Bernardo e Murilo conversam na porta do escritório com o Laercio,
outro advogado associado, um idoso que prefere não se aposentar, dono da metade
do prédio que Bernardo havia herdado do avô; o assunto se encerra e Murilo sugere
de aproveitarem o fim do mês para beberem juntos.
— Não vamos jogar tênis hoje?
— Depois do tênis, por volta das 22h nos encontramos no
Lograda — Murilo responde o amigo informando o nome do pub que quer ir.
— Verei com a Simone se ela aceita, e confirmo por mensagem —
Laercio se despede e logo entra no próprio carro.
Assim que ele sai, uma moto sobe na calçada e os dois homens
se entreolham confusos.
— Aguardava cliente?
— Eu não.
A mulher chama atenção pela roupa justa no corpo, a blusa de
manga cumprida para proteção solar não impede os dois de darem uma boa olhada, retira
o capacete, e os cabelos caem sobre os ombros deixando-os de boca aberta,
alheia, passa as mãos no cabelo os organizando rapidamente e desce da moto, a
calça jeans contorna as pernas torneadas e a bota de salto realça ainda mais.
— Caraca, que linda! — Bernardo arregala o olhar e aperta o
ombro do amigo. — Está vendo isso?
— Graças à Deus eu não sou cego — Murilo cochicha em
resposta.
Ela sorri encarando um por vez e se aproxima.
— Boa tarde... ou boa noite, — esboça uma risadinha rápida,
envergonhada — algum de vocês por acaso é o Bermuda?
Murilo segura a vontade de rir, Bernardo estende a mão e corrige
a pronúncia do seu sobrenome, soa sério se esforçando em não parecer rude.
— Bernardo Bermudes, prazer.
— Eu amei o seu nome, é divertido — seu tom é animado e tão
sincero que o deixa sem graça. — Eu sou a Alexandra, com x, mas se pronuncia
com a fonética “quissi” igual falar táxi. Você falou com meu primo ontem, por
acaso já conseguiu um motorista? Eu estava passando na rua quando vi seu nome
na placa, o bom de ter um nome legal é que fica fácil de lembrar.
Ela não estende a mão, continua falando de um modo divertido
o envergonhando enquanto seu amigo claramente está se esforçando em não rir de
sua situação. Para disfarçar o constrangimento, Bernardo coloca a mão no bolso.
— Eu ainda estou avaliando os candidatos. — Fala em tom
firme e a olha nos olhos, mas ela parece olhar para sua testa e isso lhe
agonia. — Por qual motivo você teria interesse na vaga?
— Preciso de dinheiro e sou uma ótima motorista, também
entendo de carros, é minha paixão, então até em questão básica de manutenção eu
posso garantir para o senhor. Troca de pneu, limpeza geral, o senhor não precisará
se preocupar com nada, nem com a manutenção. Quando posso começar? Qual é o
salário e a hora de trabalho?
— Calma, não é tão simples assim. Preciso avaliar seu
histórico, verificar sua antecedência, tenho...
— Eu nunca fui multada.
— Façamos assim, venha amanhã às 11h para uma entrevista,
poderemos conversar melhor.
— Posso vir às 10h, não às 11h.
— Seu horário tem que se adequar ao meu se quiser trabalhar
para mim — soa mais sério e passa a mão na testa pensando haver algo por ela
não desviar o olhar daquele ponto.
— Me adequarei quando assinar o contrato. Te garanto que
serei uma ótima funcionária.
— Eu preciso de alguém que saiba se comportar em qualquer
ambiente, que seja silenciosa e que me garanta sigilo total, então entende o
porquê eu preciso de uma entrevista adequada e de avaliar seu histórico? E
quero os contatos dos seus patrões anteriores.
— Silêncio é meu sinônimo, senhor, — sorri abertamente — quanto
menos conversarmos é melhor. E não se preocupe com sigilo, eu não me lembro de
nada do que falam comigo se não for do meu interesse, e meu interesse no
momento é um salário e carros, podemos sempre falar de carros.
— Tem algo na minha testa? — Pergunta intrigado.
— Não.
— Então por que não me olha nos olhos? — Acaba se inclinando
na direção dela por estar irritado.
— As pessoas me dizem que sou estranha quando olho nos olhos.
Então seus olhares se cruzam e o homem engole em seco pela
intensidade e determinação que há neles. E aquela sensação há anos adormecida
retorna de repente, acelerando seu coração.
— Posso vir às 10h ou antes?
— Ah, sim, às dez — responde desviando o olhar para o chão —
então até amanhã.
Se afasta indo ao seu carro, seu amigo já está de saída no
próprio automóvel, ele entra e pressiona o botão para ligar, porém, alguém bate
na janela. Bernardo ergue o rosto e baixa o vidro por ver a mulher.
— Algum problema? — Está estranhado a insegurança com ela.
Normalmente sorriria, jogaria conversa fora e pegaria o telefone dela em poucos
minutos, mas por algum motivo, ao mesmo tempo que a acha atraente, sente que
precisa correr para longe ou ficará sufocado.
— Seu pneu está furado.
— Não está, não — mas como ela insiste, ele desliga e desce
para conferir. — Ah, merda.
— Sabe trocar? Eu sei.
— Esse carro não tem um reserva — usa tom de reclamação e
pega o celular. — Mais um gasto, ter que pernoitar no guincho para levar em uma
borracharia amanhã.
— Vai gastar porque é besta — abre a porta do carro e se
agacha para achar o botão que abre o porta-malas enquanto ele fala ao telefone.
Ele a olha com indignação pela afronta, a vê mexer na parte
traseira e erguer o fundo do porta-malas revelando um pneu e um plástico com
ferramentas. Desliga o telefone dispensando o socorro e se aproxima a
observando estupefato, ela desprende o step e entrega para ele.
— Como você não sabia da existência, suponho que nunca o
tenha calibrado, tem um posto de combustível há três quadras naquela direção — aponta
com o dedo. — Enquanto isso, vou retirando esse aqui.
Alexandra encaixa o macaco no apoio da lataria para elevar a
roda e retira a roda enquanto aguarda o homem retornar.
Uma hora depois do ocorrido, Bernardo chega na quadra do
condomínio e respira fundo só de ver a cara de zombaria de seu amigo que o
encara com a bolsa da raquete em mãos, como havia mandado mensagem confirmando
que jogaria tênis, Murilo estava aquecendo na quadra o aguardando.
— E como foi a troca de pneu com a gostosa? Trocou algum
óleo a mais?
— Não seja idiota.
— Vai contratar? Eu contrataria.
— Decidirei depois da entrevista, não vou contratar só
porque ela sabe trocar um pneu — se dirige ao seu lado da quadra.
— Você não sabe, então já é uma vantagem. Uma das qualidades
que ela demonstrou ter.
— E qual a outra? — Se prepara para rebater enquanto Murilo quica
a bolinha no chão.
— Aquela bunda perfeita. Por favor, a faça trabalhar de
calça jeans, meus olhos agradecem — sorri jogando a bolinha para cima antes de
bater nela com a raquete.
— Isso não dará certo — responde alongando os braços.
— Eu vi como você ficou desajeitado, ela mexeu contigo —
bate a bolinha algumas vezes no chão e se posiciona para iniciar a partida.
— Se concentre aí, se não quiser perder de lavada!
Murilo balança a cabeça rindo e joga a bolinha bem alto para
poder saltar e bater com a raquete.