O pior de se nascer em uma família Imperial não é nem a questão do quão sujo a história das pessoas que te criam pode ser.
Mas sim, se um dos seus pais for híbrido.
E você for uma mistura de três espécies vivendo em Hevosia.
Quando era criança, antes da “explosão” acontecer, eu recebia muitos olhares… diferentes…
Não entendia o porquê, até achava que estava com alguma coisa no rosto ou nas costas.
Contudo, depois do “incidente” e de começar a aprender mais sobre o lugar onde vivia na biblioteca do Palácio — passado um tempo desde que tio Felipe havia sido jogado no hospital. Descobri o porquê alguns nobres mais velhos ou até parentes de alguns Reis e rainhas que vinham para reuniões ou festividades olhavam para meu pai e eu com uma carranca ou, ouso dizer, com nojo.
Aparentemente, meu bisavô havia se casado com uma mulher doida da cabeça que não apoiava as interesses de casais e durante quase três mil anos influenciou tanto o meu planeta que até conseguiu fazer com que o resto da realeza e nobreza os odiassem também.
Ela só se acalmou quando meu avô casou com minha avó, que era uma lobisomem.
“Ah, mas como ela conseguiu deixar acontecer esse relacionamento se essa mulher era tão preconceituosa assim?”
Sabe o conceito de “teimosia”?
Vovô estava tão apaixonado pela minha falecida vó, que fez um barraco tremendo só para conseguir casar com ela.
E quando quero dizer: “barraco”, digo que o pobre coitado quase explodiu o castelo naquela época de tão fervoroso que ele estava.
Acho que o homem deve ter pensado: “Se eu não posso ter a Catherine, então destruo nossa casa, minha mãe, para assim tentar convencê-la”
E assim nasceu meu pai, Alan, um híbrido de uma lobisomem com vampiro.
O Império não gostou na época e quase fez uma rebelião por um nascimento.
Francesca, minha bisavó, os acalmou na força do ódio e por uns anos nem se tocou mais nesse assunto.
Até que o jumento se apaixonou pela minha mãe, uma humana com longevidade.
E daí nasceu eu, depois de duzentos anos desde o casamento deles.
Aonde quero chegar, vocês devem se perguntar.
Depois de descobrir toda essa loucura dos meus antepassados, fiquei morrendo de medo de encontrar os fanfarrões no salão.
Podia ter amadurecido um pouco, mas não se esqueçam que naquela época eu ainda era uma criança.
E também que fiquei bem paranóica desde aquele tapa. Juntando esse conhecimento macabro, a paranoia e tendo que fingir ser uma criança educada, eu preferia me jogar em um ninho de Flits.
Então resumindo tudo, não queria ir para o salão encontrar toda aquela gente.
A diferença de um ano passado para o presente — ao menos naquele momento — é que eu não fazia ideia da gentalha doente habitando Hevosia.
Sei que não seriam doidos de me matar, mas mesmo assim, toda criança tem medo de adultos perigosos.
Olhei-me no espelho do meu quarto pela centésima vez, enquanto uma das criadas arrumava meu cabelo.
Uma curiosidade, vampiros são conhecidos por terem um instinto bem forte, caso algo ruim possa acontecer.
Aprendi na creche, meus pais fizeram os professores me ensinarem conteúdo mais avançado por eu ser a futura Imperatriz.
Esse reflexo estava badalando dentro da minha cabeça. Além do fato de ter que pegar informações, não estragar a atuação, evitar ficar sozinha em um canto isolado com alguma pessoa mais velha e não ser machucada de novo por Estelar, naquele momento algo me dizia que ia acontecer uma explosão bem pior do que o ano anterior.
Rose, a aia que estava cuidando do meu cabelo, pareceu notar meu nervosismo e o tanto que eu estava suando em todo meu corpo.
Por um minuto achei que ela iria tentar me acalmar e pareceu que iria, mas rapidamente se afastou.
Medo, claro como o dia, até ajudar poderia ser relatado para mamãe.
— Vossa Alteza, terminei por aqui — assenti, me virando na frente do espelho para ver o resultado.
Às vezes acho que um montão de empregadas já foram cabeleireiras, porque, meu Heri.
