Os jornais impressos haviam oficialmente saído de circulação fazia mais de uma década. Tanto que ele nem lembrava que já tinha existido. Só lembrou da existência dessa mídia arcaica quando foi limpar a garagem do pai, tirar o que iria querer ficar e jogar fora o resto. Tinha enrolado ao máximo para fazer isso, mas agora não tinha mais como postergar: logo os novos donos da casa estariam chegando.
Ele parou no meio da limpeza e começou a folhear os jornais, lembrando de quanta história tinha ali. O jornal era o principal veículo de comunicação até 1900 e pouco, então começou a dividir a atenção com a TV e o rádio. Depois veio a internet, que já mudou a forma de ler notícias. Ele foi ficando cada vez mais escanteado, e o prego final no caixão dos jornais impressos foi quando houve um boom dos celulares. As pessoas passaram a se informar pelo celular.
Mas ver todos aqueles jornais trouxe à memória a imagem do pai sentado à mesa, lendo jornal. Ele ficava com a parte das tirinhas, a mãe com a parte dos signos e o resumo das novelas. O pai só saía da mesa quando terminava a leitura.
Nesse momento ele já tinha esquecido que estava ali para limpar. Estava sentado no chão, manuseando aquelas folhas grandes e moles dos jornais, que se desdobravam e ficavam ainda maiores. Não entendia como aquilo tinha se tornado popular. A logística era ruim. Mas a sensação de ler um jornal era como viajar no tempo. O cheiro típico do jornal, da impressão, ainda estava lá. Sentiu ainda mais saudades daqueles tempos.
Deu uma passada pelas notícias da época, pelas fofocas, riu com as tirinhas e com os signos. As pessoas do passado acreditavam em cada coisa. Os signos eram sempre do mesmo jeito: genéricos. Lembrava de um escritor que uma vez comentara que cuidava da parte da astrologia e criava “previsões” que permitissem usar em todos os signos em algum momento. Assim podia jogar o do Sagitário para o de Libra um tempo depois e ninguém notaria.
Tinha as colunas de esportes, carros, óbitos. As pessoas anunciavam a morte de desconhecidos antes mesmo das redes sociais. Pensou no pai e que, se o jornal ainda fizesse parte do dia a dia das pessoas, colocaria uma nota de falecimento para homenageá-lo. Sabia até o que escreveria:
“morreu na manhã deste sábado Luís Otávio Motta, 1960 a 2040. Profissional exemplar, amado pai e marido. Amante de jornais, café com leite e implicar com coisas pequenas. Nota de falecimento: dez.”
Riu, imaginando.
Continuou folheando aquela mídia arcaica. Carros, política — nesse ponto pouca coisa tinha mudado. Parou nos anúncios. Dessa ele definitivamente não lembrava. Foi puxando pela memória: as pessoas pagavam pelo espaço para divulgar as coisas. Compro, vendo, doa-se, contrata-se, procura-se.
Em meio a tantos anúncios, achou um que chamou atenção:
Quer saber como vai ser o futuro? Fale comigo. Não faço previsões. Apenas digo como estão as coisas aqui no futuro. Se ficou curioso, entre em contato: 3428978.
Ele deu risada. Pensou no senso de humor de quem fez aquele anúncio. Sempre gostou de ficção científica e viagem no tempo. Aliás, era até um pouco frustrado por ter lido tantos livros, assistido tantos filmes sobre o tema e até agora ninguém ter conseguido realizar uma viagem.
Continuou folheando outros jornais. Parava para ler uma matéria ou outra, relembrava da época em que o que a matéria dizia tinha acontecido. Ele estava lá. Participou da história.
Reparou que parte dos anúncios tinha de novo o mesmo anúncio sobre a previsão do futuro. No próximo jornal que pegou, tinha de novo, com pouca variação — “fale comigo no futuro” — e o mesmo número.
Agora nem folheava mais os jornais. Já ia direto para os anúncios.
“Estou esperando sua ligação.”
Estava tão absorto que nem ouviu o filho chamando.
— Paieeee.
Levou um susto com o grito do filho, que o fez dar um pulo. O filho deu risada.
— ta maluco. Quer me matar?
— Não. Uma morte de cada vez.
O pai olhou para o filho, revirando os olhos.
— Ok. Muito cedo.
