Há
20 anos. 2005.
Bernardo, no intervalo das aulas, está lanchando no pátio da
escola, observa a situação com atenção por já ser uma rotina comum, o menino
estranho magro e alto da turma ao lado da sua, está prestes a ser acuado
novamente por outros garotos. Bernardo morde seu sanduíche e o mastiga enquanto
mantem seu olhar no outro menino, o cabelo ondulado na altura do queixo cai
para frente quando se encurva após se sentar na parte alta da arquibancada e retirar
um carrinho do bolso para brincar sozinho, com isso, três outros se aproximam
dele, zombando. Logo os empurrões começam e o cabeludo se encolhe batendo com
as mãos na própria cabeça.
Joga o embrulho do seu lanche na lixeira ao lado e se
aproxima do grupo de bullying, a supervisora do pátio já está vindo, mas mesmo
assim, decide se intrometer a pedido da coordenadora.
— Ei, não podem fazer isso, se persistirem eu chamarei a coordenadora.
Os três pré-adolescentes encrenqueiros se entreolham com
caretas e depois riem de Bernardo.
— Cai fora, nerd — um deles o empurra pelo ombro.
— Oh o jeito que o mané fala — outro ri.
— Meninos! Já avisei que não é para causarem encrenca — a
supervisora de corredor dispersa os moleques que saem reclamando. — Ah, essa
não — suspira chateada ao ver o menino surtado, ele chora alto e puxa os
próprios cabelos.
— Mas ele nem apanhou dessa vez.
— Olha Bernardo, — a supervisora fala com calma ao mesmo
tempo que puxa o outro pelo braço com cuidado enquanto desce as arquibancadas para
o levar à coordenação — a coordenadora da escola já tentou de tudo para chamar
os pais dele, mas não aparecem, esse menino claramente precisa de tratamento
psicológico. Por que você não se torna amigo dele?
— E por que eu? — Os segue e repara que o menino olha para
trás angustiado, e por andar de um jeito esquisito, ainda tropeça nos próprios
pés. Mas Bernardo olha na direção que o outro havia mirado e percebe o
carrinho, retorna e pega do chão, corre para os alcançar novamente.
— Fique aí, Murilo, quando estiver melhor, retorne para sua
sala — o deixa em uma pequena sala de recursos para aulas especiais aos alunos
com atraso. Então se vira para o outro garoto que está parado na porta. — Você
poderia fazer amizade com ele, quem sabe sua mãe não ajuda...
Bernardo franze o cenho, não quer ser amigo do esquisito da
escola.
— Vá lá, entregue pra ele — incentiva o garoto a entrar ao
ver o carrinho na mão dele.
Ele caminha até o canto da parede onde o outro está
encolhido abraçado às próprias pernas chorando em silêncio. Por se compadecer, se
aproxima e se senta ao lado, o abraça assim como sua mãe faz consigo quando se
sente nervoso, depois entrega o brinquedo.
Murilo ergue o rosto por ver o carrinho, pega de volta e fica
olhando para ele o girando com seus dedos.
— Você tem que agradecer por eu ter pegado para você — o
outro não lhe responde, só chora, então novamente o abraça de lado e isso o
acalma.
— É o presente da minha Nana, ela sumiu — aperta o carrinho
na mão pela tristeza, não a vê há quase três anos.
Se sentindo menos ansioso, mas ainda com a cabeça doendo,
Murilo ergue o rosto, devagar, passa a mão no cabelo para o colocar para trás e
poder ver quem é, pois normalmente os professores só o deixam ali na sala e
saem, está acostumado a sempre ficar sozinho onde quer que vá, seja na escola,
nos cursinhos, e principalmente, em casa.
— Obrigado.
Bernardo abre mais os olhos ao ver o sorriso dele.
— Eu sou o Bernardo, e você?
— Murilo.
— Você tem que parar de chorar quando te cercarem, minha mãe
fala que não pode demonstrar medo, e você tem que falar com seu pai, não pode
continuar desse jeito.
— Meu pai não se importa comigo. Nunca tem tempo.
— A sua mãe, então.
— Ela também não tem tempo.
— Que chato.
— Você pode ser meu amigo? — O olha nos olhos.
Bernardo pensa, mas o olhar do garoto é profundo demais,
mesmo que não compreenda o que significa essa sensação estranha, entende que é
algo importante.
— Vamos — dá a mão para ele, que olha antes de o
cumprimentar firme.
Da porta, a coordenadora sorri com a cena, havia pensado em
juntar Bernardo e Murilo pois, Bernardo é um sabichão controlador e teimoso, o
que o faz ser solitário; enquanto o outro é infantilizado demais para a idade e
claramente não tem ideia de como se portar, além de ser agitado e impulsivo,
precisa de alguém para o comandar. A supervisora de corredor se coloca ao lado
e cochicha:
— Deu certo?
— Espero que sim, pelo menos se entenderam, agora é torcer
para fazerem amizade e quem sabe, a mãe do Bernardo ajude. Tenho dó, é um
garoto tão inteligente, mas claramente tem atraso social por culpa dos pais.
— É, tem dez, mas age como se tivesse cinco.
— Infelizmente o único jeito de lidar com pais ricos
narcisistas, é cuidar da criança sem que eles percebam.
— O que não é muito difícil já que entopem o guri de
atividade para o manter longe de casa.
— Exato. — Entra na sala e se aproxima dos dois meninos que
nesse momento, se levantam conversando sobre o carrinho da Hot Wheels. — E
então, meninos, como estão?
Há
15 anos. 2010.