— Você fez um ótimo trabalho, Rose! — sorri agradecida, ela apareceu surpresa de que eu lembrasse seu nome, mas logo se recompôs.
— É apenas meu dever, princesa — pude ver um pequeno estremecimento de seus lábios, mas rapidamente o ocultou.
— Você irá me acompanhar ao salão? — estava curiosa e um pouco ansiosa por sua resposta. Não queria ter que ser guiada pelos guardas, se eu fizesse alguma besteira pelo caminho, eles rapidamente iriam reportar a minha mãe.
Rose pareceu aflita, ela devia perceber o motivo da minha pergunta, mas negou com a cabeça.
— Sinto muito, Alteza, não estou permitida a guiá-la até o salão — contive um estremecimento, e assenti. Bem que suspeitava…
— Entendo, obrigada mesmo assim — a aia se curvou, tanto como respeito quanto um pedido de desculpas.
— Estarei aqui a esperando de volta.
Direcionei meu olhar para o espelho de novo, admirando o vestido e um pouco inquieta por ainda relembrar tudo que aprendi durante esse ano.
Foi meses de treinamento, horas de tapas para aprender a me comportar, minutos de puro terror com medo de repetirem de novo e segundos pensando no que fazer e do que não fazer…
O traje é lindo, mas só esconde alguns machucados debaixo do tecido.
Dou uma última olhada no meu reflexo e, por um segundo… imagino como seria respirar sem todas essas coisas me preocupando diariamente, mas aí lembro que hoje é meu aniversário e princesas não fogem da própria comemoração…
É meio engraçado você viver em um Palácio enorme e mesmo assim ouvir uma barulheira sem tamanho do salão de baile que fica longe do seu quarto.
Vampiros têm uma sensibilidade maior a sons altos por terem as orelhas mais avantajadas.
Sou metade vampira e uma dor de cabeça estava surgindo a cada passo que eu dava para mais perto daquilo.
Amo músicas, mas quando elas são altas assim incomoda muito.
— Alteza, está tudo bem? — Otávio, um dos guardas me olhou preocupado, deve ter percebido meu desconforto.
— Sim, só que o som da música está muito alto — falei com um sorriso fraco. Esther, a segunda soldada assentiu, a observei melhor e vi que ela era uma Elfa.
Se já tá complicado a mim, imagina para ela.
— Esther, pode ir, se ficar com a gente tem uma chance de você ficar surda — Otávio, por um minuto, pareceu mais nervoso do que eu.
A guarda nem hesitou, indo para outro corredor de onde ficava a enfermaria.
É como meu tio dizia: “Tu nunca sabes como vai tá o outro”
Se não fosse por Otávio ter colocado um feitiço para deixar minhas orelhas com a audição menos frágil, eu provavelmente estaria surda agora.
Estamos na frente das portas para o salão de baile e mesmo com o encantamento parece que meus ouvidos podem explodir a qualquer momento.
Será que colocaram alguma caixa de som? Mas Estelar jamais permitiria…
O guarda havia entrado pelas portas para falar com o anunciador de nomes, era assim que o chamava por não lembrar o nome original.
Fiquei estalando os dedos enquanto esperava por Otávio, um hábito que adquiri depois do tio Felipe parar naquele lugar… uma maneira de me distrair ou acalmar, o que viesse primeiro.
A cada segundo que se passava, mais meu nervosismo aumentava, eu havia ensaiado durante meses cada fala, mas era diferente agora…
Antes fazia na frente do espelho, mas neste momento irei falar para uma multidão.
E são pessoas ruins, então estou com medo do que pode acontecer…
Esperei por apenas alguns minutos, mas pareceram horas, até Otávio surgir das portas, fazendo um sinal com a mão para eu ir.
Respirei fundo, ajeitei meu vestido, meu cabelo, tudo que pudesse. Endireitei a postura e adentrei o salão de baile.
O som das harpas pareceu diminuir quando os músicos me viram, vários rostos que mal conhecia olharam para mim, o candelabro no teto parecia mais brilhante com suas lâmpadas quase ofuscando minha visão.
“Vamos lá, Elizabeth, você ensaiou, vai ficar tudo bem!”, repeti em minha mente. Olhei para cada pessoa naquele lugar, não tentei procurar meus pais, com medo de que pudesse ver raiva em suas expressões.
