Bernardo respira fundo, a mulher o encara, ele a encara de
volta. Um silêncio estranho e incômodo após a entrevista para a vaga de
motorista particular, então ela quebra o clima gelado.
— E aí?
— Serei sincero, — soa calmo — sua condição não me apazigua,
fiz uma pesquisa rápida com as informações que me forneceste, mas quero que
seja sincera, por que, exatamente, você não consegue se manter em um emprego?
A observa, ela cutuca os cantos das unhas puxando a
pelezinha na direção favorável. Novamente os olhos dela miram sua testa.
— Responda me olhando nos olhos, e seja realmente sincera, sou
um advogado e me orgulho de dizer que sei ler muito bem as pessoas, mentir não
é uma boa opção se quiser esse emprego.
Os olhos dela se prendem nos seus, realmente é um jeito
diferente de olhar, como raios lasers saindo deles queimando sua retina e
provocando novamente aquela sensação estranhamente familiar em seu peito.
— Não tenho por que mentir, eu não sou boa em lidar com as
pessoas, elas são dramáticas, gostam de fazer jogos psicológicos, e eu não
entendo essas coisas, então me acham grosseira e esquisita, dizem que sou chata
e não sei conversar, eu só quero um lugar onde eu possa entrar e sair sem
precisar ficar pisando em ovos, sem ser obrigada a fazer amizades que não
querem me entender e muito menos me aceitar, e ainda receber o meu salário no
fim do mês. Eu sou ótima em fazer o que preciso fazer, então, se você não fizer
questão de me envolver pessoalmente em nada, serei a melhor funcionária que
você poderá ter.
Sorri, o jeito dela é simples, direto e intenso. Ele gosta
disso.
— E o motivo do salário? Não me venha com respostas de
preciso pagar contas. Me diga o porquê quer trabalhar para mim.
— Eu moro com minha mãe, mas ela não está podendo trabalhar,
então eu que sustento a casa — o observa atentamente, o rosto é neutro e ele parece querer enxergar
sua alma —, e estou reformando um chevette 75 que comprei, preciso de dinheiro
para funilaria e peças novas, claro que isso é além dos gastos normais com
remédios, contas mensais e dívidas a quitar.
— E por que gastar recursos com um veículo velho?
— Porque é um chevette clássico não mais fabricado, reformá-lo
é um investimento — os lábios se encurvam mostrando os dentes pelo sorriso
largo e os olhos brilham.
“Que sorriso lindo!” Bernardo bate a caneta na mesa e desvia
o olhar, “não, isso não pode dar certo, ela é bonita e me desconcentra”.
— Tem namorado? — “Caramba, o que está acontecendo comigo?
Seja profissional, idiota!”
— Sou viúva.
“Ok, não esperava por isso.” E estranha a reação dela, está
mexendo nas unhas com mais força, além de mover as pernas para cima e para
baixo num exercício intenso de panturrilha. Seu silêncio e olhar inquisidor é o
que a incomoda, só não sabe disso.
— Você é advogado, tem acesso a todos os casos no sistema do
fórum, eu não sei que nome dão, mas é melhor contar, então, se você pesquisar,
certamente achará o meu nome no sistema porque eu matei o meu marido.
A caneta cai de seus dedos, seu coração dispara, ela falou
de uma maneira tão casual que seu cérebro demora alguns segundos para processar
a informação. E seu silêncio a deixa mais agitada, repara que os gestos de
puxar a cutícula da mão se tornam mais bruscos.
— Eu posso contar a história, se puder me dar uma chance de
eu me explicar antes de me expulsar daqui.
Bernardo respira fundo, passa uma mão no cabelo e a mira nos
olhos, é como olhar para o gato de botas do Shrek*, mas pelo menos
agora, a chance de acabar em uma cama com ela está cortada.
— Conte, é melhor que eu saiba de tudo.
— Nós estávamos brigando muito porque ele me achava muito
frígida, e que eu não queria transar porque estava dando para outro, no começo
ele só gritava, só que quanto mais ele brigava comigo, menos eu tinha vontade
de ficar com ele, daí ele começou a me bater; num dia enquanto eu fazia almoço,
ele veio gritando, eu entrei em crise e comecei a me machucar, ele começou a me
bater, daí eu peguei a faca que estava na pia e o acertei com ela, mas pegou no
pescoço, e daí ele caiu, eu chamei a ambulância, mas não chegaram a tempo. E eu
tive que ir com a polícia.
— E quem foi seu advogado?
— Não me lembro o nome, foi o governo que pagou.
— E foi há quanto tempo?
— Há quase dois anos.
