GATILHOS: MENÇÃO A AGRESSÃO CONTRA MENOR DE IDADE!!!
Odeio esse Deus maldito.
"Ah, que você não pode pesar o clima tão rápido assim. Ah, que você não deve fazer tal coisa. Ah sei lá mais o que" meu querido, você disse para eu escrever um diário e contar da minha vida, contei, não foi? O que mais você quer?
Não sabia que era proibido contar coisa ruim nesse troço. Isso só prova ainda mais que esse filho de uma égua vai publicar de alguma forma.
Tenha a santa paciência…
Bem, se ele quer tanto assim uma biografia, o jeito é fazer.
Não quero ser pó de novo.
Um ano depois…
Eu tinha seis anos agora, e já podia dizer algumas coisas depois do “ocorrido”.
Os amigos da mamãe não fariam nada para me ajudar, isso ficou claro no aniversário passado. Depois de Estelar se “acalmar”, todo mundo voltou a conversar, ninguém explicou o que havia acontecido, o porquê minha mãe tinha feito aquilo, nadica de nada.
Fiquei revoltada, mas não fui perguntar, nem consegui voltar a brincar depois disso, com medo da mamãe me bater de novo. Eu não entendi como todos ficaram tão calmos depois de ter presenciado aquilo…
O que mais me confunde é que até os filhos daquelas pessoas voltaram a se divertir pelo salão, como se já estivessem acostumados com uma cena daquelas e pensassem que era a coisa mais normal do mundo…
Até pensei que algo devia estar errado comigo, se isso era tão comum, por que eu estava daquele jeito? Por que não conseguia respirar direito só de lembrar?
Fiquei frustrada, mas tentei voltar ao normal quase no final da festa, nem mais toquei no caminhãozinho de brinquedo depois do que aconteceu…
Agora passado um ano, ainda penso naqueles momentos de medo e temor. Se não fosse por meu tio bater na minha porta, horas depois de tudo ter acabado, e tentado me explicar… não sei o que poderia ter acontecido…
Mas agora… ele não estava mais aqui…
Olhei pra frente, meus pais decidiram fazer uma campanha sobre alguma coisa chamada “economia” e claro que eu tinha que estar aqui. Eles tinham um sorriso gentil no rosto, Estelar discursava com Alan sobre mudanças e estratégias para o futuro.
Era o meu aniversário novamente, havia recebido alguns presentes de alguns dos amigos deles que moravam perto, algumas cartas de filhos de gente importante, era como meu tio os chamava, não sabia o que exatamente significava, no entanto.
E naquele momento, onde devia — pelo menos — receber um: “feliz aniversário filha”, não teve nada.
Eu senti raiva, não de mim, porque já tinha aprendido que a culpa não era minha — graças a tio Felipe. Tinha sentido ódio não pelo Império, mas por meus pais. O povo nem sabia como Estelar era dentro do Palácio, afinal, eles só viam ela como uma santa quando a mesma agia como uma.
Nunca tentei conversar com ela, meu tio não deixou, ele apenas disse: “Só vai piorar as coisas, Lizzie”
Uma coisa deixada clara é que eu devia permanecer quieta e não falar isso com ninguém, nem com os professores da creche, nem com o diretor, nem com os próprios faxineiros do Palácio.
Foi difícil, quis pedir ajuda e tentar achar alguma pessoa para falar com a mamãe… mas quando vi o tio Felipe tentar se comunicar com ela e o resultado daquilo… desisti na hora.
Vi em um lugar que crianças se adaptam rápido e fiquei confusa ao ler. Se fosse verdade, porque eu ainda queria falar com Estelar e perguntar: “Mamãe, por que você fez isso?” Sabendo que a resposta não seria boa?
Observei a multidão um pouco separada do palco para não ter confusão. Pessoas agitadas, várias espécies diferentes gritando a plenos pulmões que Estelar era a Imperatriz que Hevosia precisava.
Dava vontade de pegar um microfone e pedir para me ajudarem, para falarem com a mamãe. Talvez uma pessoa não fosse o suficiente, mas e se várias pudessem fazer isso? Poderia dar certo.
Mas me contive, como algumas empregadas me diziam: “Não manche o nome de sua mãe, isso vai voltar para você”.
Não sei o que significava, mas parecia ruim…
A vida é bem complicada quando se tem pais diferentes.
Alan, parecendo me notar depois de uns minutos, me chamou pela mão com um sorriso, mas como meu protetor disse: “Os sorrisos que eles vão te dar, será mentira, apenas imite eles quando vocês estiverem em público”. Então sorri, levantei e saltitei até papai, posamos para as fotos dos repórteres e filmagens dos cameramen.
Parei de chorar seis meses depois da “explosão”.
Desisti de tentar falar com os dois quando meu segundo pai foi internado há dois meses.
Às vezes, pelo que aprendi pelo meu protetor, nós temos que nos proteger primeiro e depois fazer alguma ação.
Tio Felipe, irmão do papai. Era o único amigo que eu tinha, a única pessoa que me orientou depois da “explosão”, o único ser que me deu livros, me mostrou notícias para entender.
E agora ele estava em um hospital psiquiátrico.
