Todo mundo conhece a história de Sansão, aquele que foi escolhido por Deus para nascer com uma força além do normal e, quando crescesse, libertar o povo de Israel dos filisteus. Sabe-se também que tanto a sua força quanto o seu ponto fraco eram os cabelos. Se cortados, ele perdia todas as forças. Se perdesse os cabelos, se tornaria apenas um simples homem comum. Os cabelos podiam ser puxados, sujos, pegar piolhos — nada disso mudava o quão poderoso ele era —, mas, se cortados, todo o poder se esvaía.
Agora imagina o seguinte, se ao inves da história clássica dele com Dalila, se fosse: Deus bolou todo o plano, achou até diferente colocar a força no cabelo — incomum, difícil de o inimigo descobrir. Escolheu uma mãe para gerar Sansão e assim o fez. Porém, acabou não investigando a árvore genealógica dele para saber se na família tinha histórico de calvície.
Então, pouco tempo antes de ele realizar o que nasceu para fazer, a genética veio cobrar a conta. O inesperado aconteceu. Sansão começou a perceber a queda dos cabelos: os fios que ficavam no travesseiro, saíam no banho ou quando Dalila fazia carinho na cabeça dele.
— Sansão, teu cabelo tá caindo.
— Isso é inveja. O pessoal coloca olho gordo nos meus lindos cabelos e aí cai mesmo.
— Sei não, sei não.
Ele não admitia, mas estava acontecendo. Aconteceu. Foi rápido: em menos de um ano, a calvície já tinha avançado praticamente até a nuca. “Foi como se Moisés tivesse batido com o cajado na testa dele e os cabelos abrissem como o Mar Vermelho”, foi isso que um dos anjos falou, quando explicava o que estava acontecendo.
— Como assim caiu o cabelo?
— Caiu, ué. Está calvo.
— Saiu de gala pra ancião.
— Mas tá careca, careca?
— Não, tá calvo.
— Parece uma manga chupada.
— Tem cabelo o suficiente pra ter força?
— Acho que os cabelos que restaram dão, no máximo, para brigar com dois ou três.
— Se for um fraco, um leproso e uma senhora…
— Aí talvez dê o Sansão.
— Talvez.
— Mas consegue erguer as coisas, como fazia?
— Assim, dá pra ajudar numa mudança. Consegue erguer uma mesa sozinho.
— Um sofá — diz o outro anjo.
— Então aquele cabelo todo dele caiu?
— Da testa até a nuca, sim.
— E agora a testa começa na nuca ou continuam sendo duas coisas, testa e nuca?
— Oi?
— Tipo, imagina que eu tenho dois terrenos com uma cerca dividindo eles. Se eu tiro a cerca, ainda são dois terrenos ou um grande terreno?
— Boa pergunta.
— Sério que vocês estão brincando num assunto sério?
— Desculpa.
— Desculpa.
Silêncio. Deus está sem entender o que aconteceu.
— Não acredito.
— Nem ele tá acreditando.
— Nem aceitando. Tá pegando cabelo da lateral, jogando por cima. Tá bem feio, mas ninguém tem coragem de falar.
— A Dalila até já largou ele.
— Mas o plano era perfeito. Ele foi o escolhido.
— Sim, era um ótimo plano.
— E a força ser no cabelo foi um toque de mestre.
— Né.
— É.
Silêncio.
— Posso fazer uma pergunta?
— Faz.
— O senhor chegou a investigar se na família tinha algum careca?
— Como assim?
— Na família do Sansão: pai da mãe, pai do pai, tinha alguém calvo?
— Na verdade, só da mãe já bastava. Dizem que a calvície vem da família da mãe.
— É nada, vem dos dois.
— Será?
— Sim. Se tiver qualquer careca na família, já tem uma chance…
Deus bate na mesa. Dá um trovão na terra. Os anjos ficam quietos.
— Foco.
— Desculpa.
— Então, quando eu bolei esse plano, não existia isso.
— O quê?
— Isso de ficar calvo.
— Como não? Foi o senhor que fez eles — o anjo aponta para os humanos.
— Sim, mas o diabo que criou a calvície.
— Ah.
Os dois anjos falam juntos.
— O senhor não pode frear a queda?
— Fazer o cabelo dele crescer?
— Não, senão abre precedente.
Os anjos ficam em silêncio. Deus fica desolado com a calvície de Sansão, que acabou com o plano perfeito.