— Princesa Herdeira, Elizabeth Cooper Bevan I, filha do Imperador, Alan Cooper e da Imperatriz, Estelar Bevan — o anunciador falou em um microfone e todos aplaudiram por minha chegada, sorri nervosa com a atenção, tentando conter a ânsia de estalar os dedos.
— Fico honrada por ter tantas pessoas no meu aniversário, agradeço imensamente pela presença de cada um — levei as mãos ao peito, expressando minha emoção, como fui ensinada — Aproveitem a festa, comam, bebam, conversem, se divirtam ao máximo!
Mais aplausos. Não contive o temor e olhei ao redor a procura da mamãe, ela me olhava em um canto, sorrindo de leve, parecendo satisfeita.
Tive que afundar o reflexo de poder respirar aliviada, iam estranhar.
Assim que as palmas acabaram, eu desci a escadaria com cuidado, observando os grupos de conversas se formando, precisava entrar em algum.
Já estava andando até um que parecia mais cheio dos amigos deles, quando fui impedida por uma mulher enorme.
Olhei para cima e era uma lobisomem, tentei vasculhar em minha mente o seu rosto. Aí lembrei que já a tinha visto com certa frequência em alguns retratos que mamãe me mostrava dos Reis, Rainhas e nobres importantes.
— Boa noite, vossa Alteza Imperial. É uma honra finalmente estar em sua presença — Karla, a rainha do reino dos lobisomens.
— Obrigada por vim para minha comemoração, vossa majestade. Espero que esteja aproveitando a festa — inclinei a cabeça em respeito e ela pareceu sorrir mais.
— Ah sim, estou! Mas fiquei ansiosa para vir conversar com a senhorita, seu discurso foi tão lindo! Espero que não se importe desta senhora estar a interrompendo — ainda não havia aprendido muita coisa, mas tio Felipe havia me dito que algumas pessoas importantes fazem armadilhas na fala.
No dia que me contou isso, acabei não entendendo, mas acho que agora faço.
— Não me importo! O que a senhora deseja falar comigo? — sorri com os dentes, mostrando minhas presas pequenas. Em poucas conversas com papai, ele me disse que era bom mostrar elas, dava alguma sensação de poder.
Não sei o que quis dizer, porque até agora não sinto nada.
Karla sorriu, mostrando as suas também e gesticulou para um local mais isolado dos convidados, um dos pilares que estava sem ninguém por perto.
Meu instinto pareceu como um sino em uma igreja, badalando a todo vapor em alerta.
Mas se me afastasse agora, corria o risco da mamãe me bater. Então continuei sorrindo e caminhei junto a ela para o pilar.
Seja o que Heri quiser.
— Então, vossa Alteza, se pudesse escolher como seu futuro parceiro seria, o que desejaria? — tive que conter o impulso de fazer a famigerada cara de: ‘Não entendi, senhora’
Não soube responder de primeira, afinal nunca havia recebido uma pergunta tão… surpreendente.
Também não sabia o que significava um parceiro, mas né, devia ser algum tipo de amigo especial para ter um nome diferente.
— Ahm… alguém gentil? — não sei se era a resposta certa, mas ela pareceu satisfeita.
— E se pudesse escolher, como ele seria? — estava começando a ficar ainda mais confusa.
Dá pra escolher como amigos seriam?
— Bem, eu realmente não me importo muito com as aparências, majestade — espero que a rainha estivesse percebendo o quão perdida estava.
— Ah, entendo. Esqueci que você ainda não entende desses assuntos — isso foi um insulto?
— É… haha… — realmente não compreendo os adultos, eles falam de uma forma tão complicada.
— Então farei uma pergunta mais fácil para vossa Alteza — respirei aliviada, graças a Heri, não aguentava mais tanta faladeira difícil.
— Quantos filhos pretende ter no futuro, senhorita? — paralisei, ela tinha mesmo perguntado isso para uma criança de seis anos?
Só por eu ser pequena, não significa que não possa perceber quando dão bronca em alguém por falar algo inadequado para mim.
E pela cara de alguns dos nobres élficos e goblins, dá pra ver que Karla falou um absurdo sem tamanho.
— Ahm, acredito que ainda não tenho idade para pensar nesses detalhes, vossa majestade — alguém me tire daqui, pelo amor de Heri.