O filho começou a mexer nos jornais.
— O que é isso?
— Não lembra do jornal impresso?
— Pior que não.
— É que já existiam poucos quando você era criança. Aí quando era adolescente já nem tinha mais.
— E o que era exatamente?
Perguntou o filho, pegando um na mão.
— Era assim que as pessoas se informavam no passado.
— Com isso?
O menino estava com um jornal aberto em frente ao rosto e ao corpo. Apesar de já ter 16 anos, era pequeno para a idade. Então, olhando o jornal estendido daquele jeito, fazia parecer ainda mais gigante.
Os dois riram juntos.
— Agora lembrei. É o que os detetives usavam nos filmes antigos para se esconder quando estavam vigiando alguém.
— Isso.
O menino sentou, cruzou as pernas e esticou o jornal como um detetive dos filmes dos anos noventa.
— Tira uma foto minha. Quero mandar para os meus amigos. Duvido que eles tenham isso aqui.
O pai tirou o celular do bolso e tirou várias fotos do filho.
— Já mandei direto para você.
— Meu celular tá lá dentro. A mamãe falou para você se agilizar que ela está com fome.
— Tá.
O filho saiu, deixando ele e os jornais na garagem. Olhou para o chão e viu mais uma vez o anúncio sobre o futuro:
“Não quer mesmo saber como é o futuro? Estou esperando sua ligação.”
Estava com o celular na mão. Então resolveu ligar. Mal não faria.
Discou o número. Ninguém mais ligava dessa forma, clicando número por número. Era tudo por voz, no olho. E a ligação não era mais só chamada de voz — era por vídeo, holograma, como se a pessoa estivesse ali com você.
Mas por algum motivo o aparelho ainda tinha a função de ligação, com o ícone de um telefone dos anos 90. Assim como o botão de salvar ainda era um disquete, apesar de ninguém mais usar.
O telefone chamou duas, três vezes. Enquanto chamava, ele pensava que fazia tempo que não ouvia aquele som. Um “TUUUU” mais longo que queria dizer que estava chamando. Tinha também o “TU, TU, TU…” seguido, que era quando o número chamado estava ocupado.
Perdido nos pensamentos, nem viu quantas vezes o telefone tinha chamado. Desistiu. Quando ia apertar para desligar, ouviu um clique.
Na sequência, uma voz.
— Oi, filho. Aqui quem está falando é o seu pai direto do futuro. - Risos.
Quando ouviu essa primeira frase, as pernas deles amoleceram fazendo o sentar na mesma hora. Era a voz do pai dele.
— Quer dizer… quando estou gravando isso é no futuro. Mas pode ser que quando você estiver ouvindo isso eu esteja no passado e você no futuro. Ou seja, um de nós dois está no futuro e essa mensagem viajou no tempo. - Risos. - Quis deixar isso aqui para você, na esperança de que ouviria em algum momento, já que você era viciado nessas coisas de viagem no tempo. Não sei se ainda é. E eu gostava de jornal. Começou como uma brincadeira. O primeiro anúncio… até mandei o jornal para sua casa, mas acho que você não chegou a ver. A ideia era fazer uma vez. Mas depois comecei a anunciar sempre. Volta e meia recebia ligação de algum interessado sobre o futuro. Inventava umas histórias de como tudo estava: apocalipse, invasão alienígena… essas coisas que víamos nos filmes. Era divertido. Mas então parei de atender e resolvi deixar essa mensagem gravada. Não faria sentido para qualquer um que não fosse você. Sei que não temos nos falado muito… aqui no futuro… no caso no presente… enfim, você entendeu. Tudo bem. Não é uma reclamação. É normal. Sabia que uma hora ia acontecer. Afinal, criamos os filhos para o mundo… ou criamos os filhos e o mundo tira eles da gente. Não sei exatamente. Enfim. Só gravei para dizer que aqui no futuro — pelo menos no que eu estou — ainda não tem carro voador, não encontramos vida fora da Terra e nem tem viagem no tempo. E também para dizer que eu tinha amor no presente, te amei no passado e no futuro continuarei te amando… mesmo quando não tiver mais tempo. Agora preciso desligar porque o futuro me chama. Ou melhor, sua mãe - risos - Beijo.
E teve o último “TUUU”, que é quando a mensagem da caixa postal termina.
