Querido diário.
Ou melhor, querida imundície encadernada que fede a papel velho e um pouco de mofo.
Eu até gostaria de dizer que me sinto feliz em lhe escrever. Soaria poético, quase normal. Mas não, estou fazendo essa merda porque fui obrigada, forçada e coagida por uma entidade divina que acha que traumas mal resolvidos se curam com desabafo num caderno maltrapilho. Um belo começo, não é? Já dá para sentir o cheiro da desgraça logo na primeira linha.
Heri, o Deus que originalmente me governava e que, infelizmente ainda faz isso, decidiu que a melhor redenção ou seja lá qual palavra bonita ele usa para justificar sadismo celestial, seria me obrigar a registrar toda a minha vida neste farrapo que ele ousa chamar de “diário”. Segundo ele, isso é terapêutico. Segundo eu, isso é tortura psicológica com fedor de folha antiga.
O problema não é escrever, a questão é que vou ter de lembrar TUDO DE NOVO.
Minha vida começou uma loucura e terminou como a própria bosta de uma vaca esquecida ao sol e eu não estou exagerando. Relembrar isso tudo não traz alegria para o meu ser, só faz ter vontade de gritar e socar alguma coisa — preferencialmente o Heri.
Inclusive, falando nessa praga, ele está literalmente olhando por cima do meu ombro enquanto escrevo. O filho da mãe tá reclamando do vocabulário e exigindo que eu “vá direto ao ponto” e “pare de difamá-lo”. O que é até engraçado, porque se ele não quisesse ser xingado, poderia muito bem não agir como um idiota com complexo de terapeuta frustrado.
Odeio esse desgraçado.
Mas enfim, humanos, Hevonianos ou qualquer outra criatura curiosa que esteja lendo isso. Porque sejamos honestos, ninguém escreve um diário desses sem que ele acabe publicado, roubado ou usado como fofoca histórica em algum futuro distante. Meu nome é Elizabeth Cooper Bevan, fui conhecida como a Imperatriz do meu mundo. Uma posição gloriosa, poderosa e de certa forma desejada, até que algo aconteceu, algo grande e bem estúpido da minha parte e acabou virando tudo de cabeça para baixo, arrancando a coroa da minha cabeça com gosto.
O resultado final? Morri.
Não foi bonito e nem poético. Foi feio e bem doloroso de um jeito que nenhuma história heróica ousaria contar em detalhes, mas calma, fofoqueiros de plantão. Não dá para contar tudo numa única página, infelizmente a tragédia é longa, cheia de nomes e decisões horríveis, pessoas que eu gostaria de empurrar de um penhasco mesmo depois de morta.
E como eu sei que não existe criatura viva ou morta que resista a uma boa treta, vou contar tudo. Cada detalhe sujo, cada erro imperdoável, cada momento em que tudo poderia ter sido diferente e não foi.
Esse começo não é inspirador, não é bonito e definitivamente não é otimista, mas combina perfeitamente com uma história traumática narrada por alguém que já perdeu tudo, inclusive a paciência.
Se não gostou, é simples, pare de ler.
Até a próxima página, seus fofoqueiros e fofoqueiras.