No decorrer das últimas décadas, a tecnologia do nosso planeta avançou a tal ponto que alcançamos conquistas espetaculares. Entre elas, destacam-se as viagens à Lua em apenas quatro horas e os altamente frequentados voos suborbitais, que, por sinal, levaram à completa falência as linhas aéreas de voos internacionais de longa distância. As poucas que sobreviveram realizaram uma transição dos voos convencionais para os suborbitais.
As escolas mudaram completamente o sistema de ensino. Temos um chip instalado no corpo e podemos assistir às aulas por meio da realidade aumentada, sem precisar sair de casa.
Assim como na maioria das residências, também é comum encontrar um robô doméstico. A aparência dele varia de acordo com a preferência do comprador. Papai comprou uma ginóide porque, segundo ele, seria importante que eu tivesse ao menos um exemplo do que seria feminino dentro de nossa casa.
Minha mãe faleceu durante o meu parto, e por esse motivo carrego a culpa de, de certa forma, ter sido o causador de sua morte.
Molly não seria sequer capaz de substituir uma mulher cuja presença fosse significativa como base do que se espera de uma mãe. Sempre que eu questiono Molly sobre o que ela sente em relação ao meu pai, ela diz:
— O senhor Taveira é um homem bom!
Mas não é só isso. Claro que já fiz perguntas mais profundas, como:
— Você nunca pensou em ter um namorado? Não acha que meu pai poderia querer levá-la para jantar? Molly, você o ama?
E ela sempre responde a mesma coisa:
— Molly não sabe amar.
Realmente, Molly não sabe amar, e muitas vezes me questiono: será que alguém realmente sabe?
Pelo menos, não conheço ninguém que saiba amar. Também não conheço muitas pessoas. Amar tornou-se um artigo raro de decoração, presente apenas em livros antigos que já não são mais utilizados de fato. Papai guarda algumas dessas tralhas na garagem; ele não tem coragem de se desfazer delas porque vive dizendo que são heranças da minha mãe e de sua família.
Mãe!
A mãe que eu matei ao nascer!
Molly, que não sabe amar, me fez questionar o amor inúmeras vezes. Cheguei à conclusão de que, na realidade, nem eu sabia muito bem o que era amar. Ao longo de todos os nossos anos juntos, Molly me deu um conselho que, até hoje, ainda tento entender completamente:
— Você deveria se amar mais.
Ora, ora, bolas! Como uma ginóide, que sequer sabe o que é amor, pôde me dizer algo assim, tão profundo?
Confesso que, naquele dia — ou melhor, naqueles dias —, dei um pouco de trabalho para Molly.
Em 2150, com toda a tecnologia disponível, as pessoas raramente saem de casa. Temos tanto a realidade virtual quanto a realidade aumentada.
Há um chip implantado na nuca, e com ele é possível realizar milhares de coisas. Uma delas é conectar-se ao RV2500, um universo composto por vários reinos onde você pode viver e ser quem quiser. Basta deitar-se confortavelmente em uma cama ou poltrona e chamar o aplicativo por comando de voz para que ele inicie e faça seu login automaticamente. É imprescindível deitar-se porque se trata de um programa de imersão completa.
Foi nele que conheci Sebatia. Não sei se esse é realmente o nome dela. Nunca a vi pessoalmente no mundo real; conheço apenas o seu avatar. Quando entramos na interface virtual, um novo mundo se descortina diante dos nossos olhos. Você pode trabalhar, estudar e comprar tudo o que desejar. A moeda usual é o bitcoin.
Adoro meu trabalho na padaria virtual com Sebatia. Eu estava apenas de passagem, visitando o reino de Eloy, quando vi aquela linda garota de cabelos azuis com pontas brancas. Ela tinha um piercing no nariz, e foi amor à primeira vista. Ou melhor, será que algo virtual pode ser considerado um sentimento? É irônico que, assim como Molly, eu diga não saber o que é amar na vida real, mas tenha tido plena consciência de sentir amor à primeira vista no mundo virtual. Afinal, aquele era mais o meu mundo do que o real.