— Ah sim, sim! A minha memória é bem confusa, mil perdões, princesa — senhora, você só tem 225 anos, não me engane não.
— Está tudo bem, majestade, erros acontecem — só não repita, por favor.
Talvez eu ainda tivesse esperança de Karla não se aproximar novamente depois do constrangimento, tio Felipe tentou me explicar uma vez o que era, e acho que consigo entender agora.
Qualquer ser com uma mente boa não teria vindo novamente com esse papo doido.
Mas estava começando a aprender que a rainha dos lobisomens não era todo mundo.
Elythian, o atual rei dos Ogros, me salvou depois de um silêncio perturbador entre mim e a Karla. Começando um assunto sobre como me sentia para o ano seguinte, já que estaria entrando na escola.
Quase o abracei de alívio por ele entrar em um tema seguro, mas me segurei, não era hora pra isso, precisava falar e pegar informações.
— Confesso que estou um pouco nervosa, vossa majestade, é uma nova etapa da minha vida e bem… não sei como vou lidar com novos colegas, novos professores e tudo mais — não entendi metade do que estava dizendo, mas era melhor não saber mesmo.
— Oh, eu entendo, princesa. Novos ares podem ser bem desafiadores na sua idade, mas rezo a Heri que dê tudo certo nessa sua nova caminhada — sorri agradecida para ele.
— Elythian, a quanto tempo! Como vai sua filha? Algum pretendente à altura? — A filha dele não acabou de completar três anos?
A cada frase que Karla falava, mais eu não a entendia.
— Rainha Karla, minha filha ainda tem três anos… ela acabou de completar na verdade — posso ser uma criança, mas vi uma veia saltando na testa do rei.
A rainha levou a mão à boca como se estivesse surpresa, tenho a pesada impressão de que ela estava fingindo.
— Oh! Sinto muito, Elythian, devo ter me confundido de princesa — Karla sorriu gentilmente e saiu andando pelo salão para puxar mais papo com outros nobres ou reis.
O rei dos ogros me olhou e respirou fundo, como se estivesse tentando voltar a ficar de bom humor.
— Alteza, seja lá o que essa mulher tiver lhe perguntado ou falado a você, não dê importância — assenti receosa, parecia que a fama da rainha Karla não era lá muito agradável.
Mas vi uma oportunidade de pegar mais informações dele, não queria fazer isso, mas se não fizesse podia acabar mal para mim.
— A senhora de Wuan não tem uma fama boa? — perguntei, fazendo uma expressão confusa.
Elythian riu baixinho, mas parecia que queria gargalhar alto.
— Ah, princesa, você nem imagina o quanto a fama daquela… pessoa é ruim. Sabe, às vezes penso como diabos Heitor se apaixonou por ela, sim, Karla é bonita, mas entre nós, Alteza… — ele olhou pros lados e depois se abaixou para sussurrar só para mim — essa é a única qualidade que essa víbora tem.
Foi minha vez de conter a risada.
Mordi de leve minha bochecha por dentro com minhas presas para conter um riso alto, não forte o suficiente para sair sangue, mas o bastante para doer um pouco e diminuir a sensação de rir.
O rei percebeu e sorriu divertido com minha reação.
— Mas sério agora princesa, não se aproxime dela, não fale com ela, e se essa mulher tentar ter uma conversa, recuse ou mude de assunto para se desviar — nunca pensei que ouviria um dia alguém me dizer para não conversar com outra pessoa, normalmente estou acostumada a ouvir: “você tem que puxar assunto com qualquer um, Elizabeth, QUALQUER UM, até o chão se for preciso”, constantemente ouvi isso da mamãe.
— Obrigada pelo conselho, vossa majestade, confesso que fiquei um tanto nervosa com minha conversa com a rainha — ele deu um sorriso triste e acariciou de leve meu cabelo como se estivesse me confortando.
— Você não foi a única, alteza. Aquela mulher é viciada em casórios, pretendentes ou bebês, espero que pelo menos ela não esteja influenciando o filho dela. Ainda me lembro da época que Heitor se casou com essa idiota, o tanto de vergonha que foi aquela cerimônia, meu Heri — acho que deixei o senhor Elythian muito confortável, porque ele não parou de reclamar da senhora Karla.