Essa semana viralizou. Já reparou que o termo viralizou que usamos na internet, que veio de viral, é uma metáfora baseada na capacidade de um vírus se espalhar ou se replicar de forma extremamente rápida e exponencial entre organismos vivos? E, geralmente, quando tem político no meio, é coisa ruim ou idiota, nunca é uma coisa boa. Dito isso, viralizou o prefeito da cidade de Florianópolis porque ele simplesmente decidiu que o conceito do direito de ir e vir não fazia sentido na gestão dele. Então ele colocou uma espécie de controle migratório na rodoviária que pessoas que não tivesse um emprego, onde ficar, familia, teria que ir embora - clica e lê a matéria. Detalhe: só na rodoviária. O que é um tipo de preconceito muito específico. Pode entrar de avião, de carro, a pé, patinete, bicicleta, paraquedas, skate etc. Agora, de ônibus, não. Aí você passou dos limites.
Imagino a reunião em que ele decidiu isso.
Sala de reunião da prefeitura, todo mundo sentado, o prefeito de Floripa está na ponta, então ele levanta.
— Achei um jeito de diminuir o número de moradores de rua. Acabar com a mendigagem.
Os presentes se olham, espantados, concordando com a boa notícia antes mesmo de ouvir.
— Vai criar um programa de reabilitação e reinserção na sociedade?
— Oferecer oficinas para que eles possam achar um caminho?
— Não, não, não. Vocês estão pensando pequeno.
Eles ficam em silêncio.
— Por que tem mendigos em Floripa?
— Drogas.
— Bebida.
— Depressão.
— Não, não, não. De novo, pensem além. Só tem mendigo porque eles vêm pra cá.
Dessa vez, os olhares são de confusão.
— Se eles não viessem, não teria mendigo. Logo, se a gente não deixar eles ficarem, não teremos mendigos.
E sorri triunfante, como se tivesse tido a melhor ideia de todas.
— Certo, prefeito, mas no Brasil isso é proibido.
— Nós não estamos falando do Brasil, estamos falando de Floripa.
Mais rostos confusos.
— Floripa é no Brasil, prefeito.
— Eu sei. Por um acaso você está me chamando de burro?
— Não é isso. Longe disso, prefeito.
— Então?
— Então é que a migração é livre dentro do próprio país.
— Verdade, é o direito de ir e vir.
— Mas eles vão poder ir e vir, principalmente ir embora.
— Mas é o direito…
— Eu não ligo pro ir e vir, meu problema é o ficar.
Os assessores percebem que não vale a pena discutir.
— Continuando, vamos colocar em prática o plano de controle: se a pessoa chegar pela rodoviária e não tiver onde ficar, não tiver parente, não tiver a passagem de volta, não vai ficar.
— Mas…
— Calma, não vamos expulsar a pessoa do nada. A gente vai pagar a passagem de volta e ainda vamos avisar a família que ela está voltando.
— E se a pessoa não tiver família?
Silêncio. O prefeito não parece ter uma resposta.
— Todo mundo tem um primo mineiro, a gente vai cavar até achar um primo mineiro.
— Então a pessoa chegou de avião, entrou na cidade… todos que estiverem entrando serão cobrados dentro dessas condições.
— Não, não todos, só de ônibus.
— Só de ônibus?
— Só de ônibus.
— Avião não?
— Não, avião não. Já viu mendigo andar de avião?
— Carro?
— Não dá pra parar os carros.
— Bicicleta?
— Deixa entrar.
— Andando?
— A pessoa vai vir andando de outra cidade?
— Motos?
— Patinete?
— Paraquedas?
— A cavalo? Se chegar a cavalo?
— Pode, pode e pode. Só de ônibus que não. Meu foco é na rodoviária.
Todo mundo olha para ele. Então um dos assessores puxa uma palma, os outros acompanham, com medo de serem colocados para fora da cidade.
Quando eu era mais novo, minha mãe falava que, sempre que puder, é bom ajudar os mendigos, pois às vezes Jesus se disfarça de mendigo. Tomara que ele não faça isso tentando entrar em Floripa.
Depois de tanto tempo, Jesus finalmente volta para a Terra, resolve reencarnar no Brasil, mais especificamente em Santa Catarina. Depois de passar por algumas cidades, resolve ir para Florianópolis. Quando desembarca na rodoviária, está saindo e é barrado: roupa simples, moreno, barba grande, cabeludo.
— Ei, você.
— Eu?
— Seu nome?
— Jesus.
— Como o filho de Deus?
— O próprio.
— Está na cidade a passeio, trabalho, visitar parente?
— Não sei ainda.
— Não sabe?
— Não.
— Vai ficar onde?
— Não sei.
— Não sabe, né.
— Não.
— Quanto tempo vai ficar?
— Ainda não decidi.
— Tem dinheiro?
— Não muito.
— Espera um pouco aí.
O fiscal vai para uma salinha com vidro, conversa com o que parece ser o supervisor, aponta para Jesus, então volta.
— Sinto muito, mas você não pode entrar.
— Oi?
— Não estamos mais recebendo.
— Mas…
— Calma, podemos ligar para um parente para avisar que você está voltando.
— Não tenho ninguém vivo.
— Amigo, a gente está tentando te ajudar. Vamos pagar sua passagem de volta, mas infelizmente aqui você não vai poder ficar.
— Mas…
— Amigo!
Um pouco mais incisivo. Jesus prefere não bater de frente. A última vez que fez isso não terminou bem.
Corta a cena para Jesus chegando no céu. Deus o recebendo sem entender.
— Ué?
— Eu falei que ainda não era a hora de voltar.
— Mas…
— O prefeito de Floripa não me deixou entrar.
— Vai pro quarto tomar um banho e esperar outra oportunidade para voltar.