Murilo chega de táxi na casa de Bernardo, é recepcionado
pelos pais dele e depois segue direto para o quarto do amigo, onde se depara
com os irmãos brigando.
— Por que eu não posso ficar? — Grita em tom bravo e bate o
pé no chão.
— Eu já falei. São só os meus amigos — responde no mesmo tom
alto e irritado.
— Mas eu também sou sua amiga, e sou sua irmã!
— Saia, Duda! — A empurra para fora do seu quarto e, bate a
porta, a tranca, só então encara o amigo que está parado num canto, estralando
os dedos das mãos, e descalço. — Eae, cara, chegou cedo.
— Meu pai me acordou, chegou fazendo bagunça com a amante
dele — coloca a mochila no seu canto do guarda-roupa do amigo, fica tanto tempo
lá que tem o próprio espaço.
— Que chato.
— Mas... — faz suspense enquanto retira algo lentamente da
mochila — trouxe vodca!
Bernardo sorri.
— Maneiro! — Pega a garrafa de vidro para olhar e depois a esconde.
— E já comeu o café da manhã?
— Não se come café.
— Você entendeu. E pelo visto, não comeu ainda, vamos lá — destranca
a porta e saem os dois.
Maria Eduarda chora com a mãe, implorando para poder ficar para
o aniversário de Bernardo, mas Nayane sabe que a menina não vai colaborar, vai
ficar em cima do irmão tentando chamar a atenção dele, e o adolescente já pediu
para que a levasse por não querer passar vergonha.
— Eu gostaria de ter uma irmã, você não deveria brigar tanto
com ela. Não vejo problema d’ela ficar — fala por ver a menina chorando na
sala.
— Não diga besteira, a Duda vai atrapalhar, se esqueceu do
nosso combinado?
— Não — baixa a cabeça, o amigo chamou um número par de
convidados, conforme o que os amigos da sala almejavam com as meninas, porque farão
combinados de casal, a ideia é todo mundo perder o BV.
Depois de fazerem um sanduíche e leite com achocolatado, os
dois retornam ao quarto e comem enquanto planejam como farão para o plano dar
certo.
— Verdade ou desafio será a melhor maneira — comenta após
terminar seu lanche.
— Concordo, será um bom modo de convencer as meninas. E você
sabe que a Isa te quer, né? Daí eu fico com a amiga dela.
— Qual?
— Não é da escola, — Bernardo pega o celular para abrir o
facebook — é uma vizinha dela — mostra a foto para o Murilo. — Essa é a Bianca.
— É muito bonita — analisa imagem cuja resolução não é tão
alta, o cabelo alisado pra frente com uma mecha rosa e o lápis de olho preto bem
marcado evidenciando o estilo Avril Lavigne.
— É sim, tem outras fotos aqui — deixa o celular de lado por
ver que o amigo não parece interessado. — Mas tá de boa pra você de ficar com a
Isa?
— Sei lá — dá de ombros. — Ela é legal.
— Mas não é quem você quer... — comenta pela cara que o
amigo faz enquanto cutuca os cantos das unhas olhando para o nada. — Você está
gostando de alguém?
— Sim, mas tenho que esperar — passa a mão no cabelo para
tirar da frente do rosto, e decide prender com a xuxinha que carrega no pulso,
faz um rabo de cavalo curto.
Bernardo o observa, está ciente do que anda sentindo pelo
amigo, é bonito, é o mais alto da turma, e também muito inteligente. Mas
principalmente, gosta de ele ser carinhoso e não esconder esse fato só por
serem rapazes, Murilo o encara, agora seu coração bate mais rápido pela troca
de olhar.
— Seu rosto está vermelho.
— Ah — desvia a face por ficar constrangido e respira fundo
pra se acalmar, mas tem uma ideia, então sorri e volta encarar o amigo. —
Pensei em algo aqui. Você ainda não beijou ninguém, a Isa já teve namorado, e
se eu te ensinar a beijar pra você não pagar vergonha?
Murilo ergue uma sobrancelha, surpreso, então ri.
— Algum problema?
— Não. — O olha nos olhos, conhece muito bem o Bernardo para
saber que ele está nervoso. — Você gosta de mim, não é? — A expressão no rosto
dele responde, apesar do silêncio. — Não precisa inventar desculpa, é só falar.
Eu já percebi que você se atrai tanto por garotos quanto pelas meninas, e já
reparei que você fica me olhando diferente, não precisa disfarçar comigo.
— Você entendeu errado — tenta se justificar.
Murilo põe os braços para trás da cabeça, escorado na
cabeceira da cama, fala em tom tranquilo e olhar confiante:
— Eu amo você, cara, não pra ser seu namorado, mas você pode
contar comigo pra tudo, sempre — estende a mão direita.
— Você não vai contar para ninguém, certo? — Soa sem graça e
pega a mão dele.
— Quando você quiser, você conta.
O olhar de Murilo é intenso, e sincero, sua passividade
sempre deixa Bernardo mais confiante. Se sentindo calmo e confortável, Bernardo
se aproxima do amigo.
— Eu gostaria de... — respira fundo — poder te beijar.
— Está bem. Mas eu preciso te dizer algo antes. Eu acho que
estou gostando da Duda.
Silêncio constrangedor por alguns segundos.
— Que azar.
Murilo ri da resposta do amigo.
Bernardo se inclina na direção dele, olha a íris acobreada iluminada
pela luz do sol vinda da janela, segura o rosto de Murilo com a mão direita e
aproxima o rosto devagar, então encosta seus lábios no dele, o beija calmamente
e o abraça se colocando sobre o colo do amigo que o segura pela cintura.
Duda está de pé, do lado de fora da janela, de olhos
arregalados.