— E você sempre fala tudo aos quatro ventos?
A observa, ela junta as sobrancelhas e inclina a cabeça sobre
o ombro esquerdo.
— Não tem vento aqui.
Ele pisca incrédulo, havia questionado sua mãe sobre a
condição clínica da Alexandra para saber se compensaria a entrevistar, se
recorda que sua mãe explicou que autistas costumam ser literais e que ele
precisa ser direto para falar com ela, mas que podem ter uma vida relativamente
“normal”; Bernardo pega a caneta do chão e a encara.
— Eu quero dizer que: se você sempre responde de uma vez,
fala as palavras sem pensar nelas, se confessa tudo sem prestar atenção nas
consequências que elas podem gerar.
— Ah, certo, me dizem que sempre sou muito direta com as
palavras, eu tento amenizar o peso delas, mas é difícil compreender as emoções que
não fazem sentido para mim.
— Não estamos falando de emoções, mas de você sair fofocando
o que ouvir. Se alguém perguntar, você vai simplesmente contar tudo o que ouvir
aqui?
— Não, eu sou bem rígida com as regras, é só fazermos um
acordo, se não é pra falar, não vou falar.
— Mesmo se eu matar alguém?
Ela ri.
— Por que está rindo?
— Não foi uma piada?
— Não havia sido, talvez, enfim, — nem ele sabe a razão de
ter dito tal asneira, certamente é a cabeça de baixo querendo se intrometer
onde não deve, o forçando a querer flertar com ela — contaria se eu matasse
alguém?
— E por que você faria isso?
— Não sei, mas quais riscos isso implicaria a você?
— Hmmn — ela não parece mais tão agitada, as mãos estão
quietas sobre o apoio da cadeira. — Saberemos quando acontecer, de preferência
que não faça, eu não sei se o governo tentaria provar minha inocência
novamente.
— E se alguém me atacasse? Você mataria essa pessoa?
— Pensei que era para ser sua motorista, não sua
guarda-costas, olha o seu tamanho, o certo seria você me proteger. E outra, — o
olhar e o sorriso prendem totalmente a atenção do advogado — terei adicional de
periculosidade? Você mexe com criminosos?
Bernardo ri, mas de uma maneira discreta, tamborila os dedos
sobre a mesa, é divertido a observar.
— Você certamente é alguém peculiar. Redigirei um contrato
teste de um mês, avaliarei seu profissionalismo e dedicação ao trabalho durante
o período, enfim, estou lhe dando uma chance.
— Muito obrigado, senhor Bernardo, prometo dar tudo de mim
no que for preciso.
— Não seja eufórica com isso, é só um teste, e te pagarei
apenas um salário-mínimo durante esse período, depois veremos um preço mais
adequado à sua função — dirige seu olhar ao monitor da esquerda, abre um
arquivo e começa a redigir um contrato simples e direto.
— Ual, seus dedos são rápidos — o observa digitar.
— Obrigado — responde tranquilo e concentrado no texto.
Em alguns minutos ele manda imprimir e se atenta ao fato de
ela realmente ler cada linha. Ser meticuloso é algo que ele admira.
— Certo, concordo com a maior parte, mas você terá que
acrescentar coisas aqui — coloca os papeis sobre a mesa.
— É só um teste. — Está perplexo com a ousadia.
— Não importa, trabalharei por um mês, então acrescente aí:
só me ligue se for realmente necessário; nunca me toque; não grite comigo; e se
eu disser que preciso de um tempo, você precisa esperar e não me pressionar.
— O que seria esse tempo e para quê? Você já terá sua hora
de almoço.
Apesar de não gostar do tom inquisitivo, admira a coragem,
ou seria apenas a falta de noção social?
— Se eu entrar em crise precisarei de uns minutos para me
acalmar, é raro, normalmente eu consigo segurar para chegar em casa, mas se por
um acaso acontecer, você precisa me dar esse tempo.
— E como eu vou saber que você está em crise? Tem algum
aviso antes ou é só — faz um movimento com as mãos — cabum!
— Cabum? — Ri divertida. — Eu não sou uma bomba. Eu estou
controlada, se eu perceber que estou ficando agitada, te aviso, normalmente só
preciso de uns dez minutos quieta em silêncio para resolver.
— Entendido, vou acrescentar suas clausulas — volta a
digitar no arquivo sem entender o motivo de estar cedendo, e gostando, quando
a lógica manda se distanciar. — Quer impor algo mais? Mas se lembre que ao fim
do mês podemos revisar e alterar as cláusulas para um novo contrato.
— Por enquanto, só isso mesmo.