— O que vai querer, marinheiro? — Ela perguntou, piscando ao notar minha roupa. A padaria onde ela trabalhava ficava no mesmo porto que eu havia acabado de desembarcar. — Temos a oferta da casa hoje. Que tal aproveitar? É uma recomendação do chefe.
— Ahã!!! — Foi a única coisa que consegui pronunciar, tão encantado que eu estava.
No mesmo dia, candidatei-me a ajudante da padaria. Estava apaixonado por ela, mesmo sabendo que ela não era necessariamente o que eu via. No fundo, ela poderia ser um homem, uma pessoa idosa ou até alguém se disfarçando, como um traficante.
As pessoas entram na realidade virtual para relaxar ou simplesmente para ser o que desejam. Alguns a veem como um jogo, outros como uma segunda vida — uma vida particular que você não precisa necessariamente compartilhar com mais ninguém.
Foi assim que conheci Sebatia, e depois disso não quis mais fazer outra coisa além de passar meu tempo com ela.
Nossa conversa fluía tão naturalmente que parecia que nos conhecíamos havia anos. Eu adorava estar perto dela e me sentia feliz por ter alguém como ela com quem conversar. O que eu queria entender era: será que isso era amar de verdade?
Mas, como Molly não sabia amar, como eu poderia saber o que era amar?
A necessidade de estar sempre com Sebatia me consumia como um fogo eterno. Mesmo quando ela deslogava, sua imagem ficava gravada na minha mente.
Comecei a trabalhar turnos extras na padaria virtual, acumulando moedas digitais como se fossem pedaços de uma ponte que me levaria a fazer uma proposta incrível para ela.
Mas havia um limite — aquele sinal vermelho piscante no canto da tela que avisava sobre o tempo máximo saudável conectado. Eu o ignorava, dizendo a mim mesmo que estava tudo bem, que podia aguentar mais um pouco.
Até que um dia, simplesmente parei de sentir meu corpo. Meu pescoço doía como se estivesse preso em uma armadilha invisível, e minha visão começou a embaçar. Minha garganta estava seca, como se areia quente tivesse substituído a saliva. Eu mal conseguia mover as pernas, que pareciam feitas de chumbo.
Quando Molly apareceu na sala, sua voz sintética soou estranhamente urgente:
— Senhor Brian, você precisa desconectar imediatamente. Seus sinais vitais estão críticos.
Eu ri, ou talvez tenha tentado rir — saiu como um som rouco e fraco.
— Estou bem, Molly. Só mais alguns minutos… só mais um pouquinho.
Mas Molly que não sabia amar, foi quem salvou minha vida. Ouvi o som distante de sirenes, e então tudo ficou preto.
Acordar no hospital foi como emergir de um oceano profundo e gelado. A luz branca do teto me ofuscou, e o cheiro estéril do ambiente me fez perceber o quanto eu tinha negligenciado o mundo real. Três dias inteiros sem comida, água ou movimento — três dias perdidos em busca de algo que provavelmente nem existia.
Enquanto eu estava ali deitado, com os tubos conectados aos meus braços, pensei em Sebatia. Ela não havia mandado nenhum e-mail, nem uma mensagem. Nada. Nem mesmo meu chefe na padaria virtual ligou para saber onde eu estava. Era como se eu fosse invisível tanto no mundo real quanto no virtual.
Mais tarde, soube que casos como o meu estavam se tornando comuns. Pessoas que viviam além dos limites, buscando algo que nunca poderiam alcançar. E agora, eu era apenas mais um número nessa lista.
Recadinho da Autora:
Você chegou até aqui? Então me conta: você acha que alguém realmente sabe amar?
Esse capítulo mexeu comigo enquanto escrevia — e agora quero saber como ele mexeu com você.
Deixa um comentário me contando o que achou do Brian e da Molly.
Você já viveu um amor virtual que tinha mais força do que qualquer relacionamento do mundo real? Conta pra mim a sua história.
Curte e compartilha com quem você acha que também se perderia em um amor digital.
Nos vemos no próximo capítulo!