@tibianchini
Público
Ela saiu na varanda. Dia bonito de Sol. Poucas nuvens. A previsão do tempo já havia alertado.
"Sem brisas", ela percebeu. Ele vinha atrás. Cabelos bagunçados, ainda tentando se realinhar, se recuperar da noite de amor a que haviam sido expostos. Roupa de baixo desalinhada -- um volume de algo balançando livre, que a falta de cuecas evidenciava. Os pelos do peito vibrando levemente com o encontro do ar.
"Sim, há brisas", ela tornou a perceber.
Ele abaixou para pegar o jornal, molhado por uma ou duas gotas, num dia de sol. Abriu enquanto se recostava na parede da varanda.
-- Como está o dólar? -- ela perguntou, ajeitando no coque um fio revolto e loiro. Puxou a barra da blusa para baixo. Ergueu o busto, colocou a coluna ereta. Ajeitou os punhos das mangas. Empinou o bumbum.
"Gostosa", ele pensou. E ele sabia que era. Ela também sabia.
-- Uma merda, como sempre -- respondeu. -- Você fica uma delícia nesse uniforme de aeromoça.
Ele sabia que ela não gostava da ofensa; era um uniforme da aeronáutica. Mas, dessa vez, ela apenas o olhou por cima dos ombros, onde repousavam uma ou outra patente.
Sorriu. E isso o desconcertou.
Em algum lugar, as brisas davam lugar a um princípio de tormenta. Tentou novamente:
-- Eu estou louco pra te levar de volta lá pra dentro, e arrancar esse uniforme inteirinho. Na dentada.
-- Eu sei, e é por isso que eu vou embora antes que você me segure.
Um calafrio lhe passou pelo corpo. Os pelos do peito se arrepiaram, mas, dessa vez, o olhar dela já estava vago no horizonte, procurando alguma coisa que talvez jamais tivesse perdido de fato.
Aquilo era eles. Um casal. Como o dólar. Uma merda.
Ela deu mais um passo em direção à calçada.
Ele abriu a boca para balbuciar alguma coisa -- qualquer coisa, que a fizesse se demorar mais alguns instantes, mas a única coisa que saiu da sua boca foi:
-- E que horas você volta?
Ela lhe sorriu. Olhou-o no fundo da alma.
-- Você sabe que eu não volto.
A imagem do seu vulto, vagando sozinho pela calçada até se perder na esquina, continuou invadindo seus olhos, enquanto mais algumas gotas molhavam o jornal, gotas expelidas do furacão que ganhava corpo naquele dia de sol.