Maria estava deitada no sofá da sua casa, rolando o feed infinito do celular, com a TV ligada só para não parecer que estava apenas mexendo no celular. Tinha tantos estímulos inúteis que quase se via o cérebro dela escorrendo pelo ouvido. Era sexta-feira, e seu pensamento transitava entre o “devia ter saído — fico muito em casa” e o “devia estar dormindo — tenho dormido muito mal”. Já passava da meia-noite e ela não fez nenhum nem outro.
Então a luz da casa piscou, fazendo desligar a luz da cozinha e do corredor, que estavam ligadas, além dos eletrodomésticos, da TV e do celular. O celular não fazia sentido: não estava ligado na tomada. Mas só desligou e ligou, quase como se batessem uma palma única.
Estava chovendo, mas fraco, sem vento, aquela tradicional chuva de março. Só deu para perceber que caiu e voltou por causa do apito do micro-ondas e da TV que religou. Ela não percebeu a sincronia do celular desligando junto; achou que talvez fosse a bateria, não lembrava em quanto estava a carga.
Então ela tomou aquilo como um sinal de que já era hora de ir dormir. Quando ela sentou no sofá, a luz piscou de novo, mas por alguns segundos a mais, repetindo umas quatro ou cinco vezes. Então ficou tudo escuro — tempo suficiente para ela pensar: “acho que acabou a luz”. Mal terminou de pensar, a luz voltou, mas dessa vez, quando as luzes reacenderam, todas estavam ligadas, inclusive os televisores — da sala e do quarto —, até um rádio-relógio retrô que ela tinha de enfeite.
E, no canto da porta, estava prostrado um homem, com cara de menino, cabelos cacheados. Ela tomou um susto e caiu sentada no sofá. Ele veio na direção dela. Ela gritou.
— socorro! Socorro!
Correui para o canto do sofá, acuada, e jogou uma almofada nele.
— Calma.
— Socorr…
Quando ela foi dar outro grito, ele levantou a mão e fechou, fazendo com que o grito dela não saísse.
— Eu te saúdo, mulher favorecida. O Senhor está contigo.
Ela estava com os olhos desesperados e não entendia por que a voz não saía.
— Eu fiz isso para que não gritasse. Eu não vou fazer nada.
Ele ergueu a mão e abriu. Ela gritou:
— Socorr…
Antes que ela pudesse terminar a palavra, ele fechou a mão que estava aberta, fazendo a voz dela sumir.
— Não grita. Eu não vou te fazer nada. Sou o anjo Gabriel, enviado por Deus, mensageiro, muito tempo com Ele. E fui enviado para dar um recado importante.
Ele fez sinal de beleza para ela.
— Vou deixar você falar, pra ver se está entendendo. Não vou fazer nada. Posso?
Ela fez que sim com a cabeça. Ele abriu a mão lentamente. Ela, agora mais calma.
— oi, oi… - testando a voz, como se tivesse falando no microfone - Então você está dizendo que é um anjo?
— Anjo Gabriel, mensageiro de Deus.
— O anjo da Maria?
— Ele mesmo.
— Maria, mãe de Jesus?
— O próprio. E agora venho até você com a boa-nova: eu te saúdo, mulher favorecida, o Senhor está contigo.
Maria espera ele continuar, e o anjo Gabriel continuou:
— Não tenhas medo, pois em breve Deus te concederá uma bênção maravilhosa.
— Calma, eu já vi essas frases, na catequese.
— Então você sabe onde quero chegar.
Ele fala e fica em silêncio, esperando ela dizer alguma coisa.
— Sei sim, mas preciso ouvir da sua boca.
— Ah, claro. Muito em breve ficarás grávida e terás um menino. Há muito aguardam a volta de Jesus; ele retornará em seu ventre.
Ele termina a frase e para de falar, satisfeito por ter entregue a mensagem. Então ela começa a rir.
— O que foi?
— Impossível ser eu.
Responde entre risos.
— Maria também teve essa reação. Não tem na Bíblia, mas ela também ria. É por causa do nervosismo. Faz super sentido reagir assim. Não seria normal que aceitasse de primeira.
Então ele imita uma reação que não seria normal, como se estivesse fazendo um monólogo num teatro:
— Olha, você foi escolhida para ser o ventre que vai receber Jesus agora na sua volta, depois de tanto tempo. “Obrigado, eu já estava esperando, me preparando e me considero a melhor pessoa pra isso.” Não esperava isso.
Parece satisfeito com a explicação.
— Concordo. Mas ainda assim insisto: deve ter errado.
— É você. Nunca erro uma mensagem.
— Mas e Deus?
Ele olha bravo para ela, a luz pisca, repreende ela com o olhar.
— Deus não erra nunca.
— E o pernilongo?
Gabriel fica sem resposta. Então, como se para mudar de assunto, ele pega um pergaminho, abre, confere.
