Bernardo discute com o cliente pelo fone auricular bluetooth
e para adiantar, pega o celular com a mão direita enquanto mantém a esquerda no
volante, abre o app de sincronização com seu notebook e procura o arquivo para
enviar ao homem para que ele possa assinar.
Não consegue ir longe sem olhar o caminho, o impacto brusco
o faz ser jogado para frente violentamente, sente o queimar do revestimento do
equipamento de segurança pelo impacto contra seu tórax, a nuca dói pelo
movimento bruto da cabeça, morde os lábios e bate o nariz, o celular salta da
sua mão, o air bag o pressiona contra o banco antes de começar a murchar.
— Só um momento senhor Moreira, logo retornarei — fala entre
os dentes levando a mão à testa e sente o líquido quente e viscoso em seu dedo.
— Ah disgama!
Retira o fone e o joga no banco ao lado, abre a porta e
desce do veículo meio cambaleante por conta da vertigem promovida pela pancada.
Por sorte, dessa vez, bateu em um veículo parado em um acostamento, mas nem
tanta sorte, seu carro está se movendo de ré graças a gravidade e a inclinação
da rua.
— Puta merda! — Corre para entrar no veículo e consegue
puxar o freio de mão antes de bater em outro com a traseira, e a buzina faz sua
cabeça latejar.
Antes de descer do carro, pega o celular no assoalho e
desce.
— Oh seu filho da puta! — O homem que estava no carro atrás,
desde e o xinga evidenciando raiva. — Presta atenção, caralho!
— Tá, tá, me desculpe, ninguém se machucou, certo? — Digita
o número da polícia e pede auxílio enquanto o outro continua o xingando e o
ameaçando.
Não demora para o dono do veículo batido aparecer graças aos
alarmes soando. O povo se ajunta na rua e Bernardo tenta resolver a situação se
livrando do irritado que ainda enche seu saco por quase ter batido, e na
sequência negocia com o dono do carro que realmente sofreu com o impacto.
Horas mais tarde, depois de deixar seu veículo na oficina e
de fazer o b.o. para acionar o seguro, chega em seu escritório e vai direto à
mesa ligar seu notebook e dar continuidade nos seus prazos a cumprir. Bernardo
é um advogado especializado em direito tributário e empresarial, tendo herdado
a profissão e o nome de seu avô, e sendo realmente dedicado e empenhado no que
faz, é o que possui o valor de honorários mais alto da cidade e um dos mais
caros do estado, e ainda assim, é o mais requisitado.
Novamente as horas se passam sem que ele perceba, até seu
amigo invadir sua sala desligando e ligando a luz para lhe chamar atenção.
— Caramba, Bernardo, de novo? Não duvido que o pessoal do
seguro contrate um assassino para te eliminar.
— Fique tranquilo senhor Alberto, amanhã às 7h passarei no
seu escritório e revisaremos esse contrato pessoalmente — ergue um dedo
indicando silêncio ao amigo e só o encara após desligar o celular. — Já te pedi
mil vezes para não entrar dessa maneira, seja menos... você — o olha de cima a
baixo antes de o fitar nos olhos.
— Vai a merda, Bernardo, quem tem que ser menos si mesmo
aqui é você — se senta na cadeira de frente à mesa cruzando a canela sobre o
joelho. — Já é o quinto acidente só nesses últimos três meses, você está
levando prejuízo. Considero melhor contratar um motorista.
— Arranjar mais um funcionário me fará economizar como? —
Envia um e-mail e desliga o computador, para só então encarar Murilo.
— Você é o especialista com finanças, faça os cálculos,
sairá bem mais em conta você contratar um motorista. Agora vamos embora.
Bernardo ergue uma sobrancelha e se levanta suspirando,
repassa os cálculos mentalmente caminhando em silêncio enquanto Murilo fala sem
parar o seguindo. De carona, vai para casa e troca de roupa, pega as raquetes e
os dois se encontram novamente na quadra do próprio condomínio.