Esses dias eu estava pensando qual foi, será, o momento em que Maria, mãe de Jesus, contou para ele que ele não era filho biológico de José. Não tem na Bíblia ela contando, mas em algum momento deve ter tido essa conversa, que é sensível para qualquer pessoa — imagina se o pai do seu filho é ninguem mais ninguem menos do que Deus. É uma conversa que tem ser no momento certo. Jesus não podia ser tão novo, pois senão não conseguiria entender o que o pai dele representava. Nem tão velho a ponto de descobrir sozinho e isso desencadear daddy issues.
Será que o José, padrasto de Jesus, ficava pressionando a Maria pra ela para contar?
— Fiquei sabendo que você brigou na escola de novo, Jesus?
— Sim, eles ficam me provocando.
— Provocando?
— É, falando que José não é meu pai, que eu sou filho de um fantasma. Aí não aguentei.
— Deixa que falem, Jesus. São uns tontos. Agora pode ir pro seu quarto.
Ficam José e Maria na sala.
— Você tem que contar pra ele.
— Como eu vou explicar?
— Olha, se eu, que fui o mais perdido nessa história, acreditei, acho que não vai ser tão difícil pra ele.
— Não começa, José. Não começa.
Mas acho mais provável ela ter contado no início da adolescência, quando os poderes dele começaram a aparecer, tipo em filme de super-herói.
Primeiro evento publico do aparecimento dos poderes foi na escola. Um dos alunos tinha caído, Jesus correu para ver se ele estava bem. Parecia não estar respirando. Quando Jesus encostou nele, o menino voltou a viver.
Outra vez ele multiplicou a merenda no recreio. Ninguém entendeu nada.
A terceira vez, que foi quando a mãe decidiu contar, foi no passeio da escola. Foram ao rio. Um dos alunos foi muito para o fundo e não conseguia voltar. Jesus foi em cima da água para salvar ele.
Quando chegou em casa, foi contar para a mãe e para José. Eles escutaram toda historia.
— Mãe, eu juro que não estou mentindo. Juro.
— Eu sei que não, meu filho. Eu sei.
— Então como eu fiz isso?
José olha para Maria com uma cara de: tem que fazer isso agora.
— Maria, acho que chegou a hora de você contar a verdade.
— Que verdade?
— José…
— Maria, ele já tem idade para saber.
— Saber o quê?
— Mas…
— Não tem “mas”. Se você não contar, eu conto.
— Contar o quê? Pelo amor de Deus.
— olha ai, isso é um sinal.
Os dois se olham. José acena com a cabeça para ela ir em frente.
— Jesus, a mamãe tem que te contar uma coisa.
Jesus escuta, apreensivo. Ela não sabe bem como começar então fale direto.
— José não é o seu pai biológico.
— O quê?
— Ele é teu pai. Sempre vou ser e pode sempre contar comigo.
— Eu não estou entendendo. Eu sou adotado? Vocês não são meus pais?
— Não, somos seus pais. Pai é quem cria.
— Mas eu não vim de vocês?
— Veio de mim. Mas não do José.
— Você foi casada antes de eu nascer?
— Não, só tive seu pai de homem na vida.
— Meu pai biológico?
— Não, José.
— se o José não e meu pai biológico, entao quem é?
José e Maria se olham.
— Deus.
— oi?
— Deus.
— Deus?
— sim, Deus, o todo poderoso, criador do céu e da terra, o onipotente, onipresente, onisciente.
— precisa fazer toda essa apresentação quando vai falar dele, de mim é, José o carpinteiro la.
Jesus fica sem reação. Em choque.
— Viu? É difícil para todo mundo entender isso aí.
— José.
— Desculpa.
— filho, eu sei que é muita informação para absorver, mas é a verdade. Queria muito ter te contado antes, só que não achava que você ainda tinha idade para entender.
— Calma… eu ainda não entendi.
— Eu também tive dificuldade, tá tudo bem. Até hoje é confuso pra mim.
Maria fuzila José com o olhar.
— acho que vou lá pegar uma água.
José sai.
— Antes de você nascer, um anjo veio até a mamãe e disse que ela ia gerar o filho do Altíssimo. Que seria o ventre que carregaria o salvador, o filho de Deus.
— Eu?
— Sim, você.
— Eu sou o salvador?
— Segundo o anjo que me avisou da gravidez, sim.
Jesus fica em silêncio, tentando assimilar tanta informação.
— E por que Deus, meu pai, nunca falou comigo?
— Ele não é muito de falar, não. Fala mais pelos outros mesmo. Sinais, vento, essas coisas.
— Quer dizer que José não é mesmo meu pai?
— É, claro que é. Só que você tem dois pais.
José entra trazendo água.
— E esse aqui é muito mais onipresente.
Entrega o copo de agua para Jesus.
— Precisava de algo mais forte do que água para engolir essa história.
Quando ele fala isso, a água vira vinho. Ele toma um susto e derruba o copo.
— O que é isso?
— Calma, filho. Calma. São seus poderes. Por causa do seu pai… Deus.
— Eu não quero poderes, não quero ser o salvador, não quero ter outro pai…
Ele levanta e vai para o quarto.
— Jesus, meu filho!
José e Maria escutam a porta batendo.
— Deixa o menino.
— Eu falei que ainda não era a hora de contar.
— Uma hora ia ter que falar.
— Tadinho.
— Eu sei o que ele está sentindo.
— José.
— o que?
— Agora não.