— Você é Maria José Anteriores.
— Deve ter outras. Eu já pesquisei meu nome. Com esse nome e sobrenome tem pelo menos cinquenta.
— Não, eu não cometeria esse erro de novo.
— De novo?
— Anunciei uma gravidez e o casal estava separado, deu um quiproquó. Sorte que não colocaram na Bíblia. Então agora tenho cuidado redobrado. É você.
— Sim, mas não pode ser eu. É impossível.
— Pra Deus nada é impossível.
— Nesse caso…
— Você é noiva, casada? Se sim, não tem problema, eu falo com ele por você. Digo que não teve nada entre você e Deus. Ou teve?
— Não, sou solteira. Tem um bom tempo já.
— Virgem? Maria — a primeira — era virgem. Isso é o de menos. Na verdade, vai continuar a ser virgem mesmo tendo um filho. Ok, vai ter o rompimento ali, mas de dentro pra fora, então não dá pra considerar.
— Vixi, não sou virgem nem do ouvido.
— Ok, me poupe dos detalhes. Deus sabe o que faz. E você foi a escolhida, Maria.
— Não pode ser.
— Tenha um pouco de fé, mulher.
— Não pode, porque eu não tenho útero.
— Deus operará um milagre e vai trazer seu útero de volta.
— Não tem como ele trazer de volta.
— Tá explicado por que ele te escolheu, você é dura na queda. Queria um desafio.
— Não é uma questão de trazer de volta. Pra trazer de volta eu tinha que já ter tido. Nunca tive. Eu nasci sem.
Ele hesita.
— Calma… você nasceu sem?
— Sim. Sou uma mulher trans.
Dessa vez, quem fica em silêncio é o anjo Gabriel.
Acontece que Maria José Anteriores nasceu José Maria Anteriores. Menino segundo a biologia, a certidão de nascimento e todo mundo que via de fora. Até que, aos oito anos, começou a perceber que não se encaixava muito com os meninos. Aos doze, notou que gostava deles. Mas a questão não era a sexualidade, e sim a maneira como se via. No início da puberdade, foi sofrendo cada vez mais por olhar no espelho e não ver o que gostaria de ver. Queria enxergar — e que enxergassem por fora — como ela se via por dentro. Aos 17 anos, viajou para fazer um intercâmbio e não voltou ao fim do contrato. Não poderia voltar. Tinha saído do casulo, mas ainda não se via como uma borboleta. Por isso, começou a correr atrás de mudar. Enquanto os amigos da mesma idade se preocupavam com vestibular, trabalho e namoro, ela se preocupava com tudo isso e com poder se transformar no que queria. Que a vissem como ela se via. E, depois de muito tempo — hormônios, cirurgias plásticas e a redesignação —, só agora, quase aos 30 anos, mais de dez anos depois de tomar a decisão de não voltar — não do intercâmbio, mas da vida em que não se encaixava —, ela voltou. Só voltaria quando todos a enxergassem como ela queria. Demorou, mas fez.
— Mulher trans. Uma mulher que nasceu no corpo de um homem. Aliás, isso aí é coisa do seu patrão. Porém eu não aceitei e corri atrás de mudar isso. Então não tem como ser eu. Até sou operada, teria por onde sair, mas ainda assim não tem como, não tem onde guardar. Eu fiz só a entrada.
O anjo senta no sofá.
— Quer uma água?
Ele pega o pergaminho de novo.
— Maria José Anteriores?
— Isso. Mas fui registrada como José Maria Anteriores. Só troquei a ordem. Minha mãe parece que tava prevendo o que aconteceria.
Ela ri, o anjo não. Gabriel ainda está pensativo.
— Tem certeza de que sou eu mesmo? Deve ter outra Maria José Anteriores.
— Como eu ja disse. Eu tenho certeza que Deus não erra.
— e como eu tambem disse, só pensar o pernilongo, o ornitorrinco, eu…
— Não ao mandar uma mensagem.
— E agora?
— Deus age de maneiras misteriosas.
— Acho engraçado que sempre que ele “erra”, usam esse papo de maneiras misteriosas. Queria eu poder usar essa desculpa na minha vida. “Nossa, Maria, você não entregou o relatório quando era pra entregar.” “É que eu ajo de maneiras misteriosas.”
Os dois ficam em silêncio.
— E agora?
— O quê?
— O que você vai fazer? Vai voltar com a mensagem pra ele, tipo uma entrega que não chega no remetente?
— Eu só entrego a mensagem. Não questiono. Se ele falou que é você quem vai carregar Jesus nessa volta, é você.
— Você tem dado uma olhada nas notícias?
Ele faz que não.
— Jesus voltando no ventre de uma mulher trans, nesse mundo polarizado.
Silêncio.
— Deus age de maneiras misteriosas.
