Após pegar o sexto uber no dia, Bernardo liga para seu amigo
enquanto aguarda o motorista do aplicativo o levar à oficina para buscar seu
carro.
— Você venceu, dentre todas as variáveis, a melhor opção é
ter um motorista próprio, e eu suspeito que você já possua uma lista de
candidatos. Então a envie para mim.
— Com licença, — o motorista se intromete quando o vê tirar
o telefone da orelha — me desculpe por ouvir sua conversa, mas ó, tenho uma
prima que precisa de um serviço e ela é uma ótima motorista.
— Não contrato sem referência — fala em tom seco sem desviar
o olhar da tela do celular, aproveita para corrigir o texto de um processo
antes de o protocolar.
— Aqui, pode olhar, ela é ótima — desbloqueia o telefone e
entrega ao cliente esticando o braço para trás por não poder soltar o volante.
Bernardo pega o aparelho e olha o perfil do instagram, a
mulher é bonita e fica sexy na calça jeans com bota. Decide olhar os reels e a
vê ensinando a estacionar, pula para o próximo; ela explica como identificar os
problemas do veículo, não é do seu interesse; desce até ver um vídeo dela
dirigindo em uma estrada de terra com uma moto grande de rodas cravadas, o
homem que filma grita empolgado a incentivando a fazer manobras. Então, vê uma
foto dela que lhe chama a atenção pelo cabelo ondulado, cumprido até o ombro
caído de lado, ela segura um capacete com um braço e está escorada em uma moto.
Tem a sensação de que a conhece de algum lugar, mas ao mesmo tempo, tem certeza
de que nunca a viu, não teria deixado escapar de suas mãos uma beleza dessa.
— Gata — sussurra admirado e envia o link do perfil dela
para o seu no instagram, depois devolve o celular ao homem. — Mas ela tem
interesse em ser motorista? Por que ela não está trabalhando?
— Ela não consegue parar em emprego nenhum por ser autista,
— confessa, mas muda o tom para um mais empolgado no intuito de convencer o
cliente a dar uma oportunidade de trabalho — tem dificuldade na interação
social, só que te garanto que ela é um amor de pessoa, e tenho certeza de que
como motorista, nem precisam conversar, certo? Então é perfeito, ela não
conversa, é rígida com as regras, será a funcionária ideal.
— E ela está procurando emprego por qual razão? Por que não trabalha
de uber como você?
— Ela não tem carro. E não sei se ela conseguiria ficar bem
com a rotatividade dos clientes, tem uns que são enviado do capeta de tão... —
engole o xingamento — você entendeu.
— Você é péssimo em influenciar alguém.
A localização indica que estão no destino e o homem
estaciona no acostamento da rua, mas olha para trás persistindo no assunto.
— Dá uma chance a ela, faz um teste, não conheço motorista
melhor. E ela entende de veículos, então você pode ficar tranquilo até com a
manutenção.
— Qual foi o último serviço dela?
— Foi numa clínica de estética, como secretária. É, eu sei
que não parece, mas é que ela precisa trabalhar, certo? Não consegue ganhar
benefício do governo, então tem que se virar — sorri sem graça.
— Verei a possibilidade — comenta casualmente enquanto desce
do veículo.