Não pude chorar, de acordo com o mesmo, isso ia piorar as coisas também.
Basicamente tudo que eu fizesse poderia complicar tudo.
Só de pensar nisso, me dava raiva e tristeza…
Respirei fundo e continuei sorrindo para as câmeras, faria tudo para não ser machucada de novo.
Mesmo que minha vontade fosse gritar, arrancar seus braços de mim, falar que os odiava por terem tirado a única pessoa que importava.
Só que não fiz, eu sorri, mesmo quase chorando de estar perto daqueles dois.
Os criados já estavam a quase duas semanas arrumando, desarrumando e fazendo tudo de novo para a minha festa de aniversário.
Me perguntava porque Estelar agia daquele jeito, é como se ela gostasse de ficar machucando as pessoas.
Nem que fosse mais trabalho sendo feito repetidas vezes.
Eu estava no meu quarto, lendo um livro de direitos das crianças no meu Tablet de leitura — meu protetor me aconselhava a ler isso, mesmo que não entendesse quase nada. Virou meio que uma forma de me confortar, me lembrava do tio Felipe.
Talvez as coisas nunca mudassem, mas pelo menos, eu teria algo para me apoiar.
Certas páginas com suas leis e orientações para cuidados de menores me faziam ficar pensativa: “Ter parentes legais parece ser bem difícil”.
Às vezes a mente pode ser bem complicada.
Toc, toc, toc
Olhei em direção às portas do meu quarto, desliguei o Tablet na página que parei e o escondi debaixo dos travesseiros.
Saí de minha cama, ajeitando o vestido junto com o cabelo, fingi meu melhor sorriso curioso e destranquei a porta.
— Alteza, seus pais a desejam ver na sala onde a senhorita aprende etiqueta — A criada parecia tão nervosa que não duvidei que se eu demorasse mais um pouco, ela pudesse passar mal.
— Obrigada por me informar, estou indo — Ela assentiu e se afastou rapidamente, quase tropeçando no tapete.
Todo mundo que trabalhava ali tinha medo dos meus pais.
É meio difícil de se perceber isso, todos querem trabalhar aqui para ver se conseguem alguma foto com eles ou amigos próximos, mas quando conhecem a verdadeira face…
Só faltam se cagar nas calças.
Respiro fundo irritada, ajeito meu vestido mais uma vez e calço minhas pantufas, tranco minha porta ao sair guardando a chave no bolso do vestido.
Bem, hora de ir.
Parei em frente a porta fechada do cômodo, por fora não ouvi nada indicando o que encontraria ao entrar.
Com certeza não podia ser pior do que já havia acontecido naquele ano.
Bati de leve na porta, esperando a permissão.
Na última vez que não fiz isso fui atingida por um vaso de flores porque os dois brigaram e meu pai teve que implorar, de novo, para ela não ir pegar um tal de contrato de divórcio.
Não queria ter que ir na enfermaria do Palácio sentir as médicas retirando os cacos da minha cabeça para poder me regenerar.
É uma experiência bem desagradável.
— Entre, Elizabeth — Alan e seu olfato de lobisomem.
Heri lhe deu um grande presente quando ele nasceu um híbrido.
Entrei na sala, fechando a porta atrás de mim e mantendo a cabeça baixa.
Estelar não gostava muito de olharem nos olhos dela, é como se se sentisse incomodada.
— Você já deve saber o porquê está aqui, está noite será o seu aniversário de seis anos. Como sua tutora não pôde vir, serei eu que irá ensiná-la — alguém me tire desta sala, pelo amor de Heri.
Assenti, indo para cadeira onde me sentava nas aulas de etiqueta. Pude sentir o olhar deles acompanhando meus passos até me acomodar.
— Como você já deve ter o conhecimento, acredito que estudou nesse um ano. Me diga como deve se apresentar assim que adentrar o salão — estudei porque sabia que se não fizesse ia levar um tapa.
— Devo sorrir agradecida pelos convidados, dizer o quanto estou feliz da presença deles, levar as mãos ao peito indicando minha emoção e falar para aproveitarem a festa — esperava não ter esquecido de nada.
— Muito bem. E quando você descer da escadaria, o que deve fazer? — Olhei de soslaio para papai, ele era quase do mesmo jeito da mulher dele, só que mais “piedoso” de certa forma.
— Esperar os insetos começarem a conversar, entrar em um dos grupos deles tentando puxar assunto e me fingindo de criança inocente, se não der certo em um, devo ir para outro tentar pegar informações de suas terras, de suas famílias ou de seus reinos. Caso algum deles inicie uma conversa comigo, meu objetivo ainda é o mesmo — me senti tão enojada ao falar aquilo…
Demorou mais de dois meses para decorar tudo aquilo, nas outras tentativas fiquei tão nervosa que acabei vomitando.
Resultado? Mais tapas…
— Vejo que não esqueceu de nada, muito bem, filha! — se não fosse pela “explosão”, eu até pensaria que ela está realmente me felicitando.
Mamãe se aproximou de mim, beijou minha testa e acariciou minhas orelhas pontudas com carinho.
Me contive horrores para não fazer uma careta, não gosto do toque dela…