontra uma versão literária em português brasileiro de um dos grandes poemas da tradição árabe pré-islâmica: uma obra em que a delicadeza do amor convive com a violência da guerra, e em que a voz do poeta transforma ausência, fama e morte em canto.

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