Existe um versículo no livro de Habacuque que faz parte da minha vida há muito tempo. Versículo 17 e 18 do capítulo 3: "Ainda que a figueira não floresça… ainda assim me alegrarei no Senhor."
É o versículo de quem não faz promessa de final feliz. De quem diz: mesmo que não dê certo, mesmo que a colheita não venha, mesmo que o chão suma — ainda assim.
Escrevi (im)perfeito eu sou para Aurora.
Ela é cabeleireira. Mora no Morro da Esperança. Tem uma cicatriz na sobrancelha que explica como "tombo de bicicleta" — mas quem lê o livro descobre a verdade dessa cicatriz no capítulo 16, e nunca mais esquece.
Aurora não é heroína de romance. Ela é mulher. Tem medo, tem mágoa, tem um ex que deixou marcas que vão além da pele. E tem uma capacidade de continuar que não é glamourosa — é silenciosa, teimosa, quase invisível.
Daniel aparece na vida dela porque a mãe dele resolveu fazer isso. Ele tem 27 anos, é evangelista, líder de louvor, o tipo que parece ter tudo no lugar. E tem, por fora. Por dentro, ele também guarda coisas.
Eles se encontram. A Igreja julga. O amor cresce de qualquer forma.
E então vem Lucas.
Lucas é o tesoureiro. É o tipo de vilão que me assustou enquanto eu escrevia, porque ele não é monstro — é humano. É assustador exatamente por isso. Ele desviou dinheiro da igreja por desespero, não por maldade calculada, e as consequências disso chegam de um jeito que eu não vou contar aqui.
O que vou dizer é que o capítulo que chamo de "O Grito de Jó" me custou mais do que qualquer outra coisa que escrevi. Porque Aurora chora ali de um jeito que vai além das lágrimas. E eu chorei junto.
Mas o livro não termina no luto.
Termina numa figueira. Termina num batismo. Termina num bebê chamado Daniel que nunca vai conhecer o pai — mas vai crescer sabendo quem ele foi.
(im)perfeito eu sou é uma história sobre amor, sim. Mas é mais sobre o que acontece depois que o amor vai embora. Sobre a graça que aparece onde você não pediu. Sobre continuar quando tudo diz pra parar.
Em breve.
— A.C. Borges